Francisco José Viegas, o anjinho da procissão
O chamado acordo ortográfico (AO90) assentou em três ilusões: o “critério fonético” (traduzido na expressão “escrever como se fala”), a “simplificação” da ortografia para facilitar a aprendizagem e a uniformização ortográfica do mundo lusófono como meio de criar textos ortograficamente iguaizinhos.
Não foi necessário perder muito tempo a pensar para se chegar, rapidamente, à conclusão de que o “critério fonético” acabaria por impedir a criação de uma ortografia única, cuja inexistência, aliás, já estava patente no texto do AO90, em que se admite que ponto máximo a atingir será o da “aproximação ortográfica”, o que correspondeu a destapar de um lado e tapar do outro. Nada disto, no entanto, tem servido de impedimento para que pessoas investidas de autoridade continuem a mentir, anunciando um futuro em que deixará de haver versões diferentes do mesmo texto ou edições diversas do mesmo livro.
Defender a simplificação de qualquer conteúdo a fim de facilitar a aprendizagem é um logro que serve para desvalorizar a importância do esforço e faz parte de um programa facilitista que está na base, por sua vez, de um processo de desinvestimento na Educação. Ainda por cima, um sistema ortográfico mal concebido e, portanto, incoerente, é fonte de confusão e nunca será fácil de aprender.
Devido aos seus defeitos de concepção, e aliado a muitos outros problemas anteriores, o AO90 tem estado na origem de muitos erros. O Francisco Miguel Valada tem-se dedicado a mostrar uma ponta doiceberg, com factos e contactos a serem substituídos por fatos e contatos, sendo de destacar o surgimento de tais espécimes no Diário da República.
O movimento brasileiro Simplificando a ortografia é, no fundo, a consequência inevitável de se ter alimentado as três ilusões acima referidas. Para lá de todas as críticas que o dito movimento possa merecer, a verdade é que há ali uma coerência: se o AO90 pretendeu privilegiar o “critério fonético”, por que razão havemos de cortar o C de “acto” e manter, por exemplo, o H de homem, se as duas consoantes não são pronunciadas?
Set 10 2014
«O anjinho da procissão» [António Fernando Nabais, “blog” Aventar, 10.09.14]
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Set 09 2014
Mistérios do vernáculo: “zero” [vídeo com legendas em Pt-Pt]

«Apesar de o primeiro sistema de numeração poder ser datado de há 2500 anos, na Mesopotâmia, um símbolo parecido com o “zero” apenas surgiu no século VII na zona onde hoje é a Índia. Jessica Oreck e Rachael Teel traçam a evolução de “zero” a partir de um simples ponto até ao símbolo que hoje usamos, bem como as raízes árabe, italiana e francesa da palavra “zero”.»
Mais um vídeo legendado em Pt-Pt pela ILC AO. A partir de agora poderá assistir também a esta “aula” de TED-Ed, escolhendo “Português (Portugal)” como opção de legendagem.
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Set 01 2014
«O mito lusófono» [José Gil, entrevista, jornal “Plataforma Macau”]
O filósofo português José Gil rejeita o conceito actual da lusofonia, das decisões da instituição que lhe dá nome e de acordos para a ortografia portuguesa. Nada disto, diz, atribui dignidade à nobreza da língua. “Não há que formar um império da língua porque isso não existe. É para mim um mito”, diz o autor português, considerado pela revista francesa Le Nouvel Observateur um dos 25 grandes pensadores do mundo. Em entrevista ao Plataforma Macau, José Gil explica ainda o que o traz a Macau já no próximo mês. O medo de existir.
PLATAFORMA MACAU – Que leitura faz deste conceito de que tanto se fala, a lusofonia?
JOSÉ GIL – Sobre isso teríamos de falar muito. Eu acho a lusofonia, tal como ela é expressa, muito mal formulada e um grande mito. A prova de que é um mito é o que está a acontecer à lusofonia e à instituição que a suporta que é a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), com a entrada da Guiné Equatorial no espaço da lusofonia, que é um escândalo do mais vergonhoso que se pode imaginar. Eu rejeito a lusofonia, e em todo o caso a instituição que promove a lusofonia em nome disso. Não posso apoiar um ditador que entra [referindo-se à entrada da Guiné Equatorial nesta comunidade]. Não tem nada a ver com a lusofonia, com a nobreza da língua. Antes disso mesmo, é um mito por que a língua é diferente e desenvolve-se por ela própria em múltiplas outras línguas dentro da língua e tem de se desenvolver, tem de se deixar desenvolver. É uma riqueza maior. O português do Brasil é diferente e tem que se desenvolver, não com acordos ortográficos.P.M. – Diz não ao acordo.
J.G. – Sou contra o acordo ortográfico. Assinei, escrevi contra isso e acho uma infelicidade enorme. Repare que ele ainda não foi aceite por uma série de países da lusofonia importantes, como o Brasil ou Angola. Mas nós já praticamos a lusofonia ali, e já praticamos oficialmente. Isto é outra vez uma vergonha para nós. A língua tem uma vida própria, a língua portuguesa em Portugal é diferente da língua portuguesa em Moçambique, como basta comparar um Mia Couto com um Rui Nunes, por exemplo. E vemos diferenças em expressões da língua. Não há que formar um império da língua, por que isso não existe. É para mim um mito, mas que haja cada vez mais falantes da sua língua portuguesa e que ela se desenvolva nas suas direcções próprias em Angola, em Moçambique, no Brasil ou em Portugal, isso é óptimo. E é o que vai ser se não entrarmos em acordos ortográficos ou rígidos. A maior parte dos grandes escritores portugueses rejeitaram o acordo ortográfico e escrevem sem as normas do acordo, o que acho muito bem.
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Ago 30 2014
Associação Portuguesa de Tradutores rejeita o AO90
A Associação Portuguesa de Tradutores anunciou — com destaque no seu “site” — a não adopção do Acordo Ortográfico.
Esta notícia não é uma notícia qualquer. Na verdade, esta decisão da APT reveste-se de um significado muito especial.
Em primeiro lugar, por se tratar de um retorno. É de louvar toda e qualquer instituição que nunca aderiu ao “acordo”, mas é de destacar sempre que se trata de um “regresso às origens”. Errar é humano e muito gente aderiu ao AO sem pensar muito bem nas consequências, ou acreditando que “eles” devem saber o que estão a fazer. Quando uma instituição “adota” o AO e volta a escrever em Português Europeu isso só pode significar que houve uma reflexão — alguém achou que não, que “isto” não tem mesmo pés nem cabeça, é tempo de dizer chega!
Em segundo lugar, a Associação Portuguesa de Tradutores não é uma instituição qualquer. O AO90 é um conglomerado de mentiras, mas poucas serão tão gordas como essa de com o AO90 deixar de ser necessário uma tradução para Portugal e outra para o Brasil.
Todos sabemos que não é possível traduzir meia folha A4 sem que se perceba de que lado do Atlântico está o tradutor. Seja qual for o âmbito do texto — da informática à culinária, da geografia à medicina e passando pela silvicultura, dificilmente dois tradutores “acertam uma”. É claro que isto não tem problema nenhum — é apenas um reflexo da riqueza da língua. Mas era estranho, para dizer o mínimo, ver uma mentira deste calibre ser defendida por uma Associação de tradutores portugueses — precisamente a classe mais prejudicada pelo sonho nefasto do “Português Universal” que o AO90 finge encarnar.
Por tudo isto, aqui fica uma saudação muito especial para a APT!
[Logótipo e imagens do “site” da APT]
[Via página Facebook “Tradutores contra o acordo ortográfico“]
Nota
Tratando-se de uma decisão recente da Direcção da APT, o “site” daquela Associação está em processo de reversão para a norma Pt-Pt. Por isso, se ainda ali encontrar algo redigido numa espécie de linguajar estropiado (vulgo, “acordês”, como se pode ver na imagem em baixo), apelamos à sua compreensão (e paciência); estamos certos de que em breve tudo estará já corrigido, de volta ao bom “Português europeu”.
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Ago 29 2014
Como evoluem as línguas? [vídeo com legendas em Pt-Pt]

«Ao longo da História da Humanidade, desenvolveram-se milhares de línguas a partir das muito poucas que antes havia. Como temos nós agora assim tantas? E como podemos identificar e diferenciar todas elas? Alex Gender explica como os linguistas agrupam as línguas em famílias, demonstrando como estas se estruturam em forma de árvore, o que nos permite desvendar o passado.»
Mais um vídeo legendado em Pt-Pt pela ILC AO. A partir de agora poderá assistir também a esta “aula” de TED-Ed, escolhendo “Português (Portugal)” como opção de legendagem.
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