«O monólogo ortográfico» [Luís Menezes Leitão, Jornal “i”, 22.01.2013]

logotipojornaliDesde que a presidente do Brasil Dilma Rousseff adiou o acordo ortográfico pelo menos até 2016, tornou-se evidente que Portugal vai ficar a escrever sozinho de acordo com as novas regras.

Efectivamente, Cabo Verde anunciou só aplicar o referido acordo a partir de 2019 e Angola e Moçambique não têm qualquer intenção de o aplicar ainda neste século. Só o Estado português, com a falta de senso que sempre o caracterizou, é que já começou a adoptar uma nova ortografia que a maioria da sua sociedade civil rejeita totalmente. O país cairá assim no ridículo de ter uma ortografia oficial completamente absurda e que mais ninguém aplicará no mundo lusófono.

O acordo ortográfico é um verdadeiro crime contra o património cultural português, destruindo as raízes etimológicas da nossa língua numa obsessão simplificadora que só leva à multiplicação de palavras homógrafas. Quando Fernando Pessoa proclamou que “a minha pátria é a língua portuguesa”, acrescentou que “a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha”. As nossas antigas colónias continuam a vestir as palavras com o manto régio da ortografia do português que lhes deixámos. Já Portugal prefere ficar isolado a escrever num “acordês” que nem os seus próprios cidadãos querem adoptar.

Não haverá ninguém com coragem para pôr fim a este disparate?

Luís Menezes Leitão

Professor da Faculdade de Direito de Lisboa

[Transcrição integral de artigo de Luís Menezes Leitão no jornal i de 22.01.2013.]

 

 

Print Friendly, PDF & Email
Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2013/01/22/o-monologo-ortografico-luis-menezes-leitao-jornal-i-22-01-2013/

11 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

    • Jorge Teixeira on 22 Janeiro, 2013 at 14:42
    • Responder

    Eu tenho. Quem me nomeia primeiro-ministro?

  1. Apoiado!

    • maria coelho on 22 Janeiro, 2013 at 17:05
    • Responder

    À medida que os “intelectuais” vão crescendo no nosso País e crescem como cogumelos, o
    País vai diminuindo… não se produz nada, não há dinheiro, não há empregos, o povo voltou a ser triste e até a Língua Portuguesa, que pertence à identidade do País corre sérios riscos, ao não ser preservada. Devia ser daqui que partissem as directivas para se continuar com um português correcto, mas atendendo ao que já está feito nós é que corremos o risco de perdermos tudo, até a Língua. Estamos mesmo cada vez mais pequenos e mais subservientes.

  2. Apesar dos que baixam os braços e dizem sim a este disparate, há quem grite bem alto o seu inconformismo, aumentando o caudal dos que se batem contra o AO. Mais um artigo apontando o gigantesco absurdo que é a insistência e defesa do “acordês”… que ameaça deixar Portugal sozinho. “Não haverá ninguém com coragem para pôr fim a este disparate?”, pergunta o autor. Eis uma questão que deverá ser endereçada à Assembleia da República e ao Presidente da República, quanto antes. Embora da parte do autor de “Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, pouco se possa esperar. Ao contrário de Dilma Rousseff, que tem dúvidas… e coragem!

    • Maria Miguel on 22 Janeiro, 2013 at 18:26
    • Responder

    Professor, o Senhor disse tudo em tão poucas palavras! Reverencio-o!
    O seu texto termina com uma interrogação tão superior, tão avassaladora! “Não haverá ninguém com coragem para pôr fim a este disparate?”
    Eu respondo com uns tópicos: A admissão, por parte dos órgãos de comunicação social, que se deixou enganar, levaria a que as Escolas acordassem. Ao mesmo tempo, todas as empresas (que não lucraram)… processariam os culpados do crime, e os Tribunais cumpririam a lei, depois de anularam decretos feitos à medida. Ora, os crimes são pagos pelos respectivos autores. Certo? Ah! E entretanto o que aconteceria aos deputados que faltaram no dia da votação do disparate e aos que ficaram para votar?

    • Gonçalo on 22 Janeiro, 2013 at 18:51
    • Responder

    mas se não há possibilidade de promover um abaixo assinado, ou petição, ou referendo contra o acordo, faça-se um assassinato

    • Hugo X. Paiva on 22 Janeiro, 2013 at 20:02
    • Responder

    Amigo Gonçalo, não sei se anda distraído, mas a proposta desta casa é exactamente levar à assembleia a revogação do “acordo”

    http://ilcao.com/?page_id=1708

  3. Ninguém aqui vai matar por isto, mas morre-se dele.
    Cumpts.

  4. E que tal equacionar interpôr uma Providência Cautelar contra o diploma que institui o bicho ou abrir um processo por danos patrimoniais ou algo do género?
    Há que actuar.

    1. Caro Paulo Selão, nós também achamos que há que actuar e por isso mesmo não temos feito outra coisa além de actuar.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.