Jan 28 2018

Um último Zenão

Caro subscritor da ILC,

Em primeiro lugar, as boas notícias: a ILC-AO regressou anteontem [26 de Janeiro] à Assembleia da República e ali obteve a garantia de que esta Iniciativa será tratada com toda a imparcialidade, e não será prejudicada pelo facto de, no curto espaço de um ano, ter atravessado três normas diferentes para a recolha de subscrições. É uma medida justa, que premeia o esforço que sempre fizemos para acompanhar as diferentes (e sucessivas) disposições da Lei.

Recordamos que, mesmo quando a mudança trouxe de volta o Nº de Eleitor — com a inerente complicação do processo de subscrição — a ILC acatou essa alteração e modificou o formulário de recolha, bem como toda a estrutura da sua base de dados, de modo a que as subscrições continuassem a ser recolhidas nos termos da Lei.

Para que esta ILC possa seguir o seu caminho resta apenas um “pequeno” senão: é necessário recolhermos as assinaturas que faltam. É certo que nos aproximamos do objectivo — para que possamos entregar esta ILC no Parlamento são necessárias 20.000 subscrições e faltam pouco mais de 4.000. Mas também é verdade que, à medida que avançamos, o caminho parece tornar-se cada vez mais penoso.

Estas são as más notícias.

A explicação para este fenómeno é simples: recolher quatro mil assinaturas contra o Acordo Ortográfico não é, pelo menos aparentemente, tarefa complicada. O problema é que não estamos a falar de quaisquer 4.000 assinaturas — estamos a falar das assinaturas que vão da 16.001 à 20.001. Nesta altura do campeonato, já todos nós — os mais envolvidos na questão — subscrevemos a Iniciativa, bem como o fez a maior parte das pessoas que conhecemos.

Para quem gosta de Matemática, esta ILC fez 2/3 do seu caminho no tempo das subscrições em papel. Com a criação da subscrição “online” passámos a barreira dos 3/4 e estamos agora a caminho dos 4/5 do percurso. Trata-se de incrementos cada vez menores mas, para que este exercício não se transforme num paradoxo de Zenão, é necessário que o tempo gasto em cada uma destas etapas não aumente exponencialmente.

Por este motivo, peço a todos os subscritores da ILC um esforço redobrado na angariação de assinaturas. As perspectivas, apesar de tudo, são boas — e queria deixar-vos estas palavras de ânimo. Mas é necessário que todos nós façamos mais do que recolher a própria assinatura e, quando muito, mais uma ou duas.

Há pequenos gestos que estão ao alcance de todos:
1) Difundir este texto. Como sabem, só temos contacto com uma pequena parte dos nossos subscritores. Se conhece alguém que subscreveu a ILC mas não acompanha regularmente este nosso “sítio” oficial ou a nossa página no Facebook, envie-lhe este artigo.
2) Em segundo lugar, certifique-se de que está tudo bem com a sua própria assinatura. Se subscreveu esta ILC em papel, envie-nos a sua data de nascimento, bem como o seu nº de BI ou CC para que possamos localizar a sua subscrição. Pode fazê-lo através do e-mail data_nascimento@ilcao.com, por exemplo. Mais explicações sobre este passo aqui.
3) Finalmente, e isto será talvez o mais importante, é preciso divulgar, divulgar, divulgar a ILC. Há uma grande maioria de portugueses que continua a não aceitar o AO mas, para chegarmos até eles, será talvez necessário sairmos da nossa zona de conforto e do nosso círculo mais próximo de amigos.

Temos a obrigação de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que as gerações seguintes não fiquem limitadas a uma ortografia pobre, confusa e feia.

Vamos a isto!

Uma boa semana para todos.

Rui Valente

imagem http://sites.unicentro.br/wp/petfisica/2017/09/24/paradoxo-da-dicotomia/ sem indicação de autor.

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Jan 10 2018

Associação Portuguesa de Tradutores (APT) apoia a ILC

A nobre profissão de tradutor sempre nos mereceu o maior respeito e admiração. O trabalho de tradução é mais do que a simples viagem de um texto entre duas Línguas. Em última análise, o tradutor é o responsável pela criação de uma ponte entre culturas, promove a aproximação entre povos, associa pensamentos e sociedades distintas e muitas vezes antagónicas. Regra geral, a pulsão da tradução nasce de um amor pelas Línguas e pelas culturas do mundo e traduz-se num labor de paixão que se equivale ao da própria escrita. Pelo simples acto de traduzir, os tradutores acabam por tomar a seu cargo uma responsabilidade que não é pequena: a de contribuir para um mundo melhor.

Em rigor, o espírito que norteia a missão do tradutor está nos antípodas do disparate que produz um Acordo Ortográfico. O tradutor faz pontes e promove pontos de contacto entre um oceano de diferenças; o Acordo Ortográfico finge que esse oceano não existe.

Para os tradutores portugueses, o Acordo Ortográfico representa ainda um problema muito concreto: com ou sem AO90, as traduções para Português Europeu e para Português do Brasil são e serão sempre duas realidades absolutamente distintas. No entanto, com o AO90, somos cada vez mais levados a aceitar como boas as chamadas traduções “genéricas” — que, como é evidente, mais não são do que traduções para Português do Brasil que se tenta impingir aos portugueses.

Por tudo isto, como se imagina, é para nós uma satisfação enorme a declaração de apoio que esta ILC recebeu da Associação Portuguesa de Tradutores. Em boa hora, a APT decidiu associar-se a esta Iniciativa, promovendo-a de forma inequívoca no seu espaço institucional e na sua página do Facebook. O logótipo da Associação Portuguesa de Tradutores já era uma presença de longa data na nossa página de entrada, em virtude da sua declaração, em 2014, de rejeição do Acordo Ortográfico.

Expressando agora o seu apoio à nossa iniciativa cívica, o que muito agradecemos, a ligação entre APT e ILC-AO torna-se ainda mais forte.

Assim possam outras instituições seguir este exemplo.

NÃO AO ACORDO ORTOGRÁFICO

A APT aprova a Iniciativa Legislativa de Cidadãos Contra o Acordo Ortográfico

Proponho que subscrevam a referida iniciativa utilizando este link :

https://ilcao.com/subscricoes/subscrever/

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Dez 14 2017

O Vocabulário da Diferença


Se a riqueza da Língua Portuguesa reside, em grande medida, nas diferenças entre as suas variantes, então o Acordo Ortográfico é, de facto, um ataque cerrado a essa diferença, uma tentativa fútil para unificar o que não pode nem deve ser unificado.

O chamado “Vocabulário de Mudança” — uma compilação, feita pelo ILTEC, de palavras que mudam com o Acordo Ortográfico — tem sido uma das armas dessa sanha terraplanadora, uma ode ao trabalho inglório, uma tabela onde os mentores do AO “mostram serviço”, sem perceberem que o que estão a exibir é, afinal, o grau de destruição de uma dessas variantes — o Português Europeu.

Este “Vocabulário de Mudança” presta-se a vários absurdos. O primeiro, e mais evidente, é ser ele mesmo uma prova da ineficácia do Acordo Ortográfico, pois viu-se obrigado a incluir palavras que se tornam diferentes por força do próprio AO, como “recepção” ou “acepção”. Por outro lado, o “Vocabulário de Mudança” consegue demonstrar, também, que tudo o que muda é Português Europeu, nada muda no Português do Brasil.

Mas a maior “virtude” do “Vocabulário de Mudança” talvez seja mesmo a exibição da sua insignificância.

Se compararmos o “Vocabulário da Mudança” com um hipotético “Vocabulário da Diferença” — a lista de todas as palavras que eram diferentes e continuarão a ser diferentes — percebemos que a unificação é uma gota de água num oceano de diversidade.

Em quase todos os ramos do conhecimento humano, os vocabulários do Brasil e do resto do mundo lusófono não acertam uma: da informática à culinária, da indústria à agricultura, do desporto às ciências sociais os termos diferentes multiplicam-se. São milhares e milhares de palavras diferentes. E, note-se, isto é uma coisa boa: conhecer todas essas palavras é enriquecedor.

É, portanto, descabida (para não dizer estúpida) qualquer tentativa de acordo: ou bem que se equaliza tudo — e isso seria um atentado à Língua ainda maior do que o AO — ou não se muda nada, porque mudar só algumas coisas fura qualquer objectivo de unificação da ortografia.

O AO apaga meia dúzia de diferenças, cria outras novas (porventura em maior número) e deixa a maior parte como estava — é, portanto, um transtorno inútil, um capricho infantil, um aborrecimento, uma irritação, um disparate.

Mas o que seria, exactamente, um “Vocabulário da Diferença”? Seria, muito simplesmente, a compilação de todas as palavras que eram e continuarão a ser diferentes (como “registo” em pt-PT e “registro” em pt-BR), acrescido de todas as palavras que são comuns às duas variantes mas de uso preferencial distinto; como “sumo” em pt-PT e “suco” em pt-BR — ambas existem nas duas variantes mas o Brasil prefere um suco de laranja enquanto os restantes países lusófonos optarão, em primeiro lugar, por um sumo de laranja.

O “Vocabulário da Diferença” é, pois, a lista de tudo o que deve ser acarinhado e preservado na Língua Portuguesa. Justifica, juntamente com a sintaxe, a existência de duas variantes linguísticas e é, simultaneamente, aquilo que melhor nos identifica enquanto povos que usam variantes da mesma Língua.

Não é possível escrevermos mais de dois parágrafos (com ou sem AO) sem denunciarmos a variante em que estamos a escrever. A resposta à pergunta “quem escreveu?” está no “Vocabulário da Diferença”.

O “Vocabulário da Diferença” é uma fonte inesgotável de informação sobre a nossa Língua — permite-nos aprender imenso sobre a viagem das palavras ou recordar termos que já não usamos entre nós mas que continuam a ser de uso corrente no outro lado do Atlântico. Ou reconhecer as palavras que, tendo o mesmo significante (isto é, escrevendo-se da mesma forma), têm significados diferentes ou até opostos nas duas variantes.

Será, também, uma ferramenta preciosa para todos quantos pretendem estudar Português como segunda Língua.

Infelizmente, este “Vocabulário da Diferença” ainda não existe. E não só não existe como “a diferença” tem sido tratada de forma displicente, como se de uma curiosidade linguística se tratasse. Num verdadeiro Museu da Língua Portuguesa esta questão podia e devia ser nuclear. Em São Paulo (antes do incêndio, pelo menos), é remetida para o lote do pitoresco: num pequeno quadro de meio metro quadrado, diz-se ao visitante que, em Portugal, um café é uma bica e “perder a paciência” é “passar dos carretos”.

A Wikipedia não faz muito melhor: limita-se a dar alguns exemplos, ordenados por temas, das diferenças entre Português Europeu e Português do Brasil. Não chega a centena e meia, num universo que se adivinha muito mais vasto.

Tem portanto o ILTEC muito para fazer, se quiser empregar o seu tempo de forma útil. Já tem um bom ponto de partida, que é o próprio “Vocabulário de Mudança”. Nesse vocabulário assinalam-se já todas as duplas grafias que passam a ser admitidas e que, na prática, significam que Portugal vai continuar a escrever “económico” enquanto o Brasil escreve “econômico”.

Quando estiver pronto, o “Vocabulário da Diferença” será um monumento, uma ode à grandeza e à plasticidade de uma Língua que soube crescer e expandir-se sem perder de vista as suas raízes. Será, também, um documento imprescindível para qualquer professor ou leitor de Português numa universidade estrangeira.

É claro que podemos chegar a um ponto em que o Brasil deixará de chamar “Português” à sua Língua. O “Vocabulário da Diferença” passará a ter um nome mais prosaico: Dicionário Português-Brasileiro. Mas a sua utilidade tornar-se-á então ainda mais evidente.

Em qualquer dos casos, viva a diferença!

Entretanto, compete-nos garantir que o nosso vocabulário continuará a ser mesmo NOSSO. O “Vocabulário da Diferença” merece que Portugal participe com as suas palavras e não uma colecção de termos inventados que nos querem impor: subscreva a ILC contra o Acordo Ortográfico!

Imagem (créditos): By Daniel Mello/Agência Brasil [CC BY 3.0 br], via Wikimedia Commons

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Dez 01 2017

Pequenas escolhas do dia-a-dia

Aqui há dias respondi a um questionário de satisfação de uma empresa. A última pergunta consistia em acrescentar quaisquer outros comentários que tivesse. É nessa pergunta que, de uma forma ou de outra, procuro transmitir às empresas que preferiria que não utilizassem o AO90 nas comunicações por escrito.

Em regra, tudo quanto escolho enquanto consumidora vem bem escrito. Começo obviamente pelo essencial — os livros e os jornais — mas levo esta opção até às coisas mais insignificantes como champô, pasta de dentes, creme das mãos, detergente da loiça/roupa, leite, iogurtes, etc.

Por um lado, o facto de fazerem boas escolhas nos textos que escrevem transmite-me confiança quanto ao bom senso dos responsáveis pelos produtos que consumo. Consequentemente, transmite-me confiança nos produtos em si.

Por outro lado, trata-se de uma questão de bem-estar quotidiano, ao olhar para as embalagens enquanto consumo os produtos. Sabe-me muito melhor comer um iogurte vindo de uma embalagem sem palavras tóxicas, por exemplo.

Às vezes, infelizmente, não tenho escolha. Há determinados produtos ou serviços indispensáveis para os quais não encontro opções bem escritas. É nesses casos em que, sempre que há oportunidade, procuro transmitir às empresas a minha opinião.

Da mesma forma, sempre que posso, elogio as empresas que não foram na conversa da “maravilhosa nova ortografia” e agradeço-lhes. As provas de inteligência causam-me sempre muito boa impressão.

Não estou sozinha. Um amigo próximo, que integra um painel permanente de estudos de mercado aos hábitos de consumo, faz exactamente o mesmo. Sempre que pode, deixa “recado” às empresas quanto à sua preferência — comunicação com AO, não, obrigado. Diga-se de passagem que esse painel, gerido pela Marktest, tem a feliz iniciativa de continuar a enviar-lhe os seus inquéritos em bom português.

Não pensem que esta preferência pelas boas práticas ortográficas é uma tarefa difícil. Pelo contrário, continua a ser frequente encontrarmos lojas, teatros, salas de exposições e toda uma miríade de espaços comerciais onde encontramos bens ou serviços apresentados em bom Português Europeu.

Suspeito mesmo que a opção pelo Português sem AO começa a fazer um caminho como sinónimo de bom gosto e de requinte — um indício seguro do esmero e do cuidado posto na apresentação de um produto, serviço ou espaço.

Sabemos perfeitamente que as marcas se preocupam com a percepção dos consumidores. Sempre que prefiro um bem ou um serviço que não utiliza o AO estou a enviar uma mensagem ao respectivo fabricante ou fornecedor do serviço. Se respondo a um questionário, melhor ainda: apresento uma opinião directa e objectiva sobre este assunto, que as empresas não devem ignorar.

Pergunto-me o que aconteceria se, em vez de sermos só alguns (será que somos?) a fazer comentários nesse sentido, fôssemos milhares ou milhões…

Muitas vezes não são os grandes gestos que causam a mudança. São as pequenas escolhas do dia-a-dia. Vamos a isto?

(Por falar em pequenos gestos que fazem toda a diferença, já tratou deste?)

Nota: as imagens que acompanham este artigo são apenas três exemplos, recolhidos em diferentes cidades portuguesas, de lojas ou espaços de exposição em Português: uma loja de bicicletas em Aveiro, um pronto-a-vestir em Coimbra e um espaço de exposição em Castelo Branco. Naturalmente, são todas do ano em curso.

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Nov 18 2017

4379 cidadãos para a Língua Portuguesa (versão original)

No Verão passado, fez agora um ano, tive o azar de dizer em voz alta: “Move-se. E, desta vez, não me parece que possa ser parada.”

Referia-me à Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) contra o Acordo Ortográfico (AO). Este movimento acabava de ganhar um novo fôlego com a redução do número de assinaturas necessárias para apresentar uma ILC no Parlamento (de 35.000 para 20.000) e com a possibilidade de recolhermos as assinaturas em falta por via electrónica. Para cúmulo das facilidades, até o vetusto n.º de eleitor desapareceu, deixando de ser necessário para a subscrição. Cheguei a ponderar um “não pode ser parada”. Felizmente, mantive o “não me parece” — salvei-me assim do pecado da soberba, limitando-me a ser ingénuo.

Em meu abono, convenhamos que o cenário era francamente animador. Se foi possível reunir mais de 14.000 assinaturas no tempo das vacas magras, quando era preciso assinar fisicamente um papel e enviá-lo pelo correio, não haveríamos de conseguir agora uns meros 5000 e poucos cliques de rato? Parecia fácil. Parece fácil, ainda hoje…

Do ponto de vista científico o AO90 era, e ainda é, indefensável. O Português Europeu e o Português do Brasil não são miscíveis — não podemos escrever “desporto” numa frase e optar por “esporte” no parágrafo seguinte. A ideia de uma ortografia comum para duas Línguas onde TUDO é diferente — vocabulário, sintaxe, prosódia, criação de neologismos — só podia resultar num absurdo. Como se previa, o AO tornou-se a “ortografia” do desconchavo, da facultatividade, do substantivo-com-espaços, do agravo estético, das dezenas de novas homofonias e homografias tão prejudiciais quanto perfeitamente evitáveis.

Não admira que muitos portugueses continuem a considerar o AO90 uma “ortografia” ridícula e sem estilo — boa para um efeito cómico fácil mas pouco adequada ao discurso sério.

Do ponto de vista político, o contexto era, e ainda é, um desastre! Na CPLP, o Acordo Ortográfico é um corpo estranho, um entrave ao que poderia ser uma verdadeira política de intercâmbio cultural. Em vez da troca de experiências e da criação de um circuito artístico deu-se primazia ao “turismo linguístico” em que os mesmos quatro conferencistas de sempre fazem a tournée mundial da defesa do AO90. Será certamente mais barato fazer um Acordo Ortográfico mas o Teatro, a Dança ou a Música nada ganham com isso. Nem a Literatura. Nem sequer, ironia, a edição de livros. De resto, Angola e Moçambique não assinam nem estão preocupados com o Acordo, a Guiné Equatorial não sabe que ele existe e o duvidoso estatuto de Língua oficial da ONU não responde ao problema cientifico: se não são miscíveis, de que variante estamos a falar quando falamos em Língua oficial nas Nações Unidas? Aceitam-se apostas.

Finalmente, do ponto de vista social o cenário era, e ainda é, calamitoso. Com o AO veio a noção de arbitrariedade ortográfica, do “agora tanto faz” e do “escreve-se das duas maneiras”. Instalou-se o cAOs ortográfico, que o ensino do AO nas escolas ameaça agravar.

Nesta conjuntura, com o Acordo Ortográfico em tão mau estado, reunir as assinaturas em falta parecia uma brincadeira de crianças. Parecia… mas não foi.

Aconteceu um pouco de tudo. Para começar, a plataforma Causes juntou-se ao grande “has-been” tecnológico onde estão o Napster e o Altavista — de uma assentada, perdemos o contacto com mais de 120.000 seguidores da ILC. As únicas vias de comunicação com os nossos subscritores passaram a ser a nossa página no Facebook, com cerca de 9.500 seguidores, e o sítio oficial da ILC, em www.ilcao.com. Claro que o Facebook não permite o contacto directo com seguidores — uma publicação nessa rede pode nem chegar a um décimo das pessoas que seguem uma página.

Aconteceu, também, a dispersão dos próprios anti-acordistas. É um fenómeno estranho, mas real: há quem assine tudo o que for contra o AO… excepto esta ILC. Queixas na Provedoria, petições, cartas abertas, pedidos de referendos, manifestações e até — pasme-se — uma petição “com valor simbólico de ILC”. Tudo é preferível à participação numa ILC a sério.

Nenhuma daquelas iniciativas produziu resultados. Mas, a cada revés, os seus promotores optam sempre por começar algo novo, a partir do zero. Apoiar uma ILC praticamente concluída parece estar fora de questão.

Que mais pode acontecer? Que tal uma nova mudança nas regras das ILC? Sim, a notícia do fim do n.º de eleitor revelou-se algo exagerada. Esta ILC pôs de pé um portal para subscrição online da Iniciativa — suprindo o vazio criado pela Lei, que assegurou essa possibilidade na teoria mas não na prática.

Passado menos de um ano, eis que esse portal se torna obsoleto. Sob protesto, lá tivemos de meter novamente mãos à obra, acrescentando os campos que, aos olhos da Assembleia da República, são afinal imprescindíveis.

Tudo isto — “redes sociais” que não funcionam, tiros no pé de anti-acordistas e burocracia da Assembleia da República — afecta bastante a luta contra o Acordo.

Mas nada é tão pernicioso como o muro de indiferença que continua a rodear este assunto. A existência do AO90 é insustentável — e, no entanto, o AO90 arrasta-se. Este paradoxo, alimentado pelo desnorte de sucessivos governos no capítulo da Língua, é um duro teste à nossa capacidade para resistir ao disparate.

A própria Assembleia da República contribui para o marasmo ao criar (mais) um Grupo de Trabalho para avaliar o impacto do AO90. Os testemunhos recolhidos até agora não serão já suficientes para que se tirem conclusões? Aparentemente, não. A única conclusão do GT, até ao momento, é a de que deve continuar a avaliar.

Mas há mais e pior: a anunciada “revisão” do AO90, que ameaça tornar-se a machadada final no Português Europeu. Se se concretizar, tornar-se-á uma emenda pior do que o soneto. Se não se concretizar, terá consumido a esperança de quem, à falta de melhor, viu na revisão o remendo possível para o AO90. Para já, o único resultado desse anúncio parece ser uma anestesia ainda maior da luta contra o Acordo.

Vêm-me à memória as palavras de Nuno Pacheco, redactor-principal deste jornal: “Valha-nos, ao menos, a insistência da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o acordo. Deviam assiná-la todos os que ainda não perderam a coragem.”

Pela parte que nos toca, não contem connosco para deitar a toalha ao chão. O “endereço” para a subscrição electrónica aqui fica: https://ilcao.com/subscricoes/subscrever.

Se estão fartos de petições, de iniciativas de referendo ou de promessas de revisão, assinem. Se nunca ouviram falar desta ILC, assinem. E se tiverem 4379 amigos*, tragam-nos também. O futuro da Língua Portuguesa está nas vossas mãos.

Comissão Representativa da ILC-AO

*N.º de assinaturas que faltam para as 20.000

NOTA: Por lapso, a versão que inicialmente se publicou neste espaço foi a mais reduzida, destinada à publicação na edição em papel, agora substituída pela versão integral.

 

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