Associação Portuguesa de Tradutores rejeita o AO90

APTnAO

Captura de ecrã 2014-08-30, às 10.57.04A Associação Portuguesa de Tradutores anunciou — com destaque no seu “site” — a não adopção do Acordo Ortográfico.

Esta notícia não é uma notícia qualquer. Na verdade, esta decisão da APT reveste-se de um significado muito especial.

Em primeiro lugar, por se tratar de um retorno. É de louvar toda e qualquer instituição que nunca aderiu ao “acordo”, mas é de destacar sempre que se trata de um “regresso às origens”. Errar é humano e muito gente aderiu ao AO sem pensar muito bem nas consequências, ou acreditando que “eles” devem saber o que estão a fazer. Quando uma instituição “adota” o AO e volta a escrever em Português Europeu isso só pode significar que houve uma reflexão — alguém achou que não, que “isto” não tem mesmo pés nem cabeça, é tempo de dizer chega!

Em segundo lugar, a Associação Portuguesa de Tradutores não é uma instituição qualquer. O AO90 é um conglomerado de mentiras, mas poucas serão tão gordas como essa de com o AO90 deixar de ser necessário uma tradução para Portugal e outra para o Brasil.

Todos sabemos que não é possível traduzir meia folha A4 sem que se perceba de que lado do Atlântico está o tradutor. Seja qual for o âmbito do texto — da informática à culinária, da geografia à medicina e passando pela silvicultura, dificilmente dois tradutores “acertam uma”. É claro que isto não tem problema nenhum — é apenas um reflexo da riqueza da língua. Mas era estranho, para dizer o mínimo, ver uma mentira deste calibre ser defendida por uma Associação de tradutores portugueses — precisamente a classe mais prejudicada pelo sonho nefasto do “Português Universal” que o AO90 finge encarnar.

Por tudo isto, aqui fica uma saudação muito especial para a APT!

[Logótipo e imagens do “site” da APT]

[Via página Facebook “Tradutores contra o acordo ortográfico“]


Nota
Tratando-se de uma decisão recente da Direcção da APT, o “site” daquela Associação está em processo de reversão para a norma Pt-Pt. Por isso, se ainda ali encontrar algo redigido numa espécie de linguajar estropiado (vulgo, “acordês”, como se pode ver na imagem em baixo), apelamos à sua compreensão (e paciência); estamos certos de que em breve tudo estará já corrigido, de volta ao bom “Português europeu”.

APTinscracordes(captura/recorte de ecrã da página de inscrição no “site” da APT em 30.08.14 às 15 horas)
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11 comentários

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    • Maria José Abranches on 30 Agosto, 2014 at 17:29
    • Responder

    Muitos parabéns, muito obrigada e um imenso orgulho! Sempre considerei a tradução uma nobre, difícil e imprescindível actividade, um dos esteios mais fortes da preservação e do necessário enriquecimento das línguas, assim como da partilha do saber e da experiência humana.
    Arrepiar caminho, quando constatamos que nos enganámos, é um sinal de inteligência, coragem e dignidade! Parabéns, mais uma vez!
    Aproveito para recordar uma citação de Alexandre Herculano, que encontrei no “Público”:
    «Eu não me envergonho de corrigir os meus erros e mudar as minhas opiniões, porque não me envergonho de raciocinar e aprender.» (in “Escrito na Pedra”, “Público”, 23.07.2014).

    • hippie on 31 Agosto, 2014 at 5:31
    • Responder

    Nós podemos ser vinte, mas esses vinte representam 150 milhões.
    Vocês se abrirem o bico: PASSAM DE 15 A ZERO.

  1. Excelente notícia!

    • Jorge Pacheco de Oliveira on 1 Setembro, 2014 at 8:21
    • Responder

    É pena a gralha dos “direritos”…

    • Céline costa on 1 Setembro, 2014 at 13:34
    • Responder

    como tradutora, nunca aderi ao AO. Infelizmente, tenho de me sujeitar às imposições das agências para as quais trabalho. Mas ainda acredito que se volte atrás…

    • Jorge Teixeira on 2 Setembro, 2014 at 17:27
    • Responder

    Era importante que a APT não se limitasse a dizer que “não aplica” o AO90. Deveria desenvolver acções no sentido de que nenhum dos seus filiados entregasse trabalhos de tradução com o AO90 e assumir perante as entidades patronais a posição de que nenhum filiado se presta ao AO90, para que não aparecessem pessoas na situação de “o meu patrão exige as traduções em AO90, eu tenho de as entregar assim”. Se essas acções fossem desenvolvidas o esforço adicional por parte de quem encomenda traduções para voltar a redigir a tradução em AO90 faria muitos desistirem de o “aplicar”. E porventura o abanão intelectual que provocaria faria muitas entidades patronais pensar no que andam a fazer.

    1. Caro @Jorge Teixeira, para variar, em estreia absoluta, no caso, permito-me dizer que não concordo consigo. A (nova Direcção da) APT tomou uma posição contra o AO90 – firme e decidida – num momento em que, como sabemos, “toda a gente”, isto é, os cabecilhas de grande parte das entidades congéneres (ou nem tanto), se encolhe, assobia para o lado, finge que nada se passa a ver se algo lhes cai no colo (e o resto “logo se vê”). Os afiliados da APT podem optar e, é claro, não custa nada antecipar que serão uma minoria irrisória dos afiliados, como irrisória minoria é na população em geral que o faz, os que usarão o acordês nos seus trabalhos. Coisa na qual, de resto, a APT sequer pode interferir, já que se trata de relações de trabalho particulares, contratos individuais.

      A APT já fez muito, já fez o máximo possível. Honra lhe seja feita e que sirva de (mais um) exemplo.

    • V. Borges on 4 Setembro, 2014 at 2:36
    • Responder

    Muito bem!
    Parabéns!
    Mais tarde ou mais cedo irá acontecer o mesmo a toda a comunidade culta, respeitando as variantes da língua que só demonstram o vigor da sua matriz!

    • Oliveira Simões on 15 Setembro, 2014 at 2:16
    • Responder

    Não entendo como uma associação de tradutores pode rejeitar um acordo entre governos democraticamente eleitos. Não creio que a ATP represente “150 milhões”, conforme dito por alguém neste foro. Verdade seja dita que o AO foi uma maneira inteligente de uniformizar a língua portuguesa. Senão, daqui a dois séculos estaremos falando (estaremos a falar) idiomas diversos e não nos entenderemos. Sou tradutor brasileiro. Se fosse no Brasil, não acataria a decisão de um órgão de classe. Os acordo intergovernamentais estão acima de qualquer associação!

    • Maria José Abranches on 15 Setembro, 2014 at 15:43
    • Responder

    @Oliveira S.: Sugiro que aprofunde o seu conceito de democracia, pois esta tem por base, além de eleiçoes livres, a responsabilidade individual, o espírito crítico e a intervenção cívica. Os “acordos intergovernamentais” não estão ao abrigo dos erros – e da corrupção – humanos e os “eleitos” não passam automaticamente a gozar do dom da infalibilidade, que lhes permitiria deixar de ouvir aqueles que os elegeram!

    “Uma maneira inteligente de uniformizar a língua portuguesa”! E ainda há quem ouse repetir um tão estrondoso e pouco inteligente disparate?!

    Mais uma vez, os meus parabéns à APT! Pensar pela própria cabeça e ousar pôr em causa as decisões irresponsáveis e a prepotência de quem nos governa é um exercício difícil, corajoso e mais do que nunca necessário!

    • Luís Ferreira on 15 Setembro, 2014 at 19:50
    • Responder

    #9 (Oliveira Simões),

    Passando por cima da matéria de opinião e focando-me apenas na matéria de facto, a afirmação “Os acordo intergovernamentais estão acima de qualquer associação” é enganadora.

    Ponto 1. – Este acordo é ilegal (veja nos vários pareceres jurídicos produzidos, que o demonstram). Ninguém é obrigado a respeitar ilegalidades. Mas…
    Ponto 2. – Mesmo que cumprisse as normas legais, não podem os representantes do povo, que se sentam nos órgãos políticos, trair o “contrato social” com os eleitores. Nesse sentido, a uma das partes cabe o direito de veto, que é exactamente o que nós, os que rejeitamos o Acordo, pretendemos.

    Escreve Roger Scruton: “o estado fundado num contrato social deve respeitar integralmente a autonomia, liberdade, e dignidade do indivíduo”. Como eu entendo que o estado não defendeu, nem respeitou, a minha autonomia, a minha liberdade e a minha dignidade, devo considerar o contrato nulo e rejeitar tudo o que se pretendeu [falsamente] acordar em matéria de Língua.

    Entre muitas outras evidências, o tratamento dado à minha Língua, pelos políticos que temos, inscreve-se no que se chama “cultura de repúdio” e que pode ser entendido como a destruição das culturas dos povos, ou substituição por outras, que lhes são estranhas, mas que lhes são impostas de acordo com uma matriz ideológica, a que eu não preciso de me referir, porque, seja ela a que for, trai descaradamente o que devia defender.

    Parece-me a mim que esta forma de actuar dos nossos políticos é de grande violência e tem uma natureza que eu classifico de anti-democrática e totalitária, que eu, pela forma como defende o Direito Internacional, penso que o O. Simões não é partidário.

    Se a opinião do O. Simões é diferente, porque acha o AO “porreiro” e que consegue uniformizar a Língua, temos pena, porque também nos sentimos do direito de achar, à vez, que nunca a uniformizará, antes de mais porque o brasileiro está em constante deriva de si próprio. No futuro falarão, provavelmente, um dialecto a que será muito difícil chamar português, tal como o reconhecemos hoje.

    O argumento da força de uma língua se mede pelo número de falantes e escreventes é uma falácia. O que dá força a uma língua é o trabalho intelectual que se faz com ela, a erudição que ela atinge e a sua estabilidade. Se por causa de uma salada linguística for mais difícil filosofar em português, porque a língua perdeu exactidão (e perde quando se recorre ao contexto para saber o significado de uma palavra), então esta língua está condenada, porque passa a ser uma língua do dia-a-dia, que servirá apenas para ir à mercearia. É isto que os acordistas querem. Eu acho que sim.

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