«Contra a língua única» [Serge Halimi, “Le Monde diplomatique”, Junho 2013]

LeMondedip926

Contra a língua única

por Serge Halimi

Mercado único, moeda única, língua única? As portas e as pontes que ilustram as notas europeias já representam a fluidez das trocas entre comerciantes sem raízes nem história. Será que os estudantes também vão ter de sair do seu país sem dicionário, tendo como único passaporte linguístico um inglês de aeroporto, utilizável por toda a parte, em particular nas universidades francesas?

É que parece que estas continuam a estar demasiado «desajustadas à realidade» – tal como o resto do país. Imagine-se, ali continua-se a falar… francês! Geneviève Fioraso, ministra do Ensino Superior e da Investigação, quer eliminar este «obstáculo da língua». Ele estaria a desencorajar «os estudantes dos países emergentes, da Coreia do Sul, da Índia, do Brasil» de irem para França formar-se.

No entanto, há vinte e nove Estados que têm como língua oficial a de Molière (cinquenta e seis a de Shakespeare) e o número de falantes de francês não pára de crescer, em particular em África. Mas, a julgar pelo árduo percurso que em França são obrigados a percorrer, não serão estes os estudantes que o país quer atrair. Eles não são suficientemente ricos, não são suficientemente susceptíveis de pagar as (elevadas) propinas de uma escola de comércio ou de engenheiros.

Nas universidades norte-americanas, onde a percentagem de estudantes estrangeiros (3,7%) continua a ser muito inferior à que existe nos estabelecimentos de ensino franceses (13%), nunca ninguém imaginou resolver este «atraso» ensinando em mandarim ou em português. «Se não autorizarmos as aulas em inglês, seremos cinco a discutir Proust à volta de uma mesa», ironizou, ao menos, Geneviève Fioraso. Nicolas Sarkozy preferia mostrar o seu desprezo pelas humanidades lamentando os estudantes condenados a ler A Princesa de Clèves em vez de estudarem Direito ou Gestão.

A Lei Toubon, aprovada em 1994, determina que «a língua do ensino, dos exames e dos concursos, bem como das teses e dissertações nos estabelecimentos públicos e privados de ensino é o francês». Opondo-se a esta regra «que data do século passado», um punhado de prestigiados universitários entendem que a defesa do multilinguismo (ainda bem viva, neste século, na maioria das organizações internacionais…) estaria a dissuadir os anglófonos de irem estudar para Paris [1].

Mas a «atractividade» de uma língua não se resume à venda de formações aos países emergentes. Ela afirma-se nos intercâmbios com outros, pensando o mundo, incluindo o mundo que aí vem. Poderá a França, que lutou para defender o seu cinema e a sua excepção cultural, aceitar que um dia a investigação científica e a ciência se exprimam unicamente no idioma, aliás muitas vezes maltratado, da superpotência?

«O paradoxo actual», salienta o linguista Claude Hagège, «é que a americanização, a promoção do inglês, é feita por outros que não os americanos». Outros que não os franceses – em particular em África e no Quebeque – permitiram a resistência do pluralismo linguístico. A sua persistência merecia que os responsáveis políticos se inspirassem mais nela do que no fatalismo totalitário de um pequeno número de universitários.

[Transcrição integral (versão para impressão) de Editorial do jornal “Le Monde diplomatique” de Junho 2013.]

[Via “blog” Delito de Opinião.]

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2013/07/10/contra-a-lingua-unica-serge-halimi-le-monde-diplomatique-junho-2013/

«A resistência à abjecção» [carta de Aveiro (2)]


[Carta recebida no nosso Apartado, com (mais) 21 subscrições. Reprodução autorizada pelo remetente. Ocultámos os dados pessoais. Ver carta anterior deste mesmo (extraordinário) activista da ILC.]

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2013/07/06/a-resistencia-a-abjeccao-carta-de-aveiro-2/

FERLAP não “adota” AO90

FERLAP_logoExmo. Senhor
Presidente da Comissão de Educação, Ciência e Cultura,
José Ribeiro e Castro

Lisboa, 30 de Junho de 2013

Exmo. Senhor,

Começamos com uma pequena, enorme, frase de Fernando Pessoa “A minha Pátria é a Língua Portuguesa” que representa tudo o que pensamos da Língua Portuguesa e que não pode ser esquecido.

Depois, tendo em atenção que o Acordo Ortográfico é um Tratado multilateral restrito e que, de acordo com o acordado em 1990 por todas as partes, o mesmo entra em vigor apenas quando tenha sido ratificado por todos os Estados que o tenham negociado;

Tendo em atenção que o referido Tratado não foi ratificado por todos os Estados e que as modalidades da respectiva entrada em vigor são de importância decisiva e crucial desde o momento da autenticação do documento;

Tendo em atenção as divergências existentes entre a comunidade linguística e jurídica sobre a sua validade e legalidade (a Resolução do Conselho de Ministro que decidiu da sua aplicabilidade não pode fazer ignorar as regras sobre a aplicação de convenções internacionais consagrada no artº 8º da Constituição da República Portuguesa);

A FERLAP entende que a Língua evolui naturalmente e não por decreto, assim não entende:

1. em que condições é que admite a utilização de um Acordo Ortográfico que faz parte de Convenção multilateral ainda não ratificada por todos os membros;
2. em que medida, nestas circunstâncias se pode admitir a sua utilização pelos alunos, quando na comunidade linguística e científica a sua validade é duvidosa;
3. se faz sentido obrigar os alunos portugueses a utilizar o A.O. quando organismos integrantes da estrutura do Estado não o utilizam;
4. como é possível, haver alunos a aprender de forma diferenciada a sua Língua;
5. quais os benefícios que este acordo pode trazer à Língua Portuguesa e para Portugal;

Pensamos ser um atropelo completo à Língua e à Cultura Portuguesa, pensamos que nada de bom nos trouxe, pensamos que veio aumentar as ambiguidades já existentes, pensamos que em vez de simplificar, complicou, pensamos que a Língua, já o dizia Pessoa, é fundamental para a integridade e identidade de uma Nação, pensamos que, para já, a identidade está a perder-se, pensamos que as variações do Português o enriquecem e não o contrário.

Enfim, pensamos que os quase mil anos de História têm peso suficiente para não termos que abdicar da nossa Língua em troca de qualquer outra coisa.

Melhores cumprimentos,
Isidoro Roque
Presidente

[Transcrição integral da resposta da FERLAP (Federação Regional de Lisboa das Associações de Pais) a um pedido de informação da CECC (Comissão de Educação, Ciência e Cultura).]

logoCECC

[Ver AQUI outras entidades que recusam expressamente o AO90.]

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2013/07/02/ferlap-nao-adota-ao90/

Traduções de Português para “brasileiro” (“ao abrigo do AO90”, é claro)

bangmagazine_portugal

All Portuguese language editions of Saída de Emergência will be further translated into Brazilian to accommodate differences in the written word between Portugal and Brazil, prior to publication.

[trad.]
“Todas as edições da ‘Saída de Emergência’ em Língua Portuguesa serão adicionalmente traduzidas para Brasileiro [sic] por forma a adaptar as diferenças de escrita entre Portugal e Brasil antes da publicação.”
[/trad.]

[Imagem e citação de SFcrowsnest.]

[Via Octávio dos Santos.]

Actualização (17:22)
Através de informação de Octávio dos Santos constatámos ter sido entretanto alterado o “post” original aqui citado. No entanto, Hermínia Castro tinha guardado uma cópia em PDF que, depois de convertida para formato “Word”, mostra (e demonstra) sem qualquer sombra de dúvida que o excerto aqui transcrito confere rigorosamente com o que lá estava. E que estava lá também um comentário do próprio Octávio dos Santos, igualmente apagado posteriormente pelos administradores daquele “site” inglês.

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2013/07/02/traducoes-de-portugues-para-brasileiro-ao-abrigo-do-ao90-e-claro/

E que tal um Acordo Legislativo?

Bartoon300613

Comentário em Indignação cívica [M.J. Abranches “versus” TIAC] por Maria Fernanda Pinto
Sun, 30 Jun 2013 11:56:49
Não acredito que ainda haja gente dentro de Portugal que manifeste uma total desenvoltura, quanto ao futuro da língua portuguesa! Desenvoltura ou ignorância? Vivo há 40 e tal anos em Paris, nunca tendo deixado de “empregar” a minha língua. Assisto aqui, no ramo do ensino, às mais trágicas explicações sobre o tal A.O. recusado por Angola, Moçambique e pelo Brasil se tiver “tento na bola”!!!Tive a ocasião de dizer em público, este mês, a um senhor responsável pelas “Kólturas” linguísticas, que para exemplo, quando aprendi francês em Lisboa, não me ensinaram nem o francês do Québec, nem do Mali, etc; mas o francês de França (que teve a inteligência de registar o dicionário, não fosse algum “taradinho moderno” querer “negociá-la” a troco de um bem monetário). Disse também que as duas línguas latinas que nós temos é a portuguesa e a francesa. Nesta última ninguém toca, porque protegida. Na portuguesa, os “chicos espertos e modernistas”, querem fazer algo de…indefinido!

Troca por…vamos saber tudo dentro em pouco, muito pouco, e então vai ser bonito, caros compatriotas vendedores!!!

O Ministério da Educação foi totalmente contrário à aplicação do AO e a T.I.A.C. (?) não está ao corrente? Safa!!! Vive numa ilha sózinha?

[Imagem: “Bartoon”, de Luís Afonso,  jornal “Público” de 29.06.13.]

[No comentário transcrito foram por nós acrescentados (separação por) parágrafos, destaques a “bold” e “links.]

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2013/06/30/e-que-tal-um-acordo-legislativo/