Em entrevista publicada na sexta-feira, dia 13 de Junho, neste jornal, o director do Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, António Sartini, declarou:
“Acho portanto muito justo que esta língua [portuguesa] se torne oficial nos organismos internacionais. É lógico que esse processo sempre gera descontentamentos [devido ao acordo ortográfico]. Mas para que ela seja oficial é preciso que seja coesa, pelo menos na sua forma culta, normativa. Ela não se tornou oficial até hoje porque há uma forma de escrever no Brasil, outra em Portugal… Para chegarmos a uma forma única, alguém tem de abrir mão de alguma coisa – e isso deixa as pessoas desconfortáveis”.
Em virtude destas declarações, graves pelas responsabilidades linguísticas e pedagógicas de quem as proferiu, vimos chamar a atenção para os seguintes factos objectivos:
1. A língua inglesa possui mais do que uma forma de escrever, com diferenças sensíveis entre cada uma (por exemplo, entre a norma adoptada nos EUA e a adoptada no Reino Unido), e isso não a impede de ser a língua mais divulgada no mundo, língua oficial de quase todos os organismos internacionais.
2. O “acordo ortográfico” que António Sartini refere na entrevista, como está cientificamente comprovado, leva ao AUMENTO das divergências entre as ortografias de Brasil e Portugal. Antes do “acordo”, escrevia-se recepção e detectar nos dois países. Depois do “acordo”, nasceram novas palavras em Portugal, receção e detetar, criando uma divergência ortográfica onde existia convergência. Isto sucede em centenas de casos. Logo, o dito “acordo” não somente não contribui em nada para “chegarmos a uma forma única”, como possui exactamente o efeito oposto.
Jun 18 2014
AO90: «’Abrir mão’ ao descalabro ou do descalabro?» [“Público”, 18.06.14]
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Jun 13 2014
«O que quer, o que pode esta língua?» [editorial do “Público” de 13.06.14]
A pergunta, formulada por Caetano Veloso numa canção, continua sem resposta clara, embora por aí se avancem sonhos de conquistas utópicas a vários pretextos. Estamos, de novo, a ouvir falar da língua portuguesa e só nesta edição do PÚBLICO se dão conta de três iniciativas que nela se alicerçam: uma exposição sobre Eça de Queiroz no Museu da Língua de São Paulo, no fim deste ano ou no próximo; um colóquio sobre o património de origem portuguesa no mundo onde a língua, naturalmente, se entrosa; e um manifesto para que sejam festejados, a partir de 27 de Junho e durante um ano, oito séculos do mais antigo documento oficial em língua portuguesa, o testamento de Dom Afonso II. São portas abertas que só levarão a algum lado se a diversidade (sintáctica, vocabular, ortográfica) levar a melhor sobre a “unicidade” forçada. Porque a língua portuguesa é uma e são várias. É esta a sua incomensurável riqueza. Ignorem-na e perdê-la-ão.
[Transcrição (parcial) de editorial do jornal “Público” de 13.06.14]. “Links” inseridos por nós.]
“Língua”, letra e música de Caetano Veloso
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Jun 09 2014
Constituição da República Portuguesa – 8.ª revisão (Agosto 2013)
A imagem à esquerda, em tamanho real (42 por 60 milímetros), é de um exemplar da Constituição da República Portuguesa, dos 15.000 que estão neste momento a ser distribuídos gratuitamente na Feira do Livro de Lisboa. Tem 351 páginas, refere na capa – certamente por lapso – que se trata da “7.ª revisão” e é uma edição da “Divisão de Edições da Assembleia da República“, de Agosto de 2013.
A respectiva ficha técnica (ISBN 978-972-556-603-9), na página 2, contém uma
Ora, o texto da Constituição da República Portuguesa indica mecanismos, condições e limites para a sua própria revisão. Nomeadamente, ali se refere que:
Artigo 287.º
(Novo texto da Constituição)As alterações da Constituição serão inseridas no lugar próprio, mediante as substituições, as supressões e os aditamentos necessários.
A Constituição, no seu novo texto, será publicada conjuntamente com a lei de revisão.
Tratando-se esta edição, por conseguinte, visto que o texto original foi alterado, não da 7.ª mas da 8.ª revisão da CRP, estamos então perante uma ilegalidade flagrante .
Desde quando pode o texto da nossa Lei Fundamental ser alterado sem qualquer votação (ou intervenção sequer) dos deputados da nação? Onde e quando foi publicada a respectiva “lei de revisão”?
Este meu exemplar já foi para o lixo, escusado será dizer.
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Jun 08 2014
«Saramago traduzido para português» [Nuno Pacheco, “Público”, 08.06.14]
Foi desta: Saramago está finalmente traduzido. Não para tamil, urdu ou bhojpuri, línguas em que decerto já existirá, mas para português. Sim, para português, o “bom português” que por aí se “acorda”, não aquela grafia quase medieval do século XX. Basta ir à Feira do Livro e lá estão os volumes, em capas coloridas, expostos à curiosidade do comprador. Têm menos consoantes mas isso não é um mal, é um bem. Mesmo que Saramago tenha escrito “tecidos e luxo de confecção” na página 134 de A Viagem do Elefante, é mais fácil ler agora “tecidos e luxo de confeção” na edição moderna, percebe-se logo do que se trata, é óbvio. Além disso, todos os que achavam a escrita de Saramago difícil vão com isto poder lê-lo sem dificuldade. É preciso dizer, a bem da verdade, que Saramago só teve o Nobel porque lhe leram a obra em inglês. Se a lessem naquele português arcaico… coitado dele. Mas pronto: foi enfim salvo.
Aliás, não é só Saramago. Os que escrevem em português adoram traduzir-se uns aos outros, à falta de ocupação mais útil. Talvez depreciem as capacidades de entendimento alheias e resolvam, assim, facilitá-las. Um brasileiro lê inglês no original, mas tem de ler português de Portugal traduzido. Senão não entende, coitado. Um português é capaz de ler francês ou até mesmo alemão, mas se lhe chegam um livro em português do Brasil têm de “adaptá-lo” para que ele entenda. É estranho, no entanto, que muitos portugueses e brasileiros, nas suas viagens, comprem livros cá e lá e mesmo assim os leiam. Devem ser muito inteligentes. Os outros, coitados, os que não viajam por falta de dinheiro ou tempo, têm de ler traduções. De português para português, pois então. Como agora com Saramago, e apenas cá. É engraçado que não traduzam telenovelas, poesia ou letras de canções mas sintam necessidade de ajeitar outras literaturas. O monumental Carmen, de Ruy Castro, por exemplo, foi “adaptado” na edição portuguesa. Não só para lhe pôr mais umas consoantes mas também para alterar termos do vocabulário que os portugueses podiam não compreender. É assim que, na página 224 da edição brasileira (da Companhia das Letras), se escreve “ela seria a última que o curso escolheria como sua garota-propaganda”; e na edição portuguesa (página 225) se “traduz”: “ela seria a última que o curso escolheria como sua imagem de marca”. Assim.
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Jun 08 2014
«A palhaçada do Acordo Ortográfico» [Tomás Goldstein, “Mais Opinião”, 06.06.14]
Já toda a gente percebeu que o acordo ortográfico (AO) é uma palhaçada. Ainda só não conseguimos entender como é que vai ser daqui para a frente. A geração que estava na escola e na universidade, quando foi decidido que se queria mudar a língua, já não sabe escrever direito.
Eu não sou professor, mas imagino que ler trabalhos académicos nestes anos tenha sido doloroso. Sempre que leio textos desse tipo (e não só) sou confrontado com uma espécie de mistura entre pré-acordo, pós-acordo e invenção-acordo. Lê-se percepção e acção, misturado com ator e Egito e ainda novas palavras: ‘retracto’. Retracto existe, de facto, mas é um adjectivo e significa: retraído, contraído. Vem de retracção. quando nos referimos a retrato, querendo remeter para a imagem de uma pessoa produzida por um qualquer meio, a letra c não está lá a fazer nada. A palavra retrato (do latim retractus) já sofreu a síncope do “c” há muito tempo. Antes do novo acordo ortográfico não se escrevia ‘retracto’ nem ‘retractar’. Retractar significa uma outra coisa: dar por não dito, desdizer-se, mostrar público arrependimento.
O ideal seria a anulação do AO e o regresso à escrita pré-acordo. As crianças que aprenderam a escrever nestes anos e só conhecem versões como fator, objeto, e percetível têm de saber que aprenderam a escrever mal devido a decisões incompetentes do governo. Se esta opção for impossível e o único caminho for a imposição forçada (como já foi feita) de uma nova norma de escrita, então que fique bem claro. Assumam as escolhas e expliquem porquê. Mas explique-se também que, se a ideia era aproximar o português de Portugal do português do Brasil, não será bem sucedida. O Brasil suspendeu a entrada do acordo em vigor, pelo menos durante 3 anos, até 2016. Se supostamente a mudança era “por causa dos brasileiros” e para escrevermos todos da mesma forma, também não temos sido bem sucedidos. Os brasileiros continuam com a sua grafia; os portugueses têm uma nova grafia imposta por decreto que mais ninguém quer; e Angola, Moçambique e Timor têm a grafia anterior ao AO. Voltamos a dizer: o acordo não-foi-bem-sucedido. Ninguém o quer! Há, actualmente, três grafias da língua portuguesa!
Termino com uma referência à mutabilidade da língua. Claro que a língua não é imutável ao longo do tempo; nunca o foi. Mas quem introduz as mudanças é quem a escreve e quem a fala. Estas alterações não se fazem por decreto e nunca deviam ser impostas. Uma coisa é determinada forma gráfica cair no desuso e desaparecer. Outra é pegar num conjunto de regras mal definidas, sobrepô-las àquelas que as pessoas conhecem e usam e obrigar a que se escreva de outra forma.
Levantemo-nos do Chão!
[Transcrição integral de artigo, da autoria de Tomás Goldstein, publicado no “site” Mais Opinião em 06.06.14. “Links” inseridos por nós.]
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