«Um golpe dos ‘patrões’ da Língua» [Cândido Lince, “Jornal de Angola”]

Há coisas que, de tão vergonhosas, até o diabo foge delas. Pópilas! Vejam só o atrevimento!

De há alguns dias a esta parte, o Word 2007 do meu computador, ferramenta que utilizo para escrever os meus textos, passou, automaticamente, a assinalar erros ortográficos em palavras, que eu tinha a plena convicção de estarem correctamente escritas. Pensei até que a selecção para a configuração ortográfica do português de Portugal tivesse “emigrado” para o Brasil. Mas não. Emprestando um pouco mais da minha atenção e paciência a este assunto, questionando, também, outras pessoas, conclui que, através de algumas das actualizações automáticas, sem me pedirem qualquer opinião sobre o assunto, passaram-me a impor um novo dicionário da língua portuguesa de Portugal, quando o antigo corrector ortográfico se encontra ainda em uso. Se não foi por feitiço que isto aconteceu, então andou, de certeza, aqui, uma mãozinha marota.

O meu país, Angola, tem, por opção e não por imposição, o orgulho de ter a Língua Portuguesa como língua oficial e de escolaridade. Uma língua que, a par de outras línguas africanas, é património de todos os angolanos que a falam, independentemente do facto de a terem adquirido como primeira ou segunda língua.

Angola assinou o novo acordo ortográfico, mas, por razões de ordem, essencialmente, científica e cultural, ainda não o ratificou e tem todo o direito de querer voltar a discuti-lo, pelo facto de, em alguns aspectos, não se rever nele. De nenhum modo terá de ser obrigado a consumi-lo, tal como, no seu todo, o mesmo se apresenta.

Moçambique também não ratificou o novo acordo ortográfico e há outros países africanos de expressão portuguesa que, apesar de o terem feito, juridicamente, ainda vão a tempo de reponderar sobre determinados aspectos. Em Portugal, por exemplo, o novo acordo ortográfico terá, oficialmente, de conviver com o antigo, pelo menos, até 2015. Assim sendo, o acordo ortográfico de 1945 mantem-se ainda em vigor.

O que terá levado a Microsoft a impor o novo acordo ortográfico de língua portuguesa à margem da lei e sem alternativa de escolha por parte dos seus utentes? Um novo acordo bastante contestado, sobretudo, ao nível dos académicos, agora imposto, por via electrónica, mais por conveniência de interesses obscuros do que por estratégia de divulgação da própria língua, como dita o discurso político?

Nos dias de hoje, não me parece que seja através da força, com o uso de golpes baixos, que teremos de ser forçados a aceitar o novo acordo ortográfico de língua portuguesa. Aproveitar o facto de os PALOP não terem ainda um parque editorial à altura, para, automaticamente, nos forçarem a aceitar um acordo onde, para além dos erros e das situações duvidosas, são mais as excepções que as regras, é uma má opção estratégica, com consequências a curto, médio e longo prazo e com sérios prejuízos para a própria Língua Portuguesa. O novo acordo, para ser validado e dignificado, terá de ser rectificado para não conviver com resistências de todo o tipo. Terá de entrar, em cada país, pela porta grande da frente e nunca, sorrateiramente, pela porta pequena dos fundos. Para tal, se torna necessário que todos os países participem dele, para que todos os países se revejam no mesmo, já que a língua portuguesa é de todos os países membros, que compõem a CPLP.

Angola e os outros países africanos de expressão portuguesa, bem como ainda Timor Leste, não têm de ser usados como caixa de ressonância de problemas que não lhes dizem respeito, nem, tão pouco, terão de ser sujeitos a imposições sub-reptícias de tipo neocolonial, sob o protesto da necessidade de uma unificação linguística, que, como todos sabemos, não passa, desde o início, de um falso pressuposto.

Face aos embaraços constatados no novo acordo, não só em Angola, mas também em Portugal, no Brasil e em outros países da Comunidade, só os asnáticos fogem para a frente e procuram impor pela força o que não conseguem convencer pelo uso da argumentação. O jeitinho do “tomem lá o Acordo e não piem”, é uma forma muito pouco urbana, democrática e sensata de tentar resolver o problema. Assim, dificilmente, em português, seremos capazes de nos entender.

Cândido Lince

[Transcrição integral de artigo publicado hoje, 25.03.12, no “Jornal de Angola” (online), da autoria de Cândido Lince. Destaques e sublinhados nossos.]
[Conhecimento do artigo via Francisco Miguel Valada.]
[Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito e são por definição de interesse público.]

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Reescrever a História [I]

«Proposto pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma tentativa de unificar a língua portuguesa, sobretudo na internet, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa passa a ser obrigatório no Brasil a partir de 1º de janeiro de 2013.»
“Jornal da Manhã” (online), Uberaba (Minas Gerais), Brasil, 19 de Março de 2012

Uma das consequências do AO90 que mais têm sido escamoteadas e que os nossos políticos, por regra, fingem ignorar é a seguinte: à conta de uma pretensa (e impossível) “uniformização” da Língua Portuguesa, a norma-padrão do Português está a ser inexorável e sistematicamente apagada em todos os registos e em qualquer suporte. Na Internet (e não só), dezenas, centenas, milhares de pessoas – na sua maioria do Brasil mas também contando com a solícita colaboração de alguns portugueses – estão a simplesmente fazer desaparecer a norma ortográfica do chamado Português europeu, como se tal coisa nunca tivesse sequer existido.

As provas que evidenciam esta gigantesca operação de genocídio linguístico (e cultural, por inerência) estão por todo o lado, apesar de também sobre elas, as provas, além dos conteúdos propriamente ditos, incidir a sanha, a raiva e o labor frenético destes revisores da História que agora se afadigam em sumamente liquidar o passado (que nunca o será para nós outros) da Língua Portuguesa.

Abreviando razões, aquilo que se está a passar é que a mentira da “língua portuguesa unificada” tenta instaurar a sua política do facto consumado através da eliminação pura e simples de qualquer referência ou conteúdo que não “obedeça” ao “acordo ortográfico” de 1990. Ou seja, em suma, segundo eles nunca antes houve norma-padrão, apague-se tudo aquilo que existir, sempre houve a “nova norma”, substitua-se a “antiga” por esta.

Nesta série de artigos, de que hoje se publica o primeiro, tentaremos ilustrar com exemplos vários – todos eles fundamentados documentalmente – este fenómeno que tem passado (deliberada e orquestradamente) despercebido da opinião pública e que poderíamos talvez designar pela abreviatura “PAEC”, processo de aniquilamento em curso.

A ilustração que se segue mostra, sem necessidade de quaisquer comentários adicionais, a forma ditatorial, canina, verdadeiramente nazi como esta “nova ordem ortográfica” é imposta, no caso, aos utilizadores da Wikipedia que se diz “lusófona”. Relevem-se, caridosa e pacientemente, as óbvias dificuldades de redacção do “Vinicius” em causa:

«Aproveito para lembrar que, apesar da Wikipedia lusófona privilegiar o uso das normas do Acordo Ortográfico de 1990 nas suas páginas oficiais (políticas, recomendações, etc.), qualquer usuário é livre de utilizar nas suas edições as regras ainda vigentes no Brasil (Formulário Ortográfico de 1943) ou as dos restantes países lusófonos (Acordo Ortográfico de 1945), não sendo toleradas alterações de uma norma para outra.»

No próximo artigo desta série veremos de que forma NUNCA EXISTIRAM na Wikipedia “lusófona” algumas entradas (palavras) com a grafia do Português-padrão.

[Imagem de topo de Tate online.]

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Internet em Português-padrão

Esta é uma ideia de João Ricardo Rosa, consistindo basicamente em utilizar uma ferramenta do Firefox já existente para ler em Português correcto as páginas web que “adotaram” o AO90.

Por exemplo, na imagem seguinte pode ver-se que o termo adulterado “seleção” foi automaticamente corrigido para “Selecção”.

Nas duas imagens seguintes, executadas pelo autor do “blog” Bic Laranja, outros tantos exemplos de páginas web em que o Português aparece corrigido (as correcções automáticas foram sublinhadas nas imagens).

A instalação desta “extensão” do programa de navegação Firefox é extremamente simples:

1. Aceda ao endereço https://addons.mozilla.org/pt-pt/firefox/addon/foxreplace/ e “click” no botão “Transferir agora/Download Now”) e “Instalar Agora/Install Now”.
2. Re-inicie o Firefox.
3. No menu do Firefox, “click” na opção “Ferramentas/Tools”), seleccione “FoxReplace” e abra o sub-menu “Opções do FoxReplace/Options”).

4. Irá abrir uma nova “caixa” com as opções do FoxReplace.

5. Copie o endereço http://dl.dropbox.com/u/4967399/FoxReplace.xml e cole-o na linha em branco onde diz URL (como vê na imagem). Assinale as caixas de verificação “Update from Url/Actualizar de Url” e também “Auto-replace on page load/Substituir ao carregar página”. Por fim, “click” no botão “Ok”.

E pronto! Já pode navegar pela Internet à vontade sem qualquer receio de tropeçar em agressões ortográficas.

Aguardamos a qualquer momento (que alguém converta) versões deste “extra” para outros programas de navegação, ou, pelo menos, para o Google Chrome.

[O ficheiro de conversão em http://dl.dropbox.com/u/4967399/FoxReplace.xml é também da autoria de João Ricardo Rosa, que o criou de raiz e o actualiza.]

[A imagem das opções do Firefox/FoxReplace é também, como outras duas neste “post”, do blog Bic Laranja.]


Actualização em 18.04.12

Já foi lançado pelo autor da ideia o “site” onde pode encontrar todas as informações e indicações sobre esta (excelente) ferramenta de “navegação” na Internet: http://firefoxcontraao90.wordpress.com/

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Portugueses de todo o mundo subscrevem a ILC (9)

Alguns selos e franquias de correio de subscrições da ILC recebidas, dos Portugueses espalhados pelo mundo, neste caso com exemplares de Portugal, Inglaterra, Brasil, Suíça, Austrália e Canadá.

Ver “colecção” de selos postais da ILC.

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André Jorge subscreveu a ILC

André Fernandes Jorge nasceu no Bombarral em 1945. Com 12 anos foi estudar para Coimbra, onde permaneceu até aos 17. Muda-se então para Lisboa. Ingressa na Faculdade de Letras, frequentando primeiro Filosofia e mais tarde Românicas, não concluindo nenhum dos cursos. Com 21 anos é incorporado no exército e mais tarde parte para Angola. Cumpre cinco anos de vida militar. De África conhece também a Guiné-Bissau, onde viveu durante mais de dois anos, como cooperante.

Em 1987 funda a Livros Cotovia, juntamente com o irmão, mas dirige a editora sozinho desde 1991.

Ao longo de mais de vinte anos a Cotovia soube transformar-se numa editora de referência no panorama do livro em Portugal, em especial pelas suas colecções no âmbito da poesia, do ensaio, da ficção, do teatro, da literatura brasileira e da literatura clássica. Enquanto editora, a Livros Cotovia nunca deixou de se nortear pelo critério simples de quem escolhe um livro para mostrar, para oferecer, ou simplesmente porque gostaria que os amigos o lessem.

Subscreveu a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.

Este é mais um perfil publicado na “galeria” de subscritores, activistas e apoiantes da nossa ILC.

Nota: esta publicação foi autorizada pela subscritor, que reviu, expressamente para o efeito, a respectiva nota biográfica.

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