«Quero escrever com uma ortografia racional» [Eduardo Cintra Torres]

Li o primeiro livro aos seis anos, e li-o duas vezes de seguida. Era “Os Desastres de Sophia”, da Condessa de Ségur. Era mesmo Sophia, não Sofia, porque a edição das Livrarias Aillaud e Bertrand, que ainda tenho, é anterior à reforma ortográfica da 1ª República. Estranhei a grafia, mas o livro não piorou por isso. Essa reforma ortográfica foi feita com pés e cabeça e simplificou onde tinha de simplificar.

Achei o romance, que é moralista, muito engraçado. Se era bom, o melhor seria ler duas vezes. Foi escrito em diálogos, como o teatro, um género usado no século XIX que infelizmente se perdeu no romance e na novela. Os nossos “escritores” de aeroporto bem podiam usar este estilo, pois poupar-se-iam verbos inúteis e adjectivos insuportáveis na descrição das personagens enquanto falam, entre travessões e vírgulas.

Mais tarde, ao estudar História na licenciatura, contactei muito com o português medieval, moderno e contemporâneo. Algumas investigações que tenho feito sobre a literatura e a vida em Portugal no período final do século XIX e início do século XX, proporcionam-me o contacto com papel velho e grafias antigas. Antes do 25 de Abril convivi com a introdução de algumas normas ortográficas valiosas, como a supressão dos acentos nos advérbios de modo, realmente desnecessários.

Muitas grafias desde que o português despontou vai para um milénio, mas sempre a mesma beleza da língua. A grafia fazia sentido e tem de fazer sentido com a sonoridade, com a origem e com o significado dos vocábulos. Para amarmos as palavras que escrevemos, também temos de amar a forma como as escrevemos, uma letra após a outra e um espaço e uma cedilha e um acento e um hífen e o que for. Do que não gosto do novo “acordo” “ortográfico” é não ser um acordo e não ser ortográfico. É um documento político que violenta uma forma de escrever consensual no meu e noutros países para servir uma estratégia incompetente e submissa de relações internacionais.

Não penso que uma língua tenha de escrever-se da mesma forma nos países que a partilham. O universo anglo-saxónico não tem a mínima preocupação com a diversidade ortográfica nos diversos países. A uniformização não faz sentido para países cultos, adultos e democráticos. Partilham a língua e falam-na de mil e uma maneiras, escrevendo um pouco dessa diferença com diferentes ortografias.

A minha vida, hoje, é em grande medida escrever, escrever artigos de imprensa, académicos, livros. Quero escrever com uma ortografia racional, sem tropeços como os que o aborto ortográfico propõe. Não quero escrever sob a ditadura que me pretendem impor, por ser ditadura e por ser errada. Nem tudo o que está no documento é errado, há algumas actualizações necessárias em alguns aspectos, mas o essencial do documento é negativo.

Por isso subscrevi a ILC e convidei a minha família e os meus amigos a subscreverem também. Não sei se teremos êxito, mas uma iniciativa justa da cidadania é sempre, por existir, um grande sucesso da vontade individual e colectiva.

Eduardo Cintra Torres

[Este texto foi redigido expressamente para a ILC AO90 e foi-nos remetido pelo autor.]

[Imagem gerada em Vistaprint.]

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7 comentários

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    • Pedro Alves on 9 Agosto, 2012 at 15:23
    • Responder

    O autor concorda com a supressão do acento nos advérbios. Então gostaria que ele me dissesse como justifica a abertura duma vogal anterior à antepenúltima sílaba, sem que tenha um acento grave.
    Será que ele desconhece que os acordeiros usam esse, e outros exemplos, para dizerem que os acentos, ou certas consoantes «mudas», não são necessários para abrir vogais, e que continuaremos a dizer «espectadores», apesar de passarmos a escrever «espetadores»?
    Já agora, como justifica o autor que digamos «Pôrto» e escrevamos «Porto»?
    Além de ser palavra grave, ainda tem o «r» para abrir a vogal!
    E «flôr»?
    Enquanto as pessoas não rejeitarem a reforma que acabou com estes acentos – e, antes dela, a supressão do trema – os acordeiros agradecerão.

  1. O comentário de Pedro Alves toca em coisas importantes. O artigo está bem escrito mas é moderado e faz concessões. Para um acordo são é necessário fazê-las de parte a parte; foi o que sucedeu em 45 e em 73. Não já em 90; neste caso as concessões feitas são precisamente as renegadas de 45 e servilmente concedidas por Portugal, que lealmente cumpriu tudo o que acordou, em 45, em 73, já para não falar de 1931. E não é notável que o estigma de 1911 faça cair o odioso sobre a parte cumpridora?! (1911 não foi um acordo, foi uma reforma para vigorar em Portugal; não incluía terceiros, muito menos lhe imporia deveres, como não impôs.)
    O inegável é que as concessões de 73 foram nefastas. Se assim não fora (fôra) não haveria tanta gente a marcar com acento agudo a subtónica nos advérbios de modo e nos diminutivos; os portugueses necessitam de marcar tais sílabas, sem o que a escrita lhes fica menos clara. Nada disto sucede com os brasileiros, cujo génio da linguagem é diferente já do dos portugueses. A supressão dos acentos em 73 só se não reflectiu na oralidade por uma razão muito simples: a pronúncia dos nomes e dos adjectivos é muito viva na mente de qualquer locutor e a sua flexão com os sufixos «-mente» enuncia-se como se palavras compostas fossem (confronte-se p. ex. «técnica-mente», «política-mente», &c. com «técnico-pedagógico», «político-social»). Já a supressão do trema em 45 (ou anteriormente do acento grave) para marcar a diérese foi muito mais funesta; vede os exemplos de «seqüestro», «païsagem», «saüdade» que mais se ouvem dizer «sequestro», «paisagem», e «saudade» ou «soudade».
    Só recuando a 1910 (ou 1906 por causa duma diatribe brasileira em 1907 de que pouco se fala) se esbateriam na escrita as diferenças da língua entre o Brasil e Portugal. A etymologia é que é o cimento da unidade orthographica, não a orthoépia. Quem não entenda isto ou anda distraído ou está de má fé.
    Houvesse ele coherencia…

    • Maria do Carmo Vieira on 10 Agosto, 2012 at 9:39
    • Responder

    Felicito os dois intervenientes anteriores, mas sobremaneira o último pela paciência da sua rigorosa e fundamentada argumentação.
    Bem-hajam

    • Jorge Teixeira on 10 Agosto, 2012 at 19:38
    • Responder

    Excelente post, Bic Laranja.

  2. Agradeço a generosidade da sr.ª professora Maria do Carmo Vieira e do sr. Jorge Teixeira, mas o mérito que vêem no meu comentário vem inteirinho das serenas palavras e decidida opinião de Cintra Torres, e das pertinentes observações do sr. Pedro Alves.
    Ponto assente é que um acordo como o de 90 só se faria (como fez) muito além do que já era aceitável, mesmo se não fôra feito com os pés como foi o caso.
    Cumpts.

    • Inspector Jaap on 10 Agosto, 2012 at 23:36
    • Responder

    E que precisados andamos todos nós, os amantes da maravilhosa Língua Portuguesa, de alguém que nos conforte e alumie nesta (nova?) “Idade das Trevas”, como os eruditos autores destes comentários; é um refrigério que nos ajuda a suportar as provações destes vendilhões da Pátria e Cultura portuguesas.
    O meu obrigado a eles.
    Cumpts

    • Inspector Jaap on 10 Agosto, 2012 at 23:44
    • Responder

    Leia-se … provações provocadas por estes…
    Cumpts

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