«Um pouco mais de rigor, sff» [F.M.V., “Público”, 11.08.12]

“A experiência universal todos os dias nos confirma a velha parêmia de que a pressa é inimiga da perfeição. Pudera eu acrescentar que é mãe do tumulto, da incongruência, da irreflexão e do êrro.”
Rui Barbosa, Obras Completas, volume XXIX, tomo II, 1902, p. 71

1. No blogue Causa Nossa, em rubrica a que poderíamos chamar Um pouco mais/menos de…, sff, Vital Moreira debruça-se, numa óptica crítica, sobre notícias de órgãos de comunicação social e aspectos da vida pública, tendo em conta determinados parâmetros: decoro, consistência, seriedade, verdade, cuidado, decência, coerência, pudor, objectividade, rigor, etc. No Causa Nossa, em 21/7/2008 e a propósito de notícia sobre a “promulgação” do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) pelo Presidente da República, Vital Moreira esclarecia que “os tratados internacionais são ratificados pelo PR (e não “promulgados”) depois de aprovados pela AR (e não “ratificados”)”. Rematava Vital Moreira: “Custará assim tanto aos media ter um consultor ou revisor jurídico, para não incorrerem em tantos erros?” Pergunta pertinente. Mas já lá vamos.

2. Há cerca de quatro anos, segundo a Lusa, Carlos Reis invocou os nomes de Vital Moreira e Marcelo Rebelo de Sousa, dizendo que estes eram “a favor das alterações ortográficas”. Não sei se Carlos Reis terá lido o excelente artigo de José de Faria Costa e Francisco Ferreira de Almeida, professores da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (UC), no Diário de Notícias de 13/2/2012. Se não leu, aconselho vivamente a leitura, pois é um texto que merece toda a atenção.

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Onde assinar a ILC: Sindicato dos Professores da Região Centro

Sede SPRC - recepçãoO Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC), com sede em Coimbra, é mais um espaço onde é possível subscrever a ILC.

Aliás, são na verdade dois espaços. É possível subscrever a ILC tanto na sede regional do Sindicato, na Rua Lourenço Almeida Azevedo, como na sede distrital de Coimbra na Praça da República. Na foto vemos o suporte com boletins de subscrição na sede do SPRC.

Eis as moradas completas:
Direcção Regional da FENPROF e sede do SPRC
R. Lourenço Almeida de Azevedo, 21, 3000-250 Coimbra ou Ap. 1020, 3001-552 Coimbra
Tel.: 239 851 660 | Fax: 239 851 666 | E-Mail: sprc@sprc.pt
Direcção Distrital de Coimbra
COIMBRA
Prç. da República, 28 – 1.º, Apartado 1020, 3001-552 Coimbra|
Tel.: 239 851 660 | Fax: 239 851 668 | E-Mail: coimbra@sprc.pt

Recordamos que o Sindicato dos Professores da Região Centro decidiu, em reunião de direcção que teve lugar no passado mês de Maio, não adoptar um Acordo Ortográfico que tem sido alvo de grande polémica e contestação e sobre o qual a Assembleia da República terá ainda uma palavra a dizer.

Com vista a uma decisão final sobre a adopção ou não deste acordo, o SPRC pretende realizar um grande debate ainda em 2012, em Coimbra, após o que a decisão do SPRC se tornará definitiva.

Esta decisão estende-se, naturalmente, ao órgão oficial do SPRC, o jornal RCI (Região Centro Informação), que continua a ser publicado em bom português, a toda a correspondência, à sua página electrónica e a toda a propaganda e informação enviada para as escolas da região centro.

A colaboração que o SPRC presta à recolha de assinaturas para a ILC pela revogação do AO é mais um gesto daquele Sindicato que muito agradecemos e mais um passo nesta luta pela Língua Portuguesa.

[Ver Mapa dos Locais de Recolha.]

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Onde assinar a ILC: Clínica Veterinária do Vale, Valongo

Rua da Estação, 170
4440-553 VALONGO

http://clivetvale.pai.pt/

A partir de agora poderá subscrever a ILC pela revogação da entrada em vigor do “acordo ortográfico” também naquele local. Os nossos agradecimentos à Gerência, que se disponibilizou voluntariamente para o efeito.

Ver Mapa dos Locais de Recolha.

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«Quero escrever com uma ortografia racional» [Eduardo Cintra Torres]

Li o primeiro livro aos seis anos, e li-o duas vezes de seguida. Era “Os Desastres de Sophia”, da Condessa de Ségur. Era mesmo Sophia, não Sofia, porque a edição das Livrarias Aillaud e Bertrand, que ainda tenho, é anterior à reforma ortográfica da 1ª República. Estranhei a grafia, mas o livro não piorou por isso. Essa reforma ortográfica foi feita com pés e cabeça e simplificou onde tinha de simplificar.

Achei o romance, que é moralista, muito engraçado. Se era bom, o melhor seria ler duas vezes. Foi escrito em diálogos, como o teatro, um género usado no século XIX que infelizmente se perdeu no romance e na novela. Os nossos “escritores” de aeroporto bem podiam usar este estilo, pois poupar-se-iam verbos inúteis e adjectivos insuportáveis na descrição das personagens enquanto falam, entre travessões e vírgulas.

Mais tarde, ao estudar História na licenciatura, contactei muito com o português medieval, moderno e contemporâneo. Algumas investigações que tenho feito sobre a literatura e a vida em Portugal no período final do século XIX e início do século XX, proporcionam-me o contacto com papel velho e grafias antigas. Antes do 25 de Abril convivi com a introdução de algumas normas ortográficas valiosas, como a supressão dos acentos nos advérbios de modo, realmente desnecessários.

Muitas grafias desde que o português despontou vai para um milénio, mas sempre a mesma beleza da língua. A grafia fazia sentido e tem de fazer sentido com a sonoridade, com a origem e com o significado dos vocábulos. Para amarmos as palavras que escrevemos, também temos de amar a forma como as escrevemos, uma letra após a outra e um espaço e uma cedilha e um acento e um hífen e o que for. Do que não gosto do novo “acordo” “ortográfico” é não ser um acordo e não ser ortográfico. É um documento político que violenta uma forma de escrever consensual no meu e noutros países para servir uma estratégia incompetente e submissa de relações internacionais.

Não penso que uma língua tenha de escrever-se da mesma forma nos países que a partilham. O universo anglo-saxónico não tem a mínima preocupação com a diversidade ortográfica nos diversos países. A uniformização não faz sentido para países cultos, adultos e democráticos. Partilham a língua e falam-na de mil e uma maneiras, escrevendo um pouco dessa diferença com diferentes ortografias.

A minha vida, hoje, é em grande medida escrever, escrever artigos de imprensa, académicos, livros. Quero escrever com uma ortografia racional, sem tropeços como os que o aborto ortográfico propõe. Não quero escrever sob a ditadura que me pretendem impor, por ser ditadura e por ser errada. Nem tudo o que está no documento é errado, há algumas actualizações necessárias em alguns aspectos, mas o essencial do documento é negativo.

Por isso subscrevi a ILC e convidei a minha família e os meus amigos a subscreverem também. Não sei se teremos êxito, mas uma iniciativa justa da cidadania é sempre, por existir, um grande sucesso da vontade individual e colectiva.

Eduardo Cintra Torres

[Este texto foi redigido expressamente para a ILC AO90 e foi-nos remetido pelo autor.]

[Imagem gerada em Vistaprint.]

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«Malefícios no ensino do Português» [M.C.V, “Público”, 08.08.12]

Não é postura democrática um Governo isolar-se de quem governa, evidenciando indiferença ou desagrado perante críticas (designadas por “não construtivas”) que colidem com o que deseja impor, mantendo, no entanto, intocáveis as vozes dos que intervêm activamente na satisfação desses desígnios. São várias as situações que o demonstram, nomeadamente no ensino do Português, de que destaco apenas quatro, por uma questão de espaço:
1) A impraticabilidade da TLEBS, com a sua aberrante nomenclatura, em substituição da gramática tradicional, que, apesar de forte polémica, se mantém em todos os programas de Português, imune a resultados nefastos e a intervenções críticas e fundamentadas de professores, linguistas, escritores, jornalistas e encarregados de educação.
2) A estreiteza de espírito que impôs a valorização da oralidade sobre a escrita, que atribuiu igual importância a textos funcionais e literários (os últimos designados como “recreativos”), e que considerou “pura perda de tempo” a contextualização histórico-cultural de um autor, inclusive com a indicação do lugar onde nasceu: “Freixo de Espada à Cinta ou outra coisa qualquer”, palavras do Prof. João Costa, brilhante mentor da TLEBS, no encontro realizado na Gulbenkian (2011) a propósito do Plano Nacional de Leitura.
3) A incongruência de o Latim e a literatura portuguesa como opções o “Curso de Línguas e Literaturas”, crendose natural que um futuro professor de Português não saiba Latim, base da língua portuguesa. Há quem, no entanto, se esforce contra este absurdo. Uma jovem professora de Português, Susana Marta Pereira, a fazer o mestrado em Ensino do Português e das Línguas Clássicas (FCSHUNL), demonstrou, na escola onde ensina, Externato Nuno Álvares (Palmela) e nas escolas Pedro Nunes e Camões (Lisboa) onde vai completar o mestrado, quanto os alunos podem ganhar afeição pela língua e, consequentemente, pela escrita e pela leitura, com “o conhecimento do Latim e da mitologia clássica, e a explicação da origem das palavras”. O certo é que, em 2012-2013, haverá a disciplina de Latim em 5 turmas, do 5.º ao 9.º anos (Palmela), e, em Lisboa, a professora Susana Pereira, com o apoio da sua orientadora de estágio, irá também implementar um programa de “Iniciação à Cultura/Língua Clássica”, de frequência livre, para os alunos do 3.º ciclo, com o objectivo de levar esses alunos a escolher, futuramente, o Latim no secundário.
4) Finalmente, a imposição do AO, sem debate sério e científico e numa demonstração de extrema falta de respeito pela vontade dos portugueses. O caos é visível em alguma comunicação social, em instituições e na escola, discutindo já os alunos mais velhos a razão de ser das “novas minúsculas” e o desaparecimento geral das consoantes mudas. Com efeito, em textos escolares, em documentos oficiais, em legendas ou em notícias surgem palavras como expetativa”, “expetante”, “contato”, “contatámos”, “de fato”, “impato”, “tato”, “jato”, “pato”, entre muitas outras, e até “portugal” não tem direito a maiúscula, contrastando, no mesmo texto, e por duas vezes, com o prémio “Portugal Telecom” (Revista do INATEL, n.º 238). Falta só que, curvados perante o número de falantes brasileiros e em nome da pretensa “unidade da língua”, passemos a usar “presidenta ou estudanta”, entre outras similares, obedecendo à lei n.º 12.605, de 3/4/2012, sobre o “Emprego obrigatório da flexão de género para nomear profissão”, recente inovação da “Presidenta” do Brasil.

Em 2011, o Conselho de Ministros afirmou que o AO visava “reforçar o papel da língua portuguesa como língua de comunicação internacional”, mas, entretanto, fecham-se leitorados, dificultam-se as aulas de Português para os filhos dos emigrantes, continuando nós também a desconhecer o quanto tem custado e continua a custar este AO. O Brasil, entretanto, promove congressos com o objectivo de “discutir políticas linguísticas relacionadas à internacionalização do Português brasileiro”. E assim se fazem as cousas, diria Gil Vicente.

Não deixe de consultar o site: www.cedilha.net/ilcao.

Maria do Carmo Vieira

[Transcrição integral de artigo da autoria de Maria do Carmo Vieira. In jornal “PÚBLICO” de hoje, 08.08.2012. Link disponível apenas para assinantes do jornal.]

[Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito (quando dizem ou se dizem) e são por definição de interesse público (quando são ou se são).]

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