«Ortografia no Verão» [Hermínia Castro, PÚBLICO, 05.08.2012]

artigo HC

Ortografia no Verão

Por Hermínia Castro

Imaginemos que nos diziam que doravante tínhamos de passar a representar o céu, por exemplo, de amarelo, em vez de ser de azul. Perguntávamos: porquê? “Porque sim.” Dizíamos: nós sabemos que não passa de uma representação e de uma convenção, mas porquê isto? Traz alguma vantagem? Fizeram estudos? Resolve alguma coisa? Melhora alguma coisa? E a resposta era sempre a mesma: “Porque sim”. Como se a opinião não fundamentada de meia-dúzia pudesse obrigar todos a fazer uma mudança sem sentido.

Agora troquemos a tonalidade do céu pela ortografia do português. Porque as alterações iriam unificar e simplificar, iriam aproximar a escrita da oralidade, seriam uma evolução da língua… ou “porque sim”? Vejamos.

Temos o irresistível argumento de aproximar a escrita da oralidade. Com pronúncias tão distintas como as dos alentejanos, timorenses, brasileiros, moçambicanos, cabo-verdianos, minhotos, guineenses, são-tomenses, açorianos, angolanos, etc., nada mais lógico senão dizer-lhes a todos que escrevam como pronunciam…? Quando estamos ao mesmo tempo a “unificar”, claro! Isto só como anedota. Será possível que haja quem ainda não tenha visto a contradição gritante deste disparate?!?

Mais irresistível ainda é o argumento de que temos que “ivoluir”. Impagável. Como se evoluir alguma vez pudesse significar cilindrar a riqueza e a diversidade do que quer que fosse, quanto mais de uma língua viva. Então porquê estas alterações, que implicam a desestabilização da ortografia com a introdução de milhares de novas facultatividades – leia-se também: ambiguidades – e com a invenção de “regras” absurdas e impossíveis de seguir, pois mais não são do que a consagração das excepções e dos erros? Ora, porque sim e está tudo dito.

Já sabemos que o destino de tudo no Universo é a entropia, mas será necessário dar um empurrão tão grande à ortografia da nossa língua? Temos uma ortografia que não é perfeita (aliás, nenhuma língua tem uma ortografia perfeita), mas introduzir mudanças aleatórias não significa melhorá-la. Muito pelo contrário.

Bem, então e agora? “Já está”, não é? Não! Felizmente, há uma maneira muito simples de resolver tudo isto: revogar (anular) a entrada em vigor do “acordo” “ortográfico” em Portugal. (A sério? Sim, sim, muito a sério.) Basta juntarmos 35.000 assinaturas (em papel) para entregarmos a Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) Contra o Acordo Ortográfico. É uma proposta de lei, tal e qual como as que são submetidas pelos deputados, mas com a diferença de sermos nós, os cidadãos, a apresentá-la. Parece-me uma óptima ideia. Passamos a vida a reclamar e a dizer que se fôssemos nós faríamos assim e assado e cozido e frito. Pois façamos, então. Já temos largos milhares de subscritores, precisamos de mais uns quantos. Se cada pessoa que ler este texto (e concordar um bocadinho) subscrever, já serão mais uns milhares. Se depois falar nisso a mais meia dúzia de pessoas, já serão mais meia dúzia de milhares. E assim por diante. Numa onda de cidadania a lavar o país dessa escrita empeçonhada.

É só ir a http://cedilha.net/ilcao, imprimir o formulário de subscrição, preencher, assinar e enviar. Pode enviar-se por correio tradicional ou electrónico (com o impresso digitalizado em anexo). Tem é de ser assinado em papel antes de enviar, que é o requisito fundamental (está tudo explicadinho na página). Bastam cinco minutos. E acreditar que podemos ajudar a reparar este erro tremendo.

Aproveitemos então o Verão, a contemplar o azul (e todas as outras cores) do céu, para pensarmos nas palavras. Queremos ficar com esta imitação patética de ortografia, imposta à força e sem razão, ou preferimos ter uma língua viva, rica e que seguirá o caminho que nós lhe quisermos dar? Pensem e contemplem, verão certamente o que quero dizer. Depois é só enviar o impresso. E voltar à contemplação do céu, mas desta vez com a satisfação de ter feito o que está certo e de ter ajudado a repor um pouco de bom senso no país. Para saber mais: http://cedilha.net/ilcao

[Transcrição integral de artigo da autoria de Hermínia Castro. In jornal “PÚBLICO” de hoje, 05.08.2012 – link disponível para assinantes.]

[Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito (quando dizem ou se dizem) e são por definição de interesse público (quando são ou se são).]

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2012/08/05/ortografia-no-verao-herminia-castro-publico-05-08-2012/

«Fernando Pessoa e a ortografia» [M.C.V., revista “Villa da Feira”]

FERNANDO PESSOA E A ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA
E
O ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990

«O Estado nada tem a ver com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno […].»
Fernando Pessoa

«Minha pátria é a língua portuguesa» é a frase poética de Bernardo Soares que mais tem sido citada, e, a nosso ver, de forma desajustada, a propósito do AO de 1990. Com efeito, desintegrada do seu contexto e das suas influências perde o seu sentido, e daí a manipulação de que lamentavelmente tem sido alvo, enganando o incauto que, por desconhecimento do texto em que a mesma se encontra, dará razão ao mistificador. Integrada no “Livro do Desassossego”, de autoria deste semi-heterónimo de Fernando Pessoa, «ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa», a referida frase, assim isolada, parece servir, e mesmo assim forçadamente, os objectivos dos acordistas, mas se nos dermos ao trabalho, e ao prazer, de a ler no contexto em que se insere, compreenderemos o seu significado. Assim, transcreverei do texto de Bernardo Soares o suficiente para que o possamos compreender, não deturpando as palavras do seu autor:
«Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a página mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em quem se bata, a orthographia sem ípsilon […]. Sim, porque a ortographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»

Bernardo Soares, neste seu texto, confessa, indirectamente, o seu apoio a Fernando Pessoa, comungando da mesma aversão pela reforma ortográfica de 1911 (que o poeta considerou «desnecessária e não urgente») e pelo acordo de 1931 (entre Portugal e o Brasil)1, caracterizando-se os dois momentos pela valorização da escrita fonética em detrimento da ortografia etimológica, que, no entanto, constitui a marca “da cultura greco-latina, origem do mundo moderno”2. Nesse território abstracto, que constitui a “pátria”, identificada com a “língua portuguesa”, revelou-se conscientemente Pessoa, como “poeta-dramático”, criador de vários “actores” e “amigos”, veiculando no uso da palavra escrita e criativa uma cultura que se universalizará, no cumprimento desse Quinto Império espiritual que a “Mensagem” (1934) anuncia.

Continue reading

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2012/08/02/fernando-pessoa-e-a-ortografia-m-c-v/

Eduardo Cintra Torres subscreveu a ILC

Eduardo Cintra Torres nasceu em Lisboa no século XX (está bem, pronto: em 1957). Foi o sexto de sete irmãos de uma família lisboeta com inúmeras ascendências estrangeiras pelos dois lados (castelhanas, catalã, basca, inglesa, francesa e alemã). Esses sangues europeus misturaram-se sem vencer o alfacismo e o nosso maravilhoso amor-despeito português pela nossa terra. A família mudou-se para os arredores, Paço de Arcos, então uma vila pequena e com muito terreno livre. A estação dos comboios e, portanto, Lisboa, estavam a dois passos de casa.

Fez o liceu em Oeiras e a licenciatura em História, que terminou ao mesmo tempo que o serviço militar obrigatório, sem interrupções, em 1980. O tempo não estava para investigação. Não havia bolsas, assim o entendeu, senão para os amigos e servos dos professores. Foi trabalhar para o jornalismo e, mais tarde, para uma empresa familiar. Casou-se cedo e mantém o casamento há 34 anos, com possibilidades de entrada no Livro Guiness de Recordes. Tem dois filhos.

Não gostou do afastamento do trabalho intelectual e regressou ao jornalismo como crítico de televisão e de media e do mais que quisesse no Público, a partir de 1996, baptizando a sua coluna, depois página, com o nome de Olho Vivo. Ali ficou até 2011, quando lhe foi proposto passar para o online muitos meses depois e em condições a definir. Mais tarde, leu no jornal que tinha saído no âmbito de uma “reorientação ideológica” das páginas de opinião, o que até hoje não entendeu por desconhecer, quer a sua orientação ideológica, quer a que lhe atribuíram para essa justificação pública do termo da colaboração. Alguns leitores escreveram-lhe mensagens pessoais e um ou outro disseram ter chorado com o fim do Olho Vivo, mas tomou essa informação por exagerada amabilidade. Outros leitores, que não escreveram mensagens, terão suspirado de alívio. Na rádio pública nacional, dois comentadores rejubilaram e um deles disse que assim ficava sem papel de jornal para limpar as partes.

Enquanto escrevia para o Público, entendeu que, para ser diferente e alcançar o patamar de qualidade que pretendia para si mesmo, precisava de estudar comunicação e media. Enquanto trabalhava, fez o Mestrado em Comunicação e Cultura no ISCTE. Sem bolsas. A tese foi publicada em livro: A Tragédia Televisiva (Lisboa, ICS, 2006). Começou a dar aulas na Universidade Católica em 2004 e, enquanto continuava a colaboração no Público e a coluna de análise de publicidade no Jornal de Negócios, iniciada em 2003, fez o doutoramento em sociologia, terminado em 2010 no Instituto de Ciências Sociais. Sem bolsas. A tese, intitulada A Televisão e a Multidão: Representações Contemporâneas da Efervescência Colectiva, deverá ser publicada em livro no final de 2012.

Este será o seu 14º livro. Os títulos dos restantes, que aqui se omitem para poupar espaço e paciência do leitor, demonstram o seu maior defeito: o seu eclectismo, uma curiosidade e um interesse em múltiplos temas que o levam a querer mudar e, no fundo, a começar de novo em cada investigação. As áreas que mais lhe interessam são os estudos televisivos numa perspectiva sociológica e de análise textual, a análise de publicidade e a sociologia da literatura. Neste último domínio, já publicou meia dúzia de artigos sobre as representações da multidão na literatura no período aproximado de 1870-1930, em especial a portuguesa, mas também a francesa. Pretende continuar nesta investigação solitária por mais alguns anos, alargando-a a representações icónicas da multidão no mesmo período, nomeadamente na pintura, cinema e fotografia.

É professor auxiliar na Universidade Católica, actividade de que gosta muito, dando actualmente aulas sobre televisão, publicidade, ética da comunicação e técnicas de comunicação audiovisual.

Em 2011, no mesmo dia em que saiu do Público, foi acolhido pelo Correio da Manhã, onde baptizou a página com o nome de Panóptico, com “p” no “óptico”. O nome permitiu manter viva a dinastia do falecido Olho Vivo e sugerir que a coluna de opinião olha em todos os sentidos, e não apenas para a televisão.

Além dos livros, artigos e aulas, fez muitas outras coisas, indicando aqui aquelas de que mais se orgulha e omitindo as que nem tanto: programas de rádio, nomeadamente de música pop-jazz da América, um dos quais, colectivo, ganhou um prémio do jornal Sete, o único prémio da sua vida; programas de televisão; um argumento de ficção original para um telefilme, em que representou o papel de trinta segundos de um apresentador de noticiário; materiais educativos para o ministério da Educação, nomeadamente um CD-ROM duplo de literacia audiovisual, o primeiro do género, distribuído em todas as escolas do país. Também participou em dois grupos de trabalho sobre televisão, independentes, de iniciativa governamental, e que considera serviço público, tal como a tropa.

E chega. Quanto mais anos, mais curtas deveriam ser as notas biográficas, mas a vaidade não permite reduzir esta. Quanto a ficção escrita, que gostaria de tentar, mesmo que fosse já na companhia de S. Pedro ou de Lucifer, publicou apenas um conto, chamado A Biblioteca, que um site literário publicou há anos e já não está online. Houve um leitor, o único que comentou algures no ciberespaço, que gostou. Mas deverá ter sido por engano.

Eduardo Cintra Torres subscreveu a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.

Este é mais um perfil publicado na “galeria” de subscritores, activistas e apoiantes da nossa ILC.

Nota: esta publicação foi autorizada pelo subscritor, que nos enviou, expressamente para o efeito, a sua nota biográfica.

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2012/08/02/eduardo-cintra-torres-subscreveu-a-ilc/

Onde assinar a ILC: Arte dos Sabores, Lagos

Agora já pode subscrever a ILC pela revogação da entrada em vigor do “acordo ortográfico” também na Arte dos Sabores, em Lagos. A proprietária, Patrícia Silva, envia-nos estas simpáticas palavras:

A Arte dos Sabores tem todo o gosto em colaborar com este movimento.

 

Breve descrição:

A Arte dos Sabores (Rua 25 de Abril, n.º 38, em Lagos) é um espaço agradável para estar com amigos, aceder a internet ou mesmo ler um livro. Chás quentes ou frios, Saladas, Batidos ou crepes são alguns dos produtos deliciosos que temos para si.

Mais um estabelecimento no mapa dos locais de recolha de assinaturas!

Se possui um estabelecimento e pretende apoiar a iniciativa, basta fazer download do cartaz e do impresso de subscrição para que os seus clientes possam subscrever a ILC. Depois remeta-nos um cartão-de-visita da casa para que ela apareça também neste mapa.

 

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2012/08/01/onde-assinar-a-ilc-arte-dos-sabores-lagos/

Onde assinar a ILC: Pastelaria Mimo, Lagos

A partir de agora também ali poderá subscrever a ILC pela revogação da entrada em vigor do “acordo ortográfico”.

Ver mapa dos locais de recolha de assinaturas.

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2012/08/01/onde-assinar-a-ilc-pastelaria-mimo-lagos/