Uma ideia para as editoras

De: David Baptista da Silva
Enviada: sábado, 3 de Dezembro de 2011 9:00
Para: *****[at]saidadeemergencia.com
Assunto: “Acordo” Ortográfico

Exmos. Srs.

Gostava de saber a posição da vossa Editora relativamente ao crime contra o património cultural português que constitui o “Acordo Ortográfico”. Os vossos livros passarão a ser editados de acordo com ele ou continuarão a ser editados em Português? Quero uma resposta simples a uma questão simples.

Gostava ainda de vos informar que, caso os vossos livros passem a ser editados de acordo com o “Acordo”, acabaram de perder um leitor. Considero uma OFENSA GRAVE à minha integridade cultural enquanto português a edição de livros em “acordês”. Eu não sou brasileiro, não tenho de vergar a minha escrita à do Brasil. Se a Saída de Emergência o faz é lamentável. Da minha parte continuarei a combater este “acordo” até que o mesmo seja revogado.

Sendo que já corre uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos para o travar, eu no vosso lugar não correria a aplicar esse verdadeiro “Aborto Ortográfico”. Aguardo uma resposta o mais brevemente possível. Melhores cumprimentos,

From: *****[at]saidadeemergencia.com
To: david.*.*.*.silva[at]hotmail.com
Subject: RE: “Acordo” Ortográfico
Date: Thu, 8 Dec 2011 17:58:12 +0000

Viva,

Obrigado pelo seu contacto.

Embora não estejamos a falar de um decreto lei, e, portanto de algo que, em princípio, não pode ser legalmente exigível, trata-se de uma resolução a nível nacional e que está já a ser implementada por quase todos os órgãos de comunicação social e editoras. Os que ainda não o fizeram, julgo que será mais devido a problemas com a transição, do que propriamente por estarem contra a medida.

Neste cenário, torna-se impensável que nós, uma pequena editora, estando ou não de acordo com esta resolução, possamos ficar isolados do resto do País.

Julgo pois, que dentro em breve, não terá mesmo alternativa, se desejar continuar a ler em português, a habituar-se a esta nova forma de representação da nossa língua.

E esperamos, claro, continuar a contar com a sua preferência.

Atentamente,

J*** G********

Grupo Saída de Emergência
R. Adelino Mendes nº 152, Quinta do Choupal
2765 – 082 S. Pedro do Estoril, Portugal
Tel/Fax: +351 214583770
http://www.saidadeemergencia.com

From: david.*.*.*.silva[at]******.com
To: *****[at]saidadeemergencia.com
Subject: RE: “Acordo” Ortográfico
Date: Thu, 8 Dec 2011 18:50:18 +0000

Exmo. J*** G********,

Agradeço a sua resposta.

No entanto gostava de apontar alguns factos que podem não ser do conhecimento da vossa editora: Poucos ainda são os jornais e meios de comunicação social que aplicam esse “acordo”. Se repararem, somente a RTP o está a fazer (por ordens do governo), assim como o Expresso e a Visão. Jornais de grande tiragem nacional como o Diário de Notícias ou o Público não o estão a fazer (sendo que o Público emitiu um comunicado a informar que não irá aplicar o AO) nem outros como o Jornal I, o Correio da Manhã ou o 1º de Janeiro. Dificilmente poderia considerar isso uma resolução nacional.

É uma pena que as Editoras, grandes ou pequenas, estejam a alinhar nisto, principalmente quando há tantos movimentos cívicos a lutar diariamente contra esse autêntico Diktat. As editoras certamente têm as suas opiniões e certamente que, se chegassem a um acordo entre todas, não haveria isolamentos. (Lembrem-se que é uma falácia pensar que com o AO conseguem entrar no mercado brasileiro. O uso da língua é muito diferente e os livros terão de ser sempre “traduzidos” para “brasileiro”. Com ou sem AO.)

Acresce que, creio, a esmagadora maioria dos consumidores de livros em Portugal são pessoas que não irão usar o AO. E como tal não gostarão de ter de ler livros com ele.

Por mim falo (e sei que é a opinião de todos os meus amigos que compram livros) gostaria que houvesse da parte das Editoras um pouco de respeito pelos leitores e que, pelo menos, houvesse, até 2016 (altura em que acaba o suposto “período de transição”) duas alternativas à escolha do consumidor: comprar o livro com o AO e sem o AO. Acho que ficariam surpresos com a quantidade de pessoas que iriam preferir comprar os livros sem o AO.

Gostava de lançar esse repto à SdE. Numa próxima edição de um dos vossos livros, experimentem dividir a tiragem inicial em 2. Metade com e metade sem AO. Não creio que os custos da edição sejam diferentes uma vez que se trata de uma alteração no formato digital do ficheiro de texto (corrijam-me se estiver errado).

Quanto a mim, não tenciono mesmo comprar livros com o AO, seja de que editora forem. Continuarei a comprar os da Saída de Emergência que já estão editados ainda sem o AO, mas depois disso não (como já disse, sinto-me culturalmente ofendido com este AO e não tenciono ter de estar sempre a ler com um corrector ao lado para ir mudando a grafia do livro de volta para português). Tenho mesmo muita pena, até porque a vossa editora era provavelmente a minha preferida dada a qualidade do catálogo e dos livros em si. Mas como diz o poeta “a minha pátria é a minha língua” e eu não posso estar a incentivar a propagação de algo que contra a mesma atenta, principalmente quando estou empenhado em movimentos cívicos para revogar o AO.

Já agora, uma questão: no caso de um autor português que pretenda editar um livro pela Vossa Editora, e que não o queira com o AO, qual é a posição da SdE? Respeita os desejos do autor ou impõe o AO?

Grato mais uma vez pela resposta e pela atenção,

David Baptista da Silva

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A publicação desta troca de correspondência foi-nos expressamente autorizada pelo Sr. Dr. David Baptista da Silva, jurista, que fez o favor de no-la fazer chegar para efeitos de divulgação. O nome do responsável da Editora foi substituído por asteriscos por questões de reserva de identidade.

Esta publicação justifica-se, além de se tratar de um assunto de interesse geral, pelo facto de conter uma ideia não apenas original como a todos os títulos excelente e… imensamente prática: que as editoras, esta em concreto ou qualquer outra, passem a fazer tiragens com e sem “acordo ortográfico” em quantidades meio por meio; depois é só contabilizar quais dos exemplares (com ou sem AO90) se vendem mais.

Realmente, porque não? O que teriam as editoras a perder com isso? É que a ganhar teriam, com toda a certeza…

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Força de acreditar

Caríssima Senhora, nossa companheira desta luta, não há palavras para exprimir a admiração que inevitavelmente sentimos ao ler esta sua carta nem para lhe manifestar como mereceria o apreço devido pelo seu extraordinário esforço.

Temos, porém, algumas palavras que fará o favor acrescido de transmitir aos seus conterrâneos, àqueles que dizem que “já não há nada a fazer” ou algo do género: o “acordo ortográfico” pode estar em vigor, é verdade, mas estamos ainda a tempo, todos nós, os cidadãos deste país, de corrigir esse erro! A nossa ILC, se aprovada no Parlamento, servirá precisamente para revogar a dita entrada em vigor do “acordo”. Não existe lei alguma que não possa ser alterada, anulada ou revogada.

Bom Natal e feliz Ano Novo para si e para os seus.

Bem haja por tudo!

Esta carta, que acompanhava 46 assinaturas válidas, foi aqui transcrita sem autorização expressa da voluntária, pelo que foram apagados o seu nome e o da localidade de proveniência.

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Mas então… não era facílimo?

A adaptação às novas regras de ortografia pode ser difícil. São centenas de palavras que passam a ser escritas de outra maneira, com alterações tão subtis quanto confusas. O FLiP é o software indicado para uma adopção suave das novas regras de ortografia. A nova versão deste pacote de ferramentas de revisão e auxílio à escrita contém um corrector ortográfico, um corrector sintáctico, vários dicionários, um conversor e auxiliares de tradução. Para que a escrita segundo o novo Acordo Ortográfico seja uma pera doce.

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A adaptação às novas regras de ortografia pode ser difícil. São centenas de palavras que passam a ser escritas de outra maneira, com alterações tão subtis quanto confusas.
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«Talvez até devolva este» [Raquel Pedrosa]

E-mail que enviei à Editorial Presença:

“Boa tarde.

Acabei de comprar um livro que achei bastante interessante, mas como ser humano que sou, esqueci-me de um pormenor: não verifiquei se este trazia erros ortográficos. É com grande surpresa e espanto que constatei que, de facto, o livro está repleto deles! Desde escrever os meses do ano com letra minúscula aos mais desprezíveis erros de escrita que não têm concordância entre a forma fonética e a forma escrita, por exemplo “objetivo”.

Meus caros, trabalhando neste ramo deviam estar informados que “objetivo” não se lê de acordo com a forma como nós dizemos esta palavra. “Objectivo”, sim, dá a ênfase necessária à forma como se pronuncia o “e” (mas isto, claro, para os que não são analfabetos).

É com grande espanto meu que a cara tradutora ***** *** ****** ******* faz parte desse universo analfabeto (ou será iletrado?). Porque motivo é esta senhora tradutora?

Nunca mais comprarei livros a uma editora que permite tal calamidade. Talvez até devolva este.”

Raquel Pedrosa

[Transcrição integral de “post” na página da Causa do Facebook “Não queremos o Acordo Ortográfico!“]

Imagem picada daqui.

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«A palavra é sagrada» [Maria José Abranches]

Ensino do Português como língua materna ameaçado!

(…)
«Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada»
(…)
Com Fúria e Raiva, Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque é preciso recordar e relacionar: as coisas não acontecem de súbito nem por acaso!

Estas opções políticas relativas ao ensino do Português no estrangeiro, que se traduzem nos cortes de cursos e despedimentos sumários de professores, ultimamente noticiados, não decorrem da crise política que agora atravessamos. São antes o resultado de escolhas e decisões que vêm sendo ponderadamente implementadas há vários anos, e cujo objectivo dá pelo nome de “internacionalização” da língua portuguesa. Este grandioso projecto tem como instrumento incontornável o Acordo Ortográfico de 1990, reactivado graças às astúcias, muito pouco democráticas, do “Acordo do Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” (CPLP, São Tomé, Julho de 2004), aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008, de 16 de Maio de 2008.

Contrariamente ao que dizem os seus defensores, este Acordo não contribui para uma – visivelmente impossível – “ortografia unificada”, antes subalterniza a ortografia do português de Portugal, impondo-lhe, sobretudo no que toca às consoantes ditas “mudas”, as opções, já antigas, feitas pelo Brasil (1943), de acordo com a pronúncia brasileira, bem diferente da nossa. Ora esta diferença, que todos “ouvimos”, resulta de dois sistemas vocálicos inconfundíveis. Daí que só por má-fé se possa invocar, nesta matéria, o critério da pronúncia! É a ditadura uniformizadora do maior número, a pior inimiga da diversidade cultural e linguística da humanidade! E o objectivo final deste Acordo é, de facto, facilitar a “internacionalização” da língua portuguesa, mas na sua versão brasileira, à custa da vandalização e, a termo, da liquidação da nossa língua materna. Basta ver o percurso e o papel da CPLP em todo este processo!

Neste contexto, compreende-se que o ensino da sua língua aos portugueses, em Portugal e no estrangeiro, aos nossos emigrantes e luso-descendentes, não tenha grande significado. No país, a prioridade é a aplicação do Acordo Ortográfico, assim desmantelando irresponsavelmente os esforços de alfabetização levados a cabo nas últimas décadas! No estrangeiro, é a redução drástica do número de professores e de cursos destinados a ensinar a nossa língua materna àqueles que a ela têm direito! Deixo a Carlos Reis, grande defensor deste Acordo, a tarefa de confirmar o que tenho vindo a dizer:
“ (…) em espaços em que as comunidades portuguesas registam uma presença importante, será de encarar com cautela e em termos devidamente ponderados a possibilidade de articular acções com os seus representantes, já que a actuação daquelas comunidades se fixa sobretudo na questão do ensino do Português como língua materna, o que escassamente corresponde às preocupações de uma política de internacionalização do idioma.” (in Entrevista ao JL de 16-29 de Julho de 2008; o sublinhado é meu)
Em suma, é urgente reagir, pois, contrariamente ao que se diz por aí, ainda estamos muito a tempo de o fazer! É preciso saber e divulgar: há seis anos para a entrada em vigor generalizada do Acordo (Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008), a contar de 13 de Maio de 2009, data do depósito do “instrumento de ratificação” do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (MNE, Aviso n.º 255/2010).

Defendamos o nosso direito, enquanto portugueses, ao respeito pela nossa língua materna, em Portugal e no estrangeiro! Recusemos o Acordo Ortográfico, concebido para servir interesses políticos e económicos, que não são os do povo português, e que nos inferioriza e desrespeita, assim como aos nossos descendentes, herdeiros da nossa língua!

Aproveito para comunicar que está na Internet uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, que recolhe assinaturas de cidadãos eleitores (em papel; 35000 necessárias), para apresentar na Assembleia da República um “Projecto de Lei de revogação da Resolução da Assembleia da República n.º35/2008”, já referida acima: http://cedilha.net/ilcao

Resta-me dizer que falo com conhecimento de causa: por ter lido e analisado não só o próprio Acordo e a legislação que lhe diz respeito, mas também muito do que sobre estas questões se tem publicado; e pela minha própria experiência profissional e humana – professora de Português (e Francês), no ensino secundário, reformada desde 2006, vivi 15 anos em Paris (1965-1980), tendo aí ensinado a nossa língua, durante oito anos, na Universidade de Paris III.

Termino como comecei, com Sophia de Mello Breyner Andresen, A Palavra:

(…)
«Um homem pode enganar-se em sua parte de alimento
Mas não pode
Enganar-se na sua parte de palavra»

Lagos, 05 Dezembro 2011

Maria José Abranches Gonçalves dos Santos

Este texto foi também publicado no blog Horizonte Português.

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