Nov 18 2017

4379 cidadãos para a Língua Portuguesa (versão original)

No Verão passado, fez agora um ano, tive o azar de dizer em voz alta: “Move-se. E, desta vez, não me parece que possa ser parada.”

Referia-me à Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) contra o Acordo Ortográfico (AO). Este movimento acabava de ganhar um novo fôlego com a redução do número de assinaturas necessárias para apresentar uma ILC no Parlamento (de 35.000 para 20.000) e com a possibilidade de recolhermos as assinaturas em falta por via electrónica. Para cúmulo das facilidades, até o vetusto n.º de eleitor desapareceu, deixando de ser necessário para a subscrição. Cheguei a ponderar um “não pode ser parada”. Felizmente, mantive o “não me parece” — salvei-me assim do pecado da soberba, limitando-me a ser ingénuo.

Em meu abono, convenhamos que o cenário era francamente animador. Se foi possível reunir mais de 14.000 assinaturas no tempo das vacas magras, quando era preciso assinar fisicamente um papel e enviá-lo pelo correio, não haveríamos de conseguir agora uns meros 5000 e poucos cliques de rato? Parecia fácil. Parece fácil, ainda hoje…

Do ponto de vista científico o AO90 era, e ainda é, indefensável. O Português Europeu e o Português do Brasil não são miscíveis — não podemos escrever “desporto” numa frase e optar por “esporte” no parágrafo seguinte. A ideia de uma ortografia comum para duas Línguas onde TUDO é diferente — vocabulário, sintaxe, prosódia, criação de neologismos — só podia resultar num absurdo. Como se previa, o AO tornou-se a “ortografia” do desconchavo, da facultatividade, do substantivo-com-espaços, do agravo estético, das dezenas de novas homofonias e homografias tão prejudiciais quanto perfeitamente evitáveis.

Não admira que muitos portugueses continuem a considerar o AO90 uma “ortografia” ridícula e sem estilo — boa para um efeito cómico fácil mas pouco adequada ao discurso sério.

Do ponto de vista político, o contexto era, e ainda é, um desastre! Na CPLP, o Acordo Ortográfico é um corpo estranho, um entrave ao que poderia ser uma verdadeira política de intercâmbio cultural. Em vez da troca de experiências e da criação de um circuito artístico deu-se primazia ao “turismo linguístico” em que os mesmos quatro conferencistas de sempre fazem a tournée mundial da defesa do AO90. Será certamente mais barato fazer um Acordo Ortográfico mas o Teatro, a Dança ou a Música nada ganham com isso. Nem a Literatura. Nem sequer, ironia, a edição de livros. De resto, Angola e Moçambique não assinam nem estão preocupados com o Acordo, a Guiné Equatorial não sabe que ele existe e o duvidoso estatuto de Língua oficial da ONU não responde ao problema cientifico: se não são miscíveis, de que variante estamos a falar quando falamos em Língua oficial nas Nações Unidas? Aceitam-se apostas.

Finalmente, do ponto de vista social o cenário era, e ainda é, calamitoso. Com o AO veio a noção de arbitrariedade ortográfica, do “agora tanto faz” e do “escreve-se das duas maneiras”. Instalou-se o cAOs ortográfico, que o ensino do AO nas escolas ameaça agravar.

Nesta conjuntura, com o Acordo Ortográfico em tão mau estado, reunir as assinaturas em falta parecia uma brincadeira de crianças. Parecia… mas não foi.

Aconteceu um pouco de tudo. Para começar, a plataforma Causes juntou-se ao grande “has-been” tecnológico onde estão o Napster e o Altavista — de uma assentada, perdemos o contacto com mais de 120.000 seguidores da ILC. As únicas vias de comunicação com os nossos subscritores passaram a ser a nossa página no Facebook, com cerca de 9.500 seguidores, e o sítio oficial da ILC, em www.ilcao.com. Claro que o Facebook não permite o contacto directo com seguidores — uma publicação nessa rede pode nem chegar a um décimo das pessoas que seguem uma página.

Aconteceu, também, a dispersão dos próprios anti-acordistas. É um fenómeno estranho, mas real: há quem assine tudo o que for contra o AO… excepto esta ILC. Queixas na Provedoria, petições, cartas abertas, pedidos de referendos, manifestações e até — pasme-se — uma petição “com valor simbólico de ILC”. Tudo é preferível à participação numa ILC a sério.

Nenhuma daquelas iniciativas produziu resultados. Mas, a cada revés, os seus promotores optam sempre por começar algo novo, a partir do zero. Apoiar uma ILC praticamente concluída parece estar fora de questão.

Que mais pode acontecer? Que tal uma nova mudança nas regras das ILC? Sim, a notícia do fim do n.º de eleitor revelou-se algo exagerada. Esta ILC pôs de pé um portal para subscrição online da Iniciativa — suprindo o vazio criado pela Lei, que assegurou essa possibilidade na teoria mas não na prática.

Passado menos de um ano, eis que esse portal se torna obsoleto. Sob protesto, lá tivemos de meter novamente mãos à obra, acrescentando os campos que, aos olhos da Assembleia da República, são afinal imprescindíveis.

Tudo isto — “redes sociais” que não funcionam, tiros no pé de anti-acordistas e burocracia da Assembleia da República — afecta bastante a luta contra o Acordo.

Mas nada é tão pernicioso como o muro de indiferença que continua a rodear este assunto. A existência do AO90 é insustentável — e, no entanto, o AO90 arrasta-se. Este paradoxo, alimentado pelo desnorte de sucessivos governos no capítulo da Língua, é um duro teste à nossa capacidade para resistir ao disparate.

A própria Assembleia da República contribui para o marasmo ao criar (mais) um Grupo de Trabalho para avaliar o impacto do AO90. Os testemunhos recolhidos até agora não serão já suficientes para que se tirem conclusões? Aparentemente, não. A única conclusão do GT, até ao momento, é a de que deve continuar a avaliar.

Mas há mais e pior: a anunciada “revisão” do AO90, que ameaça tornar-se a machadada final no Português Europeu. Se se concretizar, tornar-se-á uma emenda pior do que o soneto. Se não se concretizar, terá consumido a esperança de quem, à falta de melhor, viu na revisão o remendo possível para o AO90. Para já, o único resultado desse anúncio parece ser uma anestesia ainda maior da luta contra o Acordo.

Vêm-me à memória as palavras de Nuno Pacheco, redactor-principal deste jornal: “Valha-nos, ao menos, a insistência da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o acordo. Deviam assiná-la todos os que ainda não perderam a coragem.”

Pela parte que nos toca, não contem connosco para deitar a toalha ao chão. O “endereço” para a subscrição electrónica aqui fica: https://ilcao.com/subscricoes/subscrever.

Se estão fartos de petições, de iniciativas de referendo ou de promessas de revisão, assinem. Se nunca ouviram falar desta ILC, assinem. E se tiverem 4379 amigos*, tragam-nos também. O futuro da Língua Portuguesa está nas vossas mãos.

Comissão Representativa da ILC-AO

*N.º de assinaturas que faltam para as 20.000

NOTA: Por lapso, a versão que inicialmente se publicou neste espaço foi a mais reduzida, destinada à publicação na edição em papel, agora substituída pela versão integral.

 

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Nov 17 2017

Sai uma espetada para o senhor espetador! [Nuno Pacheco, PÚBLICO, 16.11.2017]

Sai uma espetada

Sai uma espetada para o senhor espetador!

Na “ortografia unificada” a regra é mesmo a mistela. Uns tiram uns hífenes, outros tiram umas letras, e há até quem as acrescente sem pensar.
Nuno Pacheco
Público, 16 de Novembro de 2017, 7:30

 

Andou escondido, durante uns tempos, mas reapareceu. Nada a ver com Tancos, com a tragédia dos incêndios nem com o já cansativo Panteão. Trata-se do espetador. Sim, esse mesmo. Por vergonha, muita gente foi adoptando a grafia “espectador”, talvez por não quererem espetar nada em ninguém. O “espetáculo” ainda vá, lá vai surgindo com “c” ou sem ele, consoante os gostos. Já o espetador tinha desaparecido. Mas reapareceu em todo o seu esplendor. No Teatro da Trindade, agora mais activo em matéria de “espetáculos”, distribui-se um papelinho onde se lê “Antes do espetáculo, venha ao bar do teatro! -30% na comida para espetadores com bilhete do dia.” Qual será o menu? Espetadas? Na contracapa do DVD com o (muito recomendável) filme São Jorge, de Marco Martins, lê-se o seguinte: “Uma obra prima. Um banquete cinematográfico que mantém o espetador colado à cadeira.” Não deviam, antes, dizer pregado à cadeira? Ou espetado na cadeira?

O mais curioso é que se trata da tradução de uma nota elogiosa escrita no The Huffington Post; ou seja, a culpa não é de quem escreveu mas de quem traduziu. Quanto ao “espetador”, que no Brasil se diz e escreve “espectador”, com “c”, embora só se admita a grafia sem “c” para “espetáculo” (e esta é uma das muitas incongruências patentes na grafia oficial brasileira, mesmo antes do acordo ortográfico), o Vocabulário Ortográfico Comum (VOC) de Portugal admite duas variantes, com e sem “c”, à escolha do freguês. Mas há outro erro na frase, “obra prima”: a designação em português para masterpiece, chef-d’ouvre, obra maestra, meisterwerk ou capolavoro é obra-prima com hífen, seja em Portugal ou no Brasil, antes ou depois do acordo (está no VOC, é só conferir). Porque não há obras primas, como não há obras tias ou obras avós; é palavra composta, onde a justaposição por via do hífen lhe dá um significado novo: o de obra máxima, de excelência absoluta. Claro que estas coisas nada dizem às criaturas que tiram e põem hífenes ou consoantes a eito, porque acham que reformas é isso: tirar sinais. Basta ver as notas de rodapé nas televisões, ler legendas de filmes ou andar pelos museus para avaliar o descalabro desta aleatoriedade. Um exemplo: na colecção permanente do Museu Berardo, em Belém, há um painel intitulado “Concetualismo”. No texto desse painel, lê-se essa palavra por mais duas vezes, e lê-se também “coletivo”, respeitando os ditames do acordo ortográfico de 1990 (AO). Mas lê-se “caracterização”, “recepção”, “cariz conceptual” ou “arte conceptual”. Nem uma só vez “concetual” surge no texto. Já agora, esclareça-se que o dito VOC do Brasil não reconhece “concetualismo” nem “concetual”. Elas só existem no VOC de Portugal, mas admitindo dupla grafia. É isso: escolham.

E escolhem, nem que seja ao acaso. Numa separata comercial recente, lê-se “arquitectura” no título (com “c”), mas “atividade”, “direcionada” e “objetivos” (sem “c”) a par de “sector” (com “c”). Que bela salada mista proporciona a “ortografia unificada” que nos impingiram! Sim, porque antes do malfadado AO não havia tais mixórdias. Um exemplo, elegante e digno: a revista especializada Áudio & Cinema em Casa não respeita o AO em nenhum dos seus textos. No entanto, tem um colunista brasileiro (interessantíssimo, aliás), Holbein Menezes, cujas crónicas ou textos de análise respeitam integralmente a grafia brasileira, seja nas “eletrônicas” ou nos “fenômenos”. Vantagem: nuns e noutros textos, a ortografia é impecável, seja no português de Portugal ou do Brasil. Há mais exemplos destes, felizmente, em espectáculos, discos, livros, museus, de onde a mistela ortográfica é afastada como sujidade indesejável. Mas, apesar dessas honrosas excepções, a regra é mesmo a mistela. Uns tiram uns hífenes, outros tiram umas letras, e há até quem as acrescente sem pensar.

Será depois do Verão?, escreveu-se aqui numa das crónicas sobre o malfadado AO. Ainda não foi. Apesar das escusas, dos protestos, da evidência clamorosa de erros, ainda nada se corrigiu e tudo segue na miséria de antes. Saúde-se o sinal de vida dado, esta semana, pela Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, através de um texto de Rui Valente no PÚBLICO intitulado “4379 Cidadãos para a Língua Portuguesa.” Esta e outras iniciativas contribuem para que não se esqueça tão magno assunto. Não é saudosismo nem reaccionarismo, como pretendem os mentores dessa aberração técnica e linguística conhecida por acordo ortográfico. É apenas senso. E higiene.

P.S.: Entre muitos outros textos publicados sobre este tema, destacaria aqui uma série relativamente recente, que tem vindo a ser publicada no PÚBLICO online, da autoria do jornalista, formador e revisor Manuel Matos Monteiro, sob o título genérico “Admirável Língua Nova” (parte I, parte II, parte III e parte IV).

Nuno Pacheco, Público, 16 de Novembro 2017
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Nov 14 2017

4379 cidadãos para a Língua Portuguesa

Público_4379No Verão passado, fez agora um ano, tive o azar de dizer em voz alta: “Move-se. E, desta vez, não me parece que possa ser parada.”

Referia-me à Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) contra o Acordo Ortográfico (AO). Este movimento acabava de ganhar um novo fôlego com a redução do número de assinaturas necessárias para apresentar uma ILC no Parlamento (de 35.000 para 20.000) e com a possibilidade de recolhermos as assinaturas em falta por via electrónica. Para cúmulo das facilidades, até o vetusto n.º de eleitor desapareceu, deixando de ser necessário para a subscrição. Cheguei a ponderar um “não pode ser parada”. Felizmente, mantive o “não me parece” — salvei-me assim do pecado da soberba, limitando-me a ser ingénuo.

Em meu abono, convenhamos que o cenário era francamente animador. Se foi possível reunir mais de 14.000 assinaturas no tempo das vacas magras, quando era preciso assinar fisicamente um papel e enviá-lo pelo correio, não haveríamos de conseguir agora uns meros 5000 e poucos cliques de rato? Parecia fácil. Parece fácil, ainda hoje…

O Acordo Ortográfico sempre foi um desastre, sob todos os pontos de vista: científico, político, social. A fuga para a frente e a insistência na sua aplicação só tem servido para agravar ainda mais o estado da ortografia no nosso país. Neste contexto, reunir as assinaturas em falta parecia uma brincadeira de crianças. O que correu mal?

Aconteceu um pouco de tudo. Para começar, a plataforma Causes acabou — de uma assentada, perdemos o contacto com mais de 120.000 seguidores da ILC. As únicas vias de comunicação com os nossos subscritores passaram a ser a nossa página no Facebook, com cerca de 9500 seguidores, e o sítio oficial da ILC, em www.ilcao.com.

Aconteceu, também, a dispersão dos próprios anti-acordistas. É um fenómeno estranho, mas real: há quem assine tudo o que for contra o AO… excepto esta ILC. Queixas na Provedoria, petições, cartas abertas, pedidos de referendos, manifestações e até — pasme-se — uma petição “com valor simbólico de ILC”. Tudo é preferível à participação numa ILC a sério.

Nenhuma daquelas iniciativas produziu resultados. Mas, a cada revés, os seus promotores optam sempre por começar algo novo, a partir do zero. Apoiar uma ILC praticamente concluída parece estar fora de questão.

Que mais pode acontecer? Que tal uma nova mudança nas regras das ILC? Sim, a notícia do fim do n.º de eleitor revelou-se algo exagerada. Esta ILC pôs de pé um portal para subscrição online da Iniciativa mas, passado menos de um ano, eis que esse portal se torna obsoleto. Lá tivemos de meter novamente mãos à obra, acrescentando os campos que, aos olhos da Assembleia da República, são afinal imprescindíveis.

Tudo isto — “redes sociais” que não funcionam, tiros no pé de anti-acordistas e burocracia da Assembleia da República — afecta bastante a luta contra o Acordo.

Mas nada é tão pernicioso como o muro de indiferença que continua a rodear este assunto. A existência do AO90 é insustentável — e, no entanto, o AO90 arrasta-se. Este paradoxo, alimentado pelo desnorte de sucessivos governos no capítulo da Língua, é um duro teste à nossa capacidade para resistir ao disparate.

A própria Assembleia da República contribui para o marasmo ao criar (mais) um Grupo de Trabalho para avaliar o impacto do AO90, cuja única conclusão, até ao momento, é a de que deve continuar a avaliar.

Mas há mais e pior: a anunciada “revisão” do AO90, que ameaça tornar-se a machadada final no Português Europeu. Para já, o único resultado desse anúncio parece ser uma anestesia ainda maior da luta contra o Acordo.

Vêm-me à memória as palavras de Nuno Pacheco, redactor-principal deste jornal: “Valha-nos, ao menos, a insistência da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o acordo. Deviam assiná-la todos os que ainda não perderam a coragem.”

Pela parte que nos toca, não contem connosco para deitar a toalha ao chão. O “endereço” para a subscrição electrónica aqui fica: https://ilcao.com/subscricoes/subscrever.

Se estão fartos de petições, de iniciativas de referendo ou de promessas de revisão, assinem.  Se nunca ouviram falar desta ILC, assinem. E se tiverem 4379 amigos*, tragam-nos também. O futuro da Língua Portuguesa está nas vossas mãos.

Comissão Representativa da ILC-AO

*N.º de assinaturas que faltam para as 20.000

 

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Out 28 2017

O Futuro da Língua Portuguesa

M., camarada de armas na luta contra o Acordo Ortográfico, disse-nos há dias que está grávida. Fantástico! Se alguma coisa de bom devemos ao AO90 será certamente esta ponte entre um grupo alargado de pessoas maravilhosas, que não teríamos conhecido de outro modo. A notícia desta gravidez foi uma alegria enorme, como não podia deixar de ser. E, se tudo correr bem, M. e o Pedro irão ter uma menina lá para o final de Janeiro.

Além da grande satisfação pelo acontecimento, a notícia tem ainda um sabor especial: sendo filha de M., o simples nascimento desta bebé é desde logo a garantia de que, por muitas e boas décadas, o AO45 continuará a ser usado.

Falamos, obviamente, do nosso país. No resto do mundo o AO45 parece ter assegurado um futuro risonho, com Angola e Moçambique no pelotão da frente dos países que o utilizam. Já que falamos de nascimentos, prevê-se que, em 2050, estes dois países tenham, no seu conjunto, mais de 120 milhões de habitantes. Nesse ano, o Brasil terá 223 milhões. Mas há um pormenor interessante. Dizem os analistas que estes três países alcançarão essa data com dinâmicas diferentes. Prevê-se que o Brasil, em queda, chegue ao ano 2100 com 178 milhões de habitantes, sendo ultrapassado por Angola e Moçambique algures na segunda metade deste século.

Estes números são apenas uma curiosidade estatística. Mas não posso deixar de sorrir quando penso no argumento acordista para nos impingirem o Português do Brasil — que é, no fundo, o que significa “adotar” o AO90. “Temos de juntar-nos à maioria”, diziam eles, “sob pena de passarmos a ser uma variante irrelevante”. Que maioria?

Claro que todo o argumento é uma falácia. Adoptar a ortografia de um país estrangeiro — sendo que, por arrasto, já se insinua também o vocabulário — é um absurdo enorme. Já agora, porque haveremos de ficar-nos pelo Português do Brasil, que é só a sexta Língua mais falada do mundo? O ideal seria mesmo um Acordo Ortográfico com a China. Passaríamos a escrever em mandarim, no primeiro lugar do podium linguístico mundial. É verdade que o mandarim não é a nossa “ortografia materna”. Mas o AO90 também não. O AO90 não é nada.

Não é nada… em Portugal, pois claro. No Brasil o AO90 é tudo porque é exactamente a ortografia que já existia, com ligeiríssimas modificações que já tinham aceitado anteriormente. Em Angola e Moçambique — que, ainda assim, não adoptaram o AO90 — teríamos de considerar que o Português é Língua Oficial mas não é a Língua Materna da maior parte da população. Portugal é, de facto, o único país afectado por um Acordo Ortográfico onde todos ficam com a ortografia que já tinham — excepto nós, portugueses, que ficamos com esta coisa artificial, execrável, fruto da loucura incurável que assola linguistas nacionais há mais de cem anos.

Perdoar-me-ão, portanto, os meus amigos brasileiros e demais falantes de Português espalhados pelo mundo. Como se imagina, preocupa-me mais o futuro do Português Europeu em Portugal do que os sobressaltos introduzidos pelo AO nesses países.

Valha-nos M., com a sua gravidez e boa disposição. Quando lhe disse que a filha dela estará ainda a escrever em Português Europeu daqui por muitos anos não a imaginei, obviamente, a escrever sozinha em Português correcto, cercada de acordistas por todos os lados. A luta contra o AO90 — a caminho das três décadas! — está viva, recomenda-se, e continuará até que se faça luz na mente dos nossos governantes.

Mas foi a resposta da futura mãe que melhor evidenciou o espírito e a atitude que devemos ter perante o “coiso”: “vamos torcer para que daqui a 6 anos (quando a miúda entrar na escola) esse problema já não exista…!”

Oh, sim! Vamos! :^)

(imagem: De Rerum Natura)

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Set 10 2017

Que não seja por isso…

Na semana passada falámos aqui na entrada em vigor de novas regras para a subscrição desta ILC. O fim do Número de Eleitor, anunciado com pompa no Verão de 2016, revelou-se sol de pouca dura. Ao fim de menos de um ano, eis que essa informação volta a ser obrigatória para novas subscrições.

Trata-se, como é evidente, de mais um entrave para a prossecussão dos nossos objectivos. O Nº de Eleitor é um dado que ninguém sabe de cor. Para preencher o formulário de subscrição da ILC, o subscritor passa agora a ter de preencher previamente um outro formulário — o da pesquisa no Portal do Recenseamento.

Graças a esta “inovação”, a subscrição desta ILC passa a demorar o triplo do tempo e, pior do que isso, o impulso para subscrever complica-se: a probabilidade de o subscritor adiar a sua subscrição para “mais tarde” aumenta exponencialmente.

Mas convém esclarecer: este retrocesso da Lei está para lá da simples complicação processual. Mesmo que alguém, porventura, saiba de cor os seus dados de eleitor o contra-senso subsiste: a A.R. exige a inclusão de dados que já é possível obter a partir do Nº do Cartão de Cidadão e da data de nascimento, que também são pedidos. É uma burocracia desnecessária, que penaliza toda a gente, em especial aqueles que estão menos familiarizados com a coisa informática.

Contrariados, pedimos (numa primeira fase) aos novos subscritores para utilizarem o campo “Observações” para inserirem o nº de Eleitor e a Freguesia e Concelho de recenseamento.

Claro que esta solução não só era pouco elegante como estava sujeita a erros de preenchimento e tratamento de dados. Se o Nº de Eleitor é mesmo incontornável, então, não seja por isso — enquanto tiver de ser, mais vale fazermos as coisas como devem ser feitas.

Por este motivo, e sempre sob protesto, disponibilizámos há dias o formulário já com espaço para os dados que agora voltaram a ser exigidos pela Assembleia da República.

Desde logo, e embora a Lei não o refira, parece-nos coerente incluir toda a informação referente ao recenseamento e não apenas o Nº de Eleitor, que pode repetir-se em diferentes Freguesias do país. Neste pressuposto, havia pelo menos que facilitar o preenchimento desta informação. As listas de Concelhos e de Freguesias são apresentadas em menu, sendo que, quando um Concelho é seleccionado, o menu das Freguesias restringe-se automaticamente às Freguesias desse mesmo Concelho.

Não foi tarefa fácil. Existem centenas de concelhos e milhares de freguesias, e o Ministério da Administração Interna, por estranho que pareça, não disponibiliza (ou, pelo menos, não é fácil encontrar) essa informação. Quem sabe isso é o Minstério das Finanças, pois claro — e, mesmo assim, foi ainda necessário corrigir pontualmente a lista de Freguesias.

Modéstia à parte, cremos que continuamos a definir um padrão, tanto em termos de segurança como de procedimentos — e a desbravar caminho para futuras ILC.

Esperamos que seja possível desbravar caminho, também, para a Língua Portuguesa. Tudo depende de si, caro leitor. Se ainda não subscreveu a ILC tem agora um formulário renovado à sua disposição.

 

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