A nossa língua está a ser atacada, mutilada e destruída por um monstro a que chamam acordo ortográfico, introduzido no nosso país pelo anterior governo e carinhosamente tratado pelo actual, com o beneplácito de V.Exª que o promulgou, e até hoje nada foi feito para evitar essa tragédia.
Nem os conselhos e alertas que têm surgido de todo o lado a chamar a atenção para a inutilidade do acordo, vindos de linguistas, escritores, juízes, historiadores, deputados, autarcas, professores, tradutores, jornalistas, etc., produziram qualquer efeito.
Infelizmente, já se ouve ao longe o som das trombetas anunciar o fim da estrada da nossa língua, e já começa a sentir-se o martelar no caixão da desgraça, que há-de servir para o funeral do nosso idioma, se não forem tomadas as medidas urgentes que se impõem para acabar com esse monstro.
O Estado não tinha nem tem o direito de legislar sobre matérias que dele não dependem, nem a ele competem, como é o caso da evolução da nossa língua em qualquer das suas vertentes, sendo a ortografia uma dessas vertentes.
A evolução da nossa língua foi-se adquirindo ao longo do tempo, com a introdução de alguns ajustamentos, mas foram feitos com rigor, com inteligência, por especialistas competentes, com conhecimento profundo do nosso idioma, e não com acordos inúteis e prejudiciais para o nosso país, nem com leis autoritárias e decretos abusivos.
Sr. Presidente. Os próprios responsáveis pelo acordo não estavam preparados para cumprir a sua missão, e demonstraram claramente quer no próprio acordo, quer na nota explicativa a sua impreparação, onde escreveram pérolas literárias dignas de registo. Vejamos uma pequenina passagem de uma dessas pérolas:
“Considerando que tais casos se encontram perfeitamente delimitados, como se referiu atrás, sendo assim possível enunciar a regra de aplicação, optou-se por fixar a dupla acentuação gráfica como a solução menos onerosa para a unificação ortográfica da língua portuguesa.” (5.2.4)
Esta explicação absurda, ignorante e inadmissível, só por si, reflecte de forma clara e objectiva a impreparação dos autores do acordo, porque demonstra claramente o contrário daquilo que defendem.
A dupla grafia não une, afasta, duplica, que é bem diferente. A consagração da grafia dupla reflecte a impossibilidade efectiva e incontornável de unificação.
Continue reading