«Uma questão de Vanitas» [Jorge Teixeira]

Além do negócio também tem uma série influência a vontade destas personagens de quererem ficar “na História”. Como os Portugueses não têm realmente condições para “entrar para a História” mundial, querem pelo menos entrar para a História de Portugal.

Os meios que as personagens com esta vontade costumavam empregar eram as Obras (caminhos-de-ferro e pontes primeiro, mais tarde estradas e auto-estradas, expos e estádios) e os Monumentos (mosteiros, palácios, centros culturais de Belém).

Na última década escasseavam estes meios tradicionais. Os caminhos-de-ferro foram encerrando, já quase não se consegue inventar sítio por onde passar mais auto-estradas, os monumentos estão em ruínas e não há riqueza suficiente para os conservar. Mas resta um meio expedito de entrar “para a História”: mudar a ortografia da língua Portuguesa.

E através deste expediente ficariam “na História”, até porque para os vindouros este seria um “momento zero”. A memória, para todos os efeitos práticos, não recuaria ao tempo antes deste “momento zero” e assim estes políticos e decisores, os primeiros a constarem nos documentos da ortografia triunfante, seriam quase encarados como os verdadeiros “fundadores” do futuro. Verdadeiros vultos nacionais.

O raciocínio não é assim tão desprovido de sentido. Basta pensar que provavelmente não excedem os dedos das mãos a presença na vida cultural e intelectual da produção literária e científica dos autores anteriores à reforma ortográfica de 1911.

Apenas alguns (poucos) autores foram reeditados na nova grafia e na grafia do AO45 e apenas estes estão na memória cultural e intelectual – Camões, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett são os mais presentes, pelo lado literário. Pelo lado do ensaio, quase ninguém foi sendo reeditado. Pelo lado científico, muito menos. E assim todo o conhecimento vertido na ortografia “antiga” vai sendo apenas acessível a um círculo altamente especializado e restrito de estudiosos e académicos.

As mudanças ortográficas, em Portugal, foram sempre políticas. A reforma de 1911 nasce da vontade política da República de impor o novo regime sobre a Monarquia, criando um “momento zero” e diminuindo o risco do ressurgimento das correntes políticas do antigo regime. A população maioritariamente analfabeta seria alfabetizada na nova ortografia e não haveria o risco de ser permeável aos textos filosóficos e políticos das correntes do antigo regime, se acaso uma vez alfabetizada viesse a ter apetência por eles. Antes prevenir do que remediar. A reforma de 1945 é um instrumento semelhante para o regime do Estado Novo. O Estado Novo consegue o seu “momento zero”, criando um novo ponto de ruptura com a deposta República. E eis-nos chegado a um novo “momento zero”. Mas desta vez não é uma questão de regime. É apenas uma questão de Vanitas. Uma certa classe política e intelectual que quer ficar na História. Quer criar um legado. Quer ser importante. Quer ser marcante. Quer ficar como a que “modernizou” Portugal. São os “construtores de pirâmides”. E Deus nos ajude.

Jorge Teixeira (em comentário a “post” neste mesmo “site”)

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2012/04/15/uma-questao-de-vanitas-jorge-teixeira/

Fernando Paulo Baptista subscreveu a ILC


Fernando Paulo do Carmo Baptista nasceu em Viseu, em 1940.

Depois de concluída a prestação do serviço militar, acabou por se formar (como aluno voluntário e sempre a trabalhar…) em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com a classificação final de «Muito Bom com Distinção, com 18 valores».

Desenvolveu intensa actividade intelectual e académica como docente e como investigador do Instituto Piaget, no seu campus universitário de Viseu, orientando os seminários de Expressão Poética , concebendo, organizando ou co-organizando importantes colóquios, jornadas e congressos de dimensão nacional e internacional (e.g.: I Jornada de Homenagem à Língua Portuguesa ; I Jornada sobre as praxes académicas; I Congresso Bienal da CPLP para a Língua Portuguesa; IV Conferência Internacional de Filosofia e Epistemologia; II Fórum Ibérico para a TeleMedicina…) e dirigindo o Centro de Investigação em Língua Portuguesa (CILP), designadamente, a investigação direccionada para a elaboração de dicionários e manuais especializados, a serem editados pelas Edições Piaget. De entre os projectos que tem actualmente em mais avançado desenvolvimento, dois deles se destacam pela sua específica relevância e interesse linguístico, cultural e pedagógico: o primeiro, na área da lexicologia e da lexicografia: Dicionário genético-semântico da Língua Portuguesa — à descoberta da «sabedoria» das palavras; o segundo, na área da Linguística Aplicada (este, no âmbito de um «protocolo» de colaboração investigativa com a Universidade do Minho, da qual é investigador-colaborador, ligado ao Centro de Investigação em Educação — CIEd): Para a construção da aprendizagem do léxico científico na educação fundamental. Do contributo do indo-europeu e, mais especificamente, das línguas clássicas (grego e latim) para essa construção, comportando, articuladamente, três grandes andamentos investigativos: I. Formação para a cidadania; II. Educação e cultura científicas; III. Léxico especializado de matriz indo-europeia e clássica (greco-latina).

Numa brevíssima descrição de cargos e funções, é:

  • Inspector jubilado do Ministério da Educação de Portugal;
  • Investigador convidado do Centro de Investigação em Educação [CIEd] da Universidade do Minho;
  • Investigador da Associação Piaget Internacional [AsPI];
  • Consultor editorial da revista da Organização Mundial da Saúde [«WHO – Bulletin»];
  • Membro do “Editorial Board” e colaborador das seguintes revistas inter-universitárias:
    • – «The Journal of the Indiana Academy of the Social Sciences» do Estado de Indiana – USA (cf.: www.iass1.org);
    • – «The interdisciplinary journal of Portuguese diaspora studies» (IJPDS] (cf.: http://portuguese-diaspora-studies.com)
  • Membro honorário do Movimento Internacional da Tele-medicina / Tele-saúde.

Teve, até agora, os seguintes louvores e galardões:

  • Louvor do Comando da Base Aérea n.º 2 (Ota) — Força Aérea Portuguesa;
  • Louvor da Inspecção Geral da Educação — Ministério da Educação;
  • Diploma de Sócio de Honra da Associação para o Desenvolvimento da TeleMedicina – ADT;
  • Prémio «Mérito Científico» do GICAV — Gala Anim’ Arte de 2005;
  • Medalha de Mérito da Câmara Municipal de Sernancelhe e «diploma» de Cidadão Honorário do Concelho, em 2008;
  • Medalha de Mérito Cultural da Academia de Letras e Artes de Paranapuã (Rio de Janeiro – Brasil), em 2009;
  • Medalha de Mérito Cultural da Academia Lusófona de Artes e Letras, em 2009;
  • Medalha de Mérito Cultural «Académico Austregésilo de Athayde», da Academia Brasileira de Letras , em 2009.
Independentemente dos vários estudos e ensaios de natureza filológica, linguística, pedagógica, filosófica, epistemológica e literária já publicados, destacam-se, neste contexto, as três seguintes obras:
  •  1. Concepção e co-autoria do Projecto Pedagógico-Didáctico — «Sinfonia da Palavra» (com a supervisão científica do Prof. Doutor Vítor Aguiar e Silva) —, projecto materializado no conjunto de manuais (e documentos conexos de fundamentação e de apoio) para o ensino/aprendizagem da disciplina de Português (Ensino Básico e Ensino Secundário), Porto, Edições ASA, 1990;
  • 2. Tributo à Madre Língua (com prefácios dos Profs. Doutores Vítor Aguiar e Silva, Rita Marnoto e A. Castanheira Neves), Coimbra, Pé de Página Editores, 2003;
  • 3. Nesta nossa doce Língua de Camões e de Aquilino (com prefácio do Prof. Vítor Aguiar e Silva), Sernancelhe, edição da Câmara Municipal, 2010.

Fez uma sessão na Casa da Cultura de Coimbra, no dia 17 de Março, intitulada “Acordo Ortográfico: SOS pelas matrizes profundas da língua portuguesa“. É autor de um texto claríssimo sobre o AO90, que teve a imensa generosidade de deixar em comentário na página da ILC e foi subsequentemente publicado, aqui mesmo, sob o título «Essa sinistra guilhotina».

A propósito da ILC Contra o Acordo Ortográfico, teve a amabilidade de nos dirigir as seguintes palavras:

«É para mim uma rara e honorável distinção estar envolvido
convosco nesta mesma sintonia em crescente movimento.»

Subscreveu a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.

Este é mais um perfil publicado na “galeria” de subscritores, activistas e apoiantes da nossa ILC.

Nota: esta publicação foi autorizada pela subscritor, que nos enviou, expressamente para o efeito, a sua biografia, de onde retirámos esta abreviadíssima versão.

 

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2012/04/14/fernando-paulo-baptista-subscreveu-a-ilc/

O AO90: «inútil e prejudicial» [Anselmo Borges, “DN”]

Escola vem do grego scholê, que significa ócio. Mas este ócio nada tem a ver com preguiça. Do que se trata é do tempo livre para o exercício da liberdade do pensar, do aprender e do tornar-se cidadão enquanto ser humano pleno e íntegro, numa sociedade livre. Sempre pensei – uma das heranças do meu pai – que a escola deve ser o lugar da saída da ignorância e da opressão, em ordem ao progresso e à realização plena do ser humano. Lugar de educação e formação.

A palavra educação vem do latim: educare (alimentar) e educere (fazer sair, dar à luz, elevar). Cá está: alimentar e fazer com que cada um/a venha à luz, realizando as suas potencialidades, segundo o preceito paradoxal de Píndaro: “Homem, torna-te no que és”: o Homem já nasce Homem, mas tem de tornar-se plenamente humano.

Aí está a razão da educação como o trabalho mais humano e humanizador, de tal modo que o filósofo F. Savater pôde justamente considerar os professores “a corporação mais necessária, mais esforçada e generosa, mais civilizadora de quantos trabalham para satisfazer as exigências de um Estado democrático”. Porque o que é próprio do Homem não é tanto aprender como “aprender de outros homens, ser ensinado por eles”.

Claro que, assim, sou a favor de uma formação holística. O ser humano não pode crescer apenas no plano científico e técnico: precisa também da estética, da ética, da literatura, da filosofia, da música, da história, da geografia, da religião… Mas julgo que o Português e a Matemática são fundamentais.

E é aqui que se coloca a questão do Acordo Ortográfico. Para que serve? Unificar a ortografia? São tantas as excepções que não se vê unificação! E a Inglaterra preocupa-se com a unificação do inglês? E ainda não foi ratificado por Angola e Moçambique. O jornal oficioso Jornal de Angola escreveu mesmo, justificando a sua não aceitação: “não queremos destruir essa preciosidade (a língua portuguesa) que herdámos inteira e sem mácula” e: “se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes de mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras. Há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios”.

Continue reading

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2012/04/14/o-ao90-inutil-e-prejudicial-anselmo-borges-dn/

“Brazilian”?

[“Screenshot” de página do site SRS (Arjuna)]

Este é, por mera coincidência, o modelo WordPress utilizado aqui mesmo, no site da ILC pela revogação do AO90. Neste momento estamos a traduzir os ficheiros necessários (do original em Inglês), após o que, é claro, os enviaremos para o autor do dito modelo.

Teremos então na lista de versões, por conseguinte, uma versão em Português (que ali era Língua desconhecida, pelos vistos) e a outra que já lá estava, em “Brazilian”.

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2012/04/11/brazilian/

«Angola e Moçambique querem…» [Marta Lança, “Público”]

Angola e Moçambique querem gerir o seu tempo na ratificação do Acordo

Fundamentos políticos, económicos, jurídicos. E linguísticos. A implantação do Acordo Ortográfico (AO) na totalidade da CPLP continua em discussão e os encontros de ministros da Educação e da Cultura em Luanda, há uma semana e meia, trouxeram à luz novos argumentos sobre os impasses na ratificação de Angola e Moçambique.

Há passos por dar, dizem responsáveis políticos e especialistas da língua dos dois países. Mas a posição angolana e moçambicana não são absolutamente coincidentes. O próximo passo, incontornável para Angola, é a elaboração de um Vocabulário Ortográfico Nacional, diz ao PÚBLICO, de Luanda, Paula Henriques, coordenadora da Comissão Nacional do Instituto Internacional da Língua Portuguesa em Angola.

Continue reading

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2012/04/11/angola-e-mocambique-querem-marta-lanca-publico/