«Acordo Ortográfico – um mau passo» [por Mário de Carvalho, em “post” no Facebook]

ACORDO ORTOGRÁFICO – UM MAU PASSO.

Por que não aceitar que o Acordo ortográfico foi um passo em falso? Estas coisas acontecem! Vamos com calma e com tempo. Preciso é resolver. Não é necessário crucificar ninguém, nem gritar, nem apostrofar. Correu mal, há que enfrentar a situação, as responsabilidades ficam para depois. Não há vencedores nem vencidos. Apenas coisas mal pensadas. Acontece aos melhores. Para mais, temos estes confusos anos de experiência. Não resultou, nem cá, nem lá, nem em nenhuma parte do mundo. As aberrações e o ridículo saltam à vista. O A.O. não aproximou Portugal e Brasil, não facilitou o intercâmbio cultural, o interesse literário, nada! Há que repensar, com tranquilidade. Vamos suspender e considerar uma moratória? Que diabo, estamos a falar de uma língua que vem do Latim… Também o Brasil não nasceu esta manhã. Mais quinze, menos quinze anos…
Não há vento para esta vela. A imagem é de Hendrick Gerritsz Pot (séc XVII)

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[Transcrição integral de “post” (público) do escritor Mário de Carvalho publicado pelo próprio na sua página do Facebook em 11.06.13.]

[Imagem copiada do “post” original.]

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«Português ou Brasileiro? Não eis a questão» [por Marcos Bagno]

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PORTUGUÊS OU BRASILEIRO? NÃO EIS A QUESTÃO
Por MARCOS – 10/06/2013 às 09:42

O ato social, cultural e político de nomear uma língua é um processo muito mais complexo e conflituoso do que a maioria das pessoas imagina. Antes de tudo, justamente por ser um ato político, ele escapa alegremente do domínio restrito dos especialistas em linguística e exige uma abordagem sócio-histórica bem embasada. E quando aplicamos essa abordagem às diferentes situações sociolinguísticas do mundo, encontramos, no mínimo, duas tipologias bem distintas: (1) línguas iguais com nomes diferentes e (2) línguas diferentes com nomes iguais.

Para ilustrar o tipo (1), vamos examinar o caso do híndi e do urdu. O urdu é a língua oficial do Paquistão. Como língua falada, o urdu é praticamente indistinguível do híndi, língua oficial mais importante da Índia. A diferença entre as duas línguas está no fato de que o urdu é utilizado como língua escrita por falantes muçulmanos e se escreve numa forma ligeiramente adaptada do alfabeto persa que, por sua vez, é uma variante do alfabeto árabe. O híndi, por sua vez, se escreve no alfabeto devanágari, originalmente empregado para o sânscrito, e é utilizado pelos falantes de religião hindu. A rivalidade histórica entre Paquistão e Índia, que gerou guerras sanguinárias entre os dois países, junto com a divisão religiosa, é o que explica a atribuição de nomes diferentes a um único sistema linguístico.

A situação das línguas da Índia e do Paquistão se reproduz em certa medida na antiga Iugoslávia. Depois da sangrenta divisão da antiga confederação socialista em diferentes pequenos Estados independentes, a língua que sempre se chamou servo-croata recebeu três nomes distintos: sérvio, croata e bósnio. As diferenças entre o sérvio e o croata sempre se restingiram à escrita: os croatas, católicos romanos, empregam o alfabeto latino; os sérvios, católicos ortodoxos, empregam o alfabeto cirílico; os bósnios, muçulmanos, empregam tanto o alfabeto latino quanto o cirílico. Com a criação dos Estados independentes da Croácia e da Bósnia, a língua, que para os linguistas é um sistema único com variedades locais que não impedem a intercompreensão dos falantes, passou a ser designada com nomes distintos, nomes de países, de nações.

A situação se inverte no tipo (2) e fica clara quando analisamos o caso da chamada “língua árabe”. Por razões de natureza religiosa, o que os falantes de “árabe” chamam de “árabe” é a língua na forma como ela se encontrava quando o profeta Maomé redigiu o livro sagrado do Islã, o Corão, no século VII. Essa língua, também chamada de “árabe clássico”, é uma língua morta, não é falada por ninguém como idioma materno, está restrita à literatura religiosa. Nos diferentes países chamados “árabes”, existem formas de falar tão diferentes entre si quanto, por exemplo, o português e o italiano, sem possibilidades de intercompreensão entre seus falantes, e não poderia ser de outra maneira. É uma ilusão ideológica achar que num território imenso, que vai do extremo ocidental da África até a fronteira do Iraque com o Irã, passando por todo o Oriente Médio, se fala uma só e única “língua árabe”.

No entanto, essa ilusão ideológica é sustentada pela própria cultura “árabe” tradicional, já que na maioria dos 22 países “árabes” o sistema educacional se dedica exclusivamente ao ensino do “árabe clássico” e de sua forma mais modernizada, o “árabe-padrão”, enquanto que os chamados “dialetos” particulares falados nos diferentes países não recebem apoio institucional nem são valorizados, embora sejam as verdadeiras línguas maternas nacionais. É inconcebível que 300 milhões de pessoas, distribuídas por um território tão dilatado, falem uma mesma e única língua “árabe”.

O caso do português também entra nessa segunda situação, ou seja, línguas diferentes do ponto de vista estrutural e dos usos (fonológico, morfossintático, semântico, pragmático etc.), mas que recebem o mesmo nome. Já sabemos que o nome das línguas não depende das opiniões dos especialistas. No caso do Brasil, ocorreu, na década de 1930, uma tentativa de designar a nossa língua majoritária como “brasileiro”, mas o projeto de lei que previa essa designação se afogou no meio do turbilhão político que acabou por instituir o Estado Novo e a ditadura de Getúlio Vargas.

Uma análise racional pode partir da seguinte pergunta: por que, 500 anos depois do desmoronamento do Império Romano, a bibliografia especializada já reconhece a existência de “línguas” como o francês, o castelhano e o português, mas não reconhece, 500 anos depois da expansão marítima portuguesa, a existência de diversas “línguas” derivadas do português quinhentista? Por que a mesma porção de tempo vale para uma classificação (línguas românicas: francês, espanhol, português etc.) mas não vale para outra (“variedades” do português)?

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«Desliguem a máquina!» [por António de Macedo]

fotoAMOs apoiantes do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) acusam frequentemente os opositorres de serem «Velhos do Restelo», avessos à «evolução» da língua, saudosistas de se escrever «pharmácia» com ph, e outros doestos do mesmo teor. Equívocos grossos por parte de quem fala de coisas que não conhece ou conhece mal.

Comecemos pela alusão ao «Velho do Restelo» (Canto IV de “Os Lusíadas”, estâncias 94 a 104). A sua identificação com mentalidade retrógrada, conservadorismo, pessimismo e afins resulta do desconhecimento do que realmente se lá encontra, ou então de uma leitura pela rama. Dou a palavra a quem sabia muito mais disto do que eu, o pensador António Telmo, que nos seus livros (p. ex. “Congeminações de um Neopitagórico”) nos explica que «o Velho do Restelo não significa aquilo que vulgarmente se diz significar, e tanto se tem repetido que quase se tornou proverbial», acrescentando mais adiante: «uma espécie de superego do homem, de censor ou de censurador de quanto nele aspira à inovação pelo heroísmo, à criação pelo imprevisível…» Sendo um velho «venerando», quer dizer, que «deve ser venerado», e «com um saber de experiência feito», na verdade alerta-nos para os perigos a fim de podermos superá-los e vencê-los, não para fugirmos a eles, numa alusão à antiga máxima alquímica de que as provas que defrontamos não são obstáculos, mas desafios — curiosa máxima que até os políticos mais rasteiros já papagueiam quando tentam justificar os apertos orçamentais (e outros…) apregoando que as dificuldades são «oportunidades»…

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Simplifique-mos as complica são?

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Acordo Ortográfico ainda espera acordo de linguistas de Brasília

Um grupo de linguistas brasileiros da Academia de Letras de Brasília ainda discute possível mudança em Acordo Ortográfico, esperando alterações antes do fim do novo prazo de aplicação, que expira em Dezembro de 2015.

De acordo com Ernani Pimentel, que lidera o grupo dos linguistas insatisfeitos com as novas regras, a intenção é propor “simplificações” ao Acordo.

“O próximo passo agora é definir se o Senado Federal, ou o Ministério da Educação, será o responsável por criar uma comissão de educação para estudar quais pontos que podem ser melhorados“, avançou o docente em entrevista à Lusa.

No final de Dezembro do ano passado, um decreto presidencial assinado pela líder brasileira Dilma Rousseff adiou o prazo para entrada em vigor do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, previsto anteriormente para ser adoptado a partir de Janeiro deste ano.

De acordo com o linguista, existem duas “vertentes” dentro do Governo actualmente – uma do Ministério das Relações Exteriores, que justificou o adiamento para articular o mesmo prazo de aplicação com Portugal; e uma segunda, no Senado, cuja tendência é a busca da simplificação das normas.

Segundo o gabinete da senadora Ana Amélia, uma das eleitas que defendeu o adiamento, o trabalho do órgão legislativo já foi feito e agora o próximo passo estaria com a Presidência, que teria de procurar um acordo com os restantes países para voltar a discutir e repensar o acordo, se assim o desejar.

Paralelamente, de forma não oficial, os linguistas da Academia de Brasília tentarão trabalhar já em conjunto com seus pares nos demais países lusófonos, avançou Pimentel.

“A comissão da Academia de Brasília pretende contactar com linguistas dos outros sete países para fazer discussões via internet. É um trabalho não oficial, mas que poderá dar subsídios para uma actuação oficial“, opina.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa começou a ser negociado em 1975 e envolve os oito países de língua oficial portuguesa, Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Timor Leste.

Assinado em 1990, o acordo foi promulgado no Brasil apenas em 2008, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Inicialmente, o período de transição acertado pelo Brasil era de Janeiro de 2009 a 31 de Dezembro de 2012.

Lusa/ SOL

[Transcrição integral de notícia publicada em 08.06.13 pelo semanário “Sol”. Os realces no texto e o título do “post” são nossos.]

[Via Bruno Lopez, por mensagem no “mural” da ILC no Facebook.]

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«Jurisprudência» [Alberto Gonçalves, DN, 09.06.13]

DNlogoDomingo, 2 de Junho
Jurisprudência
O juiz Rui Teixeira, que combateu prepotências diversas na instrução do processo Casa Pia, voltou a desafiar os poderes instituídos e os difusos e proibiu os pareceres técnicos do sector da reinserção social de usarem a mistela linguística a que se chama Acordo Ortográfico. É lê-lo: “Fica advertida que deverá apresentar as peças em Língua Portuguesa e sem erros ortográficos decorrentes da aplicação da Resolução do Conselho de Ministros 8/2011, (…) a qual apenas vincula o Governo e não os tribunais.” E prossegue: “Nos tribunais, pelo menos neste, os factos não são fatos, as actas não são uma forma do verbo atar (…) e a Língua Portuguesa permanece inalterada até ordem em contrário.” Numa época em que a palavra “irreverente” se aplica às criaturas mais conformistas da Terra, eis um caso de irreverência autêntica. Às vezes, só às vezes, um magistrado que desrespeita a lei apenas prova a imensa estupidez desta.

[Transcrição parcial de artigo, da autoria de Alberto Gonçalves, publicado em 09.06.13 pelo “Diário de Notícias”. “Link” inserido por nós.]

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