«Devíamos escrever todos brasileiro»

Nuno Artur Silva fala sobre o “acordo ortográfico” numa entrevista televisiva.

Sem comentários.

[Transcrição]
Por exemplo, falávamos da Língua. É o maior valor patrimonial que Portugal tem. É falar por duzentos e tal milhões de pessoas. É uma coisa que tem um potencial extraordinário. Isto ninguém ’tá a pensar nisto. Trocou-se o governo anterior, trocou o possível museu da língua por um museu de artesanato. Quando estava tudo montado para se fazer o museu da língua de repente temos um museu do artesanato. Isto é que são medidas de facto que contam.

{Jornalista: e o acordo ortográfico, como é que olha para ele? Já se adaptou ou nem por isso (como professor de português)?}

Não, eu escrevo ainda consoante aquilo que aprendi mas eu acho que o acordo ortográfico é uma coisa que não tem importância, é uma convenção. É assim. Eu vou dizer de outra maneira que pode ser provocatória. Eu acho que nós devíamos escrever todos brasileiro. Porque é a nossa melhor probabilidade de em vez de falar para dez milhões de pessoas falar p’ra duzentos ou trezentos milhões. Isto é. Eu, se for escritor ou se for realizador de cinema ou se for… eu prefiro pensar que vou ter um público potencial de duzentas e tal milhões de pessoas do que ter a escala de dez milhões. Portanto, eu acho que o acordo ortográfico… se calhar foi mal feito… há ali coisas que se calhar não fazem sentido… mas eu diria eu preferia já estar a escrever à brasileira. Eu se escrever um livro adoraria que o meu livro fosse desde logo capaz de chegar a duzentas ou trezentas milhões de pessoas e não apenas a dez. Portanto eu acho que o acordo ortográfico é um acidente de percurso, inevitável, que é a nossa melhor hipótese de futuro, é o Brasil.
[/transcrição]

“Videoclip” recebido por email, sem indicação de proveniência ou quaisquer dados, pelo que não é possível atribuir aqui os créditos da estação emissora, indicações de data e hora da emissão, etc.

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O "acordo" nas escolas [jornal Público]

Processo gradual nas escolas

No final deste mês começam a chegar às livrarias alguns manuais escolares redigidos já com a nova grafia, estipulada no Acordo Ortográfico (AO). Mas a adopção será gradual e as editoras terão um prazo alargado – até ao ano lectivo 2014-2015 – para concluir o processo de conversão ortográfica. Isso mesmo foi acordado entre o anterior Ministério da Educação, tutelado por Isabel Alçada, e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros nas negociações para a implantação do AO no sistema de ensino.

O Conselho de Ministros aprovou, numa resolução datada de 25 de Janeiro último, a introdução da nova grafia já a partir do próximo ano lectivo, mas a capacidade de resposta do sector editorial exigiu uma aplicação progressiva. Até porque muitos livros escolares podem manter-se por um período máximo de seis anos e a sua reconversão reclamaria um elevado custo financeiro.

Os dois maiores grupos editoriais que publicam obras escolares – a Porto Editora e a Leya – confirmaram ao PÚBLICO que o processo de adopção já teve início, mas será gradual. “A aplicação do AO aos manuais escolares já começou a ser realizada pela Leya e continuará a ser feita, de forma gradual, de acordo com o calendário definido pelo Ministério da Educação”, respondeu por email Susana Almeida, do gabinete de comunicação do grupo que detém, entre outras, as chancelas da Asa, Gailivro e Texto Editores.

Paulo Gonçalves, porta-voz da Porto Editora, deu resposta semelhante, notando ainda que, nas obras lexicográficas, que já obedecem à nova ortografia, a editora optou por manter a grafia actual. “Pensámos que seria a melhor forma de abordar a mudança da ortografia”, explicou.

Questionados sobre os custos resultantes da norma ortográfica, a Leya respondeu: “Informação não disponível.”

Mas Paulo Gonçalves admitiu “um custo relevante”, embora tenha realçado que a Porto Editora “não dramatiza”. Lembrou, porém, que tiveram de financiar a formação interna dos colaboradores e a actualização dos softwares de edição. “Os custos foram suportados pela editora, sem implicação no preço final dos livros, sublinhou.

M.J.O.

[Transcrição integral de artigo publicado em 20.07.11 no jornal Público (pág. 9). (texto online disponível só para assinantes do jornal)]

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«Correspondência vira-lata com a Academia» [TRB, Brasil]

Enviei há dias a seguinte pergunta aos responsáveis pelo Portal da Língua Portuguesa:

São incontáveis (no sentido de “centenas, talvez milhares”) os casos em que é apresentada como brasileira uma grafia desconhecida no Brasil. Em que fonte se basearam para dizer que “extracto” é português do Brasil?

Os ditos responsáveis tiveram a gentileza de responder da seguinte maneira:

Caro utilizador

Obrigado pela sua mensagem e pelo seu interesse nos nossos recursos.

A nossa fonte para o português brasileiro foi o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, 5.ª ed., que atesta a forma ‘extracto’.

Ao seu dispor, com os melhores cumprimentos, A equipa do Portal da Língua Portuguesa

Enviei-lhes imediatamente a resposta que se segue, na qual, por polidez e cortesia, me abstive de comentar os dois ou três erros de português que conseguiram cometer em tão poucas e pouco úteis palavras.

Caros respondedores,

obrigado pela vossa resposta e obrigado pelo vosso interesse na minha pergunta.

Se a vossa fonte para o português brasileiro foi o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, 5.ª ed., talvez devessem levar em conta o fa(c)to de que o dito vocabulário diz-se “da língua portuguesa” e não “da língua portuguesa brasileira”, e que as moças e os rapazes da Academia Brasileira de Letras são, além de apreciadores de um bom chá na companhia dos seus pares, gente muito polida e cortês que faz questão de registrar todas as formas da língua chamada portuguesa, o que inclui também, talvez para a vossa estupefa(c)ta surpresa, algumas variantes ortográficas do país chamado Portugal..

Contudo, sendo as senhoras e os senhores da Academia Brasileira de Letras e sobretudo os rapazes e as moças que nela servem em funções menos excelsas que o tomar chá com os seus pares gente que, além de polida e cortês, é também falível e incompetente e alheia a questões rasteiras como o rigor e a coerência (o que se atesta com óbvia e cristalina clareza na lambança a que chamaram Acordo Ortográfico), as supramencionadas polidez e cortesia não os levam a extremos tais como o de ter o trabalho de incluir de fa(c)to todas as variantes utilizadas em Portugal, nem de – deusnoslivre! – remover do dito Vocabulário Ortográfico todas as formas registradas no vocabulário original de 1943, época em que o Brasil, vítima quiçá do irreprimível complexo de vira-lata que até hoje grassa nas suas (mal) chamadas elites, considerava elegante e culto grafar palavras de modo não imediatamente compreensível para o falante brasileiro comum.

Esta combinação desafortunada de polidez, preguiça, cortesia, incompetência e vira-latice resulta em um vocabulário cuja falta de rigor deveria ser uma ululante evidência para qualquer pessoa minimamente versada – no sentido de oficialmente alfabetizada – nos meandros da nossa ortografia (agora) comum, tornando-o inútil para um portal que se quer um “apoio a quem trabalha com a língua portuguesa”. Todavia, acaso contaminados pelo descaso dos seus cong(ê/é)neres brasileiros, os responsáveis pelo Portal da Língua Portuguesa preferem a via fácil da ado(p)ção acrítica de uma lista cujos autores nunca se deram o trabalho de conferir os usos correntes do idioma que pretendem inventariar, produzindo um corpus cuja utilidade para quem trabalha com a língua portuguesa tende a zero.

Ao seu dispor, com os melhores cumprimentos deste vosso humilde utilizador,

Tomás Rosa Bueno | Tradutor | Bariloche, Argentina

[Transcrição integral, autorizada pelo autor, de post publicado hoje, 20 de Julho, no blog Postanterous.]

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«O "acordês" não tem falantes.» [Rui Valente, Público]

Uma língua deve ter falantes. O “acordês” não tem falantes
Por Rui Valente

[Resposta a um artigo de Jorge Miranda sobre o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)]

No PÚBLICO da passada quarta-feira, 13 de Julho, Jorge Miranda escreve a propósito do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90). Algumas das suas declarações partem de pressupostos incorrectos, que gostaria de tentar esclarecer.

O mais evidente, e incómodo, é o que insiste na teoria do “conservadorismo”. Começa a tornar-se uma estratégia recorrente: quem é contra o AO leva com o rótulo do “conservadorismo”. Por exclusão de partes, os “outros”, os defensores do acordo, são os iluminados, sempre de olhos postos no futuro.

Pessoalmente, dispenso o epíteto. Espero que Jorge Miranda possa conceder, a todos quantos, de boa-fé, estão contra o AO90 uma verdade simples: ninguém defende uma ortografia de cristal, parada no tempo. Pelo contrário, move-nos a convicção de que a língua é um organismo vivo, em constante mutação.

O que realmente distingue “antiacordistas” e “acordistas” é outra coisa: os primeiros não acreditam que essa evolução deva ser imposta por decreto.
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«Há 21 anos que governos adiam adopção do acordo» [Público]

“Unificação” ortográfica foi assinada em 1990

Há 21 anos que governos adiam adopção do acordo

Há 21 anos que se arrasta a discussão em torno do Acordo Ortográfico (AO). A redacção original, datada de 1990, propunha a entrada em vigor a 1 de Janeiro de 1994, para todos os países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Mas Portugal deixou passar o prazo sem ter ratificado o diploma e somente em 2000 a Assembleia da República (AR) debateu o assunto, tendo aprovado um Protocolo Modificativo. Este, incompreensivelmente, não definiu uma nova data para a conversão da grafia. Foi preciso, portanto, redigir um segundo Protocolo Modificativo, em 2004, que estabelecia a necessidade de três Estados ratificarem o AO para que este entrasse em vigor, prescindindo da unanimidade inicialmente defendida.

Quatro anos depois, o Conselho de Ministros ratificou o AO, impondo um prazo de seis anos para a sua aplicação integral. E na AR o acordo recolheu os votos favoráveis do PS, PSD, BE e de sete deputados do CDS. PCP, Verdes e três centristas (entre os quais Paulo Portas) abstiveram-se. A polémica prosseguiu em 2009, com o lançamento de uma petição contra o AO, assinada por mais de 100 mil pessoas, e em 2010, quando finalmente o Governo publicitou que o acordo tinha entrado em vigor em Maio do ano anterior… Já depois de ter sido adoptado no Brasil, em Cabo Verde e em São Tomé e Príncipe (Moçambique anunciou ontem que só decidirá em 2012), Portugal assinou, em Março de 2010, numa reunião da CPLP decorrida no Brasil, uma resolução que contraria o argumento da unificação da grafia: no campo das grafias facultativas previstas no AO, aceitou que a opção deve recair na tradição ortográfica vigente em cada Estado, devendo ser reconhecida e validada.
M.J.O.

[Transcrição integral de artigo publicado em 20.07.11 no jornal Público. (texto online disponível só para assinantes do jornal)]

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