«Mais uma tomada de três pinos» [Janer Cristaldo, RPL (Brasil)]

«Tudo parece tão inocente, não é verdade? Coisinhas banais, como tirar um hífen aqui, um acentinho lá. Mas pense no que vem embutido com a reforma: novas edições de dicionários, reedições de toda a literatura, incluindo nisto os livros escolares e os paradidáticos, a galinha dos ovos de ouro dos editores. Um acentinho aqui, um hifenzinho ali… e o movimento de milhões de reais na indústria do livro.
Esse é o verdadeiro significado da reforma.
»
De texto do mesmo autor, Abril de 2012

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Mais uma tomada de três pinos

Janer Cristaldo

Nem foi ainda consolidado o último acordo ortográfico e o Senado nos propõe outra tomada de três pinos. Pois reformas ortográficas e tomadas de três pinos em muito se parecem. Inocentes e inócuas inovações, à primeira vista, servem para locupletar as burras dos manipuladores da indústria do inútil.

Leio nos jornais que o projeto “Simplificando a Ortografia”, idealizado por um tal professor Ernani Pimentel, ganhou destaque na Comissão de Educação da casa. O objetivo do projeto, segundo o professor, é criar uma língua portuguesa com um menor número de regras, para tornar seu aprendizado mais rápido e eficaz.

Ou seja, ainda não é consenso o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em 1990 por Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, e mais tarde Timor-Leste, e já temos mais uma reforma. Fruto dos sumos bestuntos da Academia Brasileira de Letras (leia-se Antonio Houaiss, que já tinha pronto seu dicionário na nova ortografia proposta) e da Academia das Ciências de Lisboa, o acordo entrou em vigor no início de 2009 no Brasil e em 13 de maio de 2009 em Portugal, embora os lusos, os pais da língua, até hoje hesitem em adotá-lo. Foi estabelecido nos dois países um período de transição em que tanto as normas anteriormente em vigor como a introduzida por esta nova reforma são válidas: esse período era de três anos no Brasil (foi estendido agora para 2018) e de seis anos em Portugal.

Os brasileiros, como que obedecendo uma ordem divina, adotaram o acordo no dia seguinte, sem que nenhuma sanção recaísse sobre quem não o adotasse. Que os editores se apressassem em ratificá-lo, entende-se: muda-se uma letrinha cá, outra acolá, retira-se o trema, o hífen e alguns acentos cá e lá, e bilhões de reais vão para a indústria editorial. Mais ou menos como a tomada de três pinos.

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Diz Pimentel que Cyro disse que Pimentel disse o que Cyro diz que não disse

Neste debate entre o professor Ernani Pimentel e a professora Renata Pallottini (membro da Academia Paulista de Letras), são apresentados diferentes pontos de vista relativamente a “mais um passo” do AO90.

Segundo Ernani Pimentel, o AO90 é praticamente igual às alterações introduzidas em 1975 (no Brasil, é capaz… quanto a Portugal, não se pode afirmar o mesmo). Ainda segundo Pimentel, não se deve decorar as coisas, mas sim compreendê-las. No entanto, faz tábua rasa de toda a história das palavras, defendendo que bastaria saber como se dizem para saber escrevê-las. Faz ainda curiosas afirmações relativamente ao senador Cyro Miranda e à comissão que este lidera. Ao minuto 7:30, é apresentado um quadro ilustrativo das propostas de alteração, onde se suprimem não só as consoantes como também as vogais “mudas”. (Porque não? Se é para suprimir, vamos a isto…)

Já a professora Renata Pallottini diz que desprezar a história das palavras é incrementar a ignorância e não melhorar a educação.

Ou seja, em suma, sirvamos a coisa em forma de sinopse, à laia de aperitivo para tornar um pouco mais tragáveis os 23 minutos deste televisivo “debate” sobre a “reforma da reforma“.

O “Coordenador do Grupo de Trabalho Técnico” (ou “Grupo Técnico de Trabalho”, pelos vistos os brasileiros não se entendem nem sobre isto) do Senado Federal brasileiro, Ernani Pimentel, participa num “debate” – em dueto com uma senhora – a um Canal de TV brasileiro. No dito debate o dito Ernani jura, mui cientificamente, que “no início, quando começou a língua portuguesa, a palavra ‘HOMEM’ não tinha H“, por um lado, e por outro lado, não menos científica e surpreendentemente, garante que “o senador Cyro Miranda não tem nada a ver com isso”, ou seja, com a “reforma da reforma” que Pimentel (diz que) está a promover no Senado do… senador.

Há na gravação, além disto, que já não seria pouco, algo de ainda mais hilariante — em forma de diálogo:

-A senhora não tem experiência de sala de aula.
-Eu sou professora há 50 anos!!!

Nada como ver (ouvir) para crer.

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«A hipótese de uma ortografia do português de Angola» [Wa Zani, “Jornal de Angola”, 27.08.14]

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A hipótese de uma ortografia do português de Angola

Wa Zani
27 de Agosto, 2014

Em cada computador aparecem várias opções para a ortografia do inglês (África do Sul, Austrália, Belize, Canadá, Caraíbas, Estados Unidos, Índia, Indonésia, Irlanda, Jamaica, Malásia, Nova Zelandia, R.A, de Hong Kong, Reino Unido, Singapura, Trinidade e Tobago, Zimbabwe) e também para a ortografia do francês (Bélgica, Camarões, Canadá, Costa do Marfim, Haiti, Índias ocidentais, Luxemburgo, Mali, Maurícias…). Em relação à Língua Portuguesa, há ainda as opções do português de Portugal e do Brasil, apesar de nos aparecer, após o AO90, palavras sublinhadas a vermelho no nosso computador, como se estivessem erradas, apesar das duas normas ortográficas (a velha e a nova) estarem ainda em vigor. Nos cinco PALOP, a norma do português era a do português de Portugal, que decidiu afastar-se para uma outra ortografia mais próxima do português do Brasil. A 10 de Agosto de 1945, o Brasil assinou com Portugal a “Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945” e há 70 anos que não a cumpre. No actual contexto do AO90, o Brasil salvaguardou antecipadamente as questões culturais de ordem ortográfica do “tupi-guarani” e nós angolanos, preocupamo-nos em salvaguardar o nosso património linguístico bantu, principal vertente cultural da nossa identidade, cuja estrutura difere bastante da linguística neolatina.

O reconhecimento da fragilidade do texto do AO90 é praticamente consensual e há cidadãos dos países da CPLP, que, por falta de um prontuário ortográfico que lhes sirva de referência, misturam as duas ortografias, incluindo os próprios professores. O que se pressupunha que iria unir a grafia em português, nunca se irá concretizar, tal como a maior difusão internacional da Língua Portuguesa e uma maior facilidade da aprendizagem para o próprio idioma. Para que serviu afinal o Acordo Ortográfico?

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Toda uma história numa única palavra [vídeo com legendas em Pt-Pt]

PTPTLogo_43csmallAqui divulgamos mais um vídeo sobre ortografia, de uma aula TED da autoria de Gina Cooke, agora também com legendas em Pt-Pt. Se no anterior ficámos a saber porque há um “b” em “doubt” (dúvida), neste é-nos contada a história da palavra “true” (verdadeiro) e a sua relação com “tree” (árvore).

A partir de agora, quem quiser poderá assistir também a esta “aula” de TED-Ed, escolhendo “Português (Portugal)” como opção de legendagem.

TED-Ed_logo“Quanto mais antiga é a palavra, mais longa (e mais fascinante) é a sua história. Com raízes no inglês arcaico, “true” partilha antepassados etimológicos com palavras como “noivo/a” ou “tréguas”… mas também com a palavra “árvore”. Na verdade, as árvores são metáforas de constância e fidelidade desde há tanto tempo quanto a palavra “true” define as mesmas qualidades. Gina Cooke descreve a relação poética entre “tree” (árvore) e “true” (verdadeiro).”

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“Em vez de se tratar a febre, muda-se de termómetro” [Bruno Dewaele, jornal “Libération” (França)]

O que se segue é uma transcrição de texto original em Francês. Para ler em Português, coloque o “pointer” do seu “rato” em cima de cada parágrafo e verá o respectivo texto traduzido.

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Notation des dictées : «On ne s’attaque pas à la maladie, on change juste de thermomètre»

AUDE DERAEDT 11 AVRIL 2014 À 18:33

INTERVIEW
Le champion du monde d’orthographe estime qu’un nouveau barème de notation n’est pas la solution.
Le ministère de l’Education nationale a présenté jeudi un nouveau système de notation pour les dictées. Moins sévère, il tiendrait compte des bonnes réponses des élèves et non plus seulement des fautes. Bruno Dewaele, champion du monde d’orthographe et professeur de Lettres dans un lycée du Nord, nous explique pourquoi il ne croit pas en ce barème, malgré la prise de conscience des Français de l’importance de l’orthographe.

Le ministère de l’Education nationale a dévoilé jeudi un nouveau barème de notation pour les dictées. Qu’en pensez-vous?
Je suis d’accord pour qu’on y réfléchisse, qu’on n’ait plus recours à la notation punitive. Surtout si l’orthographe traumatise autant qu’on le dit. Mais je ne suis pas sûr qu’un nouveau barème fasse faire des progrès aux élèves. L’Education nationale cherche surtout à masquer un déficit. Déjà en 1990, le gouvernement avait entamé une réforme de l’orthographe, pour la simplifier, au lieu de l’apprendre telle qu’elle était. Ce n’est pas ça qui va aider les élèves, quand on sait qu’ils confondent encore en seconde un futur avec un imparfait. Ça me fait toujours penser à l’histoire du piano. En France, quand on n’y arrive pas, on rapproche le piano plutôt que d’avancer le tabouret. Pour l’orthographe, c’est la même chose. On ne s’attaque pas à la maladie, on change juste de thermomètre.

En tant que professeur de lettres en lycée, avez-vous observé une évolution du niveau des jeunes en orthographe?
Le niveau est mauvais, il faut dire les choses comme elles sont. Quand on compare des copies d’aujourd’hui à celles d’il y a trente ans, il y a une baisse évidente. Mais c’est sans solution. Le temps qu’on consacrait naguère à l’orthographe n’a rien à voir avec celui qu’on lui consacre aujourd’hui. Si le niveau ne baissait pas dans de telles conditions, nos élèves seraient tous des génies.

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