«Essa sinistra guilhotina» [Fernando Paulo Baptista]

Dado o seu evidente interesse público, transcrevemos seguidamente um “texto para reflexão”, como o designou o próprio autor, que o Prof. Dr. Fernando Paulo Baptista fez o favor de nos deixar em comentário ao artigo (publicado no JN e aqui transcrito) de Manuel António Pina.

Para o autor deste brilhante e elucidativo trabalho, o senhor Professor Doutor Fernando Paulo Baptista, ilustre filólogo, aqui ficam as nossas mais sinceras homenagens, justificando-se que tão importante documento tome o relevo que plenamente merece no site da ILC.

Senhor Professor, é para nós subida honra (re-)publicar assim este seu extraordinário estudo. Bem haja!


Essa sinistra “guilhotina” liquidatária das matrizes profundas da Língua Portuguesa, esfingicamente instalada e escondida na Base IV do actual acordo ortográfico (1990), deveria ser a nossa preocupação nuclear pela defesa da «madre língua»!…

– 1 –
A desassossegada e fulcral preocupação que o actual acordo ortográfico/1990 não pode deixar de suscitar reside no facto de impor uma «grafia» (repare-se bem: uma «grafia»!…) fono-cêntrica ou orali-cêntrica, assente na volátil e efémera “substância” dos «sons», dos «fonemas» («verba volant»), e não, na “substancialidade” estruturante, consistenciante, estabilizadora e permansiva das «letras», dos «grafemas» («scripta manent») de que, pelo menos desde os gramáticos, retóricos, dialécticos e filólogos clássicos (e.g.: Dionísio de Trácia, Apolónio Díscolo, Marco Terêncio Varrão, Marco Fábio Quintiliano, Valério Probo, Élio Donato, Prisciano Cesariense…), as regulae, as gramáticas, os dicionários e as antologias têm sido a expressão concreta, garantística e profiláctica[1].

– 2 –
Na verdade, contrariando o princípio enunciado pelo clarividente linguista brasileiro Luiz Carlos Cagliari[2], segundo o qual, «a grafia tem como objetivo maior permitir a leitura, e não, representar uma pronúncia», “escrever como se pronuncia” (como se fala…) passou a ser o leitmotiv teleológico e condutor deste novo acordo!…

– 3 –
Mas, afinal, o que é que, através de um tão mal engendrado e tão contraditório normativo acordatário destinado a regulamentar, a unificar e a normalizar a forma grafémica das práticas escritas da língua como é este novo acordo ortográfico (que, importa dizê-lo frontalmente, configura objectivamente um “monumento” à incongruência epistemológica e à incompetência linguística, filológica e pedagógico-didáctica!…), sim, o que é que, com um tal “pacto regulatório”, se pretende normalizar, uniformizar e estabilizar?… É a «pronúncia», ou seja, «o modo oral» de realização da língua, que se concretiza através dos actos de falar e de ouvir, ou é «o modo escrito» de realização dessa mesma língua, que se concretiza através dos actos de escrever e de ler?…

– 4 –
Se é «a pronúncia», há que elaborar, então, um acordo que, com toda a propriedade, deverá passar a designar-se de «acordo ortoépico» ou «acordo ortofónico», e não, «acordo ortográfico»; esse acordo, tomaria como referencial um «padrão fonético-fonológico» o mais alargado possível, com a intervenção dos melhores foneticistas e fonologistas da CPLP (e recuperando a parte melhor do trabalho, a esse nível, realizado pela comissão liderada por Gonçalves Viana para o acordo de 1911…), por forma a poder vir a funcionar como uma espécie de «unicode ortofónico» ou de «alfabeto fonético-fonológico universal» para toda a CPLP.

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Portugueses de todo o mundo subscrevem a ILC (10)

Alguns selos de correio (e franquias) de subscrições da ILC recebidas, dos Portugueses espalhados pelo mundo, neste caso com exemplares de Portugal, Luxemburgo, Brasil, Suíça e Canadá.

Ver “colecção” de selos postais da ILC.

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‘Constrangimentos e estrangulamentos’ no AO90? Exacto.

CPLP
VII REUNIÃO DE MINISTROS DA EDUCAÇÃO DA COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA
Luanda, 30 de Março de 2012
DECLARAÇÃO FINAL

[…]

No quadro da aplicação e ratificação do Acordo Ortográfico de 1990, pelos Estados Membros da CPLP

Reconhecendo que:
– O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 é uma ferramenta em que todos os Estados Membros estão empenhados e que representa uma verdadeira contribuição para a promoção e defesa da Língua Portuguesa no espaço da CPLP e no Mundo;
– A aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 no processo de ensino e aprendizagem revelou a existência de constrangimentos que podem, no futuro, dificultar a boa aplicação do Acordo;
– Há necessidade de se estabelecer formas de cooperação efectiva entre a Língua Portuguesa e as demais línguas em convívio nos Estados Membros;
– Existe exiguidade de recursos financeiros para a elaboração dos Vocabulários Ortográficos Nacionais nos Estados Membros que ainda não o conceberam;
2. Recomendar ao Secretariado Executivo da CPLP que, no âmbito do Acordo Geral de Cooperação no concernente à defesa e promoção da língua, se formatem projectos a serem financiados pelo Fundo Especial da CPLP e/ou, por outros fundos adstritos ao desenvolvimento da cooperação no âmbito nacional, bilateral e multilateral, com vista à elaboração dos Vocabulários Ortográficos Nacionais;
3. Incumbir o Secretariado Técnico Permanente (Portugal/ Angola/Moçambique) para, junto e com o apoio do Conselho Científico do IILP e de instituições académicas dos Estados Membros, proceder a:
3.1. Um diagnóstico relativo aos constrangimentos e estrangulamentos na aplicação do Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa de 1990;
3.2. Acções conducentes à apresentação de uma proposta de ajustamento do Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa de 1990, na sequência da apresentação do referido diagnóstico.

[…]

[Ver texto completo deste documento.]

constrangimento
s. m.
1. Acto de constranger.
2. Violência que tira liberdade de acção.
3. Acanhamento, embaraço.

estrangulamento
(estrangular + -mento)
s. m.
1. Acto ou efeito de estrangular. = ESTRANGULAÇÃO
2. Estreitamento.
3. Aperto, constrição.

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«A conspiração ortográfica» [Manuel António Pina, “JN”]

Ainda não vi ninguém queixar-se (e, que diabo!, não acredito que seja só eu o eleito e o escolhido): fui atacado por um “hacker” anónimo ao serviço da Kultura e do dr. Malaca Casteleiro e, em silêncio, sem aviso, o meu Word adoptou o celerado Acordo Ortográfico. Mesmo agora acaba de sublinhar a vermelho a palavra “adoptou” (e voltou a fazê-lo!)

Não tenho conhecimentos de informática nem tempo para tentar desactivar (outra vez!) no corrector (de novo!) ortográfico o cavalo de Troia nele alojado não sei por que sinistro Torquemada linguístico, e irrita-me saber que alguém vigia o modo como escrevo pois, a seguir a isso, há-de vir também a vigilância sobre aquilo que escrevo. (O biltre sublinhou o “há-de” a vermelho; só falta notificar-me, como nas cartas de condução, de que já cometi x ou y infracções (outra vez!) ortográficas graves e de que ficarei impedido de escrever durante um mês ou, sabe-se lá, para sempre). Que fazer? A quem pedir satisfações? Ao Windows Update? Ao dr. Miguel Relvas? Ao SIS? À Loja Mozart?

Por que obscura porta se terá infiltrado a Coisa no meu computador? Poderá entrar igualmente pela minha consciência e pela minha vontade dentro, censurando a vermelho o que penso e o que quero como censura o que escrevo? Já pensei voltar a escrever à mão, mas temo que até esferográficas e lápis tenham já sido programados pelo dr. Casteleiro para não me deixarem escrever consoantes mudas.

Manuel António Pina

[Transcrição integral de crónica da autoria de Manuel António Pina publicada no “Jornal de Notícias” de 02.04.12.]

[Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito e são por definição de interesse público.]

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Mentira: ‘o AO90 não altera a pronúncia das palavras’


A mentira

«Fixem bem: o Acordo Ortográfico muda a grafia de certas palavras, a maneira como se escrevem, mas não altera a pronúncia de nenhuma palavra.»
Citação: “Acordo Ortográfico no Sapo.pt”

«O Acordo Ortográfico não altera a pronúncia de qualquer palavra.»
Citação: “blogue da associação internacional dos colóquios da lusofonia“

«Não nos devemos esquecer de que o Acordo Ortográfico muda a grafia de certas palavras, a maneira como se escrevem, mas não altera a pronúncia de nenhuma palavra.»
Citação: Agrupamento de Escolas das Olaias, Lisboa (rede RCTS)


A verdade


Ferramenta: sintetizador de texto para voz utilizado por João Ricardo Rosa.


Ferramenta: sintetizador de texto para voz online da OddCast


Este trabalho foi realizado com base numa ideia original de João Ricardo Rosa: se “o AO90 não altera a pronúncia das palavras”, então como reagirão os sintetizadores de voz às “novas regras”?

As respostas estão aí, nas gravações, como qualquer pessoa pode ouvir ou verificar por si mesma: não só as palavras “acordizadas” são “ditas” em conformidade com as regras do AO45 como as “exceções” apenas existem se e quando forem introduzidas à pressão, isto é, gravadas uma a uma, independentemente de qualquer norma ou regra ortográfica. E isto é claro, como agora se demonstra, porque no AO90 não existem quaisquer regras inteligíveis, compreensíveis ou sequer executáveis; pelo contrário, apenas existe neste “acordo ortográfico” uma pilha infindável de excepções e “facultatividades”. Os acordistas levariam, por conseguinte, uma eternidade a gravar “por cima” todas as palavras que algoritmo algum jamais conseguirá interpretar correctamente — nem com milhões de linhas de código de programação.

Isto significa, portanto, que se não houver tal introdução maciça de excepções (manual, caso a caso) o “software” só por si mesmo não reconhece, não interpreta, lê “incorretamente”, ou seja, segundo as regras pré-AO90. Se o software necessita de excepções em massa é porque não existem regras que as dispensem. Logo, pura e simplesmente as ditas “regras” não fazem qualquer sentido – tanto para um conversor de texto para voz como para o cérebro de uma criança ou, por exemplo, para o entendimento de um estrangeiro que pretenda aprender Português!

Em suma, já sabíamos que o AO90 não faz qualquer espécie de sentido mas o facto de nem mesmo um computador ser capaz de o processar comprova plenamente que não passa de um esmagador, inacreditável, absoluto disparate.

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