«Saramago traduzido para português» [Nuno Pacheco, “Público”, 08.06.14]

NP Revista 2 08062014Foi desta: Saramago está finalmente traduzido. Não para tamil, urdu ou bhojpuri, línguas em que decerto já existirá, mas para português. Sim, para português, o “bom português” que por aí se “acorda”, não aquela grafia quase medieval do século XX. Basta ir à Feira do Livro e lá estão os volumes, em capas coloridas, expostos à curiosidade do comprador. Têm menos consoantes mas isso não é um mal, é um bem. Mesmo que Saramago tenha escrito “tecidos e luxo de confecção” na página 134 de A Viagem do Elefante, é mais fácil ler agora “tecidos e luxo de confeção” na edição moderna, percebe-se logo do que se trata, é óbvio. Além disso, todos os que achavam a escrita de Saramago difícil vão com isto poder lê-lo sem dificuldade. É preciso dizer, a bem da verdade, que Saramago só teve o Nobel porque lhe leram a obra em inglês. Se a lessem naquele português arcaico… coitado dele. Mas pronto: foi enfim salvo.

Aliás, não é só Saramago. Os que escrevem em português adoram traduzir-se uns aos outros, à falta de ocupação mais útil. Talvez depreciem as capacidades de entendimento alheias e resolvam, assim, facilitá-las. Um brasileiro lê inglês no original, mas tem de ler português de Portugal traduzido. Senão não entende, coitado. Um português é capaz de ler francês ou até mesmo alemão, mas se lhe chegam um livro em português do Brasil têm de “adaptá-lo” para que ele entenda. É estranho, no entanto, que muitos portugueses e brasileiros, nas suas viagens, comprem livros cá e lá e mesmo assim os leiam. Devem ser muito inteligentes. Os outros, coitados, os que não viajam por falta de dinheiro ou tempo, têm de ler traduções. De português para português, pois então. Como agora com Saramago, e apenas cá. É engraçado que não traduzam telenovelas, poesia ou letras de canções mas sintam necessidade de ajeitar outras literaturas. O monumental Carmen, de Ruy Castro, por exemplo, foi “adaptado” na edição portuguesa. Não só para lhe pôr mais umas consoantes mas também para alterar termos do vocabulário que os portugueses podiam não compreender. É assim que, na página 224 da edição brasileira (da Companhia das Letras), se escreve “ela seria a última que o curso escolheria como sua garota-propaganda”; e na edição portuguesa (página 225) se “traduz”: “ela seria a última que o curso escolheria como sua imagem de marca”. Assim.

Quando soube que uma das suas filhas posara nua para a capa de um disco, Gilberto Gil comentou apenas: “Precisava, menina?” Podemos, a respeito de tais “traduções”, glosar a frase do cantor e responder de imediato: não, não precisava. O livro de Ruy Castro é bem mais interessante de ler no original, tal como serão todos os livros brasileiros, portugueses, angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos, guineenses, são-tomenses ou timorenses no uso que cada qual faz da língua falada escrita (e é bom não esquecer que a língua escrita nos remete, pela música intrínseca da sua grafia, para a falada) seja qual for o leitor, desde que esteja familiarizado com qualquer uma das variantes do português.

“Traduzir” de português para português Clarice Lispector ou Saramago, Érico Veríssimo ou Sophia de Mello Breyner é não apenas uma perda de tempo como uma traição aos autores e um atestado de menoridade passado ao leitor. É norma, todos o sabemos. Mas é uma norma miserável. Por isso, escritor de Campinas: se te disserem que tens de ser “aportuguesado” para seres lido em Lisboa, Porto ou Bragança, manda os teus editores para o inferno, exige que te leiam como escreves. E tu, escritor portuense, lisboeta ou transmontano, se te obrigarem a “abrasileirar” a escrita para que possas passar no crivo do entendimento carioca ou paulista, revolta- te e manda-os àquela parte. Que ao menos na escrita o português viva e goze a sua diversidade e se deixe de truques que só fomentam uma cada vez maior iliteracia geral. Têm o direito, todos os que escrevem em português, a circular sem “traduções” e falsificações no espaço daquela que é a sua língua.

Orgulhosamente diferentes. Tal como um golo se diferencia e iguala a um “gol”.

Nuno Pacheco
Jornalista

[Transcrição integral de artigo de Nuno Pacheco, publicado na Revista 2 (parte integrante da edição de domingo do PÚBLICO de 08.06.14). “Links” inseridos por nós.]

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7 comentários

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    • Maria José Abranches on 8 Junho, 2014 at 16:27
    • Responder

    Felizmente já tenho e já li praticamente tudo de Saramago! Dele e dos outros escritores portugueses agora publicados para facilitar a vida a analfabetos não tenciono ler nada! As editoras que se fiquem com esse vastíssimo público (os tais milhões!), ávido de leituras certamente!
    Há tantos escritores de outras línguas que posso ler no original! E sem “acordos ortográficos” que lhes estropiem a língua!

    • Manuel Silva on 8 Junho, 2014 at 17:03
    • Responder

    Interessante, mas olhe que todos os clássicos (Camilo, Eça, etc.) que tenho em casa foram «traduzidos» para o acordo de 1945 (com ou sem as alterações de 1973). Nalguns casos foram os títulos e até os próprios nomes dos autores que foram modificados (pobre Eça, passou a Queirós) para satisfazer as imposições do acordo de 1945. «Os Lusíadas» e o «Frei Luís de Sousa» que estudei no liceu também estavam «traduzidos». O Camões escreveu Egito, mas no meu livro estava Egipto. Porque é que só agora isto é um problema?
    Preocupa-me muito mais mais ver os livros e jornais portugueses como o «Público» cheios de palavras e ortografias decalcadas do inglês.
    Cumprimentos

    1. Política de comentários
      Este site promove, divulga e coordena a ILC pela revogação do “acordo ortográfico”. Não é, por conseguinte e como parece evidente, o local apropriado para propaganda àquilo que nós combatemos.

      Agradece-se, portanto, que os “acordistas” em geral se abstenham de usar este espaço seja para que efeito for, incluindo através das caixas de comentários. Reservamo-nos o direito de não aprovar e/ou de apagar qualquer comentário que demonstre apoio faccioso ao AO90 e/ou que possa ser encarado pelos nossos subscritores e apoiantes não como um simples comentário mas como enxovalho ou provocação.

      http://ilcao.com/?page_id=2#polcomments

    • Jorge Pacheco de Oliveira on 9 Junho, 2014 at 5:22
    • Responder

    Suponho que esta intervenção de JPG foi suscitada pelo comentário do leitor Manuel Silva. Todavia, penso que a resposta a pessoas que, como este leitor, argumentam com as alterações verificadas na ortografia da língua portuguesa ao longo dos tempos, para justificar e fazer aceitar o AO 90, deve ser mais incisiva.

    Com efeito, o que essas pessoas esquecem é que o português é a língua de Portugal e os portugueses fazem o que entenderem com a sua própria língua, estando autorizados a modificar e adaptar livros e textos de épocas passadas em conformidade com as alterações ortográficas que entretanto tiverem sido observadas e normalizadas na sua própria terra.

    O que os portugueses não podem aceitar são as alterações ortográficas introduzidas por outros países, ou mesmo por alguns (poucos) portugueses que tomam iniciativas aberrantes, como a do AO em apreço, que mais não são do que atitudes de submissão a um outro país, no caso o Brasil, uma ex-colónia em que o tratamento da língua portuguesa deixa muito a desejar, mas que, mercê do maior número de habitantes, se julga autorizada a fazer e a impor ao antigo colonizador as alterações ortográficas que entende.

    Em suma, o que está em causa no AO 90, mais do que a adequação das alterações ortográficas propostas, as quais, por sinal, são caricatas e rejeitáveis, é a vergonhosa falta de consciência soberana dos portugueses que defendem este AO. A começar, infelizmente, em cidadãos eleitos que deveriam estar do lado do seu país, mas não estão. Como não estão noutras circunstâncias, mas isso é outra conversa…

    1. «a resposta a pessoas que, como este leitor, argumentam com…»
      «o que essas pessoas esquecem é que…»

      Caro Jorge Pacheco de Oliveira, parece-me que não se trata, naquele como em outros casos semelhantes, nem de “respostas” nem de “argumentos” nem (muito menos) de “esquecimentos”; trata-se, precisamente, de não responder a “perguntas” ou a “argumentos” que o não são (ou então teríamos de admitir que assiste alguma espécie de razão aos acordistas militantes) e de deixar – regular e sistematicamente – claro que este não é o local para que os ditos acordistas façam propaganda (cito) “àquilo que nós combatemos”. Se eles pretendem fazer essa propaganda, pois bem, locais e meios não lhes faltam, portanto que façam a fineza de ir despejar essa mesma propaganda para outro lado; ou, como se costuma dizer, que vão “pregar para outra Freguesia” (e para outros “fregueses”, salvo seja). Permitir que aqui, e logo aqui, se discuta (o que há para discutir quanto à liquidação do monstro ortográfico?), se polemize, se transforme, em suma, o lugar das caixas de comentários a conteúdos em “fórum de discussão” genérica, bem, convenhamos, isso faria tanto sentido como permitir (por exemplo) o PCP na sua sede que opositores ali pintassem cruzes suásticas ou que (de novo, por exemplo) na sede do CDS recebessem com agrado que alguém lá fosse decorar-lhes os muros com a foice e o martelo.

      Isto é só a minha opinião, bem entendido, mas o facto é que não nos temos dado mal com o critério, ao longo de todo este tempo, desde que existe a ILC AO e este seu sítio virtual. Basta verificar a quantidade de páginas, “blogs e “sites” que já foram sumamente liquidados pela simples aplicação da táctica acordista da provocação sistemática: muito rapidamente as “discussões” (estéreis, bem entendido) invadem tudo, emporcalham todos e aniquilam qualquer hipótese de trabalho sério quanto àquilo que interessa.

      Saudações.

      JPG

    • Jorge Pacheco de Oliveira on 9 Junho, 2014 at 15:28
    • Responder

    Caro JPG

    Estava de acordo com a sua anterior intervenção e com esta ainda mais.

    Cumprimentos
    JPO

    • Jorge Teixeira on 9 Junho, 2014 at 20:00
    • Responder

    @Manuel Silva: um erro do passado não cauciona erros futuros. Lá porque em 1506 os lisboetas massacraram os judeus da cidade então isso torna desculpável que amanhã ou depois os “diabos vermelhos” chacinem todos os judeus que encontrem na rua quando o benfica perder?

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