Pois é: antes fosse mentira
Por NUNO PACHECO
Hoje, 1 de Abril, é o dia consagrado à mentira. Não precisávamos, é verdade. Já temos tantas e em tantos outros dias que a coisa se banalizou consideravelmente. Mas é provável que haja ainda quem siga a tradição. Assim: “Hoje vamos todos jantar a um restaurante caro! Saiu-me a lotaria!”; ou: “A crise acabou!”; ou: “O Álvaro já não é ministro!” Pois sim, então é 1 de Abril e acreditaram? É verdade, acreditaram. A mentira sorriu-lhes. Não se arranjará um dia consagrado à verdade?
Mesmo que arranjassem, haveria sempre alguém a infringir a regra. Aliás, é para isso mesmo que as regras se fizeram, para infringir. Não é verdade? Ou é mentira? Pouco importa, para o caso. Mas há verdades que gostaríamos que fossem mentira. Por exemplo: os portugueses andam a falar mal e a escrever pior. É verdade, mas devia ser mentira. Um exemplo é a moda que veio substituir palavras simples e directas por outras rebuscadas e pretensamente cultas. Vejamos. Ainda não há muito tempo, os verbos receber e perceber tinham utilização geral. Recebia-se uma mensagem e percebia-se (ou não) o que ela dizia. Hoje é diferente: receber foi substituído por recepcionar e perceber por percepcionar. Dá coisas como esta: “Bom dia, já recepcionou o que lhe enviei? E percepcionou tudo? É que há quem não percepcione logo à primeira…” Com o famigerado AO90 o diálogo melhora. Vejam: “Bom dia, rececionou a minha mensagem? Percecionou? Não? É que me pareceu que tinha acusado receção. Mas se não rececionou, reenvio. Quando rececionar, diga. Se não percecionar, explicarei melhor.”
Quem dera fosse mentira. Não é. Continue reading
Abr 01 2012
«Pois é: antes fosse mentira» [Nuno Pacheco, “Público”]
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Mar 29 2012
«A estupidificação dos povos» [Luís Ferreira, no blog “Blasfémias”]
Luís Ferreira
Posted 29 Março, 2012 at 08:05 | PermalinkNem é tanto isso, Fado Alexandrino, é bem pior. É acabar com conceitos e com pensamento, pura e simplesmente. Há umas semanas atrás estive à conversa com alguém que se dedica ao estudo da Filosofia e esse meu conhecido disse-me, e eu acreditei à primeira, que a Crítica da Razão Pura do Kant se torna ilegível se for vertido para o Acordo. Se acrescentarmos a isso uma colecção de palavras malditas, muita da Literatura, dos escritos de Filosofia, de Religião e de Política, por exemplo, ficam simplesmente ilegíveis. O que está a fazer é a caminhar para uma lavagem ao cérebro à escala planetária. Esta tentativa não me surpreende, o que me surpreende é a forma passiva como pessoas que eu pensava cultas e inteligentes, mesmo não concordando com elas, estão dispostas a aceitar o facto como bom. O que me surpreende é ver cultos políticos opostos a esforçarem-se no mesmo sentido, porque, provavelmente, o resultado é relevante para uns e para os outros: a estupidificação dos povos.
Devagar, devagarinho, isto está a acontecer. E onde estão os homens e mulheres de cultura? Os nossos jornalistas? Alguns levantam-se e falam uma vez ou outra no assunto mas logo se calam envergonhados, porque a moda, o que é politicamente correcto, é estar de acordo com as alterações de fundo que estão a acontecer e depois de falar uma vez ou outra ficam com as consciências descansadas e lavam as mãos como Pilatos. O ocidente está na miséria económica e vai ficar na miséria intelectual. Há maior miséria do que essa? Qual é, afinal, a condição singular do Homem? Não é o pensamento? Sem palavras, sem vocabulário, sem estruturas gramaticais sofisticadas, como se pensa? Como se transporta esse pensamento para a escrita? Temos, alguns de nós, de voltar ao latim?
É por estas e por outras que eu sou radicalmente contra tudo o que possa limitar a capacidade de pensar e, no caso português, o que nos afecta muito e para já, o dito Acordo Ortográfico. É por estas e por outras que eu, para além, de ter assinado a ILC – https://ilcao.com/ – me tornei uma espécie de voluntário a recolher assinaturas, seguro de estar a contribuir para a sobrevivência de uma língua, em que já foram escritas poesia e prosa da mais elevada qualidade.
[Transcrição integral de comentário da autoria de Luís Ferreira, em “post” com o título “Sharia” no blog “Blasfémias“.]
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Mar 27 2012
«STOP ao acordo» [“Nenuco”, YouTube]
[transcrição]
Ai já começou a gravar. Desculpem. Olá, sou o Nenuco, já devem saber. Neste vídeo vou falar-vos sobre o acordo ortográfico. E porquê o acordo ortográfico? Porque eu estou com dificuldades em escrever… em Português; porque no Francês e no Inglês não há acordo. Ou há? Se calhar há… Se calhar há… Vou perguntar isso aos meus professores. Ok, eu depois pergunto.
Como toda a gente sabe, quando nós andávamos na Primária estavam-nos sempre a insistir para pormos em “correcção” o “C” e o “Ç de cedilha”, em “recepção” o “p” antes do “Ç de cedilha” e assim; e agora querem-nos fazer tirar! Então para que é que nos ensinaram? Não percebo. Não cabe na cabeça de ninguém, isso; só mesmo na cabeça de quem está lá na política, e assim. Só sabem mentir e roubar, mentir e roubar. E aldrabar também.
Mas, por exemplo, porque é que nos ensinaram a escrever com dois “cês”, um “pê” e um “cê” e agora nos querem obrigar a tirá-lo? É estúpido. Mais valia não nos terem ensinado. Só nos estão a fazer perder tempo. E eu não gosto de que me façam perder tempo. Porque perder tempo é uma seca. E depois fazem-me perder tempo e não tenho tempo de vir cá gravar os vídeos para vos fazer rir. Por isso, digam aos professores de Português (e de outras disciplinas, porque há professores de outras disciplinas que também escrevem com o acordo) para não me fazerem perder tempo; porque se eles me fizerem perder tempo vocês não vêem os meus vídeos; e se vocês não virem os meus vídeos até ficam felizes… mas eu não! Eu quero que as pessoas vejam os meus vídeos.
Eu ultimamente ando com dificuldades em escrever por causa do acordo. Oh, pá, dizem que nos querem aproximar dos brasileiros! Eles que se aproximem de nós! Nós é que os descobrimos. Dos angolanos… nós é que os descobrimos, eles que se aproximem. Dos moçambicanos… nós é que os descobrimos, eles que se aproximem. Das outras terras de África que são portuguesas (eu não me lembro de todas, eu sou bom aluno, por isso não me lembro) eles que se aproximem porque fazem-me perder tempo, como já disse. Oh, pá, e depois toda a gente anda com dificuldades em escrever e esses é que têm de se aproximar de nós porque nós é que os descobrimos.
Se estás comigo, mete “gosto”. Se não estás comigo, mete “não gosto”. É só isto que tenho para dizer, passa a mensagem e diz NÃO AO ACORDO ORTOGRÁFICO!
[/transcrição]
“Nenuco“, estudante, vídeo alojado em YouTube no dia 20 de Fevereiro de 2012.
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Mar 26 2012
Reescrever a História [III]
George Orwell, “1984”
«Discussão:facto
Boa. Cheguei aqui à procura dum significado digno da palavra facto, mas em vez disso fui remetido para fato. Aí, encontrei quase um rascunho do sentido que procurava, o sentido 5. Mas, quando segui o link para o sinónimo, a ver se havia um significado um pouco mais desenvolvido, descobri que vinha dar a esta página outra vez. É obra. Quem procura facto sai deste dicionário com a ideia que significa fato. Quando é fato que pode ser também fa(c)to.
Fato e facto
São palavras da Língua Portuguesa, com o mesmo significado para todos os falantes.–antoniolac 00:38, 19 Janeiro 2007 (UTC)
Wikcionário “lusófono”
Verifique-se a data desta “reclamação” e depois a da última alteração da entrada respectiva: «Esta página foi modificada pela última vez às 05h17min de 24 de março de 2012.»
Por aqui se vê que pelo menos esta “reclamação” (de João Ricardo Rosa, activista da ILC) produziu efeitos, ou seja, os editores acordistas do Wikcionário re-introduziram à pressa a entrada sobre o termo “Facto”; isto porque, é claro, o AO90 prevê a dupla grafia “facto/fato” e eles, atarefadíssimos na sua obsessiva caça à “consoante muda”, tinham abatido ali um C a mais, de faCto, como terão de repente constatado.
Mas isto é apenas uma excepção para confirmar a regra, evidentemente, apenas e só porque o “acordo” que regula a “língua unificada” prevê mesmo não apenas aquela como outras 69 000 duplas grafias, das quais 4 000 integralmente novas, geradas, criadas, inventadas pelo mesmíssimo “acordo” que as iria abolir.
E é uma excepção também porque, como já vimos antes, não é permitido (pela Wikipedia e serviços quejandos) reverter a ortografia acordizada para a da norma Pt-Pt. E já vimos igualmente que não apenas é proibido reverter como toda a ortografia da norma em vigor em Portugal, em Angola e em Moçambique está a ser convertida, à força e com efeitos retroactivos, para a versão acordista.
De facto, designámos anteriormente este processo como genocídio linguístico mas o PAEC (processo de aniquilamento em curso) é ainda mais abrangente (e terrível) do que isso, visto que além de estropiar a ortografia de cada entrada lexical ou enciclopédica, por arrastamento “uniformiza” também os conteúdos. Ou seja, expliquemo-nos detalhadamente quanto a isto, mais uma vez, porque se trata de algo dificílimo de compreender e mais ainda de aceitar: os conteúdos explicativos, as ilustrações e os exemplos de cada uma das entradas lexicais estão a ser sistematicamente substituídos por… explicações brasileiras, ilustrações brasileiras e exemplos brasileiros.
Vejamos, assim um pouco “à sorte”, o caso da entrada wiki sobre “Metonímia”.
«Por exemplo, “Palácio do Planalto” é usado como um metônimo (uma instância de metonímia) para representar a presidência do Brasil, por ser localizado lá o gabinete presidencial.»
Perdão? Como? “Palácio do Planalto”? Para mim, que não sou brasileiro, já agora, se me é permitido, pergunto: o que diabo vem a ser isso de “Palácio do Planalto”? Ah, é a morada oficial do Presidente do Brasil, obrigado, compreendo; sim, mas porquê a do Presidente do Brasil? Porque não a do Presidente de Angola? Ou a do Presidente de Moçambique? Ou ainda, e sempre apenas por exemplo, que mal fez à Wikipedia “lusófona” o portuguesíssimo, se bem que certamente modesto, “Palácio de Belém”?
Será que antes, quando havia naquele serviço duas versões, “Português” e “Português do Brasil”, naquela que não era “do Brasil” já se referia o “Palácio do Planalto”? Não estaria lá, nessa versão diferenciada, o nosso velhinho palácio presidencial?
Pois, isso pelos vistos nunca mais viremos a saber: como já aqui demonstrámos, toda a História está a ser sistematicamente apagada ou, pior, muito, muito pior, toda a História está ser substituída pela versão “atual” do Português, como se nunca tivesse havido outra coisa além desse aleijão.
Pois é claro que os exemplos ilustrativos deste fenómeno de extermínio cultural em massa encontram-se por todo o lado e com muita facilidade. Basta procurar seja o que for para verificar a sistematização implacável do processo.
Apenas mais uma amostra, tão ao acaso como a anterior: vejamos o que diz a Wikipedia “lusófona” sobre “Metáfora“. Sem palavras, porque uma imagem vale ainda seguramente, hoje como ontem, por mil daquelas “coisas”.
Antes ficámos a saber que as entradas lexicais em Português-padrão estão a ser exterminadas selectivamente, com efeitos retroactivos, agora ficamos também cientes de que os conteúdos o estão a ser na mesma medida: a ortografia portuguesa “nunca existiu”, pretendem os acordistas, como jamais houve fosse o que fosse em Português… fora do Brasil.

Esta imagem é uma das últimas provas que restam de que havia duas grafias do Português na Wikipedia. Ainda lá está hoje, esquecida, numa recôndita página de acesso. Mas até esta será rapidamente apagada, é certo e seguro, porque aos acordistas não interessa deixar qualquer vestígio de que alguma vez existiu algo mais do que uma única “língua unificada” e uma só “cultura lusófona”; num único país pelos vistos, porque os “restantes” não contam para nada.
Já aqui foi citado a propósito, porém nunca será de mais relembrar as sábias, premonitórias, certeiras palavras de George Orwell.
«O objectivo da Novilíngua não é apenas oferecer um meio de expressão para a cosmovisão e para os hábitos mentais dos devotos do IngSoc, mas também impossibilitar outras formas de pensamento. Tão logo for adoptada definitivamente e a Anticlíngua esquecida, qualquer pensamento herético será literalmente impossível, até ao limite em que o pensamento depende das palavras. Quando esta for substituída de uma vez por todas, o último vínculo com o passado será eliminado.»
“1984” é agora.
Nota: as imagens neste “post” são “screenshots” (uma espécie de fotografias do que se vê no ecrã do computador em determinado momento) obtidas na data de publicação deste mesmo “post”; é possível que haja nos respectivos endereços (URL) alterações posteriores efectuadas pela própria Wikipedia.
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Mar 25 2012
Reescrever a História [II]
«Favorecimento?
O artigo favorece a ortografia do Acordo Ortográfico sobre a de Angola. Não deveria antes ser “Objeto e objecto”, em vez de pôr a outra ortografia entre parêntesis como se fosse mais usada? 2.80.11.40 (discussão) 08h33min de 21 de julho de 2011 (UTC)
Explique-se melhor. Como assim o artigo favorece “o Acordo Ortográfico sobre a de Angola”? -Ramissés DC 15h04 min de 21 de julho de 2011 (UTC)» [Wikipedia “lusófona”]
Continuando na senda da denúncia (no sentido de exposição pública) do “PAEC”, ou seja, do processo de aniquilamento em curso, vejamos alguns exemplos que demonstram a forma verdadeiramente assassina como o Português-padrão está a ser apagado da História. Ou, dito de outra forma, ilustremos a gigantesca operação de destruição maciça – com efeitos retroactivos – da Língua Portuguesa não “acordizada”.
Como se vê na imagem de topo e como se lê ali, na reclamação de um angolano, a palavra “objecto” pura e simplesmente desapareceu. A bem dizer, nunca existiu! Se forçarmos a entrada directa no endereço (URL) correspondente àquela entrada com a grafia do Português “europeu” (e africano), podemos ver que somos automaticamente remetidos para o termo equivalente… em “acordês”: “objeto”. Basta experimentar, é só seguir o link http://pt.wikipedia.org/wiki/Objecto.
Porque presumimos ser muito difícil acreditar em que semelhante barbaridade esteja mesmo a acontecer, vamos repetir isto ponto por ponto a ver se a coisa resulta clara para toda a gente:
1. Na Wikipedia “PT” já foi apagado todo o passado. “Nunca” houve PT-PT e PT-BR. Por exemplo, a palavra OBJECTO não apenas foi abolida pelo AO90 como… NUNCA EXISTIU.
2. Para quem tem conta de edição na Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Objeto&action=history (a entrada mais antiga é de 01.06.10).
3. O redireccionamento (de OBJECTO para “objeto”) foi forçado COM EFEITOS RETROACTIVOS a 2005: http://web.archive.org/web/20050422021854/http://pt.wikipedia.org/wiki/Objecto
4. A busca interna por OBJECTO na Web Archive dá ERRO: http://liveweb.archive.org/http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Objecto&redirect=no
Claro que este processo de extermínio linguístico é sistemático, avassalador, por assim dizer industrializado: todas as palavras com a grafia do Acordo Ortográfico de 1945, que vigora ainda legalmente pelo menos em Portugal, Angola e Moçambique, estão a desaparecer na Wikipedia… mas não somente; é claro que os mesmos métodos de extinção em massa estão já a ser utilizados em várias plataformas, sistemas e serviços (virtuais ou não).
Qualquer pessoa pode verificar por si mesma com os exemplos que lhe forem ocorrendo: a palavra “Acto” não existe (nem existiu nunca ou será que existiu alguma vez mas foi exterminada?), “Actuação” desapareceu (agora é “obrigatoriamente” «atuação») e até algo como uma simples “acta” de reunião já não se faz (nem nunca se fez, pois claro), diz que tem de ser “ata” à viva força, ou seja, «um registro ou resenha de fatos ou ocorrências».
Este “apagão” geral (com efeitos retroactivos, repita-se e realce-se de novo) não acontece por mero acaso, evidentemente, e muito menos por necessidade. Faz parte de uma estratégia política, como já sabemos, que consiste num tão velho quanto terrível paradigma: “quem domina o passado domina o futuro; quem domina o presente domina o passado” [George Orwell, “1984”]
No próximo artigo desta série veremos de que forma o “apagão” selectivo não é apenas terminológico (ou ortográfico), é também referencial e de conteúdo.
Nota: as imagens neste “post” são “screenshots” (uma espécie de fotografias do que se vê no ecrã do computador em determinado momento) obtidas na data de publicação deste mesmo “post”; é possível que haja nos respectivos endereços (URL) alterações posteriores efectuadas pela própria Wikipedia.
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