Professores contra o AO90 (E.S. Pedro Nunes, Lisboa)

Encontro de professores contra o Acordo Ortográfico na Escola Secundária Pedro Nunes, em Lisboa, no dia 22 de Maio de 2013.

Com intervenções, entre outros, de Maria do Carmo Vieira, Pedro Correia e Nuno Pacheco.

Índice das intervenções:
00:00:00 – Introdução e intervenção de Susana Pereira, professora de Português e Latim
00:03:10 – Intervenção de Maria do Carmo Vieira, professora de Português http://ensino.paginas.sapo.pt/
00:10:40 – Intervenção de Pedro Correia, jornalista e autor do livro “Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico” http://www.guerraepaz.net/conteudo.as…
00:20:15 – Intervenção de Helena Buescu, professora de Literatura na Faculdade de Letras da Universidade Clássica
00:40:10 – Intervenção de Nuno Pacheco, jornalista e director adjunto do Público http://www.publico.pt/autor/nuno-pacheco
00:53:55 – Intervenção de Leonor Santa Bárbara, professora de Literatura e Grego na Universidade Nova de Lisboa (Faculdade Ciências Sociais e Humanas)
00:58:10 – Intervenção de Ana Maria Martinho, professora de Literatura Africana e de Cultura dos Países de Língua Portuguesa na Universidade Nova de Lisboa (Faculdade Ciências Sociais e Humanas)
01:04:50 – Intervenção Ana Silva, professora de Português na Escola Secundária da Amadora. blogues – http://portuguesdefacto.wordpress.com/ grupo de Professores contra o AO no facebook – http://www.facebook.com/groups/178207…
01:19:45 – Depoimento de Teresa Cadete, Prof. Catedrática da FLUL, Pres. do PEN Clube Português http://proximidade.penclubeportugues…
01:22:55 – Intervenção de Tiago Silva, Associação de Estudantes da Universidade Nova de Lisboa (Faculdade Ciências Sociais e Humanas) nota 1: O tema do Acordo Ortográfico foi levado a Reunião Geral de Alunos a 23 de Maio de 2013 e a Associação de Estudantes da Faculdade Ciências Sociais e Humanas tomou publicamente uma posição contra o “Acordo Ortográfico” de 1990 http://aefcsh.jimdo.com/ ou http://aefcsh.jimdo.com/app/download/…
nota 2: a “sessão em Março com a sala cheia de gente” a que o Tiago se refere foram as “Jornadas Responder ao Momento Presente” sob o tópico “”Onde pára e para onde vai a Língua Portuguesa?” e pode ser visualizado em https://www.youtube.com/channel/UCL8_u…
01:32:50 – debate com a audiência
01:47:10 – Intervenção de Ana Isabel Buescu, professora na área de História Moderna na Universidade Nova de Lisboa (Faculdade Ciências Sociais e Humanas)

[Cronograma copiado da entrada YouTube.]

[Conhecimento do vídeo por mensagem de email da organização.]

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«A vingança ortográfica serve-se gelada» [por Fernando Venâncio (no Facebook)]

FVlinceQuem não conhecer os autores do artigo suporá dois brasileiros apanhados, sem culpa pessoal rastreável, na onda da choldra (olá, João) ortográfica. Quem souber que eles são, também, os autores do mais conhecido «Vocabulário Ortográfico» português, o do ILTEC, concluirá foram apanhados, e de que maneira, na própria rede. Vamos a pormenores.

O volume colectivo «O Português no Século XXI» (Ed. Parábola, São Paulo, 2013) inclui o artigo «Dicionários e vocabulários ortográficos na constituição da norma», assinado pelos portugueses MARGARITA CORREIA e JOSÉ PEDRO FERREIRA. São 22 páginas interessantíssimas, e informadíssimas, que recomendo vivamente a interessados.

A impressão de tratar-se de autoria brasileira funda-se na ocorrência de formas como «cotidiano», «fato», «registrar», «registro», «usuário», de particularidades como «gênese», «fenômeno», «ingênuo», «polêmica», «sincrônico», «sinônimo», ou de grafias (acordizadas para Portugal) como «adoção», «ato», «correção», «correto», «fator», «objetivo», «refletir», «seleção». Mais brasileiras ainda são sequências como «Sua faceta normativa», «Seus autores propõem-se», «se analisarmos seu conteúdo». Há, ainda, as novidades acordísticas gerais «autorregulação», «heroico», «veem», mais as novidades acordísticas brasileiras «bilíngue», «monolíngue», «multilíngue».

No conjunto, porém, o texto apresenta suficientes traços de genuíno fabrico europeu. E, para quem delas precisasse, as informações no final do volume não enganam: a prof. Margarita Correia e o dr. José Pedro Ferreira são dois compatriotas nossos.

As perplexidades aumentam quando deparamos com as seguintes curiosidades (indicam-se as páginas):

300: confecção
302: aspectos, aspetos, caráter, aspecto
304: caraterísticas, perspectivas, acepções, caráter, concepção
306: conceções, conceções
309: perspetiva, perspectiva
310: perspetiva, conceção, conceção
312: perspectivas
313: acepções, aspectos, acepções
314: carácter, acepções, acepções, caráter, aspectos
316: confeção
317: perspectiva

Um «Lince» com tosse? Sabotagem do inimigo (e qual)? Efeitos atlânticos das manchas solares? Eu acredito em tudo. Já estou por tudo. Mas não posso tomar estes senhores a sério.

Fernando Venâncio

[Transcrição integral de “post” (público), da autoria de Fernando Venâncio, publicado na página “Acordo Ortográfico Não!” (Facebook) em 17.06.13 às 17:15 h. “Links” inseridos por nós. A imagem foi copiada do “post” original.]

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Um depoimento comentado (2ª parte)

O que se segue é uma transcrição anotada (2.ª parte, ver anterior AQUI) do depoimento de José António Pinto Ribeiro, advogado, ex-Ministro da Cultura, perante o Grupo de Trabalho parlamentar sobre o AO90 em audição realizada em 23 de Maio de 2013.

A transcrição (de gravação áudio) foi realizada por Hermínia Castro e as anotações, comentários e “links” são da autoria de Maria José Abranches.

logoCECC

E portanto acho que, aquilo que aqui se exprime é, digamos, ainda essa resistência. [Resistência que não é só de “sectores relevantes” da sociedade, mas também da larga maioria dos cidadãos comuns.]

Isto não significa que o acordo ortográfico seja perfeito, primeiro, que a gente não possa sair dele, segundo, que seja perfeito e que não possa ser modificado ou que não deva ser modificado e que não deva ser alterado e que não deva ser, em muitos pontos, melhorado ou não melhorado, ou seja, o que entenderem, não me sei pronunciar sobre isso. Sim, conheço, sim, li, sim, estudei, mas é assim. O que é que gostava de dizer? Tem a ver com há ou não há justificação, é ou não importante que exista um acordo ortográfico? Sobre o conteúdo do acordo ortográfico, sobre a sua função, eu gostava de me [inaudível] apenas em diplomas que existem publicados, o Anexo II ao acordo ortográfico de 90 tem uma explicação, uma explanação sobre os antecedentes do acordo ortográfico, os acordos ortográficos ou as regulamentações ortográficas anteriores, e porque é que foram ou não foram um êxito, o que é que deu e o que é que não deu.

Mas, digamos, eu diria que aquilo que é hoje mais ou menos aceite [por quem?], é que a língua portuguesa, e Portugal, e portanto o interesse do país e o interesse da língua portuguesa levam a que haja e que se defenda a existência de um acordo ortográfico, de uma norma, de um instrumento normativo, de natureza legal, o que seja[qualquer coisa, conteúdo e qualidade não interessam!], que permita fixar a ortografia da língua portuguesa, aproximar a ortografia da língua portuguesa, fazer com que a língua portuguesa tenha uma ortografia única [Como disse? (*)]. Ou tanto quanto possível aproximada [Os resultados desta “unificação” estão à vista…].  As tentativas de fazer uma uniformização a 100% goraram-se, [em] 75, as tentativas de 86 de fazer uma aproximação a 95% ou 99,5% também se goraram e portanto escolheu-se aqui uma solução que foi a de ver se se aproximava uns 98% da grafia e se havia eventualmente umas grafias que se mantinham com alguma divergência. Foi uma solução tomada, a única coisa que quero dizer é que acho que é pacífica a existência da necessidade de um acordo ortográfico entre oito países que falam a língua portuguesa como língua oficial [desses oito países, sete têm (“tinham”?) uma ortografia comum, desde sempre, e é essa coesão ortográfica que o AO90 vem romper; apenas um, o Brasil, tinha optado, desde 1907, por ter uma ortografia diferente], entre um conjunto de pessoas que formam comunidades significativas de falantes do português, entre pessoas que falam a língua portuguesa e a escrevem, mesmo que seja como segunda língua, que vivem mais dispersas, entre pessoas que trabalham com a língua portuguesa porque são professores de Português, porque querem dar aulas de Português, porque ensinam Português nos mais variados sítios, sejam eles naturais portugueses, de nacionalidade portuguesa, de qualquer outro país de língua oficial portuguesa ou não, e portanto eu diria que é bastante pacífico isso. [Não, de todo, isso não é nada pacífico, não passa de simples falácia. Mais uma. (*)]

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«Uma língua que se vai desfazendo» [F. J. Viegas, revista “Ler” de Junho 2013]

logobadge1Nota prévia: a ILC pela revogação da entrada em vigor do “acordo ortográfico de 1990” não se revê em qualquer espécie de posição “revisionista” em relação ao AO90. O projecto de lei que pretendemos submeter a votação parlamentar não refere “revisão” alguma do texto daquele “acordo”, nem explícita nem implicitamente, mas apenas a revogação da RAR 35/2008, isto é, do instrumento que determinou a sua entrada em vigor a 1 de Janeiro de 2010.

«A entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990 fica suspensa por prazo indeterminado, para que sejam elaborados estudos complementares que atestem a sua viabilidade económica, o seu impacto social e a sua adequação ao contexto histórico, nacional e patrimonial em que se insere.»


revistaLERA «verdadeira história» do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa começou quando entre nós? Alguns meses, talvez um ano, depois da publicação, em Diário da República, da resolução do Conselho de Ministros (RCM n.º 8/2011) que determinava a sua entrada em vigor a 1 de Janeiro de 2012. Nos 20 anos anteriores (desde 1990), houve períodos em que se discutiu  o Acordo Ortográfico com maior ou menor ferocidade, empenhamento,  entusiasmo, dramatismo, paixão, desinteresse ou ingenuidade — mas o assunto não faria as primeiras páginas dos nossos jornais, nem sequer os rodapés das televisões. Menciono os rodapés das televisões, e em especial da chamada «televisão pública», e sobretudo da assim designada «televisão pública com antena internacional» porque não há memória de tão profundo e desavergonhado ataque à nossa língua nos meios de comunicação como a ortografia, a sintaxe e o desleixo geral que esses rodapés transmitiam (na altura, nesta revista, por exemplo, propôs-se uma autoridade para vigiar esses erros). Aliás, nenhuma estação de televisão, pública ou privada (mas sobretudo tão inchada dos seus «pergaminhos públicos», que são periodicamente muito úteis), creio que em todo o mundo, foi tão orgulhosa dos seus erros ortográficos e da sua impunidade. Creio que continua a ser.

Durante esses 20 anos, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AOLP) foi negociado entre academias (ressalvando o facto de a portuguesa ser de uma irrelevância total), linguistas e políticos. Sabia-se que havia uma vasta «maioria moral» contra o AOLP, constituída por escritores, jornalistas, também linguistas e políticos, e unida por motivos diversos- desde a ideia de que a adopção do Acordo significaria uma cedência ao Brasil, até argumentos filológicos e políticos de peso. Mas o assunto não interessava à imprensa; e o que não interessa à imprensa — é preciso notar que há pessoas analfabetas que chegam frequentemente ao cargo de director de jornal– também não interessava ao País que, de repente, a partir de 2011, se viu confrontado com manuais escolares conformes ao AOLP, e com a proximidade da entrada em vigor do mesmo acordo em todos os documentos da Administração Pública.

E, como sempre acontece entre nós, passou-se da aceitação amorfa e bovina para a guerrilha e para a indignação total que deveriam ter ocorrido durante os 20 anos anteriores ou, pelo menos, na altura em que o Governo da época resolve escolher uma data (Janeiro de 2012) para que o AOLP entrasse em vigor.

Os factos são estes, a que poderíamos acrescentar que o AOLP está cheio de normas ridículas que deveriam ser corrigidas ou simplesmente rasuradas (e são coisas bastante simples, quer em matéria de acentuação, quer na queda de consoantes mudas), que o Estado português não deveria ter avançado sem garantir que Angola ou Moçambique tivessem assinado o acordo (como se verificou, tardiamente, na altura em que o Brasil decidiu adiar a data de entrada em vigor definitiva do AOLP) e que – mais importante ainda – o AOLP não deveria ter entrado em vigor sem que estivesse encerrado o Vocabulário Ortográfico Comum, meta que ainda não se vislumbra. Infelizmente, o Estado português não olhou a meios para poder declarar estar na linha da frente, até na questão da adopção de um acordo ortográfico. Não admira: é cada vez mais difícil encontrar, nessas esferas, alguém que escreva com sujeito, predicado, complemento directo e algum conhecimento do nosso dicionário culto.

O jornalista Pedro Correia traça, em Vogais e Consoantes politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico (edição Guerra & Paz), o destino do AOLP: parar, corrigir, refazer. É o que vai acontecer, se quisermos, algum dia, falar de uma língua comum aos países que a têm como emblema.

No auge do poder da chamada «linguística oral & estrutural» a filologia era desvalorizada e condenada ao patamar do reaccionarismo. Quando se chamou a atenção (nesta revista, por exemplo) para idêntica desvalorização do ensino da Literatura nos programas de Português, a associação profissional respectiva estabeleceu que ensinar Literatura não tinha nada a ver com o ensino do Português. Tamanho absurdo não causou indignação (e foi igualmente pequena a que recebeu a decisão, do Ministério da Educação da época, em 2010, em não considerar a existência de erros ortográficos em provas de Português, uma inovação pedagógica de truz). O resultado é este: uma língua que se vai desfazendo.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Francisco José Viegas, publicado na revista “Ler”, número de Junho 2013. O texto, originalmente “ao abrigo do AO90”, foi corrigido automaticamente  com a extensão “desacordo ortográfico” para Chrome. “Links” e destaques inseridos por nós.]

[Imagem da capa da revista copiada da respectiva página no Facebook.]

[Via João Roque Dias, citando “post” no “blog”Chove. Transcrição a partir de ficheiro PDF alojado em Box.com.]

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Um depoimento comentado (1ª parte)

O que se segue é uma transcrição anotada (1.ª parte) do depoimento de José António Pinto Ribeiro, advogado, ex-Ministro da Cultura, perante o Grupo de Trabalho parlamentar sobre o AO90, em audição realizada em 23 de Maio de 2013.

A transcrição (de gravação áudio) foi executada por Hermínia Castro e as anotações, comentários e “links” são da autoria de Maria José Abranches.

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(…) Gostava de referir, muito sumariamente, aquilo que são os pressupostos digamos, na minha cabeça, da minha vinda cá. Em primeiro lugar explicar que existe um acordo ortográfico. Esse acordo ortográfico resulta de uma negociação levada a cabo por pessoas nomeadas para o efeito pelo Estado português, através dos seus órgãos competentes [quem e por quem?], e que esse acordo ortográfico foi aprovado em 16 de Dezembro de 1990, portanto, no âmbito de uma reunião da CPLP [a primeira Cimeira (constitutiva) da CPLP ocorreu a 16 e 17 de Julho de 1996, em Lisboa: data da criação da CPLP – 17 de Julho de 1996) e foi depois aprovado pelo Governo português, porque um representante seu subscreveu [a assinatura, por Santana Lopes, Sec. Estado da Cultura: Lisboa, 16 de Dezembro de 1990] mas foi depois aprovado pelo Governo português, foi depois aprovado pelo Parlamento português [RAR n.º 26/91: “Aprova, para ratificação”- 4 de Junho de 1991], e foi depois aprovado pelo Presidente da República português [ Mário Soares, Dec. n.º 43/91, 23 de Agosto 1991- “É ratificado o Acordo Ortográfico…”; “Referendado em 7 de Agosto de 1991”: pelo Ministro da Presidência, Joaquim Fernando Nogueira, em nome do Primeiro-Ministro, Aníbal Cavaco Silva] E essa coisa aconteceu relativamente ao acordo ortográfico, de modo que em 1991 – o acordo ortográfico é de 1990 –, em 1991 todos os procedimentos internos de aprovação estavam concluídos [DR – I SÉRIE-A, N.º 193 – 23-8-1991] e também estava concluída já o depósito dos instrumentos de ratificação [publicado em que D.R.?] junto da entidade que tinha competência para receber essa ratificação. E essa entidade que tinha essa competência era por acaso o Ministério dos Negócios Estrangeiros português [Art.º 3.º do AO90], e portanto era em Portugal, era em Lisboa que esses instrumentos de ratificação tinham de ser depositados.

Portanto, o Governo português, o Estado português, através destes três órgãos, o Governo, o Parlamento e o Presidente da República, sempre o Governo do momento, o Parlamento do momento, a maioria do momento e o Presidente da República do momento, como é evidente, aprovaram tudo [como “donos da língua”, sem consultar os especialistas ou os cidadãos, abusando da confiança dos eleitores e sem respeito pela Constituição].

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