A ILC-AO e o PS

Depois da entrega da ILC-AO no Parlamento, no passado dia 10 de Abril, uma das nossas primeiras medidas foi a de pedirmos audiências com todos os partidos políticos com representação parlamentar na XIII Legislatura, que agora termina.

De todos aqueles Partidos, apenas o PS não respondeu.

Em Junho, numa altura em que a maior parte das reuniões já se tinha realizado, renovámos o pedido de contacto formal, salientando que, das forças políticas contactadas, “o confronto de ideias com o Partido Socialista a propósito do Acordo Ortográfico é um dos que aguardamos com maior expectativa”.

De novo, o PS não respondeu a este nosso segundo apelo e, entretanto, a ronda de contactos com os restantes seis Partidos completou-se mesmo, com a última reunião a ter lugar com o PAN no dia 17 de Setembro.

Em maior ou menor grau, todas as audiências foram produtivas — mesmo para os partidos que “adotaram” o Acordo Ortográfico o assunto está longe de estar encerrado. Pelo contrário, parece mesmo haver um interesse renovado por esta questão, como se viu na recente campanha eleitoral. Na verdade, a ILC-AO sugeriu, em todas estas reuniões, que o problema do AO fosse referido nos respectivos Programas Eleitorais para as eleições de 6 de Outubro. Coincidência ou não, o facto é que uma parte significativa destes Partidos acabou por salientar o tema, com destaque para o CDS-PP e para o PSD. O PCP não o fez, expressamente, mas é conhecido o historial deste Partido na luta contra o Acordo Ortográfico. Sem surpresas, o AO90 esteve mais presente nesta campanha eleitoral do que nas de 2015 e 2011.

O que pensam os deputados do Grupo Parlamentar do PS quanto a esta questão? Alguma vez foram consultados? Houve debate interno? Quando aprovaram a RAR 35/2008 limitaram-se a seguir as ordens da sua direcção partidária? Saberão, ao certo, o que é o AO90, ou tê-lo-ão lido, ao menos em parte?

Na falta de uma reunião, dada a total obscuridade do PS nesta matéria (que nele se reveste da aura misteriosa de um verdadeiro tabu), vemo-nos obrigados a ler nas entrelinhas dos documentos e a interpretar os raríssimos sinais que de vez em quando transpiram do Largo do Rato.

Em 2013, a ILC-AO foi a primeira entidade a ser recebida no âmbito do Grupo de Trabalho para Acompanhamento da Aplicação do Acordo Ortográfico. A representante do PS neste Grupo de Trabalho era, à data, a deputada Gabriela Canavilhas.

Na sua intervenção Gabriela Canavilhas disse que “foi identificada a necessidade de um Acordo”, mas acrescentou que “se ele [o AO90] não serve a sociedade portuguesa, cá estaremos para fazer a avaliação política dessa posição da sociedade civil”. De caminho, perguntou-nos ainda se a ILC era contra a ideia de um Acordo, seja ele qual for, ou apenas contra este Acordo.

Como se imagina, estas declarações dariam pano para mangas, a começar pela “necessidade de um acordo”. Foi identificada a necessidade de um Acordo? Por quem? E como foi esse diagnóstico validado?

Na verdade, esse debate quase acontecia ali, na própria sala de audiências. No final da reunião, já em conversa informal, a deputada não escondeu o seu interesse no aprofundamento destas questões e a sua apetência, que nos pareceu genuína, pelo confronto de ideias e pelo diálogo. Gabriela Canavilhas chegou mesmo a lamentar que outros compromissos já assumidos não lhe permitissem ficar mais tempo à conversa no final da audiência.

Fast forward” para 2017 e para nova audiência, desta feita com outro Grupo de Trabalho cuja inovadora denominação era “Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico de 1990”. O representante do PS é agora o deputado Diogo Leão, que se limitou a dizer que a posição do PS é conhecida (?) e, portanto, não acompanha o nosso Projecto de Lei. Em resposta à nossa menção do cAOs que vigora actualmente disse apenas que este já era esperado e acontece, naturalmente, sempre que há mudanças na Ortografia.

O contraste com a sua antecessora foi flagrante: sem nunca olhar de frente os interlocutores (nós), Diogo Leão (certamente por motivos de força maior) abandonou a reunião logo após o seu discurso, não tendo chegado a ouvir a segunda parte da nossa intervenção nem o resto do encontro. Uma flagrante (e ostensiva) atitude de menosprezo por uma questão de evidente interesse nacional, atitude esta que tomamos a liberdade de interpretar como estritamente pessoal.

De 2013 para 2017 o PS parece ter cristalizado nesta ideia fixa: a Língua sempre “evoluiu”, e é natural que as pessoas tenham dificuldade em adaptar-se. O PS — ou, melhor dizendo, alguns deputados do PS — continuam a confundir evolução da Língua com evolução da Ortografia e esquecem-se de que já não vivemos na Idade Média: a Ortografia já não é decidida por monges copistas em mosteiros. Em 1911, para o bem e para o mal, procedeu-se pela primeira vez à fixação de uma norma ortográfica e dessa fixação resulta (ou devia resultar) a estabilidade — uma das maiores virtudes e razão de ser de qualquer norma.

O Acordo Ortográfico é actualmente um problema grave que afecta sobretudo as crianças e jovens, a população estudantil. Recordamos que, historicamente, o ensino do inglês sempre foi um drama no Brasil, enquanto Portugal parece exibir uma propensão quase genética para o multi-linguismo. Este fenómeno tem uma explicação simples: a maior proximidade entre a estrutura do Português Europeu e a das principais Línguas da Europa. As mesmas raízes culturais, uma História milenar em comum, referências identitárias que se interligam. Portanto, a mesma matriz greco-latina. Aos alunos ensina-se actualmente gato por lebre: um arremedo de norma ortográfica isolacionista, que descarta o seu próprio património histórico e não augura boas (ou quaisquer) perspectivas para o futuro.

Estamos de facto com um problema em mãos, que o PS não pode continuar a ignorar. Pelo contrário, seria de todo o interesse termos o PS a fazer parte da solução e não do problema. É claro que resolver o AO sem o Partido Socialista não é impossível. Mas essa via está longe de ser desejável. O PS tem, no seu historial, um passado de resistência ao Acordo Ortográfico, personificado em nomes como Manuel Alegre, Manuel Maria Carrilho e Francisco Assis, entre muitos outros. A ILC-AO, enquanto estrutura completamente apartidária, conta certamente com largos milhares de militantes socialistas entre os seus subscritores, que veriam com bons olhos um novo olhar do PS sobre este assunto.

A origem do Acordo Ortográfico de 1990 perde-se na noite dos tempos. Há quem recue a Cavaco Silva, há quem aponte o dedo à Academia Brasileira de Letras, há quem recue ainda mais, até Lindley Cintra e aos colóquios luso-brasileiros dos anos sessenta. Entre os campeões do recuo, encontramos o próprio Malaca Casteleiro, para quem o AO90 resolve (diz ele) o cisma criado (diz ele) pela reforma de 1911. Pela nossa parte, dispensamos o exercício.

Contamos com todos, PS incluído, para que se tenha a humildade de reconhecer que algures, alguém, certamente animado por boas intenções, cometeu um erro, gerou um monstro, inventou um problema. Hoje, o Acordo Ortográfico é um insuportável estorvo: uma armadilha para as nossas crianças, uma força de bloqueio no seio da CPLP, um corpo estranho na literatura em Português, no jornalismo, na tradução, no intercâmbio cultural por extenso, no Ensino a todos os níveis. É tempo de eliminarmos esse estorvo e de seguirmos em frente. Oportunidades não faltarão — a começar pela apreciação da própria ILC-AO na próxima Legislatura.

Respondendo, à distância de quatro anos, a Gabriela Canavilhas: pronunciarmo-nos sobre qualquer outro Acordo que não o AO90 cairia fora do âmbito desta ILC. Contudo, parece-nos que será do mais elementar bom senso garantir que, num Acordo, cada país possa contribuir com aquilo que verdadeiramente lhe pertence. Só assim a troca será realmente enriquecedora. Com o AO90 não há troca alguma, há apenas imposição. E perdemos todos um património intangível para que meia dúzia ganhe sabe-se lá o quê.

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A ILC-AO na XIV Legislatura

Depois da entrega de (mais de) 20.000 assinaturas no passado dia 10 de Abril, como tem sido o percurso da ILC-AO na Assembleia da República?

O primeiro passo foi bastante rápido: à ILC foi de imediato atribuída uma numeração e passámos a ser o Projecto de Lei 1195/XIII — uma designação que irá manter-se, apesar de estarmos a caminho da XIV Legislatura. Já as etapas seguintes têm levado o seu tempo. No dia 17 de Maio, foi-nos solicitado que reuníssemos “dados em falta” em 1.226 subscrições. Como os “dados em falta” eram a data de nascimento (que, de início, não era necessária) ou o Nº de Eleitor (entretanto eliminado), à Comissão Representativa desta ILC não restava outra hipótese que não a recolha de mais 1.024 novas assinaturas para que, segundo os algo voláteis critérios parlamentares, a ILC-AO atingisse o mínimo de 20.000 subscrições válidas. No dia 1 de Julho entregámos em mão um dossier com 1.694 novas assinaturas. Feitas as contas, o total acumulado subia de 20.202 para 20.830, apesar das subscrições invalidadas pelos serviços parlamentares.

Seguiu-se a fase da “validação fina” das subscrições, solicitada pela Assembleia da República ao Instituto de Registos e Notariado. Os resultados dessa análise foram-nos comunicados no passado dia 16 de Setembro: tendo o IRN determinado uma percentagem de subscrições inválidas na ordem dos 4,4%, pede-nos a Assembleia da República o envio de… mais 86 novas subscrições. Como habitualmente, foi-nos dado um prazo de 30 dias úteis para cumprirmos esta disposição.

Ora, entre 6 e 22 de Setembro, a ILC esteve em plena campanha de recolha de assinaturas na Feira do Livro do Porto, uma acção em que se juntaram à nossa iniciativa cívica mais 1.219 cidadãos. Estamos neste momento a proceder ao levantamento dos dados destas subscrições mas é seguro dizer que as 86 novas assinaturas requisitadas pela AR estão garantidas e, assim sendo, a ILC-AO ultrapassará sem problemas mais esta barreira. E, mais uma vez, o número total de subscritores voltará a subir, ultrapassando em muito as exigidas e todas as exigências.

Os próximos capítulos desta odisseia decorrerão já na próxima Legislatura. Como é do conhecimento geral, com o final de uma Legislatura caducam todos os Projectos de Lei que não tenham sido apreciados e votados. Todos… excepto os que resultam de Iniciativas Legislativas de Cidadãos. Nos termos do Art. 13 da Lei 17/2003, para que uma ILC transite para a Legislatura seguinte basta um simples requerimento dirigido a S. Excia. o Presidente da Assembleia da República, desde que não tenha ainda decorrido mais de um ano sobre a entrada dessa ILC no Parlamento. Como esta ILC deu entrada no dia 10 de Abril de 2019, teríamos até ao dia 10 de Abril de 2020 para o fazermos.

Naturalmente, não fazia qualquer sentido esperarmos pelo final do prazo: no passado dia 17 de Agosto, sendo já evidente que a ILC não iria ser votada antes das próximas eleições, a 6 de Outubro, enviámos ao Senhor Presidente da Assembleia da República esse pedido formal. No dia 23 de Agosto o Gabinete do Presidente acusou a recepção.

Esta era uma formalidade simples, mas que cumprimos com dedicação, atendendo ao seu grande simbolismo. Em vésperas de eleições, são poucas as certezas quanto ao futuro da Língua Portuguesa. Ao formular este pedido ao Sr. Presidente da Assembleia da República a ILC-AO garante que o Acordo Ortográfico irá manter-se na agenda do Parlamento. Deste modo, sabemos pelo menos que o Acordo Ortográfico continuará a estar em cima da mesa. Enquanto existir, o chamado “elefante na sala” continuará a ser um estorvo — e a ILC-AO tudo fará para que esse estorvo não passe despercebido.

Esperamos mesmo que a ILC possa ser, na próxima Legislatura, o motivo ideal para que se “abram as portas da sala”.

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Feira do Livro do Porto 2019: um balanço e um agradecimento

Uma Festa da Cidadania!

A polémica em torno da banca da ILC-AO na Feira do Livro do Porto, que se arrasta desde o ano passado, quase fez com que nos esquecêssemos do essencial: quando o tema é a Língua Portuguesa, a recolha de assinaturas deixa de ser uma simples formalidade e passa a ser uma verdadeira festa!

Naturalmente, não podemos aceitar a atitude da Câmara Municipal do Porto, que foi incorrecta e prejudicou objectivamente esta campanha — tivesse a CMP cumprido a Lei e o número de subscrições teria sido ainda maior. Mas factos são factos: os entraves levantados pela Câmara Municipal foram insuficientes para conter o querer das gentes do Porto e a aversão dos Portugueses pelo Acordo Ortográfico. Contra o AO90, uma recolha de assinaturas transcende em muito a melhor ou pior localização da respectiva banca.

Foram mais de 1.200 assinaturas, recolhidas em curtos períodos de tempo durante as plácidas tardes junto ao Palácio de Cristal. Este número supera os resultados do ano passado mas, pelas nossas estimativas, com mais tempo e com outras condições, não teria sido difícil chegarmos às 2.000 subscrições. Este é o primeiro dado que podemos analisar: em pouco mais de quinze dias, é possível recolher um décimo das assinaturas necessárias para esta ILC. As quatro Feiras do Livro que visitámos recentemente (Porto e Lisboa em 2018 e 2019) mostram-nos que recolher assinaturas contra o AO90 tem vindo a tornar-se, cada vez mais, uma tarefa fácil.


Mas isso não é tudo! Os números são importantes, mas mais importante ainda é atitude das pessoas. Desde logo, todas estas 1.200 assinaturas (1.219, para sermos rigorosos) foram subscrições espontâneas — pessoas que, à simples vista da nossa banca, decidiram por sua livre iniciativa aproximar-se e subscrever. E como o fizeram!

A decisão sobre a mesa a utilizar (grande ou pequena) rapidamente se tornou desnecessária. Nos fins-de-semana, foi invariavelmente necessário utilizar ambas. Não era raro haver duas, três e mesmo quatro pessoas a assinar em simultâneo, enquanto outras aguardavam a sua vez, formando uma fila. Quando nos perguntavam “quantas assinaturas temos”, ouviam com satisfação a nossa resposta: “já temos suficientes; estamos a recolher mais para que esta Causa tenha ainda mais força”.

Ficámos particularmente sensibilizados com o caso de um subscritor que, um dia, quando começámos a montar a nossa banca, nos interpelou imediatamente. Percebemos então que ele já ali estava, à nossa espera, porque teve conhecimento desta campanha e não queria deixar de fazer parte dos subscritores da ILC-AO.

De resto, repetiram-se histórias que já conhecemos de recolhas anteriores. Jovens com menos de 18 anos que pretendiam subscrever a ILC, tal como cidadãos de outros países, incluindo brasileiros. Muitos, novos e velhos, agradecem-nos e dão-nos os parabéns pela iniciativa e por darmos a toda a gente a oportunidade de deixar escrita a sua posição contra o Acordo.

Percebe-se que este tema, salvo uma ou outra excepção, une a esmagadora maioria dos portugueses. Esta é uma Causa que não deixa ninguém indiferente e mobiliza-nos a todos como poucas. Uma coisa é certa: este mar de gente, esta onda de contestação, este amor-próprio que ainda anima os portugueses na defesa da sua Língua e da sua identidade, este clamor tranquilo mas determinado, não pode ficar sem resposta.

Mais do que as centenas de assinaturas angariadas, a recolha do Porto deixa-nos esta certeza: quem subscreve uma ILC contra o Acordo Ortográfico fá-lo com convicção — não há aqui assinaturas indiferentes. Quando este Projecto de Lei for apreciado na Assembleia da República os seus subscritores irão estar atentos. As palavras e os actos dos deputados serão examinadas à lupa.

Rui Valente


Muito obrigada!

Finda a Feira do Livro do Porto, é tempo de fazer não apenas o habitual balanço final,  como para, a título pessoal,  deixar aqui algumas palavras de agradecimento aos outros voluntários da ILC-AO e ainda o meu testemunho de admiração pela cidade do Porto e pelos portuenses em particular.

Apesar de a Câmara Municipal, através da Organização desta Feira do Livro, nos ter novamente recusado um lugar dentro do recinto da Feira, sob o pretexto de “… criar um precedente para promover no recinto da Feira do Livro uma campanha de iniciativa cidadã, que poderá abrir portas a muitas outras igualmente legítimas e estimáveis...”, não desistimos do nosso propósito de dar voz à imensa maioria de cidadãos que, sabemos bem, são contra este “disparate”, como muitos signatários lhe chamaram quando falaram connosco.

Assim, durante o período em que durou a Feira do Livro, montámos a nossa humilde banca junto à entrada do Palácio de Cristal.

Imediatamente percebemos que as pessoas, mal viam os cartazes que anunciavam a nossa Iniciativa, se dirigiam a nós sem hesitar para assinar e colaborar connosco.

Como já tivemos ocasião de referir aqui, a reacção das pessoas foi sempre muito calorosa e entusiástica, apoiando veementemente a nossa luta, dando-nos os parabéns pelo nosso trabalho e incentivando-nos a continuar. Pudemos constatar que a luta contra este crime de lesa-Língua Portuguesa que é o “acordo ortográfico” continua bem viva e que a grande maioria das pessoas não esquece a arbitrariedade e prepotência com que foi imposto.

Às mais de 1.200 pessoas que nos deram a honra de colaborar com esta Causa nacional  através da sua assinatura, só nos resta, sincera e reconhecidamente, dizer: obrigada! Muito obrigada!

Olga Rodrigues

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A ILC-AO e o PAN [reunião de 17 de Setembro, 14:30h]

No passado dia 17 de Setembro, pelas 14h30, decorreu nas instalações do Parlamento mais uma reunião entre a ILC-AO e representantes de grupos parlamentares. Esta foi a sexta reunião com representantes dos partidos com assento parlamentar, depois das audiências que tiveram lugar com o Bloco de Esquerda, CDS-PP, PSD, PCP e “Os Verdes”.

Na reunião de que agora damos conta, fomos recebidos por Sara Marques Martins e por Márcio da Quadrada, assessores jurídicos do Partido Pessoas Animais Natureza (PAN). Sara Martins salientou que, tendo o PAN apenas um deputado, seria difícil a marcação deste encontro com o dirigente André Silva, o que é perfeitamente compreensível, mais ainda nesta fase, com a campanha eleitoral em curso.

Antes da nossa primeira intervenção, os nossos interlocutores quiseram deixar expresso que o PAN é um partido novo e que, neste caso como em muitos outros, não houve ainda ocasião para aprofundar esta questão em concreto no seio do partido, de modo a que se chegasse a uma posição oficial do PAN na matéria. Por este motivo, a documentação do PAN tem oscilado entre seguir ou não o AO90, consoante o critério de quem redige um determinado texto ou o carácter mais ou menos oficial da comunicação em questão. Como exemplos, apontaram a troca de correspondência oficial do PAN dentro da Assembleia da República, que segue o AO, ou o Programa Eleitoral do PAN, escrito em Português europeu. A nível interno, isto é, no próprio partido, entre os seus dirigentes e militantes, asseguraram-nos, quase ninguém segue o AO90.

Neste contexto, explicámos os objectivos do nosso Projecto de Lei e as razões pelas quais entendemos que o Acordo Ortográfico em nada beneficia a Língua Portuguesa, quer a nível do chamado “prestígio da Língua”, quer pela suposta facilidade do ensino do Português, quer ainda pela suposta unificação da Ortografia no seio da CPLP — que de todo não se verifica, nem se percebe ao certo que invenção será essa, para que serve, quem a pediu ou quando terá alguém alguma vez dado conta de que seria necessária.

Na verdade, de todas as reuniões entre a ILC-AO e os representantes de cada um dos partidos políticos, esta foi das mais consensuais e aquela que decorreu em maior harmonia quanto a pontos de vista de ambas as partes; os representantes do PAN concordaram connosco em quase todos os pontos. Ao mesmo tempo, tomaram boa nota dos exemplos concretos do caos que se verifica actualmente no ensino, nos órgãos de comunicação social e no próprio Diário da República e em outros meios de comunicação oficiais.

Completamente de acordo connosco, os nossos interlocutores asseguraram-nos mesmo que, quando chegar a ocasião de o Partido definir uma posição oficial sobre o Acordo Ortográfico, tudo farão para que essa posição oficial seja a da revogação do AO90.

Nessa ocasião, esperamos que o PAN possa agir em conformidade, desde logo uniformizando toda a sua comunicação conforme o AO45, mas também, logicamente, acompanhando a nossa proposta e votando favoravelmente o nosso Projecto de Lei.

Mais uma vez ficámos com a noção de que também para alguns dos partidos políticos com assento parlamentar o Acordo Ortográfico não é de forma alguma um dado adquirido. Pelo contrário, há muitas brechas por onde esse “castelo no ar” pode começar a ruir. A clarividência demonstrada pelos representantes do PAN nesta reunião mostra que a sua tomada de posição tem tudo para abrir mais umas dessas brechas.

Por coincidência, no dia seguinte a esta audiência teve lugar o único debate a seis nesta campanha eleitoral até agora, levado a cabo nas rádios portuguesas. Numa das suas intervenções durante a emissão, o deputado do PAN André Silva não deixou passar em claro a questão do Acordo Ortográfico, referindo que a Ortografia não se altera por decreto. É possível que tenha sido uma coincidência, mas também pode acontecer que a nossa audiência com este partido esteja já a dar frutos.

Sem dúvida, uma excelente notícia que resulta de uma notícia excelente.

(imagem de magazine MIAU)

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Momentos na Feira do Livro do Porto

Por estes dias, a recolher assinaturas na Feira do Livro do Porto (à entrada, visto que a CMP nos proibiu dentro do recinto), ouvem-se comentários muito interessantes das várias pessoas que participam com a sua assinatura nesta verdadeira causa nacional; todos esses compatriotas demonstram não só uma imensa aversão a este (des)acordo como também que vão estando a par dos verdadeiros motivos para a imposição arbitrária e prepotente do AO90.

Para além de inúmeras felicitações e votos de parabéns (“ainda bem que alguém se lembrou de fazer este trabalho“), descobrem que ainda é possível lutar contra aquela “coisa”.
É com grande satisfação que observo jovens que se dirigem a nós abrindo um enorme sorriso enquanto exclamam, contentes:”Ah! Eu nem sabia que era possível lutar contra o AO!

Só por isto já teria valido a pena organizar mais uma recolha de assinaturas num evento público.

Mas ouvimos coisas ainda mais espantosas. Por exemplo os vários comentários magoados de quem diz que “isto foi tudo um negócio para as editoras ganharem muito dinheiro“mas logo a seguir perguntam, com uma pontinha de esperança: “acha que ainda é possível voltar ao que existia antes?

Sim, é possível. E sim, esta luta vale a pena. Quando vemos, para ilustrar com outro exemplo, em plena época de campanha eleitoral para as eleições legislativas, um punhado de militantes de um Partido qualquer se afasta por momentos da sua caravana e vêm à  nossa mesa assinar a ILC, dizendo: “nós somos [socialistas mas também estamos contra o AO“.

E também o espanto de quem pergunta: “Como é que aquele senhor que está à frente do Ministério de Negócios Estrangeiros apoia isto? Ainda se fosse um economista que não percebe nada de cultura, agora um senhor que é professor de Filosofia, um homem inteligente,com tanta cultura, não percebo como se dispõe a apoiar este disparate.

Tudo isto intercalado por comentários vários, uns mais imaginativos do que outros mas todos afinando pelo mesmo diapasão: “Muito bem, vou assinar para voltarmos a ser portugueses.“; ou “Não temos nada que escrever em brasileiro“; ou ainda “Vamos manter a nossa soberania“; e também “Se for para deixarmos de escrever em brasileiro, assino já! Estamos a adoptar a escrita brasileira e a anular a escrita portuguesa” A merecer destaque especial, o comentário de uma senhora que disse: “Era o que faltava! Depois da língua, qualquer dia ainda começam a mudar a História e a dizer que foi o Brasil que descobriu Portugal e que o D. Pedro se veio exilar em Portugal “.

O mesmo acontece em relação aos cidadãos brasileiros que visitam a Feira do Livro do Porto e vêem com espanto que existe aqui em Portugal quem lute contra o AO90 (ou contra a Reforma Ortográfica, como é conhecida lá). Na sua grande maioria mostram-se solidários com a nossa luta e dizem que “aquilo” não era necessário no Brasil. Alguns avançam firmemente na nossa direcção e dizem que também querem assinar. Lá temos que lhes explicar que só os cidadãos portugueses é que podem subscrever a ILC e eles ficam muito tristes pois são profundamente contra o “acordo” e não lhe acham nenhuma utilidade nem sentido.

Uma senhora brasileira que disse ser professora de Português disse que o AO não faz qualquer sentido e só vinga porque há interesses económicos por trás da sua aprovação. “Acho muito bem que lutem pelo que é vosso. Portugal e o Brasil são dois países independentes, seguiram caminhos diferentes. O que dizem aqui em Portugal sobre o ensino da Língua Portuguesa no Brasil é uma grande mentira. Nós não podemos ensinar o Português como se ensina aqui em Portugal ou como se ensina para as elites do Brasil. Eu dou aulas a alunos muito pobres, daqueles que catam lixo durante o dia e à noite vão ter aulas de Português e para que eles aprendam alguma coisa nós não podemos usar os mesmos métodos que vocês usam aqui. Muita gente nunca frequentou a escola; o Português no Brasil aprende-se na rua muitas vezes misturado com outros dialectos ou formas de falar. O AO não resolve problema nenhum.

Outro exemplo curioso: um senhor que se aproximou para assinar e acabou por dizer o seguinte “Olhe, sabe como é que isto foi feito? Alguns políticos que culturalmente eram uma nódoa,encarregaram outros políticos mais abaixo, sabe, daqueles que reprovaram a português mas foram sempre estudando e lá acabaram por tirar um curso, de arranjarem alguma coisa para mostrar serviço. E eles reuniram-se por aí, à volta de umas cervejas e de umas picanhas e chegaram a esta asneira. Sabe, é assim que estas coisas se decidem, à volta de uma boa picanha ou de uma boa cabidela“.

Como sempre tem sucedido com as nossas acções de rua, julgando eu já não ser preciso fazer novamente este aviso: a confusão entre peticão e ILC (Iniciativa Legislativa de Cidadãos) ainda é constante. Várias pessoas ficam confusas quando vêem a nossa “banca” e dizem que já subscreveram várias petições e perguntam se estamos a organizar mais uma petição; “eu já assinei tanta coisa contra o AO90 que fico confuso”;”eu já assinei qualquer coisa  contra o AO90 mas não me recordo do quê“;”ah! vou já assinar” mais/outra/esta petição!.

Este tipo de confusão tem sido constante e e lá temos que explicar várias vezes a diferença entre uma petição e uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos e o que uma e outra implicam.

Agora, na Feira do Livro do Porto, houve o caso muito estranho de uma senhora que se aproximou da mesa mas não sabia se já tinha assinado, pois “há muitos anos organizaram-se recolhas de assinaturas em vários sítios, olhe no Instituto de Recursos Educativos, por exemplo e em várias escolas secundárias daqui do Porto e eu assinei e lembro-me que muita gente também assinou, houve muita adesão e penso que foram vocês que organizaram e eu lembro-me que nessa altura também assinei“.

Perante o meu espanto, a senhora, que disse ser professora, garantiu-me, com muita segurança, que se realizaram, sim, essas várias sessões de recolha de assinaturas e que não foram para nenhuma petição mas sim para a ILC-AO. Disse-lhe que ninguém pertencente à ILC-AO teve conhecimento de tais acções de recolha, na área do Grande Porto, e a senhora ficou, também ela, muito intrigada. Disse que ia consultar o site da ILC mas tornou a garantir-me que essas recolhas de subscrições aconteceram mesmo.

Qual o número real de assinaturas recolhidas em tais acções de rua, quem as organizou (e com que direito), quem participou nelas (em nome da ILC-AO!) e para onde realmente foram enviadas — se é que foram enviadas para algum sítio — é um mistério que ainda hoje, tantos anos depois, continua por explicar.

Este episódio das assinaturas sonegadas foi uma péssima surpresa mas ainda nos estava reservada uma outra, mil vezes menor, em relevância, mas igualmente aborrecida enquanto mera coincidência.

Durante o último fim-de-semana aconteceu chegarmos como habitualmente à entrada do Palácio de Cristal para instalar o nosso posto. Habitualmente ficamos de um lado da entrada mas desta vez não o pudemos fazer porque estavam lá motas estacionadas e então tivemos de ir para o lado oposto. Junto aos bancos que ali estão, tudo aquilo era um mar de, todas lado a lado, “em espinha”. No Sábado, quando chegámos estava lá uma bicicleta na diagonal a ocupar todo o espaço junto ao banco, mesmo em cheio no sitio onde habitualmente coloco os cartazes e a mesa; essa bicicleta estava “reforçada” por uma mota grande, daquelas de estilo clássico. Também ela na diagonal. Depois a mota saiu mas a bicicleta lá ficou todo o santo dia. No Domingo, estavam várias scooters estacionadas nesse mesmo espaço e uma ou duas na diagonal, ocupando o máximo de espaço possível.

Ou seja, ao que parece, naquele exacto local o Código da Estrada não se aplica, os veículos de duas rodas podem estacionar livremente… em cima do passeio! Para os responsáveis da Câmara Municipal do Porto e para a organização da Feira do Livro, a ILC-AO não pode recolher assinaturas dentro do recinto mas o facto de o passeio público, em toda a entrada do recinto, estar atravancada de motas, motorizadas e bicicletas, bem, esse é o lado para que os ditos responsáveis dormem melhor. Para a Polícia Municipal,  tão pressurosa no cumprimento de “ordens superiores”, obrigando-nos, na edição de 2018, a desmontar a nossa “banca” de recolha de assinaturas, haver dezenas de viaturas estacionadas em cima do passeio é uma coisa de somenos ou, se calhar, não vale mesmo nada — nem um só agente (da PM ou da PSP) apareceu por aquelas bandas.

Tentemos ser optimistas, no entanto, e vejamos as coisas pelo lado bom: apesar de tudo, mesmo sucedendo-se estes incidentes curiosos, a verdade é que os cidadãos portugueses, contra a violência do “acordo”, os abusos de poder dos “acordistas” e a prepotência do “acordismo”,  continuam a dar conta do recado: nesta luta ninguém se deixa intimidar, ninguém se sujeita à ditadura do ridículo, ninguém desiste da Língua Portuguesa.

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