«A lusofonia é uma espécie de…» [Miguel Tamen, “i”]

Miguel Tamen. “A lusofonia é uma espécie de colonialismo de esquerda”

Por Nelson Pereira, publicado em 24 Abr 2012 – 10:09 (jornal “i”)

Miguel Tamen considera o Acordo Ortográfico (AO) um desastre e que as universidades não têm de o adoptar, em nome da lei da autonomia

Crítico do Acordo Ortográfico (AO), o director do programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa não reconhece ao Estado o direito de legislar sobre a língua. Na ideia de lusofonia que hoje serve para justificar o AO, Miguel Tamen vê a recuperação da mesma utopia que serviu à direita para defender o imperialismo colonial português. Pronta a passar atestados de incompetência aos cidadãos, “a esquerda portuguesa é, afinal, a direita portuguesa por outros meios”, lamenta.

Qual a sua posição no que diz respeito ao AO?

Considero o acordo uma péssima ideia e uma ideia inútil, mas por razões diferentes daquelas que tenho visto apresentar. Há pessoas que dizem que o acordo é mau porque foi tecnicamente mal feito; há outros que consideram que o acordo é mau porque é inválido e porque, juridicamente, não está em vigor; há ainda as pessoas que criticam o acordo como erro político, uma cedência a países terceiros; aqueles que são contra por entenderem que o acordo é ineficaz, por não existir um modo exequível ou prático de o implementar; e, por fim, os que o rejeitam por acharem que coisas como a língua não devem ser objecto de legislação e acordos. Percebo todas estas posições e concordo essencialmente com a última, mas a minha objecção principal não coincide com nenhuma destas.

Qual é então essa sua principal objecção?

Eu acho que o acordo é mau porque a ideia de lusofonia é má. Na minha opinião, tudo o que invoque a noção de lusofonia me parece deplorável.
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«abril com caixa baixa» [Nuno Pacheco, “PÚBLICO”, 22/04/2012]

Na quarta-feira, porque a cada ano tudo se repete, lá se celebrará mais um aniversário do 25 de Abril. Tão perto e já tão longínquo, 38 anos. Revolução ou golpe de Estado, conforme a lembrança de cada um. A euforia da libertação, claro, inesquecível. Os belos versos de Sophia, que já tantos estragaram citando-os mal e a despropósito. Os cravos e o Arsenal. Chaimites nas ruas. A vila morena na cidade branca. Otelo e Salgueiro Maia. Símbolos e ilusões. Utopias e desenganos. Avanços perigosos e, no reverso, a quietude.

Tudo isso que ficou, lá longe, mas ainda ao alcance da memória. Certo é que a ditadura não caiu, foi derrubada. Mesmo que nesse acto ela tenha involuntariamente colaborado, de tão gasta. E a verdade é que a democracia, certamente imperfeita, depois se implantou e por aí anda, com as suas virtudes e vícios, as suas recompensas e fingimentos. E, a par dela, a liberdade: de dizer, afirmar, escolher, recusar, contrapor, contestar, protestar.

Imaginemos agora, por momentos, esta curiosa ficção: um escasso grupo de cidadãos chega ao Parlamento e propõe ao Governo e aos deputados uma ditadura. Tal e qual, uma ditadura. Não teria bem esse nome, claro, por causa da carga negativa que arrasta, mas seria uma coisa a bem do prestígio da expressão pátria, da sua unidade essencial, de uma política comum, que esta coisa de ter tantos partidos a dizer-se e desdizer-se a todo o momento (garantiam) é realmente uma canseira. Perante tal proposta, e presente na sessão, o Governo resolveu pedir uns pareceres. Recebeu vários. O Instituto de Política Teórica e Comportamental opunha-se ferozmente. A Associação Portuguesa de Políticos opunha-se radicalmente. O Departamento da Política Caseira da Universidade Nacional opunha-se terminantemente. E a Direcção-Geral das Altas e Médias Políticas opunha-se categoricamente. Ah, havia ainda o parecer da Academia de Políticas Lisbonenses, totalmente favorável. Num parecer assinado, claro está, por um nome rigorosamente independente: o autor da proposta de mudança de regime. Tudo resumido, pesados os prós (um só, mas veemente) e os contras (muitos mas facciosos, logo dispensáveis), foi-se a votos. A unificação política, ou seja, a ditadura, foi aprovada com os votos dos três maiores partidos e a abstenção de um quarto. Houve votos contra, claro, mas apenas 16. E a ditadura passou a lei, aprovada pela democracia.
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A ILC na Feira do Livro de Lisboa: “Gradiva”

GradivaSaudamos a preciosa colaboração da Editora Gradiva, que se prontificou a disponibilizar impressos e a recolher subscrições da ILC na 82ª Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII, de 24 de Abril a 13 de Maio.

Todos temos, assim, bons motivos para ir visitar o pavilhão deste expositor.

– quem ainda não subscreveu a ILC, poderá fazê-lo;

– quem já subscreveu, poderá ir abastecer-se de bons livros.

Desejamos à Gradiva o maior sucesso e aqui lhe deixamos o nosso reconhecimento.

Assinar a ILC

Ver localização do pavilhão da Gradiva no mapa da Feira do Livro de Lisboa.

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«Aventura desastrosa» [Maria do Carmo Vieira]

E porque o recurso à tecnologia adquiriu um poder soberano na sala de aula, ofuscando a figura do próprio professor, que não levará muito tempo tornar-se-á desnecessário, vai sendo comum apresentar, por exemplo, o estudo de Eça de Queiroz ou de Fernando Pessoa em power point, partindo de esquemas e de texto que acabam por substituir a narrativa e a emoção contagiante do professor, em relação ao autor e à obra em questão. Aspecto que se enquadra na «reciclagem de conhecimentos» que se exige aos professores, não só em matéria pedagógica e tecnológica, como linguística (TLEBS e o novo Acordo Ortográfico), «bagagem operacional» determinante para a definição do perfil do «novo professor» e para a sua avaliação.

Lembre-se, a propósito da TLEBS, o frenesim descritivo do «funcionamento da língua» em detrimento da Gramática, cujo estudo deveria ser feito de uma forma gradual até ao final do 3.° ciclo. Infelizmente, os recentes exames do 12.° ano demonstraram que muitos alunos não dominavam aspectos elementares da sintaxe, como a distinção entre sujeito e predicado, matéria, em princípio, trabalhada no final do 1.° ciclo. Não houve, pois, esquecimento ou falta de atenção, como alguns quiseram justificar, mas pura ignorância. Esta situação agravar-se-á com a confusão que a TLEBS veio causar porque, longe de levar os alunos a reflectir sobre a língua e a compreendê-la, desorienta-os e confunde-os com a sua nomenclatura tecnicista e obsessão descritiva, impondo-se assim a sua reavaliação, ouvindo os professores. No mesmo tipo de aventura desastrosa, se inscreve o Acordo Ortográfico de 90, tendo em comum com a TLEBS a indiferença dos seus mentores por pareceres negativos 22 e por críticas cientificamente argumentadas em inúmeros artigos (que continuam) e obras várias. Refira-se que está ainda a decorrer um processo de recolha de assinaturas (cedilha.net/ilcao), através de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC), com o objectivo de revogar a Resolução da Assembleia da República N.º 35/2008 (RAR).

22 Entre os quais a Direcçâo-Geral dos Ensinos Básico e Secundário: «Há acordos assináveis, sem grandes problemas e há outros que são de não assinar. O acordo recentemente assinado tem pontos que merecem séria contestação e é, frequentemente, uma simples consagração de desacordos.»

Excerto do texto com o título «Reflexão sobre o Sentido de Ensinar», da autoria de Maria do Carmo Vieira, inserido na obra “Reinventar Portugal” (vários autores), ed. Estampa, Lisboa, 2012. Capa: NMDesign.

[Nota 1: os links foram adicionados por nós ao texto original.]
[Nota 2: foi solicitada à Editora autorização expressa para esta reprodução.]

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«SOS», por Fernando Paulo Baptista [“Jornal da Beira”, 12/04/2012]

Para um clarificador debate sobre o novo Acordo Ortográfico – (I)

 “ SOS ” pelas matrizes genéticas profundas que constituem a via clássico-erudita da lexicogénese, da terminopoiese e da lexicodidáctica!…

Por Fernando Paulo Baptista

Nota Prévia: Parabéns, antes de mais, ao corajoso Poeta e Homem da Cultura— Vasco Graça Moura — que (muito embora correndo o risco de ser acusado de desrespeito deontológico no exercício do seu novo cargo institucional…) sabe conscientemente, por experiência quotidianamente vivida (ele «escreve» e sente na carne e na alma o que é que isso significa!…), que «letra» não é o mesmo que «som», que «grafema» não é o mesmo que «fonema», que «escrita» não é o mesmo que «pronúncia», que «texto escrito» não é o mesmo que «texto oral» e que, portanto, o actual Acordo Ortográfico [AO] (repare-se bem: «ortográfico», isto é, regulador e normalizador das práticas «escritas»!…) é uma aberração e uma insanidade eidético-linguística. E é-o, por ter sido concebido e elaborado na base do princípio «fono-cêntrico» de que «se não se pronuncia, corta-se», suprimindo assim (cf. a Base IV) sequências grafémicas como «ct» e «pt», entre outras: ex. «acto > ato», «espectador > espetador», «directo > direto», «infectar > infetar», «conceptual > concetual», «afectivo > afetivo», «Egipto > Egito» (agora, sem o «p», porque, segundo os “ilustres” autores do AO, não se pronuncia!…), este último, ao lado de «egípcio» e de «egipcíaco» (ambos com «p»)… Grande coerência esta, que o acordatário «fono-centrismo» traz ao «modo escrito» de realização da nossa língua!!!… E, por isso, se pergunta: alguma vez o anterior acordo – 1945 – impediu as pessoas de «pronunciarem» com toda a liberdade e variabilidade de registos orais, fosse no Minho, nas Beiras, no Alentejo, nas Ilhas, no Brasil ou em Timor?…

Da distinção diferenciadora entre «modo oral» e «modo escrito» de realização da língua

«… o problema da ortografia é o da palavra escrita,

nada tendo essencialmente que ver com a palavra falada…»

«… a tradição cultural, quanto à palavra escrita,

é a tradição etimológica…»

«… a nossa ortografia, quando, lentamente, se foi fixando,

fixou-se numa ortografia etimológica, baseada, é claro, no latim…»

«Como a pronúncia da palavra é só da palavra falada,

e se produz por sílabas, a palavra escrita nada tem com a pronúncia dela.»

«A letra e não a sílaba é a «unidade» na palavra escrita.»

Fernando Pessoa: A Língua Portuguesa (ed. de Luísa Medeiros),

Lisboa, Assírio & Alvim, 1997, págs. 29, 36, 48, 58 e 58, respectivamente)

À luz dos excertos acabados de transcrever (intencionalmente retirados de uma alumiante obra dedicada à língua portuguesa pelo mesmo e genial Autor do tão famoso exergo — «Minha pátria é a língua portuguesa.» — que tanta gente faz alarde em citar, quase sempre fora do seu rigoroso contexto discursivo, sem porventura alguma ter lido, na íntegra, as duas páginas da obra em que ele efectivamente está inserto (cf. Fernando Pessoa, através do seu heterónimo Bernardo Soares: Livro do Desassossego, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998 [edição de Richard Zenith], § 259, pp. 254-255), torna-se cada vez mais imperioso e urgente «abrirmos os olhos», porque a «ortografia» não releva nem deveria relevar propriamente de um desígnio de inspiração «fono-centrista» e «anti-grafémica» («anti-alfabética») orientado pelos critérios da «pronúncia» e da «oralidade», na medida em que ela, «ortografia», implica, acima de tudo, as capacidades e actividades de «ler» e «escrever», a envolverem, portanto, a intervenção da «mão» e do «olhar», mas de um «olhar» arguto, inteligente e crítico, de um «olhar» que verdadeiramente seja capaz de «ver»…

Por sua vez, a «oralidade» (nome etimologicamente relacionado com o lexema latino os, oris que quer dizer «boca») não radica propriamente numa base de natureza «gráfica». Repare-se atentamente na designação «acordo ortográfico» (orto + gráfico), em que o formante adjectival “gráfico” pertence à mesma família do verbo grego γράφω [grapho], verbo que é portador da raiz indo-europeia — *gerbh- / grebh- / gṛbh- [> graph-] —, com o significado matricial de gravar, fazer incisões na pedra ou na madeira, marcar, escrever…

Ora as actividades da natureza práxico-grafémica concretizam-se com a mão, sob o comando vigilante dos olhos, e não com a boca e com os ouvidos. De notar que aquela referida raiz está igualmente presente em vocábulos como gramática, grafia e grafema (= letra), bem como autógrafo, biografia, caligrafia, cartografia, etnografia, epigrafia, geografia, lexicografia, ortografia, etc., etc., sendo de lembrar, a propósito, que o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, na entrada «-grafia», regista mais de 200 vocábulos pertencentes a esta mesma família lexical.

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