Quando Cristo foi crucificado por volta do ano 30/32 da nossa era, o Império Romano ocupava uma vasta área que abrangia desde a Ásia Menor até à Península Ibérica, incluindo a maior parte da Europa e todo o Norte de África. Com o correr dos tempos, e devido à inevitável vitalidade que as línguas têm como coisas vivas que são, o latim popular falado na Dácia acabou por se transformar no actual romeno, tal como o falado na Itália no actual italiano, na Gália no actual francês, na Hispânia no catalão, castelhano, galaico-português, etc., etc.
Durante algum tempo o latim da Roma originária manteve uma aparência de identidade sustentada, sobretudo desde que a Igreja o adoptou como língua eclesiástica e litúrgica antes do início da Alta Idade Média; mas mesmo esse foi sofrendo alterações ao ponto de um estudioso de latim clássico ter dificuldade em entender um texto em latim eclesiástico do século XII ou XIII, por exemplo.
Imaginemos que um folgazão dessas eras, insuflado de ideias “ortografistas”, se lembrava de tentar impor ao latim de Roma uma “grafia unificada” misturando, com as inerentes “facultatividades”, as formas do latim popular gaulês, dácio, lusitano, itálico… Só esta ideia tonta dá vontade de rir, e obviamente nenhum estudioso no seu juízo perfeito a consideraria, a menos que se tratasse de um escritor de ficção científica que inventasse uma novela de “história alternativa” passada num universo paralelo, onde esse caricato fenómeno tivesse ocorrido com todas as suas delirantes (e quiçá interessantíssimas) consequências.
Bom, tudo é possível no fantástico universo das ficções, e tal fantasia até poderia dar origem a um trepidante filme em 3-D com imaginosos efeitos especiais e outros truques que encantassem as plateias.
Jan 28 2013
«Império da língua portuguesa: ascensão e queda?» [António de Macedo, PÚBLICO, 28.01.2013]
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Jan 25 2013
«Haja vergonha na cara» [Isabel Buescu, mensagem ao CPF]
De: CPF [mailto:cpf@cpf.org.pt]
Enviada: segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013 15:50
Para: 'CPF'
Assunto: conferência "A Sociedade Civil no Plano de Ação de Brasília" | 31 jan 2013 | Academia de Ciências de Lisboa


Caros Associados e Amigos,
Irá realizar-se no próximo dia 31 de janeiro, na Academia de Ciências de Lisboa, a conferência “A Sociedade Civil no Plano de Ação de Brasília” que conta com o apoio institucional do CPF.
Esta conferência enquadra-se no ponto VI da Declaração de Brasília que visa dinamizar através da Sociedade Civil, a promoção e difusão da língua portuguesa.
Pode consultar aqui o programa da conferência e proceder à sua inscrição clicando aqui.
Mais detalhes podem ser consultados no site da conferência.
Com os melhores cumprimentos,
Mário Curveira Santos
Secretário-Geral
Email: mcs@cpf.org.pt
Phone: +351 213 538 280
Mobile: +351 964 034 698
R. Rodrigo da Fonseca 176 6ºE
1070-239 Lisboa Portugal
www.cpf.org.pt
Enviada: segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013 17:23
Assunto:
Exmos. Senhores
Deve haver algum engano. Estamos em Portugal, é triste receber este tipo de notícias e de “eventos” que no fundo estamos todos a pagar. Haja vergonha na cara e um mínimo de decência perante todo o trabalho de destruição da Língua Portuguesa, tal como é falada e escrita em Portugal
O plano de acção que tivermos em relação ao nosso país no mundo tem de passar pelo Brasil, é claro, mas não nesta posição infame de subserviência e de bajulação. Um dia alguém há-de julgar tudo isto, todo este oportunismo e velhacaria. É muito triste, mas ao mesmo tempo ilustrativo dos tempos que correm, ver onde chegou a Academia das Ciências. Felizmente, há ainda muita gente com inteligência, cultura e coluna vertebral em Portugal.
Cumprimentos
Ana Isabel Buescu
Professora na FCSH – UNL
Lisboa
[A publicação desta troca de correspondência foi autorizada por Ana Isabel Buescu.]
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Jan 24 2013
«Como professor e como galego…» [carta de Bento (Galiza) ao G.A.O.]
De: Bento
Para: GRUPO DE AMIGOS DE OLIVENÇA
R/ Portas de Santo Antão, 58
(Casa do Alentejo)
1150-268 LISBOAolivenca@olivenca.org
http://www.olivenca.org———————————————–
Sres da Associação “Grupo dos Amigos de Olivença” (GAO):
Sou membro do GAO desde há bastantes anos (…) Venho a ver com tristeza, ao receber os seus últimos envios, que GAO adoptou o chamado “Acordo Ortográfico”; considero o assim chamado AO90 uma das maiores agressões recebidas pola nossa Língua e, portanto, polo nosso acervo comum. Ele destrói as raízes etimológicas da Língua Galego-Portuguesa, destruição ditada unicamente pola subserviência face a critérios economicistas e quantitativistas.
Não repetirei aqui e agora os montes de argumentos que demonstram o absurdo de tal AO90, imposto pola força da coacção polos poderes do estado através do ensino e dos meios de intoxicação social…é doloroso ver nos manuais escolares o novo engendro, que medra no ensino (…) mesmo que isso implique o abandono e o entreguismo de qualquer princípio ético ou cultural que se supom deve haver nos docentes.
Como professor e como galego que vê, desde 1982, como a nossa Língua se escreve com ortografia castelhana cá em Galiza, ortografia igualmente absurda e destrutora da nossa identidade, e imposta igualmente polos mesmos meios coercivos (incluindo a ameaça, o medo e a chantagem moral)…é por todo isso que estou duplamente sensibilizado com a implantação deste infame AO90.
Querendo ser coerente com os meus ideais de defesa e respeito polo nosso acervo lingüístico comum, tenho feito o propósito de não colaborar (na medida do possível) com quem ajude a impor este dislate: não compro livros assim escritos, não leio os jornais que o adoptaram, não compro filmes legendados em acordês…
É por isso polo qual agradeço que, desde a recepção da presente e enquanto a sua associação continue a adoptar dito AO90, se me deixe de considerar sócio (…) Não quero, conseqüentemente, continuar a receber o seu boletim nem quaisquer outras comunicações assim redigidas.
Tenho que lamentar apenas que, sendo o GAO uma associação que polos seus ideais sabe sobradamente das misérias e ruindades dos poderes de facto, esta adesão de vocês ao AO90 se tenha feito com o que isso implica de adesão a uma política de estado moralmente reprovável e ruim.
Venho a despedir-me, com tristeza e com saudades de encontrar vozes e atitudes mais independentes e críticas face à política cultural e lingüística de sarjeta que temos a desgraça de sofrer.
Bento (GALIZA)
[Transcrição de Carta manuscrita enviada por Bieito Seivane ao G.A.O. em 24 de Janeiro de 2013. Cópia enviada por email para nós, com sugestão de publicação, pelo autor.]
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Jan 23 2013
Parlamento: formação de Grupo de Trabalho sobre o AO90
12. Requerimento apresentado pelo Grupo Parlamentar do Partido Comunista, que propõe à Comissão de Educação, Ciência e Cultura que crie o Grupo de Trabalho para o Acompanhamento da Aplicação do Acordo Ortográfico, dedicado à dinamização de iniciativas, audições e debates, reunião de contributos científicos, provenientes do mundo da literatura e da cultura em geral, da Universidade e da esfera editorial, para dotar de instrumentos de análise a Assembleia da República, assim assegurando a prossecução do interesse nacional na política da Língua, que constitucionalmente, nos cabe defender e valorizar.
O Sr. Deputado Miguel Tiago (PCP) apresentou o requerimento, destacando que os desenvolvimentos, as implicações e as reacções ao Acordo Ortográfico justificam um conhecimento mais aprofundado da sua aplicação.
A Sra. Deputada Gabriela Canavilhas (PS) fez referência à recente posição do Brasil, considerando que se trata apenas de prolongar o período transitório para a aplicação do Acordo. Em relação a Portugal, lembrou que o conteúdo científico e académico foi sancionado politicamente, encontrando-se a decorrer o período de transição para a sua aplicação, pelo que o PS votará favoravelmente o requerimento do PCP, no sentido do acompanhamento do estabelecimento do vocabulário ortográfico comum.
O Sr. Deputado Luís Fazenda (BE) manifestou o seu apoio ao requerimento do PCP, considerando que se deve ouvir a sociedade civil, a academia e as entidades científicas, no sentido de se definir a bondade do Acordo.
O Sr. Deputado Michael Seufert (CDS-PP) referiu-se à utilidade da iniciativa do PCP, considerando que permitirá fazer uma análise da aplicação do Acordo.
O Sr. Deputado Amadeu Albergaria (PSD) anunciou o voto favorável do PSD em relação à proposta do PCP.
Submetido a votação, o requerimento foi aprovado por unanimidade dos Deputados presentes do PSD, PS, CDS-PP, PCP e BE, registando-se a ausência do PEV.
O Sr. Presidente da Comissão referiu-se à oportunidade desta iniciativa, destacando a importância de se dispor de um conhecimento seguro sobre esta matéria. Propôs ainda que o GT diligencie no sentido de conhecer a posição dos outros países, designadamente de Angola, Cabo Verde e Brasil. Por último, o Sr. Presidente solicitou aos coordenadores dos Grupos Parlamentares a indicação dos representantes no Grupo de Trabalho, cabendo ao PS a sua coordenação.
[Transcrição parcial (extractos) da Acta número 104/XII/2.ªSL de 8 de Janeiro de 2013. “Links” adicionados por nós.]
[Imagem do quadro publicado no “site” da A.R. Deputados designados para o GT AO90.]Ver “post” anterior sobre a proposta e aprovação da criação deste GT AO90 e também um outro “post” sobre uma visita da ILC ao Parlamento.
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Jan 22 2013
«O monólogo ortográfico» [Luís Menezes Leitão, Jornal “i”, 22.01.2013]
Desde que a presidente do Brasil Dilma Rousseff adiou o acordo ortográfico pelo menos até 2016, tornou-se evidente que Portugal vai ficar a escrever sozinho de acordo com as novas regras.
Efectivamente, Cabo Verde anunciou só aplicar o referido acordo a partir de 2019 e Angola e Moçambique não têm qualquer intenção de o aplicar ainda neste século. Só o Estado português, com a falta de senso que sempre o caracterizou, é que já começou a adoptar uma nova ortografia que a maioria da sua sociedade civil rejeita totalmente. O país cairá assim no ridículo de ter uma ortografia oficial completamente absurda e que mais ninguém aplicará no mundo lusófono.
O acordo ortográfico é um verdadeiro crime contra o património cultural português, destruindo as raízes etimológicas da nossa língua numa obsessão simplificadora que só leva à multiplicação de palavras homógrafas. Quando Fernando Pessoa proclamou que “a minha pátria é a língua portuguesa”, acrescentou que “a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha”. As nossas antigas colónias continuam a vestir as palavras com o manto régio da ortografia do português que lhes deixámos. Já Portugal prefere ficar isolado a escrever num “acordês” que nem os seus próprios cidadãos querem adoptar.
Não haverá ninguém com coragem para pôr fim a este disparate?
Luís Menezes Leitão
Professor da Faculdade de Direito de Lisboa
[Transcrição integral de artigo de Luís Menezes Leitão no jornal i de 22.01.2013.]
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Desde que a presidente do Brasil Dilma Rousseff adiou o acordo ortográfico pelo menos até 2016, tornou-se evidente que Portugal vai ficar a escrever sozinho de acordo com as novas regras.