Nov 14 2017

4379 cidadãos para a Língua Portuguesa

Público_4379No Verão passado, fez agora um ano, tive o azar de dizer em voz alta: “Move-se. E, desta vez, não me parece que possa ser parada.”

Referia-me à Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) contra o Acordo Ortográfico (AO). Este movimento acabava de ganhar um novo fôlego com a redução do número de assinaturas necessárias para apresentar uma ILC no Parlamento (de 35.000 para 20.000) e com a possibilidade de recolhermos as assinaturas em falta por via electrónica. Para cúmulo das facilidades, até o vetusto n.º de eleitor desapareceu, deixando de ser necessário para a subscrição. Cheguei a ponderar um “não pode ser parada”. Felizmente, mantive o “não me parece” — salvei-me assim do pecado da soberba, limitando-me a ser ingénuo.

Em meu abono, convenhamos que o cenário era francamente animador. Se foi possível reunir mais de 14.000 assinaturas no tempo das vacas magras, quando era preciso assinar fisicamente um papel e enviá-lo pelo correio, não haveríamos de conseguir agora uns meros 5000 e poucos cliques de rato? Parecia fácil. Parece fácil, ainda hoje…

O Acordo Ortográfico sempre foi um desastre, sob todos os pontos de vista: científico, político, social. A fuga para a frente e a insistência na sua aplicação só tem servido para agravar ainda mais o estado da ortografia no nosso país. Neste contexto, reunir as assinaturas em falta parecia uma brincadeira de crianças. O que correu mal?

Aconteceu um pouco de tudo. Para começar, a plataforma Causes acabou — de uma assentada, perdemos o contacto com mais de 120.000 seguidores da ILC. As únicas vias de comunicação com os nossos subscritores passaram a ser a nossa página no Facebook, com cerca de 9500 seguidores, e o sítio oficial da ILC, em www.ilcao.com.

Aconteceu, também, a dispersão dos próprios anti-acordistas. É um fenómeno estranho, mas real: há quem assine tudo o que for contra o AO… excepto esta ILC. Queixas na Provedoria, petições, cartas abertas, pedidos de referendos, manifestações e até — pasme-se — uma petição “com valor simbólico de ILC”. Tudo é preferível à participação numa ILC a sério.

Nenhuma daquelas iniciativas produziu resultados. Mas, a cada revés, os seus promotores optam sempre por começar algo novo, a partir do zero. Apoiar uma ILC praticamente concluída parece estar fora de questão.

Que mais pode acontecer? Que tal uma nova mudança nas regras das ILC? Sim, a notícia do fim do n.º de eleitor revelou-se algo exagerada. Esta ILC pôs de pé um portal para subscrição online da Iniciativa mas, passado menos de um ano, eis que esse portal se torna obsoleto. Lá tivemos de meter novamente mãos à obra, acrescentando os campos que, aos olhos da Assembleia da República, são afinal imprescindíveis.

Tudo isto — “redes sociais” que não funcionam, tiros no pé de anti-acordistas e burocracia da Assembleia da República — afecta bastante a luta contra o Acordo.

Mas nada é tão pernicioso como o muro de indiferença que continua a rodear este assunto. A existência do AO90 é insustentável — e, no entanto, o AO90 arrasta-se. Este paradoxo, alimentado pelo desnorte de sucessivos governos no capítulo da Língua, é um duro teste à nossa capacidade para resistir ao disparate.

A própria Assembleia da República contribui para o marasmo ao criar (mais) um Grupo de Trabalho para avaliar o impacto do AO90, cuja única conclusão, até ao momento, é a de que deve continuar a avaliar.

Mas há mais e pior: a anunciada “revisão” do AO90, que ameaça tornar-se a machadada final no Português Europeu. Para já, o único resultado desse anúncio parece ser uma anestesia ainda maior da luta contra o Acordo.

Vêm-me à memória as palavras de Nuno Pacheco, redactor-principal deste jornal: “Valha-nos, ao menos, a insistência da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o acordo. Deviam assiná-la todos os que ainda não perderam a coragem.”

Pela parte que nos toca, não contem connosco para deitar a toalha ao chão. O “endereço” para a subscrição electrónica aqui fica: https://ilcao.com/subscricoes/subscrever.

Se estão fartos de petições, de iniciativas de referendo ou de promessas de revisão, assinem.  Se nunca ouviram falar desta ILC, assinem. E se tiverem 4379 amigos*, tragam-nos também. O futuro da Língua Portuguesa está nas vossas mãos.

Comissão Representativa da ILC-AO

*N.º de assinaturas que faltam para as 20.000

 

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2017/11/14/4379-cidadaos-para-a-lingua-portuguesa/

Out 28 2017

O Futuro da Língua Portuguesa

M., camarada de armas na luta contra o Acordo Ortográfico, disse-nos há dias que está grávida. Fantástico! Se alguma coisa de bom devemos ao AO90 será certamente esta ponte entre um grupo alargado de pessoas maravilhosas, que não teríamos conhecido de outro modo. A notícia desta gravidez foi uma alegria enorme, como não podia deixar de ser. E, se tudo correr bem, M. e o Pedro irão ter uma menina lá para o final de Janeiro.

Além da grande satisfação pelo acontecimento, a notícia tem ainda um sabor especial: sendo filha de M., o simples nascimento desta bebé é desde logo a garantia de que, por muitas e boas décadas, o AO45 continuará a ser usado.

Falamos, obviamente, do nosso país. No resto do mundo o AO45 parece ter assegurado um futuro risonho, com Angola e Moçambique no pelotão da frente dos países que o utilizam. Já que falamos de nascimentos, prevê-se que, em 2050, estes dois países tenham, no seu conjunto, mais de 120 milhões de habitantes. Nesse ano, o Brasil terá 223 milhões. Mas há um pormenor interessante. Dizem os analistas que estes três países alcançarão essa data com dinâmicas diferentes. Prevê-se que o Brasil, em queda, chegue ao ano 2100 com 178 milhões de habitantes, sendo ultrapassado por Angola e Moçambique algures na segunda metade deste século.

Estes números são apenas uma curiosidade estatística. Mas não posso deixar de sorrir quando penso no argumento acordista para nos impingirem o Português do Brasil — que é, no fundo, o que significa “adotar” o AO90. “Temos de juntar-nos à maioria”, diziam eles, “sob pena de passarmos a ser uma variante irrelevante”. Que maioria?

Claro que todo o argumento é uma falácia. Adoptar a ortografia de um país estrangeiro — sendo que, por arrasto, já se insinua também o vocabulário — é um absurdo enorme. Já agora, porque haveremos de ficar-nos pelo Português do Brasil, que é só a sexta Língua mais falada do mundo? O ideal seria mesmo um Acordo Ortográfico com a China. Passaríamos a escrever em mandarim, no primeiro lugar do podium linguístico mundial. É verdade que o mandarim não é a nossa “ortografia materna”. Mas o AO90 também não. O AO90 não é nada.

Não é nada… em Portugal, pois claro. No Brasil o AO90 é tudo porque é exactamente a ortografia que já existia, com ligeiríssimas modificações que já tinham aceitado anteriormente. Em Angola e Moçambique — que, ainda assim, não adoptaram o AO90 — teríamos de considerar que o Português é Língua Oficial mas não é a Língua Materna da maior parte da população. Portugal é, de facto, o único país afectado por um Acordo Ortográfico onde todos ficam com a ortografia que já tinham — excepto nós, portugueses, que ficamos com esta coisa artificial, execrável, fruto da loucura incurável que assola linguistas nacionais há mais de cem anos.

Perdoar-me-ão, portanto, os meus amigos brasileiros e demais falantes de Português espalhados pelo mundo. Como se imagina, preocupa-me mais o futuro do Português Europeu em Portugal do que os sobressaltos introduzidos pelo AO nesses países.

Valha-nos M., com a sua gravidez e boa disposição. Quando lhe disse que a filha dela estará ainda a escrever em Português Europeu daqui por muitos anos não a imaginei, obviamente, a escrever sozinha em Português correcto, cercada de acordistas por todos os lados. A luta contra o AO90 — a caminho das três décadas! — está viva, recomenda-se, e continuará até que se faça luz na mente dos nossos governantes.

Mas foi a resposta da futura mãe que melhor evidenciou o espírito e a atitude que devemos ter perante o “coiso”: “vamos torcer para que daqui a 6 anos (quando a miúda entrar na escola) esse problema já não exista…!”

Oh, sim! Vamos! :^)

(imagem: De Rerum Natura)

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2017/10/28/o-futuro-da-lingua-portuguesa/

Set 10 2017

Que não seja por isso…

Na semana passada falámos aqui na entrada em vigor de novas regras para a subscrição desta ILC. O fim do Número de Eleitor, anunciado com pompa no Verão de 2016, revelou-se sol de pouca dura. Ao fim de menos de um ano, eis que essa informação volta a ser obrigatória para novas subscrições.

Trata-se, como é evidente, de mais um entrave para a prossecussão dos nossos objectivos. O Nº de Eleitor é um dado que ninguém sabe de cor. Para preencher o formulário de subscrição da ILC, o subscritor passa agora a ter de preencher previamente um outro formulário — o da pesquisa no Portal do Recenseamento.

Graças a esta “inovação”, a subscrição desta ILC passa a demorar o triplo do tempo e, pior do que isso, o impulso para subscrever complica-se: a probabilidade de o subscritor adiar a sua subscrição para “mais tarde” aumenta exponencialmente.

Mas convém esclarecer: este retrocesso da Lei está para lá da simples complicação processual. Mesmo que alguém, porventura, saiba de cor os seus dados de eleitor o contra-senso subsiste: a A.R. exige a inclusão de dados que já é possível obter a partir do Nº do Cartão de Cidadão e da data de nascimento, que também são pedidos. É uma burocracia desnecessária, que penaliza toda a gente, em especial aqueles que estão menos familiarizados com a coisa informática.

Contrariados, pedimos (numa primeira fase) aos novos subscritores para utilizarem o campo “Observações” para inserirem o nº de Eleitor e a Freguesia e Concelho de recenseamento.

Claro que esta solução não só era pouco elegante como estava sujeita a erros de preenchimento e tratamento de dados. Se o Nº de Eleitor é mesmo incontornável, então, não seja por isso — enquanto tiver de ser, mais vale fazermos as coisas como devem ser feitas.

Por este motivo, e sempre sob protesto, disponibilizámos há dias o formulário já com espaço para os dados que agora voltaram a ser exigidos pela Assembleia da República.

Desde logo, e embora a Lei não o refira, parece-nos coerente incluir toda a informação referente ao recenseamento e não apenas o Nº de Eleitor, que pode repetir-se em diferentes Freguesias do país. Neste pressuposto, havia pelo menos que facilitar o preenchimento desta informação. As listas de Concelhos e de Freguesias são apresentadas em menu, sendo que, quando um Concelho é seleccionado, o menu das Freguesias restringe-se automaticamente às Freguesias desse mesmo Concelho.

Não foi tarefa fácil. Existem centenas de concelhos e milhares de freguesias, e o Ministério da Administração Interna, por estranho que pareça, não disponibiliza (ou, pelo menos, não é fácil encontrar) essa informação. Quem sabe isso é o Minstério das Finanças, pois claro — e, mesmo assim, foi ainda necessário corrigir pontualmente a lista de Freguesias.

Modéstia à parte, cremos que continuamos a definir um padrão, tanto em termos de segurança como de procedimentos — e a desbravar caminho para futuras ILC.

Esperamos que seja possível desbravar caminho, também, para a Língua Portuguesa. Tudo depende de si, caro leitor. Se ainda não subscreveu a ILC tem agora um formulário renovado à sua disposição.

 

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2017/09/10/que-nao-seja-por-isso/

Ago 29 2017

Novas regras para a(s) ILC

No dia 13 de Agosto completaram-se 30 dias sobre a publicação em Diário da República da mais recente alteração da Lei 17/2003, que regulamenta as Iniciativas Legislativas de Cidadãos.

Nos termos da Lei, entraram assim em vigor novas regras para a subscrição de uma ILC. No espaço de menos de um ano passámos, portanto, por três formas diferentes de subscrever uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos. Para acompanharmos os avanços e recuos desta matéria já se justifica uma demonstração em tabela:

Regras em vigor Assinatura em papel Assinatura “online” BI/CC Nº de Eleitor Freguesia e Concelho Data Nasc.
No lançamento da ILC-AO Sim Não Sim Sim Aconselhável Não
De 1 de Outubro de 2016 a 12 de Agosto de 2017 Sim Sim Sim Não Não Sim
De 13 de Agosto de 2017 em diante Sim Sim Sim Sim Aconselhável Sim

 

Claro que, quando dizemos “uma ILC” queremos na verdade dizer “esta ILC”, tendo em conta que esta é a única Iniciativa Legislativa de Cidadãos em curso.

Para se ter uma pequena ideia do transtorno que estas mudanças acarretam vejamos este pequeno episódio: nem de propósito, recebemos há dias uma subscrição em papel datada de… 2012. Naturalmente, veio sem a data de nascimento do subscritor, uma vez que esse dado não era pedido nessa altura.

Pela lógica, devemos considerar esta subscrição como válida, apesar de só agora ser adicionada à nossa base-de-dados. Mas o que dizer de outras subscrições, recebidas na mesma data, em folhas de subscrição múltipla? O responsável por essa recolha “trancou” as folhas com a data de envio (Julho de 2017) mas a maior parte foi recolhida antes dessa data. Algumas assinaturas trazem data de nascimento, outras não; o impresso não as pedia porque era anterior a Outubro de 2016, algumas trazem o campo do nº de eleitor preenchido outras não porque esse dado, durante algum tempo, não foi necessário. Que fazer? Que critério adoptar para a validação de assinaturas? A data de preenchimento do impresso, a data em que esse impresso é “trancado”, a data de envio pelo correio ou a data em que a informação é processada?

Vejamos ainda o caso do nosso formulário para subscrição online. Este formulário foi criado por nós, de raiz, para suprir o vazio deixado pela Lei Orgânica 1/2016 (que admitia a subscrição electrónica de uma ILC sem que existisse um “sítio” onde pudéssemos fazê-lo). Esse formulário, naturalmente, foi desenhado de acordo com as regras que deixam de existir e, por conseguinte, todo esse trabalho fica agora posto em causa, obrigando-nos a uma adaptação de recurso…

É certo que estas sucessivas alterações da Lei visavam, em primeira instância, a simplificação de processos e o fomento desta forma de exercício da cidadania. Não podemos deixar de saudar a redução do número de assinaturas necessário para viabilizar uma ILC e a possibilidade de subscrição por via electrónica.

Já as demais alterações são confusas e acarretam, para esta ILC, um efeito nefasto porque, em rigor, deixámos de saber exactamente quantas assinaturas temos. Ou seja: neste momento, as assinaturas que reúnem TODOS os dados, independentemente da data em que foram recolhidas, são uma pequena percentagem do total. Irão os serviços administrativos da AR atender às diferentes datas em que as assinaturas foram recolhidas? O que farão nos muitos casos em que esse dado — que não é necessário no processo de subscrição — não existe?

Como é evidente, não é legítimo sujeitar uma ILC a este grau de incerteza. Por um azar dos Távoras, nosso, mas para sorte da Assembleia da República, estas alterações só afectam uma ILC. Não sabemos, e a AR certamente também não, que critérios serão aplicados para escrutinar uma ILC — a nossa — submetida nestas condições.

O certo é que, quando entregarmos as assinaturas no Parlamento, estaremos dependentes da interpretação que os serviços da AR irão fazer da Lei, nas suas várias redacções.

Quase apetece dizer: não há condições! Neste cenário de confusão, não temos outra alternativa que não seja aguardar que se chegue, tão rapidamente quanto possível, a uma solução que de facto simplifique a realização de uma ILC.

Infelizmente não podemos dar-nos a esse luxo. A Língua Portuguesa não se compadece com mais delongas.

Sob protesto, tentámos incorporar estas novas regras — por este motivo, actualizámos os boletins de subscrição em papel e acrescentámos algumas notas ao formulário online: pedimos aos novos subscritores que utilizem o campo destinado às observações para introduzir o nº de eleitor e as respectivas freguesia e concelho de recenseamento. Pedimos também, a todos quantos possam ter folhas de subscrição “antigas” meio preenchidas, que peçam os dados em falta e tentem inseri-los algures.

E, como é evidente, não podemos deixar de solicitar à AR que “recue no recuo”, pondo de parte, de uma vez por todas, o nº de eleitor — uma informação obsoleta, que ninguém sabe de cor e que pode ser obtida através de outros dados que já são pedidos.

Acima de tudo, apelamos a todos quantos, como nós, consideram o Acordo Ortográfico absurdo e inútil: não nos deixemos abater por mais esta contrariedade! Se ainda não subscreveu a nossa ILC, faça-o agora: ilcao.com/subscricoes/subscrever/. Se já subscreveu, esta ILC também é sua: defenda-a, agora que estamos mais perto de conseguir o objectivo das 20.000 assinaturas — identifique aquele amigo que sabe que ainda não subscreveu, envie-lhe o “link” da subscrição electrónica e disponibilize-se para o ajudar no processo de subscrição, caso ele tenha alguma dúvida. E, se não o fez ainda, envie-nos a sua data de nascimento.

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2017/08/29/novas-regras-para-as-ilc/

Ago 06 2017

Procuram-se: profissões sem AO90

Costumava dizer que tinha a melhor profissão do mundo. Ser tradutora na área científica/médica/farmacêutica implicava lidar com assuntos que me interessam, escolher os projectos em que queria trabalhar, aprender constantemente e utilizar os meus dois idiomas preferidos: o inglês e o português. Do meu ponto de vista, não se podia pedir mais nada. A minha profissão era, portanto, ao mesmo tempo trabalho e entretenimento, os dias passavam fluidamente e eu não tinha preocupações de maior. Foi assim durante uns belos anos.

Depois veio a imposição do AO90. Algumas agências de tradução começaram a aplicá-lo de imediato em tudo, inclusivamente em todas as comunicações escritas. Outras não, mas começaram a ter exigências de clientes para o aplicar em alguns trabalhos, se não mesmo na maioria. Honra lhes seja feita, há bastantes clientes que nunca foram na onda da “maravilhosa nova ortografia”: aqui lhes deixo o meu forte aplauso e a minha profunda gratidão.

Ou seja, de repente e sem qualquer motivo válido, o meu idílio profissional desmoronou-se. Passei a ter de perder um tempo precioso, todos os dias, em “negociações” sobre algo que nunca me pareceu fazer qualquer sentido. Perdi horas (literalmente!) a explicar o meu ponto de vista, a explicar porque não aplico o AO90, porque acho que o AO90 não tem pés nem cabeça, porque acho que ninguém devia aplicá-lo, porque acho que os clientes só teriam vantagem em não o aplicar, porque acho que a qualidade da tradução é indissolúvel da qualidade da ortografia, etc. Explicar isto a gestores de projecto estrangeiros, muitas vezes perplexos até com a existência de uma “nova” ortografia, não é tarefa fácil, garanto-vos — sobretudo se eles até concordam inteiramente comigo, mas o cliente, dada a suposta “obrigatoriedade” da coisa e sem um conhecimento aprofundado da questão, continua a exigir que se aplique… Às vezes os meus argumentos chegavam a bom porto, outras vezes não.

Qualquer pessoa que trabalhe na tradução e lide com o inglês sabe que este é um idioma com duas variantes principais (Reino Unido / Estados Unidos) e uma catrefada de outras (o Word, por exemplo, apresenta 18 variantes à escolha!). Isso não constitui qualquer espécie de problema. Portanto imaginem o que é explicar que alguém acha que é um problema terrível que o português tenha duas variantes e que por causa disso supostamente tenhamos de aplicar uma pseudo-ortografia que nem é carne nem é peixe. Que, cereja em cima do bolo da inutilidade, nem sequer resolve o tal “terrível problema” de haver duas variantes principais…

Toda esta argumentação constante, que continuo a exercer com quaisquer agências ou clientes novos que surjam, acaba por ter o seu preço. Esse preço é, por um lado, a minha paciência, que não é inesgotável, a par de um cansaço e desilusão que se instalaram. Como é/foi possível que algo assim, sem um pingo de lógica ou racionalidade, tenha chegado onde chegou? Continuo sem resposta para esta pergunta. Por outro lado, há o preço da recusa da minha parte, ou da perda pura e simples, de projectos que de outra forma teria tido imenso gosto em fazer e que são atribuídos a quem quer que seja que os faça com o AO90. Hoje em dia recuso cerca de 1/3 — proporção curiosamente recorrente no que se refere ao AO… — dos trabalhos que me chegam.

Aproveito aqui para dizer que não censuro de forma alguma os meus colegas que aplicam o AO90 mesmo não concordando com a “nova” “ortografia” por aí além. É preciso pagar as contas ao fim do mês e, perante exigências (absurdas ou não) do cliente, o que fazer…? Qual é o profissional independente que não se deparou já com dilemas deste tipo? Eu não consigo, pura e simplesmente, escrever com o AO90 — o absurdo da coisa causa-me urticária. Mas isso sou eu e cada qual sabe de si. Não obstante, vale a pena registar que de todos os colegas com quem falei até hoje sobre isto, e foram muitos, só conheço um que concorda realmente com o AO. Os tradutores, regra geral, conhecem o seu idioma a fundo e identificam as fraudes rapidamente.

Voltando à minha narrativa, durante uma fase houve muitos dias em que, em vez de pensar no trabalho com gosto, como era habitual, quase receava os novos e-mails que inevitavelmente haveriam de chegar, suspirando antecipadamente de desânimo perante a perspectiva de perder mais umas horas a falar de um assunto que abomino mas que não tenho como evitar. Suspirando antecipadamente de desânimo perante a perspectiva de recusar trabalhos que, se esta malfadada questão não existisse, teria aceitado de imediato. Nos trabalhos que aceitava, dava por mim a escolher palavras que não pudessem vir a ser adulteradas caso alguém tivesse a infeliz ideia de “acordizar” o texto a jusante. Sentia-me prisioneira num labirinto vindo do nada.

Contudo, porque não tenho feitio para me deixar derrotar pelos acontecimentos, houve então um momento em que comecei a ponderar explorar novos caminhos profissionais, nos quais pudesse concentrar-me no trabalho e não constantemente em questões acessórias, podendo assim voltar a ter gosto no que faço, algo que considero fundamental. A solução mais evidente: procurar caminhos profissionais livres de AO90. Se, por puro cansaço da minha parte, o português poderia vir a deixar de ser uma opção, concentrei-me no inglês.

Aconteceu assim que agora, no tal 1/3 do tempo que tenho livre, dou aulas de inglês. A parte melhor: adoro! Mas, sobretudo, não há como explicar o imenso e extraordinário alívio que é durante essas horas não ter sequer de me lembrar que o AO90 existe. É profundamente libertador, se não mesmo terapêutico, e voltei a gostar imenso de trabalhar, agora nas minhas duas profissões. Já tinha saudades.

Qual o peso que esta minha segunda profissão virá a ter no futuro? Não sei. O que eu gostaria que acontecesse seria que o AO90 desaparecesse e eu pudesse voltar a traduzir descansada, admirando todos os dias a maravilha que é a minha língua materna. Mas creio que manteria também as aulas de inglês, pois foram uma descoberta inesperada e muitíssimo agradável. Vá lá, posso finalmente dizer que o AO90 me trouxe algo de bom 😉

•••••••••••••••

Esta história é-lhe familiar? É natural. Quase todos criámos mecanismos para melhor lidar com o AO ou minorar os seus efeitos. Enquanto durar o jugo do Acordo Ortográfico é até uma questão de sanidade mental procurarmos, por todos os meios, sofrer o menos possível com as suas regras absurdas, com a sua falta de lógica, com o seu desconchavo estético.

No entanto, esta forma de lidar com o AO não pode nunca ser confundida com habituação, entorpecimento ou aceitação resignada. Também este artigo, um simples relato na primeira pessoa, não pode ser confundido com uma receita para melhor tolerarmos o Acordo.

Desde logo, nem toda a gente pode mudar de profissão. Mas também isso não seria solução. Há profissões, como a minha, em que o Acordo Ortográfico é crucial mas, tratando-se da nossa Língua, o AO insinua-se em todo o lado. Procuram-se profissões sem o AO, sim — todas elas!

Se, como eu, está cansado de ter de lidar com o AO90 todos os dias, ajude a conseguir que todos nós possamos respirar novamente de alívio ao ler e escrever. Subscreva!

 

(imagem de fineartamerica)

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2017/08/06/procuram-se-profissoes-sem-ao90/