Dignidade (por Maria do Carmo Vieira)

DIGNIDADE

Já expressámos, por inúmeras vezes, a nossa convicção de que o pouco interesse pela Cultura, manifestado por parte de quem manda, resulta da opção consciente em anular o que é espiritual, talvez porque também nunca tenham sentido os seus efeitos benéficos, defendendo e valorizando superlativamente tudo o que conduza, com facilidade e rapidez, à obtenção de um pretenso bem-estar material. Quanto mais ignorantes forem as pessoas, quanto mais se traírem, expondo-se perigosamente ao abdicar de pensar por si próprias, mais facilmente serão conduzidas e enganadas sem a menor compaixão. Testemunha-o o crescente populismo, seja qual for a ideologia que dele se aproveite, e a sociedade global e profundamente desumanizada em que vivemos. Ideias que repetimos porque constante a preocupação que não sentimos abrandada.

Este desejo de moldar o ser humano, estando dele ausente sensibilidade, espírito crítico e responsabilidade, por falta de educação e de treino, começa paradoxalmente na escola, temática que nos é cara e sobre a qual nos temos debruçado com regularidade. A obsessão pela facilidade e a não valorização da reflexão e do estudo, aspectos visíveis, por exemplo, no ensino da Língua Materna, com o uso forçado do absurdo e controverso Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), são sinais evidentes de uma autoridade, no sentido de competência, posta em causa, uma situação que se verifica igualmente em poemas, falsamente atribuídos a Fernando Pessoa, ortónimo e heterónimo, lidos e analisados em sala de aula. A rapidez com que se vai à internet, em procura de material didáctico, ocasiona esta lástima e as vítimas perpetuarão a ignorância.

Há sempre quem se deixe aliciar pela facilidade e cultive a preguiça, no estudo e na reflexão, atitudes que não impedem intervenções arrogantes sobre o que não se conhece. Testemunhámo-lo, não há muito, com uma jovem professora universitária que, irritada pelo facto de se mencionar que Luís de Camões, em Os Lusíadas, estaria em consonância com a tese africana, representativa da vontade da nobreza que defendia a expansão para África, e não para Oriente, como desejava a burguesia, perguntou «se o poeta deixara isso escrito». E não se contentando com a questão que tentava confundir quem a expusera, no caso, eu própria, quis pôr à prova o conhecimento sobre outra matéria camoniana, indagando vivamente se o poeta também deixara explicado quem era a «Rosa» do seu soneto, «Rosa minha gentil, que te partiste». Um verso pretensamente decorado, e quem sabe se transferido para os alunos, adulterando o belíssimo soneto que se inicia com «Alma minha gentil que te partiste».

Este inebriamento pela própria ignorância encontra companhia fértil em quase toda a comunicação social, criada ao som da voz-do-dono e da procura do espectacular, com realce para a televisão, pública ou privada. O modo como se desenvolvem, por exemplo, muitos dos programas televisivos, explorando a privacidade humana, em que se incluem as próprias crianças, ou encenando uma assistência, previamente domesticada, que grita, ri ou aplaude sempre que recebe ordem para gritar, rir ou aplaudir, sentada ou de pé, em perfeita sintonia com apresentadores freneticamente apalhaçados, e de um nível cultural e linguístico confrangedores, é bem sintomático da vontade de alienar e de deseducar que grassa na sociedade. Mesmo nos programas de índole cultural, nomeadamente na Rádio, damo-nos, por vezes, conta de uma ignorância ostentada não só em relação à Literatura, mas também, e sobremaneira, em relação à História (tão maltratada porque desprezada tem sido a memória). Em relação a este último caso, não é raro que se confundam datas de acontecimentos históricos, dignos de referência, ou se galhofe com acontecimentos dramáticos e figuras históricas, ou até se espicace o entrevistado, estudioso na matéria, que expõe, para uma abordagem picante de um dado assunto, como forma de o aligeirar, cativando facilmente os ouvintes, assim devem pensar. Gostam estes mercenários da cultura de se ouvir e por isso interrompem constantemente, rindo de contínuo.

O mesmo pacto com a mediocridade, exposta sem pejo, aconteceu com o AO 90. Na verdade, é confrangedor ler ou ouvir a argumentação sobre o assunto, por parte de algumas pessoas ligadas à cultura e à política, a começar pelos mentores de tal aberração que a grande maioria dos portugueses inteligentemente contesta. Como é possível aceitar o critério acientífico da «pronúncia» na ortografia ou que a mesma se torne factor de sucessivos equívocos? Como é possível defender a «unificação ortográfica» quando, por exemplo, «recepção» e «concepção» continuam a existir no Brasil, pelo critério da pronúncia, tendo sido transformadas, em Portugal, nas aberrantes «receção» e «conceção», segundo o mesmo critério (neste caso, «p» não pronunciado), pondo em causa a vertente cultural da ortografia, ou seja, a etimologia?

Confunde, qualquer um, a estreita cumplicidade entre a comunicação social, salvo raras excepções, com destaque para o jornal Público, e a classe política, em que é justo relevar a postura crítica do Partido Comunista, cumplicidade desde sempre visível no pacto de silêncio relativamente ao AO 90. Sem pejo, escondeu-se o embuste que foi o processo relativo ao desenvolvimento do Tratado Internacional, que pelo seu significado exigiria uma maior seriedade, e, sem pejo, impediu-se igualmente a discussão que a matéria requeria porque a Língua, património colectivo, não é pertença de uns tantos supostamente iluminados; um embuste é ainda a unificação ortográfica pretendida quando a própria diversidade geográfica e cultural, da mencionada «lusofonia», a impede. Lamentável é o facto de alguma intelectualidade, traindo a sua função, aceitar acriticamente a «pronúncia» como critério científico ou que as crianças sejam estupidamente usadas em nome da facilidade que não procuram.

Como se tudo isto não bastasse, festejou-se, há uns anos, a entrada, na CPLP, da Guiné Equatorial, paradoxalmente reconhecida como voz «lusófona», sem falar português, e perdoada na sua completa indiferença pelos direitos humanos. Depois do espanhol e do francês (processo de adesão à francofonia há 18 anos) o português é o seu terceiro idioma oficial (anunciado há 5 anos), mas ainda não falado, e, segundo informação vinda a público, os governantes têm tido acesso a acções de formação através da embaixada do Brasil.

Tentar enganar não é um comportamento digno de um político. Trair a inteligência, o estudo e a função de alertar não é um comportamento digno de um intelectual; obedecer à estupidez e aceitá-la com resignação é abdicar da dignidade que devemos a nós próprios.

Deixamos um apelo: A Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (ILCAO),com 80% das assinaturas necessárias recolhidas (faltam menos de 4000), precisa do seu apoio. Contamos consigo para subscrevê-la, caso ainda não o tenha feito, e para nos ajudar a divulgá-la e a angariar as subscrições em falta.

Para o efeito, consulte e partilhe o sítio oficial da ILC: https://ilcao.com/subscricoes/subscrever/

Maria do Carmo Vieira
Lisboa, 3 de Abril de 2018
(artigo publicado na revista “Villa da Feira” de Junho 2018)

 

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Cem palavras

 

Ali estava eu, em pleno centro de Braga, sozinha no meio da rua, com esta mesa de campismo, com estes cartazes, com estes papeis, e sobretudo com esta fé inabalável: uma única assinatura e já valeu a pena ter vindo.

Ao que parece, nunca ninguém tinha tentado fazer isto…

Pois rapidamente fiquei sem palavras.

Olha, a primeira subscrição!

E a segunda.

E a terceira. E outra e outra e outra!

Em algumas alturas chegaram a formar-se pequenas filas de pessoas que esperaram pacientemente a sua vez para assinar.

Quando os transeuntes se apercebiam da finalidade desta ILC,  aproximavam-se para me dirigir palavras de incentivo, falavam sobre esta nossa causa com entusiasmo, demonstravam interesse, muito mais do que simples curiosidade; foram imensas as manifestações de apreço, que muito me sensibilizaram e deram força para continuar.

Um único incidente, com seu quê de cómico, nada de alarmante: uma senhora, que apesar de não estar em funções disse ser funcionária da Câmara Municipal, perguntou-me se tinha  autorização para estar a recolher assinaturas na via pública. Mostrei-lhe o Artigo 5.º da Lei que rege as Iniciativas Legislativas de Cidadãos que diz claramente que não deve ser levantado qualquer obstáculo à recolha de assinaturas. Pareceu compreender e seguiu o seu caminho. Uma acordista militante, suponho, pois que faça boa viagem de regresso a casa.

Em jeito de balanço, o que o último fim-de-semana vem demonstrar é que podemos e devemos continuar a reafirmar, sem qualquer receio de errar ou sequer de exagerar, que a luta contra o AO90 é de facto uma causa verdadeiramente nacional, envolvendo uma cada vez maior multidão de pessoas, de Norte a Sul do país.

A ILC-AO vai fazendo o seu caminho! Este fim-de-semana em Braga, com uma simples “banca” armada em pleno passeio e com uma só pessoa a tratar da recolha de assinaturas, é disso mesmo exemplo flagrante. E até comovente, se virmos bem, tão espontânea e entusiástica é a forma como os cidadãos reagem quando se apercebem de que a luta contra o AO90 está bem viva.

No comboio de regresso contei-as: 45! Caramba! Quase meia centena de subscrições. Se uma imagem vale por mil palavras, como se costuma dizer, então esta vale ao menos por cem: fui lá jurando a mim mesma que se conseguisse uma única assinatura então já teria valido a pena…

Podemos, alguns de nós, ficar sem palavras quando algo assim sucede; mas o que importa é continuar a lutar para que não fiquemos, nem cem, nem dez, nem um único de nós sem as palavras todas.

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A ILC-AO na Feira do Livro de Lisboa — um dia com sol

A ILC-AO na Feira do Livro de Lisboa 2018

Nesta série de artigos sobre a Feira do Livro merece destaque especial o dia 9, sábado, pela quantidade de assinaturas recolhidas. A receptividade das pessoas foi a mesma de sempre. Há quem decline o convite mas a maioria aceita ou nem tem de ser convidada… muitos subscritores aproximam-se da mesa só por lerem os cartazes e perceberem o que está em jogo.

Houve momentos em que chegámos a ter cinco folhas de subscrição a ser preenchidas em simultâneo.

Foi um dia de boa disposição. Se há algo em comum entre todos os subscritores é a alegria que sentem ao assinar. Num ou noutro, julgo mesmo ter percebido um prazer quase feroz, como se aquele acto de subscrição fosse também uma pequena desforra contra quem quer obrigar-nos a levar com o AO: usando-o obrigatoriamente, no caso dos funcionários públicos, ou a lê-lo, no caso do cidadão comum.

Se a disposição dos visitantes da Feira foi a mesma de sempre, se o apoio da Gradiva foi, mais uma vez, inexcedível, o que mudou?

Mudaram as condições climatéricas! Pela primeira vez em muitos dias voltámos a ter bom tempo, com a vantagem de se tratar de um sábado. As pessoas acorreram em massa ao bonito recinto da Feira do Livro e cerca de 500 (!) subscreveram a ILC-AO.

Um dia extraordinário, de facto.

Faça chuva ou faça sol, a presença da nossa ILC nesta Feira do Livro tem sido uma constante. Desde o nosso primeiro dia de FLL (31 de Maio) até hoje já recolhemos mais de 1.500 assinaturas.

Amanhã, dia de Santo António e feriado em Lisboa, é o último dia de Feira do Livro. Não deixe de visitar a ILC-AO nos pavilhões da Gradiva. E, se ainda não o fez, aproveite para subscrever esta Iniciativa Legislativa.

 

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A ILC na Feira do Livro de Lisboa 2018 (em imagens)


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A Gradiva associa-se à Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico e está a promover uma recolha de…

Posted by Gradiva Publicações, S.A. on Friday, 8 June 2018

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A ILC na Feira do Livro de Lisboa 2018

Hoje foi o primeiro dia da Iniciativa Legislativa de Cidadãos na Feira do Livro de Lisboa 2018. E como correu bem!

Em menos de duas horas reunimos mais de 100 assinaturas. Foi de facto muito animador ver que as pessoas, muitas vezes, nem sequer precisavam de ser convidadas a assinar. Quando se apercebiam do que estava em jogo vinham ter connosco, espontaneamente. E, depois de assinarem, ainda nos agradeciam pela Iniciativa. Chegámos a ter duas folhas de subscrição abertas em simultâneo para que pudessem assinar duas pessoas de cada vez.

Este primeiro dia de recolha “ao vivo” prova aquilo de que já suspeitávamos: é realmente fácil subscrever a ILC online e essa ferramenta é bastante útil. Mas é ainda mais fácil quando nos colocam à frente um papel já pronto a assinar.

De facto, a ocasião faz o subscritor!

Depois deste primeiro dia, não temos dúvidas: se, por magia, conseguíssemos colocar um boletim de subscrição em todos os lares portugueses, a ILC estaria pronta em menos de 24 horas — e o AO90 sofreria um golpe profundo, pois a ILC seria entregue com o décuplo das assinaturas necessárias.

Era possível fazer isto sem o apoio da Gradiva? Talvez, mas não era a mesma coisa. A Gradiva proporcionou-nos condições logísticas fabulosas, como se pode ver pela fotografia. Mesa, cadeiras e um toldo protector, situados numa posição estratégica, com uma visibilidade excelente. Para tirar a fotografia foi necessário esperar por um dos raros momentos em que não estava gente junto à mesa.

GradivaO nosso muito obrigado ao editor, Guilherme Valente, à incansável Helena Rafael e a toda a equipa dos quatro pavilhões da Gradiva na Feira do Livro.

Hoje, os nossos “agentes” no terreno foram a Maria do Carmo Vieira, o Henrique Valente, o Arlindo Sou e a Sara David Lopes. Até ao final da Feira, no dia 13 de Junho, estes e outros activistas da ILC voltarão ao espaço da Gradiva e mais sessões como esta irão acontecer.

Subscreva a ILC “online”, na nossa página… ou visite os pavilhões desta editora na Feira do Livro e participe nas nossas “sessões de autógrafos” ao contrário: dê-nos o seu.

A Língua Portuguesa agradece.

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