O que está em causa

Enquanto esperamos que a Conferência de Líderes agende o debate e votação do Projecto de Lei n.º 1195/XIII vale a pena recordar o que está em causa nesta iniciativa legislativa.

Em primeiro lugar, devemos ter consciência de que qualquer Acordo Ortográfico que tenha por fim “unificar” as duas normas existentes — Português Europeu e Português do Brasil — está votado ao fracasso. Os promotores do AO90 evocam, compungidos, o grande cisma ortográfico de 1911, ignorando que a Língua escrita é também vocabulário e é também sintaxe. Nesse sentido, o afastamento entre as duas normas é um processo natural, muito anterior à implantação da República — começa, muito provavelmente, no dia em que o Padre António Vieira decide aprender tupi para mais facilmente evangelizar o Brasil. E é, obviamente, um processo irreversível.

Muito se estranha, portanto, o reiterado afã de produzir acordos ortográficos que volta e meia aflige alguns estudiosos, ainda que ninguém lhos peça nem neles vislumbre qualquer utilidade. Pelo contrário, a cada novo projecto de AO multiplicam-se críticas e pareceres negativos, aos quais se junta a oposição generalizada dos portugueses.

Neste cenário, percebe-se facilmente que, aquando da sua assinatura, no fatídico dia 16 de Dezembro de 1990, o AO90 preparava-se para ser apenas mais um na já longa lista de acordos ortográficos falhados entre Portugal e o Brasil — certamente cairia por si, sem ser preciso combatê-lo. Infelizmente, como sabemos, as coisas não se passaram exactamente assim. O Acordo Ortográfico falhou, como não podia deixar de acontecer, mas, paradoxalmente, entrou em vigor em alguns países, sendo um deles Portugal.

Para percebermos como foi isto possível temos de recuar um pouco no tempo.

Na sua origem, o Acordo Ortográfico de 1990 resumia-se em quatro singelos artigos:

• O primeiro artigo aprovava as modificações a introduzir na ortografia — as tais que, como vimos, só prejudicam, sem que delas advenha qualquer benefício.

• O segundo artigo dizia que os signatários, até ao dia 1 de Janeiro de 1993, elaborariam um vocabulário ortográfico comum (VOC) da Língua Portuguesa — aparentemente, uma espécie de “caldeirão” onde seriam vertidas todas as palavras de todos os países da CPLP. Graças a esta benesse, passaríamos a ter à nossa disposição palavras como “mouse” [informática], “registro” ou “pantorrilha”. Sendo à partida uma ferramenta que pode ser interessante, o VOC, que ainda hoje não está concluído, não precisava obviamente de um Acordo Ortográfico para ser elaborado — embora, como se vê pela amostra, não dispense a organização de um rigoroso manual de instruções.

• O terceiro artigo dizia que o Acordo Ortográfico entraria em vigor a 1 de Janeiro de 1994, após depositados os instrumentos de ratificação de todos os Estados junto do Governo da República Portuguesa. Sublinhe-se “todos os Estados”, com ênfase no “TODOS”, como é lógico — se é para “unificar” não poderia ser de outro modo.

• E, finalmente, o quarto e último artigo dizia que os Estados tomariam as medidas consideradas adequadas para que se respeitasse a data de entrada em vigor prevista no Art. 3º.

Perante este articulado, como é bem de ver, escritores, tradutores, poetas, jornalistas e, de um modo geral, quem quer que estime a sua Língua materna e a use como ferramenta de trabalho, investigação ou estudo nas mais variadas áreas, da Medicina à Culinária, passado pela Química, Biologia, Informática e outras, mais não tinha de fazer do que cruzar os braços e esperar que a infeliz criatura seguisse o seu caminho em direcção ao esquecimento.

Quando tudo apontava para esse desfecho, eis que os promotores do AO começam a movimentar-se, alterando as regras do jogo que eles próprios haviam criado.

Em 1998, já os prazos originais estavam mais do que furados. No que só pode ser visto como uma “fuga para a frente”, surge o Primeiro Protocolo Modificativo. Reunidos na Praia (Cabo Verde), decidem os signatários extirpar os Artigos 2º e 3º de tão incómodos horizontes temporais.

Como é evidente, esse expediente não produziu qualquer efeito, pois subsistia ainda a necessidade de o Acordo Ortográfico ter de ser ratificado por todos os países envolvidos. À data, 14 anos volvidos sobre o Acordo original, só um país tinha ratificado o AO90 — o Brasil.

Qualquer um veria neste cenário uma prova de que, efectivamente, o Acordo Ortográfico não desperta o interesse de ninguém. Não foi esse o entendimento dos promotores do AO90. Em 2004, desta vez reunidos em São Tomé, entendem por bem promover o Segundo Protocolo Modificativo, alterando mais uma vez o Art.º 3º do Acordo Ortográfico: deixa de ser necessária a ratificação do Acordo Ortográfico por todos os países, bastando apenas a ratificação por três desses países.

Seria difícil conceber um maior esvaziamento da letra e do sentido de qualquer acordo e, por maioria de razão, de um acordo que pretenda “unificar” o que quer que seja.

Pior, ou, neste caso, melhor, só a criação de um Terceiro Protocolo Modificativo que altere a redacção do Artigo 1º, tornando facultativa a adopção das novas normas ortográficas por parte dos países signatários. Talvez assim se consiga reunir, passados mais de 30 anos, a ratificação ou a adesão efectiva de Angola, Moçambique e demais países da CPLP que não seguem o Tratado. Fica a sugestão.

No que à ILC diz respeito — e estamos finalmente a chegar ao cerne da questão — o Projecto de Lei n.º 1195/XIII debruça-se sobre este “pormenor” do II Protocolo Modificativo.

Como se imagina, cada uma destas modificações introduzidas no AO90 assumiu, por sua vez, a figura de um Tratado — que, tal como o Acordo Ortográfico original, teve de ser objecto de aprovação e ratificação por cada um dos países envolvidos.

Em Portugal, o II Protocolo Modificativo foi submetido à apreciação da Assembleia da República em 2008, através de um Projecto de Resolução. Tendo sido aprovado, transformou-se na Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008 — aprova o II Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Uma nota adicional sobre esta segunda alteração do Acordo Ortográfico: tendo sido redigida em 2004, os promotores do AO resolveram ter em conta a independência de Timor-Leste, alcançada em 2002. Deste modo, o II Protocolo Modificativo introduz não uma, mas duas alterações no texto original. A primeira, como vimos, é a nova redacção do Art.º 3º, eliminando a necessidade da ratificação do AO por todos os países. A segunda é a criação de um novo Artigo, o 5º, abrindo a possibilidade de o AO90 ser ratificado pelo novo país.

Com o distanciamento e a frieza que hoje nos permitimos ter sobre todo este processo, torna-se ainda mais evidente o que sempre dissemos: toda esta saga do Acordo Ortográfico começou mal, com a invenção do próprio AO, e só piorou com as sucessivas alterações introduzidas.

Os subscritores da ILC-AO entendem que, em 2008, a Assembleia da República devia ter dito “basta”.

Se o AO90 promovia uma unificação impossível, o II Protocolo Modificativo consagrou a existência de três normas no espaço da CPLP — um resultado diametralmente oposto ao que certamente era pretendido pelas mentes esclarecidas de quem julgou necessário um Acordo Ortográfico. Hoje em dia, a própria Wikipedia, entidade acima de qualquer suspeita de anti-acordismo, reconhece esse facto: “Contudo, um dos efeitos do Acordo foi o de dividir ainda mais estes países, criando agora três normas ortográficas: a do Brasil, de Portugal e dos restantes países africanos que não implantaram o Acordo apesar de o terem assinado.”

Os subscritores da ILC-AO vão mais longe, defendendo que o debate em torno da RAR 35/2008 foi mal feito, pouco esclarecido e inquinado pela disciplina de voto vigente entre os diversos grupos parlamentares. A própria questão de Timor-Leste foi fonte de equívocos: graças à sua apresentação num único “pacote” legislativo, uma medida tão disparatada quanto a redução do número de ratificações apanhou a “boleia” do capital de simpatia da abertura a Timor-Leste, num gesto que muitos viram como a integração “de facto” do novo país na CPLP.

Poucos foram os deputados que, a exemplo de Manuel Alegre (PS) ou Luísa Mesquita (não-inscrita), souberam interpretar o que estava em causa neste processo e votaram contra a aprovação desta Resolução.

Mais votos contra teria havido, certamente, não fosse a malfadada disciplina partidária. Veja-se o caso de Matilde Sousa Franco (PS), que declara ter pedido licença para votar contra: “foi-me dito tal ser impossível devido à disciplina de voto e evidentemente obedeci, mas foi-me concedida autorização para me ausentar no momento da votação, o que fiz.” A avaliar pelo quadro de votações nesse dia, vemos que Matilde Sousa Franco não consta da lista de ausências — muito provavelmente, a sua vontade não terá sido respeitada, tendo o seu voto sido considerado como favorável.

O nosso Projecto de Lei parte do princípio de que a Assembleia da República pode e deve rever uma sua Resolução e, se for o caso, ter a coragem de admitir que errou.

O nosso Projecto de Lei revoga apenas a RAR 35/2008 — não o segundo Protocolo Modificativo ou o próprio Acordo Ortográfico. Mas abre a porta para um verdadeiro debate sobre a pertinência de um Acordo Ortográfico que ninguém pediu e que falhou os seus objectivos — mas que, graças ao “truque” do II Protocolo Modificativo, continua a subsistir como um corpo estranho no seio dos próprios países que se propunha aproximar.

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2021/02/11/o-que-esta-em-causa/

“Propaganda ortográfica na Assembleia da República” (Francisco Miguel Valada, PÚBLICO, 25.01.2021)

www.presidencia.pt › …
23 Nov 2018 Bem-vindo à página oficial da Presidência da República Portuguesa. Nota à navegação com tecnologias de apoio. Nesta página encontra 2 …
Presidente da República em Cerimónia Militar de Receção das …
www.presidencia.pt › comandantesupremo
21 Mar 2016 Welcome to the Official page of the Presidency of the Portuguese Republic. Note on navigating with support technologies. On this page you will …
Presidente Marcelo Rebelo de Sousa ofereceu Receção em …
www.presidencia.pt › …
12 Dez 2016 O Presidente da República ofereceu, nas Nações Unidas, em Nova Iorque, uma Receção em homenagem ao Secretário-Geral designado das …
Presidente da República recebeu Delegação Paralímpica na …
www.presidencia.pt › …
31 Ago 2016 O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa recebeu, no antigo Museu Nacional dos Coches, o Comité Paralímpico de Portugal e a Delegação …
Aspeto da execução do contrato submetido à concorrência …
Diário da República Eletrónico › web › guest › lexionario › view
O Lexionário é um dicionário de conceitos jurídicos especialmente dirigido a não -juristas e permite-lhe aceder a termos como: Aspeto da execução do contrato …
Receção após anúncio da realização da Fase final da Liga dos …
www.presidencia.pt › …
17 Jun 2020 Receção após anúncio da realização da Fase final da Liga dos Campeões em Portugal. O Presidente da República recebeu, no Palácio de …
Receção à Comunidade Portuguesa em Berlim – NOTÍCIAS …
www.presidencia.pt › …
7 Ago 2019 Visita Oficial à Alemanha – Receção à Comunidade Portuguesa na Residência do Embaixador de Portugal em. Receção à Comunidade …
Regula as condições específicas da prestação dos serviços de
Diário da República Eletrónico › web › guest › legislacao-consolidada › diploma › indice
4 – As entidades autorizadas a explorar e a gerir centrais de Receção e monitorização de sinais de alarme e de videovigilância, devem, antes da ativação do …
Aspeto da execução do contrato não submetido à – Lexionario
Diário da República Eletrónico › web › guest › lexionario › view
Aspeto da execução do contrato não submetido à concorrência (contratação pública). Lexionário. Palavras-chave: caderno de encargos; contratos públicos; …
Carta aberta do Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior …
www.portugal.gov.pt › comunicacao › documento
21 Set 2020 … no âmbito do início do ano e da Receção e integração dos novos estudantes do ensino superior – XXII Governo – República Portuguesa.
Regras nacionais complementares de reconhecimento das …
www.portugal.gov.pt › consulta-publica
11 Fev 2019 Regras nacionais complementares de reconhecimento das organizações de produtores e respetivas associações – XXI Governo – República …
Receção a alunos no Ensino Superior – Imagens – Primeiro-Ministro …
www.portugal.gov.pt › primeiro-ministro › multimedia
14 Set 2016 Receção a alunos no Ensino Superior – Imagens – Primeiro-Ministro – XXI Governo – República Portuguesa.
Reforço dos direitos sociais é o Aspeto mais importante do estado …
www.portugal.gov.pt › comunicacao › noticia › i=reforco-dos-direitos-soci…
10 Jul 2019 Esta legislatura foi «aquela em que mais se reforçou o Fundo de Equilíbrio Financeiro da Segurança Social desde a sua existência»
Intervenção do Ministro da Defesa Nacional na Receção dos …
www.portugal.gov.pt › comunicacao › intervencao
12 Mar 2019 Intervenção do Ministro da Defesa Nacional na Receção dos Bolseiros dos PALOP e de Timor Leste – XXI Governo – República Portuguesa.
Intervenção do Ministro da Defesa Nacional na Receção ao NRP …
www.portugal.gov.pt › comunicacao › intervencao
15 Dez 2020 Intervenção do Ministro da Defesa Nacional na Receção ao NRP Corte-Real no âmbito da sua participação como Força Nacional Destacada …
Intervenção da Secretária de Estado da Defesa Nacional na …
www.portugal.gov.pt › comunicacao › intervencao
28 Set 2019 Intervenção da Secretária de Estado da Defesa Nacional na Receção da Força Nacional Destacada na Lituânia – XXI Governo – República …
Intervenção da Secretária de Estado da Defesa Nacional na …
www.portugal.gov.pt › comunicacao › intervencao
12 Set 2019 Intervenção da Secretária de Estado da Defesa Nacional na Receção a um contingente que esteve em missão na República Centro-Africana …
Governo apoia parques para Receção e armazenamento de madeira …
www.portugal.gov.pt › comunicacao › noticia
23 Mar 2018 Foram formalmente constituídos 26 parques de Receção e armazenamento de madeira afetada pelos incêndios numa cerimónia, presidida …
Intervenção do Ministro da Defesa Nacional na Receção à 3ª Força …
www.portugal.gov.pt › comunicacao › intervencao
6 Set 2018 Intervenção do Ministro da Defesa Nacional na Receção à 3ª Força Nacional Destacada na República Centro-Africana – XXI Governo …
Aspeto da execução do contrato submetido à concorrência …
Diário da República Eletrónico › web › guest › lexionario › view
O Lexionário é um dicionário de conceitos jurídicos especialmente dirigido a não -juristas e permite-lhe aceder a termos como: Aspeto da execução do contrato …
Aspeto da execução do contrato não submetido à – Lexionario
Diário da República Eletrónico › web › guest › lexionario › view
Aspeto da execução do contrato não submetido à concorrência (contratação pública). Lexionário. Palavras-chave: caderno de encargos; contratos públicos; …
Regras nacionais complementares de reconhecimento das …
www.portugal.gov.pt › consulta-publica
11 Fev 2019 Regras nacionais complementares de reconhecimento das organizações de produtores e respetivas associações – XXI Governo – República …
Portaria 370/2019, 2019-10-14 – DRE
Diário da República Eletrónico › home › dre › details › maximized
14 Out 2019 º 1 do artigo 57.º do Código do IRS e respetivas instruções de preenchimento a vigorar a partir de 1 de janeiro de 2020, que se destinam a …
Reforço dos direitos sociais é o Aspeto mais importante do estado …
www.portugal.gov.pt › comunicacao › noticia › i=reforco-dos-direitos-soci…
10 Jul 2019 Esta legislatura foi «aquela em que mais se reforçou o Fundo de Equilíbrio Financeiro da Segurança Social desde a sua existência»
Portaria n.º 8/2021 – DRE
Diário da República Eletrónico › web › guest › home › dre › details › maximized
º do Código do IRS e respetivas instruções de preenchimento. Texto. Portaria n.º 8/2021. de 7 de janeiro. Sumário: Aprova os modelos de impressos destinados …
Aprova a declaração modelo 25 e respetivas instruções de
Diário da República Eletrónico › legislacao-consolidada › diploma
Aprova a declaração modelo 25 e respetivas instruções de preenchimento a utilizar pelas entidades que recebam donativos fiscalmente relevantes no âmbito …
Aprova a nova declaração modelo 10 e as respetivas instruções de
Diário da República Eletrónico › legislacao-consolidada › diploma
15 Dez 2020 Aprova a nova declaração modelo 10 e as respetivas instruções de preenchimento. Portaria n.º 325/2018. Diário da República n.º 241/2018 …
Decreto-Lei n.º 28-B/2020
Diário da República Eletrónico › web › guest › legislacao-consolidada › element › diploma
16 Jul 2020 … físico nos locais abertos ao público, definidas nas declarações das respetivas situações de alerta, contingência ou calamidade;
Aprova a declaração modelo 25 e respetivas instruções de

Propaganda ortográfica na Assembleia da República | Opinião

www.publico.pt, 25 Jan 2021

Quando se fala de literacia, de leitura e de escrita, está a abordar-se um assunto sério e incompatível com propaganda política. Conviria por isso que o deputado Pedro Cegonho, da próxima vez, se fizesse acompanhar de um estudo a quantificar os efeitos positivos do AO90 na aquisição/aprendizagem da língua portuguesa.

A Faculdade não responde pelas doutrinas expendidas na dissertação e enunciadas nas proposições.
Regulamento da Faculdade de Medicina do Porto, 23 de Abril de 1840, artigo 155.º

No dia 22 de Maio de 2015, cerca das nove e um quarto da manhã, a cidadã M… tomava o seu cafezinho na sala de estar do apartamento, descansada da vida e sem incomodar ninguém, quando subitamente recebeu uma chamada telefónica. Atendeu o telemóvel e do outro lado disseram-lhe: «acabo de ler no Diário da República que foste despedida por fato que te é imputável». A chávena de café tremia na mão da cidadã M…. Pousou-a na mesinha de apoio e perguntou incrédula: «fato que me é imputável? Desde quando é que fatos me são imputáveis ou imputados… – aliás, desde quando são imputados fatos»? «Não acreditas?», retorquiu o interlocutor, «então, consulta o Diário da República, há fatos de todos os tamanhos e feitios». Anos antes, no dia 13 de Março de 2012, pouco passava das 9 e meia da manhã, o cidadão P… recebera um aviso semelhante: fora despedido por «fato imputável ao trabalhador». Bem-vindos a Portugal, um país em que “fatos imputáveis” são motivo para despedimento, mas ninguém se incomoda com isso.

Há dias, dei por mim a ler a dissertação inaugural apresentada, em 1913, por Miguel Pinto Vallada à Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. A frase na epígrafe aparece quer na dissertação de Pinto Vallada, quer em diversos documentos coevos, sendo aquilo a que os anglófonos chamam disclaimer e nós, falantes de português, chamamos ressalva ou cláusula de desresponsabilização. As ressalvas deste tipo, como é sabido, têm o objectivo de proteger uma instituição que publique um determinado conteúdo, desvinculando-a das ideias do autor e dos prováveis impactos negativos dessas ideias. Todavia, há dias, assistimos na Assembleia da República a uma variante perversa destas ressalvas, com os próprios autores e responsáveis pela publicação do conteúdo a desresponsabilizarem-se dos impactos negativos do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) por eles criado, virando o bico ao prego com retórica política e atirando areia para os nossos olhos com propaganda.

Com efeito, o deputado socialista Pedro Cegonho interveio recentemente no Plenário da Assembleia da República, para mais uma machadada do poder político português no progresso científico do país. Sabemos, há algum tempo, que este senhor deputado é educado e ouve argumentos. No entanto, adopta exactamente a atitude de tantos dos seus companheiros de profissão: ouve, mas no fundo, bem lá no fundo, está-se nas tintas, porque o resultado final, já se sabe, será o previsto desde o início, continuando a ser ignoradas críticas, chamadas de atenção e, principalmente, provas de as coisas não estarem a correr bem. Esta tem sido a atitude adoptada por quem vota, influencia e decide assim, apesar de pareceres emitidos por quem estuda recomendarem assado.

Não repetindo argumentos trazidos à colação por Nuno Pacheco (PÚBLICO, 16/01/2021), vou centrar este meu artigo numa frase, porventura a mais importante, do discurso de Pedro Cegonho. É grave um deputado ter dito, em plena Assembleia da República, que «é importante sublinhar a relevância do Acordo para a literacia: a facilitação da aprendizagem da escrita e da leitura no vasto quadro dos falantes de português da CPLP» e preocupante não ter havido uma alma das que nos representam a chamar a atenção do senhor deputado para o carácter altamente duvidoso da declaração acabada de proferir.

Quando se fala de literacia, de leitura e de escrita, está a abordar-se um assunto sério e incompatível com propaganda política, como recordei em recente polémica (cf. PÚBLICO, 27 de Abril de 2020). Conviria que Pedro Cegonho, da próxima vez, se fizesse acompanhar de um estudo a quantificar os efeitos positivos do AO90 na aquisição/aprendizagem da língua portuguesa. Por exemplo, um estudo a indicar a existência de contributo positivo do AO90 para, entre 2011 e 2016, a média dos alunos portugueses do 4.º ano de escolaridade ter descido 13 pontos na avaliação da literacia em leitura do PIRLS. Esse contributo positivo poderia ser o de a média só ter descido 13 pontos, em vez de 31 ou 113. Na ausência desse estudo, a frase essencial do senhor deputado, além de errada (o que é grave), é perigosa (o que é gravíssimo), pois pode haver incautos a interpretar tais palavras como fundamentadas e, em última análise, correctas. Pedro Cegonho, em vez de responder pelas doutrinas expendidas e enunciadas no AO90, distingue méritos e virtudes que o documento, até prova em contrário, não tem.

Por exemplo, quando li Pedro Cegonho a anunciar com o AO90 “a facilitação da aprendizagem da escrita e da leitura no vasto quadro dos falantes de português da CPLP”, lembrei-me logo do contrário. Curiosamente, o contrário foi escrito há muitos anos pela recentemente jubilada Professora Maria da Graça Castro Pinto, num excelente artigo científico em que, sobre opções de supressão de acentos e de hífenes em 1986, refere: «não será implausível dizer-se que se as preteridas simplificações facilitam a escrita – e esta facilitação poderá ser enganosa […] – não facilitarão a leitura e torná-la-ão mesmo muito possivelmente de automatismo mais tardio». Quanto à supressão de consoantes não pronunciadas e de acentos (cf. AO90), acrescenta: «Uma leitura correcta poderá passar então também pelo conhecimento da classe lexical a que o vocábulo pertence e por vezes mesmo por outros conhecimentos que o leitor possa possuir: caso de palavras em que se suprima o acento ou a consoante muda».

Há uns anos, neste jornal, tive a oportunidade de chamar a atenção para a necessidade de livros de estilo portugueses começarem a indicar, como acontece no Brasil, que “’excessão’ (com dois ss) constitui erro grosseiro” (PÚBLICO, 19/02/2014). A razão era simples: a ausência em exceção da informação grafémica veiculada pelo p de excepção levaria a cada vez mais ocorrências de excessão. Como é sabido, os exemplos de excessões por exceções (e recessões por receções) são muitos. Um dos mais recentes ocorreu na RTP e foi denunciado pelos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico. Efectivamente, entre as excessões e a «relevância do Acordo para a literacia», o fosso é enorme.

Já se sabe que a “máxima unidade possível” prometida na Nota Explicativa do AO90 esbarra na realidade, isto é, na criação de grafias diferentes pelo próprio AO90, fruto desse devaneio chamado “critério fonético (ou da pronúncia)”. Gostaria de ouvir a explicação de Pedro Cegonho sobre o contributo da criação de receçãoaspetorespetivas ou rutura na norma europeia e da manutenção de recepçãoaspectorespectivas ou ruptura na norma brasileira (cf. PÚBLICO, 15/03/2015) para «a facilitação da aprendizagem da escrita e da leitura no vasto quadro dos falantes de português da CPLP».

Enquanto escrevo estas linhas, tenho à minha frente um fenómeno criado pela adopção do AO90 e estimulado por declarações infelizes de agentes políticos responsáveis pelo processo: o tal “processo em curso” que deveria ter sido imediatamente suspenso (em finais de 2005), segundo os ignorados pareceres da Professora Inês Duarte e do Professor Ivo Castro. Esse fenómeno, já abundantemente mencionado nestas páginas, é o do fato em vez de facto, do contato em vez de contacto e afins. Neste preciso momento, tenho à minha frente um exemplar do Diário da República de 20 de Janeiro de 2021, com «documentos comprovativos dos fatos invocados». Todavia, este é assunto sobre o qual o poder político português não se pronuncia, apesar de há muitos anos o conhecer.

Sendo Pedro Cegonho o interlocutor mandatado pelo Grupo Parlamentar do PS para dialogar com a Comissão Representativa da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, receio que o excelente trabalho da ILCAO, em vez de avaliado pelos seus méritos, continue a ser vítima dos actos políticos habituais, com pareceres e provas a esbarrarem contra uma parede de certezas baseadas em impressões e em intuições. Esperemos que o senhor deputado mude de atitude na sua conduta política. Basta haver vontade, pois um dos passos já está dado: Pedro Cegonho nem sequer adopta o AO90.

Francisco Miguel Valada — Autor de “Demanda, Deriva, Desastre: Os Três Dês do Acordo Ortográfico” (Textiverso, 2009)

Notas: transcrição integral de artigo publicado no jornal PÚBLICO na edição de segunda-feira, 25 de Janeiro de 2021. Coluna esquerda: uma pequena parte  de uma das muitas listas de aberrações que podem ser obtidas a partir do motor de busca “Busca! — Apartado 53″

 

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2021/01/25/propaganda-ortografica-na-assembleia-da-republica-francisco-miguel-valada-publico-25-01-2021/

“A Língua Portuguesa também deveria interessar aos candidatos à Presidência” (Maria do Carmo Vieira, PÚBLICO, 10.01.2021)

Todos os cidadãos têm o direito de ser esclarecidos objectivamente sobre actos do Estado e demais entidades públicas e de ser informados pelo Governo e outras autoridades acerca da gestão dos assuntos públicos.
N.º 2 do Artigo 48.º da Constituição

Em qualquer eleição que se realize, não há candidato que não justifique a sua candidatura, invocando o desejo de bem servir o país e o povo, ou que não alerte e incentive para a necessidade de, em democracia, ser benéfica a intervenção dos cidadãos porque forma de a sustentar e fortalecer. Palavras que conduzem ao significado etimológico de Política e que é, ou não, do conhecimento dos candidatos. Inicialmente, congratulámo-nos com a bondade dessas palavras, depois conhecemos a desilusão, mas na complexidade que caracteriza todo o ser humano, apesar de desiludidos, incitamo-nos continuamente a teimar, a recomeçar, como uma espécie de sobrevivência espiritual.

Redigido o preâmbulo, dirijo-me agora a todos os candidatos presidenciais cujos encontros a dois já se iniciaram nas televisões, em princípio, para que os cidadãos conheçam as suas ideias relativamente aos vários temas que caracterizam e tecem a vida de uma sociedade. Relevante será o papel dos jornalistas que moderam os debates e a quem se exige conhecer e estar atento a esses temas essenciais: saúde, educação, cultura, trabalho, migração, economia, política externa, etc.

Forçosamente, incidirá a minha atenção sobre a Língua Portuguesa, património privilegiado em duas áreas íntimas entre si – Educação e Cultura – que são substanciais no desenvolvimento de um país e na formação espiritual dos seus cidadãos. Duas mais-valias que não podem ser interpretadas na perspectiva do lucro imediato, mas a médio e a longo prazos. Assim acontece com a Natureza que requer tempo para criar e que o Homem tem destruído, com uma rapidez estonteante, movido pela ganância do lucro rápido, bem evidente na proliferação de culturas intensivas e na construção desenfreada, com a consequente destruição da biodiversidade e da extinção de espécies (serra de Carnaxide, barragens a eito para depois serem vendidas ou aeroportos sem um sério estudo de impacto ambiental …), numa miríade de exemplos que poderiam ser identificados.

Mencionar a Língua Portuguesa, património identitário que “gerações dos nossos maiores” pacientemente trabalharam, enriqueceram e valorizaram, implica forçosamente pensar na sua ortografia, relíquia que nos conta a história das múltiplas influências geográficas e linguísticas, ao longo dos tempos. Uma ortografia que disputas políticas, negociatas, sucessivas aventuras e irresponsabilidades várias têm vindo a lesar impunemente. E chegamos ao cerne da questão: o Acordo Ortográfico de 1990 que nos foi imposto e cuja discussão nunca foi abertamente feita, com a lamentável cumplicidade da Comunicação Social, na sua generalidade, que se tem recusado abordar o tema quando nesse sentido contactada.

Senhores candidatos à Presidência da República, tendo em conta os ideais democráticos que vos orientam, ou deveriam orientar, e o respeito pela Constituição, no dever de defesa e de preservação do nosso património cultural (artigo 78.º, n.º 1) em que se integra a Língua Portuguesa, será intolerável que não discutam, nos debates em que intervirão, e a par de outros temas, a polémica que se arrasta há anos relativamente ao AO 90 (independentemente de serem a favor ou contra) e cujas nefastas consequências são visíveis no dia-a-dia, com uma repercussão fortemente negativa na qualidade do Ensino e da Cultura. São indesmentíveis a instabilidade e o caos que este acordo trouxe, e não há quem não os presencie, seja na aplicação dos hífens ou na existência das facultatividades ou na supressão de acentos, ou nas novas palavras, como “receção” ou “conceção”… que em flagrante contrariam a impossível “unidade ortográfica” ou ainda na avalancha diária de “corrutos”, “sutis”, “núcias”, “patos”, “impatos”, “contatos”, “convição”, “batérias”, “infeciologia”, “fatos”, “putrefato”, “manânimo”, exemplos que se desdobram numa listagem infindável de palavras inventadas que a Associação Portuguesa de Tradutores, entre outros, tem rigorosamente registado. A própria pronúncia das palavras está a ser atingida por esta voracidade e por isso mesmo ouvimos amiúde, na televisão e na rádio, a euforia de “infeção” (com a vogal fechada) e “infeciologia” (aqui com o “e” aberto, mas falhando um “c”, ao arrepio das próprias regras deste acordo que o mantém porque “pronunciado”).

Tendo ainda em conta que:

1. Os portugueses são, na sua maioria, contrários a este AO, e manifestaram-se não só na Petição “Manifesto contra o Acordo Ortográfico”, cujo primeiro signatário foi Vasco Graça Moura, e que entre 2008 e 2009 reuniu mais de 120 mil assinaturas, mas também na Iniciativa Legislativa de Cidadãos Contra o Acordo Ortográfico (ILC-AO), entregue na AR em Abril de 2019, com mais de 21 mil assinaturas, sendo os sucessivos atrasos e adiamentos na sua discussão inaceitáveis, mesmo tendo em conta o ano atípico que se viveu em 2020;

2. Os próprios mentores do AO 90, do lado português e brasileiro, afirmaram, respectivamente, “ser sensível”, entre outros aspectos polémicos, “à não acentuação do verbo parar, admitindo o recuo” – Prof. Malaca Casteleiro, e Evanildo Bechara que “O Acordo ortográfico não [tem] condições para servir de base a uma proposta normativa, contendo imprecisões, erros e ambiguidades” (2008);

3. A opção pelo “critério da pronúncia”, que subjaz a este AO 90, não é científica e põe em causa o carácter normativo da ortografia, traduzindo igualmente um evidente menosprezo pela vertente etimológica, como se pode verificar no texto da “Nota Explicativa ao Acordo Ortográfico de 1990”;

4. O processo desenvolvido pelo poder político ignorou a totalidade dos pareceres negativos de especialistas e entidades consultadas pelo Instituto Camões (25 em 27), relevando-se os pareceres muito críticos da Direcção-Geral de Educação do Ensino Básico e Secundário (1990) e o da Associação Portuguesa de Linguística (2005) cujo conteúdo só foi desvendado aos portugueses, em 2008, e porque solicitado;

5. O parecer da Comissão Nacional de Língua Portuguesa (CNALP) ao anteprojecto do AO (1989) foi arrasador. Órgão consultivo do Governo, estranhamente foi extinto em 1992. Era seu presidente o Professor Vítor Aguiar e Silva que então afirmou: “Há pontos escandalosos do ponto de vista técnico-linguístico, como o da facultatividade ortográfica, que coloca grandes problemas de natureza pedagógico-didáctica.” Insigne estudioso da Cultura, da Língua e da Literatura Portuguesas, Aguiar e Silva recebeu a edição do Prémio Camões de 2020 tendo afirmado: “O novo acordo ortográfico tem normas que necessitam urgentemente de uma revisão. A sua aplicação resulta numa língua desfigurada nas suas raízes latinas e românicas”;

6. A história do processo relativo ao AO 90, desenvolvida com a participação activa de Governos e da Assembleia da República, deveria ser honestamente recontada. Não só o Tratado Internacional foi gravemente ferido no seu conteúdo com a aprovação do Segundo Protocolo Modificativo (2004), definindo a entrada em vigor do AO 90 com a ratificação de apenas 3 Estados, em lugar dos 7 anteriormente apontados, como é inadmissível a confusão de datas que baralham diferentes momentos do processo. Para uma melhor compreensão dos dois aspectos mencionados, aconselha-se a leitura de dois artigos do jornalista Nuno Pacheco que, rigorosa e aturadamente, se tem envolvido nesta causa: “A ortografia do português e a estranha história do prédio pintado de roxo” e “Querem datas giras para duvidar da validade do Acordo Ortográfico? Aqui vão algumas”.

Creio, na base do que enumerei, repetindo vozes em número infindável, que será uma exigência a discussão deste tema, nos vossos debates, caros candidatos à Presidência da República. Os Portugueses, de quem se dirão representantes, desejam-na. Termino com palavras de António Emiliano, conhecendo as nefastas experiências dos professores com o uso forçado do AO 90 e certa de que serão também motivo de reflexão:

“A ortografia não é apenas património cultural do Povo português […] é a ferramenta que dá acesso a todas as áreas do saber. A estabilidade ortográfica é um bem que importa preservar: pôr em causa a estabilidade ortográfica é atentar contra a qualidade do ensino, contra a integridade do uso da língua e contra o desenvolvimento cultural e científico do povo português.”

Maria do Carmo Vieira — Professora

Nota: transcrição integral de artigo publicado no jornal PÚBLICO na edição de domingo, 10 de Janeiro de 2021.

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2021/01/11/a-lingua-portuguesa-tambem-deveria-interessar-aos-candidatos-a-presidencia-maria-do-carmo-vieira-publico-10-01-2021/

À espera de Godot?

Já sabemos, há alturas em que não vale a pena insistir. Pelos critérios da Assembleia da República, os temas mediáticos, financeiros e/ou polémicos são sempre prioritários. A crise do Orçamento de Estado para 2021, que nos ocupou durante longuíssimas semanas, fazia o pleno nestas três alíneas.

Já o debate sobre o Acordo Ortográfico, pelo contrário, parece nunca ser oportuno. Na sala de espera e triagem do Parlamento, a Língua Portuguesa pode estar em coma — nem assim se livra da pulseira verde.

É por isso que escrevemos hoje este artigo. Mesmo à luz das prioridades da Assembleia da República, esta é uma boa altura para darmos seguimento à “questão ortográfica” (que de Ortografia nada tem). A saga do OE2021 está finalmente ultrapassada e até o Estado de Emergência motivado pela COVID-19 foi agora renovado. Estamos à espera de quê? Este é o tempo certo para que finalmente debatam o Projecto de Lei 1195/XIII.

Na aparência, a nossa proposta pode parecer um assunto meramente burocrático — limitamo-nos a propor à Assembleia da República a reavaliação de uma Resolução que tomou há doze anos. A simples reparação de um (trágico) erro, em suma. Mas não tenhamos ilusões: se os deputados continuarem a protelar “sine die” este debate, as consequências para a Língua e para a cultura portuguesa serão gravíssimas — seguramente mais graves do que o chumbo de um Orçamento de Estado ou de outra legislação avulsa.

Recordamos que a Conferência de Líderes propôs-nos, no já longínquo mês de Setembro, a conversão da ILC-AO em petição. Perante a nossa recusa, em que ficamos? Logicamente, o assunto deverá regressar à Conferência de Líderes para que esse órgão se pronuncie, em definitivo, sobre o agendamento para debate e votação em Plenário da nossa Iniciativa Legislativa.

Infelizmente, a ILC-AO não é um partido político e, como tal, não está representada na Conferência de Líderes. É-nos vedada toda e qualquer possibilidade de influenciar a agenda do Plenário.

Estarão as Iniciativas Legislativas de Cidadãos condenadas à orfandade, competindo de forma desigual com os diversos interesses partidários? Não deveria ser assim. Permitimo-nos lembrar que os subscritores da ILC-AO são também cidadãos eleitores. Se os diversos líderes partidários representam, em primeiro lugar, os cidadãos que os elegeram, então a ILC-AO deve ser representada por qualquer um deles.

De resto, estamos certos de que nunca houve, até hoje, uma ILC que tenha recolhido tantos apoios distintos, de todos os quadrantes políticos. Se há uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos acima de quaisquer ordens profissionais, sindicatos, religiões ou partidos, capaz de reunir um largo consenso na sociedade portuguesa, é a ILC-AO. Temos, seguramente, eleitores de TODOS os partidos políticos com assento na Assembleia da República e, por conseguinte, na Conferência de Líderes. Por força da Lei, a casa da democracia representativa é também a casa da democracia participativa.

As ILC não podem ser vistas como um parente afastado (ou parente pobre ou parente de chapéu na mão, como um pedinte), cuja visita nunca é oportuna ou conveniente. Por maioria de razões, uma Iniciativa transversal como a ILC-AO é, por definição, o momento em que a democracia participativa e a democracia representativa podem e devem complementar-se, actuando de forma concertada.

Sabemos que pelo menos o PAN, em face da nossa resposta à Conferência de Líderes, já manifestou a intenção de abordar novamente o assunto numa próxima reunião da CL. Saudamos desde já essa decisão e esperamos que mais líderes partidários possam seguir o exemplo, dando voz aos eleitores que neles confiaram. De preferência, agora! — antes que sobrevenha a próxima crise política, que será inevitavelmente mediática e inadiável.

Não podemos ignorar que a admissão da ILC-AO teve lugar já na anterior Legislatura, há mais de um ano. Os sucessivos atrasos e adiamentos desde há muito tempo ultrapassaram todos os limites. Mesmo tendo em conta o ano atípico que estamos a viver, é por demais evidente que esta demora não é neutral e, pelo contrário, beneficia claramente a manutenção da desortografia em que vivemos actualmente. Neste contexto, a resposta da Assembleia da República perante um exercício de cidadania como a ILC-AO não pode ser… a falta de resposta.

Um exemplo entre muitos: enquanto esperamos, o apagamento do Português Europeu continua, metodicamente substituído por um “Português” único, pretensamente “universal”. Quaisquer semelhanças com o Português do Brasil não são mera coincidência.

Imagens: capturas de écran, a partir de uma emissão em “streaming” da Prime Video (Amazon).

Esperando a Godot (en francés: En attendant Godot), a veces subtitulada Tragicomedia en dos actos, es una obra perteneciente al teatro del absurdo, escrita a finales de los años 1940 por Samuel Beckett y publicada en 1952 por Éditions de Minuit. Beckett escribió la obra originalmente en francés, su segunda lengua. La traducción al inglés fue realizada por el mismo Beckett y publicada en 1955.1
La obra se divide en dos actos, y en ambos aparecen dos vagabundos llamados Vladimir y Estragon que esperan en vano junto a un camino a un tal Godot, con quien (quizás) tienen alguna cita. El público nunca llega a saber quién es Godot, o qué tipo de asunto han de tratar con él. En cada acto, aparecen el cruel Pozzo y su esclavo Lucky (en inglés, «afortunado»), seguidos de un muchacho que hace llegar el mensaje a Vladimir y Estragon de que Godot no vendrá hoy, “pero mañana seguro que sí”. [Wikipedia]

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2020/12/10/continuamos-a-espera/

“As nefastas consequências de menosprezar o conhecimento” (Maria do Carmo Vieira, PÚBLICO, 21.11.2020)

Creio que recebi todos os prémios que tinha de receber, mas o prémio Camões é o de coroamento de uma vida universitária como investigador da língua e da literatura portuguesas.
Vítor Aguiar e Silva, 2020

Neste tempo tenebroso de Covid 19, são muitas as vezes que lembro Os Lusíadas e os belos versos camonianos, “Onde pode acolher-se um fraco humano,/ Onde terá segura a curta vida,/ Que não se arme e se indigne o Céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno?” (Canto I), que aos meus alunos aconselhava a decorar, surpreendendo-os, sei disso, com a história do verbo que os sensibilizaria: “decorar”, do latim cor, coris, “coração”, evidenciando que, ao fazê-lo, gravariam em si algo que permaneceria.

Camões, o poeta que no mesmo poema partilha com o leitor as suas sublimes reflexões, “indício da [sua] passagem pelo mundo, resumo da sua experiência emotiva dele” (Fernando Pessoa), despertando-nos para outros interesses, ajudando a relacionarmo-nos com os outros, facilitando-nos a procura de respostas a tantas questões inerentes à nossa condição humana. De “[…]o vil interesse […]/ Do dinheiro, que a tudo nos obriga” (Canto VIII), à “glória de mandar, ó vã cobiça/ Desta vaidade, a quem chamamos Fama!// Chamam-te Fama e Glória soberana,/ Nomes com quem se o povo néscio engana” (Canto IV), passando por “E ponde na cobiça um freio duro,/ E na ambição também, que indignamente/ Tomais mil vezes, e no torpe e escuro/ Vício da tirania infame e urgente” (Canto IX) ou “Na terra, tanta guerra, tanto engano” ou ainda em “quem não sabe a arte, não na estima” (Canto V), tudo é intenso e daí a sua intemporalidade, uma característica imanente a toda a arte que mais não traduz que a própria vida. Não surpreende, pois, qualquer português, que o poeta clássico, do século XVI, pela sua epopeia e pela sua sublime lírica, cuja arte e engenho são uma constante, fosse o escolhido para referenciar o Dia de Portugal, o dia da nossa Identidade.

Surpreende, no entanto, qualquer português, que um ministro, aparentemente calmo, culto e bem-falante, não escondendo o seu olhar narcisista, tão comum em inúmeros políticos, e outros, em cargos de chefia, tenha afirmado, com arrogância e levianamente, o absurdo de não pertencer ao grupo dos que apelidam a língua portuguesa de “Língua de Camões”, preferindo-lhe “Língua de Pepetela, ou de Mia Couto ou de Clarice Lispector”, pondo assim a nu a sua iliteracia literária, bem como a sua visão bafienta e bondosamente colonialista. Refiro, naturalmente, Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, de cujo ministério depende, e com alguma ironia, o Instituto Camões que tem como objectivo, acentue-se, a “promoção e divulgação da língua e da cultura portuguesas”. Relevar igualmente que o Instituto surgiu por proposta do Professor de Literatura Portuguesa Vítor Aguiar e Silva, entre outros, tendo ele coordenado o grupo de trabalho.

Como interpretará também, o senhor ministro dos Negócios Estrangeiros, a designação de “Prémio Camões”, ou seja, que significado lhe atribuirá? Pela certa, rir-se-á da “triste” opção porque a sua própria ignorância ostentada, sem o mínimo de pudor cultural, assim o ditará. Está efectivamente na sua natureza narcisista: um ego sublimado, mais centrado na acção do que na reflexão, a incapacidade de aceitar uma crítica ou de discutir argumentos que ponham em causa os seus, distanciando-se de todas as posições contrárias (veja-se o que ignobilmente se tem passado com o Acordo Ortográfico de 90 e a surdez aos pareceres críticos vindos de insignes estudiosos da Língua, da Literatura e da Cultura portuguesas), e ainda uma postura política treinada na procura ambiciosa do que lhe possa trazer êxito e influência (apoiante de Francisco Assis contra António Costa, acaba no lugar de relevo que lhe conhecemos). E não perderei a ocasião para revelar a minha admiração intelectual por Francisco Assis e, já agora, pela escolha de Ana Gomes, como candidata à Presidência da República, a minha candidata também!

Retomando o prestigiado “Prémio Camões” e a sua última edição (Out. 2020) atribuída a Vítor Aguiar e Silva, sublinho as palavras do Professor: “Desde os anos 60 do século passado tenho consagrado grande parte do meu trabalho intelectual ao estudo de Camões e da poesia camoniana, sobretudo da poesia lírica – mas também a poesia épica”; e ainda: “O novo acordo ortográfico tem normas que necessitam urgentemente de uma revisão. A sua aplicação resulta numa língua desfigurada nas suas raízes latinas e românicas”, concluindo continuar a escrever segundo o acordo ortográfico de 1945 pelo facto de “prezar muito” a língua portuguesa.

À dignidade e ao saber das suas palavras, outros, cujo papel foi chave na imposição desta aberração, respondem jocosamente “escrever conforme lhes dá jeito” ou consoante “o lado para o qual acordam”. É este o vil espectáculo a que temos vindo a assistir, há numerosos anos, seja na Assembleia da República seja em diferentes Governos: o gozo com um património identitário por parte de gente medíocre, gente que ostensivamente faz a apologia da ignorância e a pretende arrogantemente impor aos outros, sempre sob a ameaça de qualquer coisa. E ainda a este propósito, perguntar-se-á se o ex-constitucionalista Vital Moreira ousaria afirmar que o distinto Professor Vítor Aguiar e Silva faz parte da “pequena tribo de opositores ao AO” ou classificar os seus argumentos, acima transcritos, de “uma enorme fragilidade” ou ainda apelidá-lo de “sebastianista”, como fez, há uns meses,[1] em relação ao jornalista Nuno Pacheco, no seu excelente artigo “Enquanto combatemos o novo coronavírus, o velho ‘ortogravírus’ não pára”, traindo-se, diga-se em abono da verdade, ao ostentar a sua ignorância sobre o assunto. Será Aguiar e Silva, também para a maioria dos deputados da Comissão de Educação e Cultura, e depreciativamente, “um Velho do Restelo” (imunes à ignorância que revelam sobre o significado da venerável figura)? E o que pensar da Ministra da Cultura que considera não integrar-se na sua função a defesa da Língua Portuguesa, enquanto património colectivo, remetendo, de forma um pouco engasgada, o assunto do AO para Augusto Santos Silva, aquele que todos parecem reverenciar e temer porque, na verdade, a sociedade alimenta os narcisistas e dá-lhes palco para brilhar, fatuamente?

Lembremos as palavras de Graça Fonseca, apontando “as qualidades intelectuais e académicas, mas também [o] perfil humanista com que marcou de um modo decisivo gerações de alunos, um pouco por todos os lugares onde ensinou, bem como leitores.” Num novo parêntesis, testemunhar que, na verdade, o Professor, cuja obra acompanhou os meus estudos universitários e faz parte da minha biblioteca, me marcou “de um modo decisivo” não só por me ter possibilitado o prazer de estudar e aprofundar o conhecimento de Camões, épico e lírico, e o do Barroco, mas também pela forma como soube transmitir o seu apreço pela Língua Portuguesa. Lamentavelmente, devido ao silêncio cúmplice dos Ministérios da Cultura e da Educação, de quem se esperaria a mente e o ouvido atentos às palavras do Professor Aguiar e Silva, que eles próprios agora hipocritamente elogiam, com sorrisos e palmas, os professores, e saliento sobretudo os do Ensino Básico ao Secundário, são forçados à estupidez do AO 90 porque continuamente ameaçados de processo disciplinar, caso o não cumpram e o ensinem aos alunos.

Vivendo em democracia, damo-nos, inúmeras vezes, conta, de comportamentos próprios de regimes totalitários que silenciam e punem quem ousa contrariar os seus desígnios, quantos deles obscuros. Recuando no tempo, e a este propósito, lembramos o que aconteceu quando o Professor Aguiar e Silva, presidindo (1988-1992) à Comissão Nacional de Língua Portuguesa (CNALP), órgão consultivo do Governo, emitiu, em 1989, um parecer arrasador ao ante-projecto do AO: a extinção da CNALP (artigo 3.º do decreto-lei Nº 106 – A/92). Não é demais lembrar as palavras de Aguiar e Silva ao deixar a CNALP: “Há pontos escandalosos do ponto de vista técnico-linguístico, como o da facultatividade ortográfica, que coloca grandes problemas de natureza pedagógico-didáctica.”

Conhecemos as nefastas consequências que advêm do facto de o poder político, independentemente de quem o integre, menosprezar o Conhecimento, seja em que área for, repudiando conselhos, chamadas de atenção e críticas fundamentadas em Estudo. Que o apelo expresso nos versos de Camões possa ser um motivo de reflexão. Nesse sentido, foram escritos: “Os mais exprimentados levantai-os,/ Se, com a experiência, têm bondade/ Pera vosso conselho, pois que sabem/ O como, o quando, e onde as cousas cabem.” (Canto X).

[1] “Sebastianismo Ortográfico”, publicado no Blogue Causa Nossa, de 17 de Abril de 2020.

Maria do Carmo Vieira – Professora

Nota 1: transcrição integral de artigo publicado no jornal PÚBLICO na edição de sábado, 21 de Novembro de 2020.

Nota 2: Com a permissão expressa do Professor Vítor Aguiar e Silva, permitimo-nos sublinhar a sua condição de subscritor desta Iniciativa Legislativa de Cidadãos.

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2020/11/25/as-nefastas-consequencias-de-menosprezar-o-conhecimento-maria-do-carmo-vieira-publico-21-11-2020/