«AO90 é atentado à inteligência» [José Gil, rádio Macau TDM, 20.09.14]

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José Gil “chocado” com tratamento de português como “activo”

Sábado, 20/09/2014

O filósofo José Gil diz-se “chocado” com o facto de a língua portuguesa ser considerada um “activo”, tal como defendeu, em Macau, o presidente português Cavaco Silva, na visita realizada em Maio.

Convidado do Rádio Macau Entrevista, José Gil afirma que a língua portuguesa não pode ser tratada como um bem: “Choca-me um bocado essa formulação. A língua portuguesa é a nossa carne, não temos de transformá-la num activo. O que nós podemos fazer é o que estava nos objectivos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), que é o desenvolvimento do português, um incentivo para que se desenvolvesse e estudasse a língua. Ora, o que é que verificamos? Desaparecem representações do Instituto Camões, ou deixam de ter meios”.

José Gil critica ainda duramente a entrada da Guiné Equatorial na CPLP e também que não tenha havido oposição por parte de Portugal a um episódio que o filósofo considera “grotesco”: “A última peripécia da CPLP, a admissão do estado ditatorial da Guiné Equatorial, é grotesca. Acho que o presidente devia dizer mais: devia dizer que ‘isto está mal feito’. Mas é claro que isto não pode ser dito assim, porque temos que ir com luvas, não se pode ser brutal. Isto trata-se com veludo diplomático. Um presidente não pode ser assim. Mas por quê? Por que é que um presidente não pode denunciar: ‘nós não admitimos isto’?”

Nesta entrevista, José Gil mostra-se, ainda, contra o acordo ortográfico, que diz ser um atentado à inteligência: “As razões que estão por trás não se compreendem. São razões económicas. Uma língua é um organismo vivo. Vamos deixá-lo viver. Esta coisa do acordo ortográfico é verdadeiramente um atentado à inteligência, uma estupidez com razões escondidas que eu não posso aceitar”.

José Gil, filósofo, ensaísta e professor catedrático jubilado da Universidade Nova de Lisboa, foi considerado, em França, um dos 25 grandes pensadores do mundo. Em Macau, José Gil profere, no domingo, pelas 15 horas, uma palestra no Centro de Ciência dedicada ao tema “Desejo e Medo de Existir”.

[Transcrição de texto publicado pela rádio Macau TDM, sinopse da entrevista ao filósofo José Gil emitida em 20.09.14. “Links” nossos.]
[Ouvir a entrevista na íntegra (“click” aqui). A parte da entrevista sobre o AO90 começa aos 38’40” e termina aos 44’28”.]

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«A Plan for the Improvement of English Spelling»

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A Plan for the Improvement of English Spelling by Mark Twain or M. J. Shields

For example, in Year 1 that useless letter “c” would be dropped to be replased either by “k” or “s”, and likewise “x” would no longer be part of the alphabet. The only kase in which “c” would be retained would be the “ch” formation, which will be dealt with later. Year 2 might reform “w” spelling, so that “which” and “one” would take the same konsonant, wile Year 3 might well abolish “y” replasing it with “i” and Iear 4 might fiks the “g/j” anomali wonse and for all. Jenerally, then, the improvement would kontinue iear bai iear with Iear 5 doing awai with useless double konsonants, and Iears 6-12 or so modifaiing vowlz and the rimeining voist and unvoist konsonants. Bai Iear 15 or sou, it wud fainali bi posibl tu meik ius ov thi ridandant letez “c”, “y” and “x” — bai now jast a memori in the maindz ov ould doderez — tu riplais “ch”, “sh”, and “th” rispektivli. Fainali, xen, aafte sam 20 iers ov orxogrefkl riform, wi wud hev a lojikl, kohirnt speling in ius xrewawt xe Ingliy-spiking werld.

Mark Twain(1), 1835-1910

[Transcrição (e imagem de ecrã) de “The I18n Guy web site“, página A Plan for the Improvement of English Spelling by Mark Twain or M. J. Shields.]

(1) – Não existem provas irrefutáveis de que este texto seja mesmo da autoria de Mark Twain. Outras citações do mesmo referem M.J. Yilz como autor, em carta ao jornal “The Economist” (1971).

[Uma adaptação possível]
Plano para Melhorar o Sistema Ortográfico do Português
Por exemplo, no 1.º ano, essa letra inútil que é o “C” akabava e seria substituída ou pelo “K” ou pelo “S”, da mesma forma que o “X” deixaria de fazer parte do alfabeto. O úniko kaso em que “C” se manteria seria na forma “CH”, a qual se eliminaria também mais tarde. No 2.º ano poder-se-ia reformar a letra “U”, por forma a que “quem” e “um” fikassem kom a mesma konsoante, enquanto no 3.º ano também se poderia abolir o “U”, trokando-o por “O”, e no 4.º ano já se poderia akabar kom a konfozão entre “G” e “J” de oma vez por todas. De forma jeral, por konseginte, teríamos então melhorias kontínoas, ano após ano, e xegaríamos ao 5.º ano já sem a xatise das konsoantes doplas, até qe nos anos 6 a 12, o asim, já poderíamos finalmente akabar kom o oso das restantes vogais e konsoantes sonoras e modas. Aí pelo désimo qinto ano seria finalmente posível pasar a otilizar as letras redondantes “C”, “L” e “N” — nesa altora já oma simples recordasã dos velos do Restel — em sobstitoiçã de “CH”, “LH” e “NH”, respektivamente. Por fim, segados ao term de 20 ans de reform ortográfik, teríams om sistem ortográfik lójik i koerent em oso korent, xpalad mondialment pla losofni.

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Angola dará resposta no “devido momento” [“Diário Angolano”, 18.09.14]

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Angola dará resposta no “devido momento” ao novo acordo ortográfico

O ministro da Educação angolano, Pinda Simão, garantiu hoje que o país “está a trabalhar” sobre o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, que Angola ainda não subscreveu, e que no “devido momento” será tomada uma decisão.

O governante falava em Luanda, à margem da sessão de abertura do terceiro Congresso Internacional de Língua Portuguesa, promovido pela Universidade Jean Piaget, de Angola, sob o lema “Unidade na Diversidade”.

“O país está a trabalhar. Depende de Angola, de quando Angola decidir [sobre a adesão ou não ao acordo]”, afirmou Pinda Simão, que coordena este processo no país, questionado pela Lusa.

[Transcrição de despacho da agência Lusa publicado pelo “Diário Angolano” em 18.09.14.]

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«O AO90 é uma obra irresponsável» [Fernando Paulo Baptista, “O Diabo”, 16.09.14]

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UNIVERSIDADE DO MINHO (“Press Clipping“)

“O Acordo Ortográfico é uma obra irresponsável”
Diabo
terça-feira, 16.09.2014
BRUNO OLIVEIRA SANTOS

A língua portuguesa, como organismo vivo que é, jamais poderá fugir à sua transformação progressiva. Os povos que se expressam em português encarregar-se-ão de lhe comunicar vida e, portanto, alteração. Alterar, porém, não é destruir. Ora o Acordo Ortográfico (AO90) destrói mesmo, desfigura o idioma à força de encastelar asneiras sobre asneiras. Foi este o mote para uma conversa longa e agradável com o filólogo Fernando Paulo Baptista (FPB).

“O AO90 é uma obra de medíocres, não acha?” — disparei de chofre, para empolgar a entrevista. “Não quero classificá-la assim”, respondeu-me, “mas é claramente uma obra marcada pela irresponsabilidade, ao não medir as consequências negativas, sobretudo para os nossos jovens, na aprendizagem e uso da língua portuguesa.”
FPB fala como escreve, as frases saem redondas e polidas, prontas para a impressão. Natural de Viseu, foi novo com os pais para Barrelas, terra do Malhadinhas, aquele homem sobre o meanho e reles de figura, que Aquilino imortalizou. A escola distava, escondida atrás de montes e penedias. FPB levantava-se cedo, ainda o Sol não retouçava nas vidraças, e tomava a casa já tarde. O sacrifício garantiu-lhe a matrícula em Coimbra. Por esse então, naquele mundo rural e pobre, poucos o conseguiram. A maior parte teve que pegar numa enxada e cuspir às mãos.
Conhece pessoalmente os artífices do AO90, mas distingue os planos: “Tenho uma relação cordial com Malaca Casteleiro; não entendo, todavia, como é que alguém que sabe que se trata da regulamentação grafémica dos textos escritos vem utilizar o critério da pronúncia, para mais o da chamada pronúncia culta”. E prossegue o raciocínio: “O que é isso da pronúncia culta, tomada agora como referência ou padrão? Em que lugares a podemos encontrar? É a pronúncia culta à moda de Coimbra ou à moda de Lisboa? A do Porto ou a do Funchal? A de Luanda ou a do Rio de Janeiro?”
Certo que em todos esses lugares há pessoas cultas e informadas, sejam quais forem as suas prolações entoativas. Os autores do AO90 não apresentaram ainda uma definição rigorosa, um “critério epistemológico-linguisticamente fundamentado”, como diz FPB, além da mirífica alusão a uma pronúncia dita culta.

Um acordo feito à pressa
O AO90 é uma cancaborrada de lesa-língua. Em matéria assim crucial, poupo-me a imparcialidades. Uso substantivação e adjectivação certeiras, dentro da correcção e da propriedade da linguagem. Sigo o exemplo dos nossos antigos pregadores e moralistas: quando se tratava de rebater más inclinações e maus costumes, não usavam de cerimónias nem eufemismos, não traziam papas na língua. Aos acordistas, cegou-os a vaidade de associar o nome a uma reforma. Essa vaidade incutiu-lhes uma filologia para uso próprio, que trataram de impor a 250 milhões de falantes. É o tiquezinho totalitário de legislar em matéria ortográfica, votinhos a favor e contra, como se a língua pudesse ser despachada por decreto.
“O pior”, avança FPB, “é que o AO90 foi redigido à pressa entre 6 e 12 de Outubro de 1990 na Academia das Ciências de Lisboa!” Bonito serviço! Uma língua velha de séculos, assim alterada atabalhoadamente, no espaço de uma semana, por 21 representantes de sete delegações.

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«Cultura de repúdio» [por Luís Ferreira]

MLPSPauloinv#9 (Oliveira Simões),

Passando por cima da matéria de opinião e focando-me apenas na matéria de facto, a afirmação “Os acordo intergovernamentais estão acima de qualquer associação” é enganadora.

Ponto 1. – Este acordo é ilegal (veja nos vários pareceres jurídicos produzidos, que o demonstram). Ninguém é obrigado a respeitar ilegalidades. Mas…
Ponto 2. – Mesmo que cumprisse as normas legais, não podem os representantes do povo, que se sentam nos órgãos políticos, trair o “contrato social” com os eleitores. Nesse sentido, a uma das partes cabe o direito de veto, que é exactamente o que nós, os que rejeitamos o Acordo, pretendemos.

Escreve Roger Scruton: “o estado fundado num contrato social deve respeitar integralmente a autonomia, liberdade, e dignidade do indivíduo”. Como eu entendo que o estado não defendeu, nem respeitou, a minha autonomia, a minha liberdade e a minha dignidade, devo considerar o contrato nulo e rejeitar tudo o que se pretendeu (falsamente) acordar em matéria de Língua.

Entre muitas outras evidências, o tratamento dado à minha Língua, pelos políticos que temos, inscreve-se no que se chama “cultura de repúdio” e que pode ser entendido como a destruição das culturas dos povos, ou substituição por outras, que lhes são estranhas, mas que lhes são impostas de acordo com uma matriz ideológica, a que eu não preciso de me referir, porque, seja ela a que for, trai descaradamente o que devia defender.

Parece-me a mim que esta forma de actuar dos nossos políticos é de grande violência e tem uma natureza que eu classifico de anti-democrática e totalitária, que eu, pela forma como defende o Direito Internacional, penso que o O. Simões não é partidário.

Se a opinião do O. Simões é diferente, porque acha o AO “porreiro” e que consegue uniformizar a Língua, temos pena, porque também nos sentimos do direito de achar, à vez, que nunca a uniformizará, antes de mais porque o brasileiro está em constante deriva de si próprio. No futuro falarão, provavelmente, um dialecto a que será muito difícil chamar português, tal como o reconhecemos hoje.

O argumento da força de uma língua se mede pelo número de falantes e escreventes é uma falácia. O que dá força a uma língua é o trabalho intelectual que se faz com ela, a erudição que ela atinge e a sua estabilidade. Se por causa de uma salada linguística for mais difícil filosofar em português, porque a língua perdeu exactidão (e perde quando se recorre ao contexto para saber o significado de uma palavra), então esta língua está condenada, porque passa a ser uma língua do dia-a-dia, que servirá apenas para ir à mercearia. É isto que os acordistas querem. Eu acho que sim.

[Transcrição de comentário de Luís Ferreira AQUI em resposta a ISTO.]

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