Jornal “O Diabo”, 20 de Dezembro de 2011

[transcrição]

Política – Iniciativa Legislativa de Cidadãos em marcha

Uma arma contra o Acordo Ortográfico

DUARTE BRANQUINHO


Todos os que se opõem ao Acordo Ortográfico (AO) podem agir. É este o propósito de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos com o objectivo de revogar o diploma legal que o aprovou. João Pedro Graça é o responsável por esta iniciativa. O DIABO, Jornal que recusa o Acordo, entrevistou-o.


O DIABO – O que é a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (ILCAO)?
João Pedro Graça – É um Projecto de Lei redigido e submetido a aprovação parlamentar por parte de um grupo de cidadãos, com o objectivo de revogar de imediato a Resolução da Assembleia da República que determina a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.

O que é necessário para que seja admitida?
Para que a ILCAO seja admitida para discussão e votação pelo plenário da Assembleia da República é necessário que o texto legal e respectiva sustentação sejam subscritos, em papel e com a identificação civil e os dados de recenseamento eleitoral de cada subscritor, por um mínimo de 35 mil cidadãos.

Como surgiu a ILCAO?
Tudo começou no dia 25 de Setembro de 2008, num “post” em que se referia a possibilidade de avançar com uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra a entrada em vigor do Acordo Ortográfico. A ideia foi depois lançada através da internet, em 2009 e começou a registar um número imparável de adesões. Redigida e publicada a ILCAO, começaram a ser recolhidas assinaturas no dia 8 de Abril de 2010.

Quais são as razões principais para esta acção de cidadania pela revogação do Acordo Ortográfico?
São inúmeras, mas abreviemos. O AO nem é acordo, porque num acordo se pressupõe cedências de ambas as partes e neste houve apenas de uma, nem é ortográfico, pela simples razão de que nega e renega o próprio conceito de ortografia. Tratou-se de um “cozinhado” exclusivamente político, entre cúpulas partidárias nacionais, e isto apenas entre Portugal e Brasil. Acresce que nenhum dos fundamentos aduzidos para a sua defesa contém um mínimo de credibilidade, vindo pretensamente “resolver”… um problema que nunca existiu.

A partir de 2012, o Acordo Ortográfico (AO) vai ser adoptado na Administração Pública, nas Escolas, no Diário da República, etc. Acha que isso vai desmoralizar os que se batem contra o AO?
Não, porque há um período de transição, previsto no AO, até 2015. Mais: o instrumento legal que aprovou o AO, a Resolução da Assembleia da República n.°35/2008, não prevê um regime sancionatório. Estamos sempre a tempo de anular, revogar, modificar ou substituir esta resolução.

As pessoas podem continuar a escrever como escreviam?
Não estão previstas sanções ou penas. Não há, assim, consequências legais neste aspecto. No entanto, no que respeita ao regime disciplinar, é diferente. Num organismo do Estado, depois de adoptado o AO, quem continuar a escrever da mesma forma pode ser alvo um processo disciplinar.

Não podem ser objectores de consciência?
Aqui não está prevista a figura da objecção de consciência, mas as pessoas podem invocá-la constitucionalmente.

Tem notado alguma alteração no apoio à ILCAO?
Sim, agora que se aproxima o dia 31 de Dezembro. As pessoas começam a ficar preocupadas e mobilizam-se mais. Muitas delas achavam que isto era uma coisa que ainda ia demorar. Mas agora entra-lhes em casa, seja pela RTP ou em muitos manuais escolares. Muita gente teve esse choque e decidiu apoiar a nossa iniciativa.

Mas muitas acham que o AO está para ficar?
Está, se as pessoas deixarem. Assinem a ILCAO e revoguem a entrada em vigor do AO. Não vale a pena refilar e achar que não há nada a fazer. Foi exactamente devido a essa postura que o AO acabou por ser aprovado. É preciso actuar. Não há outra forma de parar isto.

Como podem fazê-lo?
Todas as informações estão na nossa página na intemet (https://ilcao.com/). Vão até lá e leiam, assinem e divulguem.

Tem alguma previsão de quando será entregue a ILCAO?
Isto podia ser feito num mês, bastava que tivéssemos visibilidade num grande órgão de comunicação social, um canal de televisão, por exemplo. Assim, temos que esperar mais algum tempo até conseguirmos reunir as 35 mil assinaturas necessárias.

Acha que os ‘Media’ têm silenciado a ILCAO?
Têm, e de que maneira! À excepção do “Público” e de “O Diabo”, mais nenhum órgão de comunicação social refere a ILC. Há uma tendência para silenciar a ILC. E fazem pior, dão relevo a tudo o que é favorável ao AO.

A ILCAO está ligada a algum grupo ou interesse político?
Não. Temos uma comissão representativa, que inclui pessoas de todo o espectro partidário. Da extrema-esquerda à extrema-direita. Também na nossa página na internet se pode ver que temos apoiantes em todos os partidos, incluindo os que votaram favoravelmente o AO. Não nos identificamos politicamente. O nosso único interesse é que a ILC vingue e não qualquer aproveitamento partidário. O que está em causa é a Língua de todos. •

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Entrevista publicada no semanário “O Diabo” de 20 de Dezembro de 2011.

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Jornal "O Diabo", 20 de Dezembro de 2011

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Política – Iniciativa Legislativa de Cidadãos em marcha

Uma arma contra o Acordo Ortográfico

DUARTE BRANQUINHO


Todos os que se opõem ao Acordo Ortográfico (AO) podem agir. É este o propósito de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos com o objectivo de revogar o diploma legal que o aprovou. João Pedro Graça é o responsável por esta iniciativa. O DIABO, Jornal que recusa o Acordo, entrevistou-o.


O DIABO – O que é a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (ILCAO)?
João Pedro Graça – É um Projecto de Lei redigido e submetido a aprovação parlamentar por parte de um grupo de cidadãos, com o objectivo de revogar de imediato a Resolução da Assembleia da República que determina a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.

O que é necessário para que seja admitida?
Para que a ILCAO seja admitida para discussão e votação pelo plenário da Assembleia da República é necessário que o texto legal e respectiva sustentação sejam subscritos, em papel e com a identificação civil e os dados de recenseamento eleitoral de cada subscritor, por um mínimo de 35 mil cidadãos.

Como surgiu a ILCAO?
Tudo começou no dia 25 de Setembro de 2008, num “post” em que se referia a possibilidade de avançar com uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra a entrada em vigor do Acordo Ortográfico. A ideia foi depois lançada através da internet, em 2009 e começou a registar um número imparável de adesões. Redigida e publicada a ILCAO, começaram a ser recolhidas assinaturas no dia 8 de Abril de 2010.

Quais são as razões principais para esta acção de cidadania pela revogação do Acordo Ortográfico?
São inúmeras, mas abreviemos. O AO nem é acordo, porque num acordo se pressupõe cedências de ambas as partes e neste houve apenas de uma, nem é ortográfico, pela simples razão de que nega e renega o próprio conceito de ortografia. Tratou-se de um “cozinhado” exclusivamente político, entre cúpulas partidárias nacionais, e isto apenas entre Portugal e Brasil. Acresce que nenhum dos fundamentos aduzidos para a sua defesa contém um mínimo de credibilidade, vindo pretensamente “resolver”… um problema que nunca existiu.

A partir de 2012, o Acordo Ortográfico (AO) vai ser adoptado na Administração Pública, nas Escolas, no Diário da República, etc. Acha que isso vai desmoralizar os que se batem contra o AO?
Não, porque há um período de transição, previsto no AO, até 2015. Mais: o instrumento legal que aprovou o AO, a Resolução da Assembleia da República n.°35/2008, não prevê um regime sancionatório. Estamos sempre a tempo de anular, revogar, modificar ou substituir esta resolução.

As pessoas podem continuar a escrever como escreviam?
Não estão previstas sanções ou penas. Não há, assim, consequências legais neste aspecto. No entanto, no que respeita ao regime disciplinar, é diferente. Num organismo do Estado, depois de adoptado o AO, quem continuar a escrever da mesma forma pode ser alvo um processo disciplinar.

Não podem ser objectores de consciência?
Aqui não está prevista a figura da objecção de consciência, mas as pessoas podem invocá-la constitucionalmente.

Tem notado alguma alteração no apoio à ILCAO?
Sim, agora que se aproxima o dia 31 de Dezembro. As pessoas começam a ficar preocupadas e mobilizam-se mais. Muitas delas achavam que isto era uma coisa que ainda ia demorar. Mas agora entra-lhes em casa, seja pela RTP ou em muitos manuais escolares. Muita gente teve esse choque e decidiu apoiar a nossa iniciativa.

Mas muitas acham que o AO está para ficar?
Está, se as pessoas deixarem. Assinem a ILCAO e revoguem a entrada em vigor do AO. Não vale a pena refilar e achar que não há nada a fazer. Foi exactamente devido a essa postura que o AO acabou por ser aprovado. É preciso actuar. Não há outra forma de parar isto.

Como podem fazê-lo?
Todas as informações estão na nossa página na intemet (https://ilcao.com/). Vão até lá e leiam, assinem e divulguem.

Tem alguma previsão de quando será entregue a ILCAO?
Isto podia ser feito num mês, bastava que tivéssemos visibilidade num grande órgão de comunicação social, um canal de televisão, por exemplo. Assim, temos que esperar mais algum tempo até conseguirmos reunir as 35 mil assinaturas necessárias.

Acha que os ‘Media’ têm silenciado a ILCAO?
Têm, e de que maneira! À excepção do “Público” e de “O Diabo”, mais nenhum órgão de comunicação social refere a ILC. Há uma tendência para silenciar a ILC. E fazem pior, dão relevo a tudo o que é favorável ao AO.

A ILCAO está ligada a algum grupo ou interesse político?
Não. Temos uma comissão representativa, que inclui pessoas de todo o espectro partidário. Da extrema-esquerda à extrema-direita. Também na nossa página na internet se pode ver que temos apoiantes em todos os partidos, incluindo os que votaram favoravelmente o AO. Não nos identificamos politicamente. O nosso único interesse é que a ILC vingue e não qualquer aproveitamento partidário. O que está em causa é a Língua de todos. •

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Entrevista publicada no semanário “O Diabo” de 20 de Dezembro de 2011.

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Militância

Quando falo às pessoas na ILC, o maior espanto é precisamente esse: “Ah, mas não está já em vigor em todos os países?”. Já para não falar no eterno “Ah, mas eu pensava que já tinha de se usar sempre o acordo”… Por essas e por outras, estive esta tarde a imprimir o folheto em frente e verso, juntamente com envelopes já com a morada e um selo colado. São cem exemplares, que irei distribuir um a um, com a devida explicação (os jantares de Natal hão-de servir para alguma coisa 😉 ). Se pelo menos alguns chegarem ao destino, já terá valido a pena.

Envio-lhe uma imagem do kit para a ILC que irei distribuir na próxima semana por, pelo menos, quatro grupos distintos de pessoas, de vários pontos do país. Grão a grão…

Desejo-lhe entretanto, um Natal muito feliz e um óptimo 2012! Que seja o ano em que a ILC é apresentada à AR e em que os portugueses possam voltar a escrever como dita o bom senso, em português bonito.

[Extractos de mensagens recebidas por email, de uma voluntária que recolhe assinaturas para a ILC e que a promove por todos os meios. Como se vê pela imagem, esta voluntária entrega aos subscritores tudo pronto e de uma vez: impresso de subscrição, folheto informativo e envelope endereçado e já com selo!]

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«Um muito mau negócio» [Ricardo Pais, Público]

Jornal PÚBLICO de 17 de Dezembro de 2011

Debate Acordo Ortográfico
Um muito mau negócio

Na inexistência de um estudo aprofundado sobre a importância da língua escrita e falada — e na frivolidade com que são tratadas questões culturais magnas como esta — faz-se deste disparate que é o Acordo Ortográfico uma cortina de fumo aos interesses comerciais que nos apressámos a associar à emergente supremacia brasileira.

Numa espécie de fascínio pela simplificação (com o qual se desrespeitam, afinal, as especificidades dos países da CPLP) e no nosso tradicional deslumbramento perante o hedonismo e a “freak-o-naicisse” carioca, fala-se hoje, pateticamente, em todos os “Morangos” de todas as estações de televisão, uma espécie de lisboeta barato, que falsifica a sensação de fluidez coloquial com um analfabetismo genericamente consentido.

Por detrás do Acordo Ortográfico estão também equívocos como “o país é muito maior, nós precisamos muito do Brasil” ou, como até filólogos respeitáveis me dizem, “temos de estar de acordo com tudo o que seja simplificar”. Mas… simplificar o quê? Uma comunicação que realmente nunca foi estudada? Não se pode simplificar o que não é simplificável. E as regras e agruras da comunicação escrita e falada são parte da própria civilização. O que é complicado por natureza assim se deve manter e assim deve ser estudado.

Por outro lado, este Acordo Ortográfico causa tanto dano à gramática como à comunicação falada. É uma brutalidade cultural, em que Portugal tem responsabilidades históricas acrescidas.
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Palavras por acaso? Por acaso não há.

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Nota da Editora: O português é uma língua falada em todo o mundo que reflete uma riqueza cultural por parte dos seus falantes. Para chegarmos a todos os nossos leitores com uma ortografia uniforme, decidimos aplicar as regras do Novo Acordo Ortográfico, ratificado por todas as nações de expressão portuguesa.
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Vamos fingir que não notamos sequer a redacção abstrusa e macarrónica desta “Nota da Editora”.

Detenhamos a nossa atenção em apenas uma palavra do texto: “ratificado”. Diz ali que o AO90 foi “ratificado por todas as nações de expressão portuguesa”.

Será isto verdade? O “acordo” foi mesmo “ratificado” por todos os oito países de Língua oficial portuguesa?

Duas perguntas com duas respostas opostas: sim, foi “ratificado”, e não, não é verdade.
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