«SOS», por Fernando Paulo Baptista [“Jornal da Beira”, 12/04/2012]

Para um clarificador debate sobre o novo Acordo Ortográfico – (I)

 “ SOS ” pelas matrizes genéticas profundas que constituem a via clássico-erudita da lexicogénese, da terminopoiese e da lexicodidáctica!…

Por Fernando Paulo Baptista

Nota Prévia: Parabéns, antes de mais, ao corajoso Poeta e Homem da Cultura— Vasco Graça Moura — que (muito embora correndo o risco de ser acusado de desrespeito deontológico no exercício do seu novo cargo institucional…) sabe conscientemente, por experiência quotidianamente vivida (ele «escreve» e sente na carne e na alma o que é que isso significa!…), que «letra» não é o mesmo que «som», que «grafema» não é o mesmo que «fonema», que «escrita» não é o mesmo que «pronúncia», que «texto escrito» não é o mesmo que «texto oral» e que, portanto, o actual Acordo Ortográfico [AO] (repare-se bem: «ortográfico», isto é, regulador e normalizador das práticas «escritas»!…) é uma aberração e uma insanidade eidético-linguística. E é-o, por ter sido concebido e elaborado na base do princípio «fono-cêntrico» de que «se não se pronuncia, corta-se», suprimindo assim (cf. a Base IV) sequências grafémicas como «ct» e «pt», entre outras: ex. «acto > ato», «espectador > espetador», «directo > direto», «infectar > infetar», «conceptual > concetual», «afectivo > afetivo», «Egipto > Egito» (agora, sem o «p», porque, segundo os “ilustres” autores do AO, não se pronuncia!…), este último, ao lado de «egípcio» e de «egipcíaco» (ambos com «p»)… Grande coerência esta, que o acordatário «fono-centrismo» traz ao «modo escrito» de realização da nossa língua!!!… E, por isso, se pergunta: alguma vez o anterior acordo – 1945 – impediu as pessoas de «pronunciarem» com toda a liberdade e variabilidade de registos orais, fosse no Minho, nas Beiras, no Alentejo, nas Ilhas, no Brasil ou em Timor?…

Da distinção diferenciadora entre «modo oral» e «modo escrito» de realização da língua

«… o problema da ortografia é o da palavra escrita,

nada tendo essencialmente que ver com a palavra falada…»

«… a tradição cultural, quanto à palavra escrita,

é a tradição etimológica…»

«… a nossa ortografia, quando, lentamente, se foi fixando,

fixou-se numa ortografia etimológica, baseada, é claro, no latim…»

«Como a pronúncia da palavra é só da palavra falada,

e se produz por sílabas, a palavra escrita nada tem com a pronúncia dela

«A letra e não a sílaba é a «unidade» na palavra escrita

Fernando Pessoa: A Língua Portuguesa (ed. de Luísa Medeiros),

Lisboa, Assírio & Alvim, 1997, págs. 29, 36, 48, 58 e 58, respectivamente)

À luz dos excertos acabados de transcrever (intencionalmente retirados de uma alumiante obra dedicada à língua portuguesa pelo mesmo e genial Autor do tão famoso exergo — «Minha pátria é a língua portuguesa.» — que tanta gente faz alarde em citar, quase sempre fora do seu rigoroso contexto discursivo, sem porventura alguma ter lido, na íntegra, as duas páginas da obra em que ele efectivamente está inserto (cf. Fernando Pessoa, através do seu heterónimo Bernardo Soares: Livro do Desassossego, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998 [edição de Richard Zenith], § 259, pp. 254-255), torna-se cada vez mais imperioso e urgente «abrirmos os olhos», porque a «ortografia» não releva nem deveria relevar propriamente de um desígnio de inspiração «fono-centrista» e «anti-grafémica» («anti-alfabética») orientado pelos critérios da «pronúncia» e da «oralidade», na medida em que ela, «ortografia», implica, acima de tudo, as capacidades e actividades de «ler» e «escrever», a envolverem, portanto, a intervenção da «mão» e do «olhar», mas de um «olhar» arguto, inteligente e crítico, de um «olhar» que verdadeiramente seja capaz de «ver»…

Por sua vez, a «oralidade» (nome etimologicamente relacionado com o lexema latino os, oris que quer dizer «boca») não radica propriamente numa base de natureza «gráfica». Repare-se atentamente na designação «acordo ortográfico» (orto + gráfico), em que o formante adjectival “gráfico” pertence à mesma família do verbo grego γράφω [grapho], verbo que é portador da raiz indo-europeia — *gerbh- / grebh- / gṛbh- [> graph-] —, com o significado matricial de gravar, fazer incisões na pedra ou na madeira, marcar, escrever

Ora as actividades da natureza práxico-grafémica concretizam-se com a mão, sob o comando vigilante dos olhos, e não com a boca e com os ouvidos. De notar que aquela referida raiz está igualmente presente em vocábulos como gramática, grafia e grafema (= letra), bem como autógrafo, biografia, caligrafia, cartografia, etnografia, epigrafia, geografia, lexicografia, ortografia, etc., etc., sendo de lembrar, a propósito, que o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, na entrada «-grafia», regista mais de 200 vocábulos pertencentes a esta mesma família lexical.

A «pronúncia» e a «oralidade» constituem matérias ou conteúdos do foro das «sonoridades» elocutórias buco-vocais (i.e., que envolvem a boca e a voz), com origem, portanto, no «aparelho fonador», a implicar as capacidades e as actividades de «falar / pronunciar» e de «ouvir / escutar»: «Quando falamos, diz Fernando Pessoa (ibidem, p. 56), falamos para ser ouvidos imediatamente».

Deve, em todo o caso, ser reconhecida e preservada a importância e a dignidade específicas de cada um destes dois modos — o modo oral e o modo escrito — através dos quais se materializa a realização de uma língua e, sobretudo, a sua inquestionável função de inter-complementaridade: a «oralidade» não substitui a «escrita»; a «escrita» não substitui a «oralidade»: completam-se uma à outra, tendo ambas o seu lugar, o seu papel e o seu peso próprios e insubstituíveis na polimorfa diversidade dos processos verbo-comunicacionais.

Mas a língua escrita (com os «textos escritos») e a língua oral (com «os textos orais»), porque são profundamente diferentes e distintas, são reguladas por princípios e critérios orgânico-funcionais e práxico-atitudinais inerentes à sua natureza e essência — princípios e critérios esses que, portanto, não deveriam ser confundidos…

Por isso é que o facto de os autores do texto deste novo “Acordo Ortográfico” não terem tido na devida conta tão profundas diferenças e respectivas consequências não pode deixar de trazer à memória o famoso verso 359 da Epistola ad Pisones do velho Horácio (carta de reflexão e aconselhamento estético-literários mais conhecida pela designação de «Arte Poética»): «quandoque bonus dormitat Homerus» («de vez em quando, até o bom Homero se põe a dormitar»]… Como quem dissesse: por vezes, até o mais genial dos Homens comete os seus erros!…

Veja-se o resultado do paradoxo ou contradição que consiste em pretender regular e padronizar o «sistema ortográfico» pelos princípios e critérios da «oralidade», ou seja, «escrever como se pronuncia», «escrever como se fala»!… Isto, levado às últimas consequências, conduziria à supressão, pura e simples, da letra «h» no início de todas as palavras que começam a ser escritas com este grafema: (h)abilidade, (h)abitante, (h)omem, (h)onra, (h)orizonte, (h)umanidade, (h)umano, (h)úmido

Ou seja, a letra ou grafema «h», porque não se pronuncia (se os autores e defensores deste Novo Acordo fossem tão «coerentes» como dizem ser!…), deveria ser banida dos dicionários e as respectivas «entradas» ou «lemas» deveriam ser redistribuídas pelas primeiras letras que se pronunciam e que vêm colocadas logo a seguir ao «h»: omem, onra e orizonte (na letra O); umanidade, umano e úmido (na letra U)…

Caberá isto nos conceitos de «coerência» e de «uniformização» invocados como argumentos ponderosos pelos defensores deste «fono-cêntrico», «anti-alfabético» e caótico acordo, se atentarmos bem nos nefastos efeitos iliterácicos, anti-pedagógicos e anti-didácticos decorrentes das supressões preconizadas nas «sequências grafémicas» atrás referidas e constantes da sua Base IV?…

Nos próximos números, iremos tentar expor e justificar, de modo fundamentado, as razões pelas quais se torna imprescindível a reformulação da “fono-centrista” Base IV do “Novo Acordo Ortográfico”, ou seja, do “capítulo” que se ocupa das seguintes sequências grafémicas (aí ditas “sequências consonânticas”): cç / ct // pç / pt // bd / bt / gd / mn / tm.

[Este texto foi publicado no Jornal da Beira, n.º 4735, de 12 de Abril de 2012, tendo sido aqui reproduzido com autorização expressa do autor]

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4 comentários

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    • Jorge Teixeira on 16 Abril, 2012 at 15:09
    • Responder

    «acto > ato», «espectador > espetador», «directo > direto», «infectar > infetar», «conceptual > concetual», «afectivo > afetivo», «Egipto > Egito»

    Uma das “maravilhas” do AO90 é notória só nesta pequena lista de exemplos. Pessoalmente, não conheço ninguém que não pronuncie “espectador” e “conceptual”, “com todas as letras”, por exemplo. Mas os partidários do AO90 escrevem “espetador” e “concetual”!
    Já com “sector” acontece o contrário. Assim de memória, só conheço uma pessoa que pronuncia “sector” – o Mira Amaral. No entanto, o “Expresso”, o ponta de lança do AO90, escreve “espetador” e “concetual” mas continua a escrever “sector”.

  1. Ninguém comenta porque está tudo de acordo. Eu, apesar de comentar, também estou.
    Cumpts.

    • Luís Ferreira on 18 Abril, 2012 at 17:55
    • Responder

    É isso mesmo, Bic Laranja. É isso mesmo!
    Não há nada a dizer.

    O que me revolta que que os covardes dos apoiantes do AO podem argumentar contra e não argumentam. Eles sabem bem o que estão a fazer…

    1. Exacto. Lá o que estão a fazer eles sabem com certeza. Já dizer alguma coisinha a respeito é que não, nem por isso, ou nada mesmo, pela simples razão de que não há uma única ideia de jeito por aquelas bandas. É que as patacoadas do costume não valem por ideias, pelo menos até ver. E note-se que, no caso deste (brilhante) texto, estamos a falar de questões técnicas, de Ortografia. Ora, como sabemos, o AO90 de ortográfico tem apenas a designação e de técnico o que se resume na seguinte palavra: .

      Cumprimentos.

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