Carta de Michael Seufert ao Senado Federal do Brasil

fotoSeufertIlustríssimo presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal do Brasil,

Excelentíssimo Senador Cyro Miranda,

Escrevo-lhe a título pessoal no seguimento de notícias[1] que dão conta da – a meu ver, feliz – criação, por sua iniciativa, dum grupo de trabalho na comissão parlamentar a que vossa excelência preside para estudar e apresentar propostas de alteração ao Acordo Ortográfico de 1990 (AO90). Repito, considero tal criação muito feliz e oportuna e queria dar-lhe nota que também em Portugal nos debatemos na Assembleia da República com questões relacionadas com o AO90.

De facto, entre petições e anunciadas iniciativas legislativas de cidadãos(ver nota 1 de ILC), têm sido várias as ocasiões em que o parlamento português tem sido chamado a debater esta questão. Não lhe quero falar em nome de outros deputados que não eu, mas deixo-lhe em anexo dois documentos: um relatório[2] dum grupo de trabalho que foi criado para acompanhar a execução do AO90 em Portugal e outro relatório[3], da minha autoria, sobre uma petição que recentemente foi apresentada a pedir que Portugal se desvinculasse do AO90.

Se tiver a oportunidade de ler estes documentos verá que, como parece acontecer no Brasil, em Portugal estamos longe dum consenso social alargado. Mesmo no mundo académico – de onde vieram as maiores forças impulsionadoras do Acordo – aparecem-nos mais vozes contra o Acordo ou a forma da sua aplicação do que a seu favor. Fui, pessoalmente, até mais longe: tenho dúvidas das próprias bases do Acordo, e permita-me citar-me no dito relatório:

(…)é possível haver uma ortografia unificada entre os vários portugueses? Faz esse desiderato sentido quando léxico, gramática e semântica são objectivamente diferentes nos vários países do Acordo? Faz ainda sentido considerar como critério para a ortografia o critério da «pronúncia culta» da língua?

De facto ainda recentemente um livro infantil português foi editado no Brasil com uma edição adaptada ao português do Brasil – como estou certo continuará a acontecer particularmente em traduções de línguas estrangeiras para o Português, mas como nunca tinha visto num livro editado originalmente em Português. «DANÇA QUANDO CHEGARES AO FIM” é assim vendido desse lado do Atlântico como «DANCE QUANDO CHEGAR AO FIM».

Compreende-se perfeitamente e não há acordo que unifique isto.

Juntaria a isto ainda recentes declarações do mundo da literatura, do PEN Clube português, dos escritores moçambicanos na diáspora ou ainda da nossa Sociedade Portuguesa de Autores repudiando o AO90, mas gostaria de voltar ao terreno parlamentar.

Desconheço o enquadramento constitucional brasileiro, mas em Portugal o Parlamento não tem competência em matéria de relações externas. Assim, e como estamos a falar dum tratado internacional(ver nota 2 de ILC), a intervenção parlamentar portuguesa tem necessariamente sido tímida. Mas a partir do momento em que no Brasil se abre este debate, Portugal não pode fazer de conta e ficar de fora. Estou em crer que poderíamos abrir canais – nem que informais – bilaterais para que deste lado possamos acompanhar os Vossos trabalhos e contribuir naquilo que nos junta: a língua portuguesa e a óbvia e reconhecida necessidade de reescrever ou revogar o Acordo Ortográfico. Enviarei, para o mesmo efeito, carta idêntica à sua colega Ana Amélia Lemos.

Queira, caro colega, aceitar os meus melhores cumprimentos e o meu desejo de possamos iniciar uma troca de correspondência e experiência profícuas para a língua portuguesa.

Um abraço amigo,

Michael Seufert

Deputado

Grupo Parlamentar do CDS-PP

Coordenador do Grupo Parlamentar na 8ª Comissão – Educação, Ciência e Cultura

[1] http://www12.senado.gov.br/noticias/materias/2013/10/01/ce-cria-grupo-de-trabalho-para-aperfeicoar-acordo-ortografico

[2] http://www.parlamento.pt/sites/COM/XIILEG/8CECC/GTAAAO/Apresentacao/Paginas/PlanosActividade.aspx

[3] http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalhePeticao.aspx?BID=12378

[Transcrição integral de carta, da autoria de Michael Seufert, publicada no “blog” pessoal do deputado (com o título “À vontade do freguês”) em 01.11.13. Alguns “links” e destaques a “bold” foram adicionados por nós ao texto. Foto do “mural” do deputado no Facebook.]

Nota 1: não existe nem existiu antes qualquer outra ILC, no âmbito do AO90, além da que aqui mesmo, neste “site”, se apresenta e anuncia.

Nota 2: por isto mesmo optámos por uma ILC pela revogação não do AO90 (Tratado internacional) mas da sua entrada em vigor (RAR 35/2008), a ÚNICA forma credível e exequível de reverter o processo pela via parlamentar.

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«Ninguém para a língua portuguesa» [“Bartoon”, jornal “Público”, 30.10.13]

Bartoon_30Nov2013[“Bartoon“, de Luís Afonso. Jornal “Público“, 30.10.13]

 

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«Deveria ter entrado em vigor em Janeiro de 1994»… [“SAPO Notícias”, Moçambique]

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Acordo Ortográfico ainda por ratificar em Moçambique e Angola, 23 anos depois

27 de Outubro de 2013, 16:51

Angola e Moçambique ainda não ratificaram o Acordo Ortográfico, assinado pelos oito países lusófonos há 23 anos e, à excepção de Portugal e do Brasil, os restantes não definiram datas para a sua aplicação.

O Governo angolano alega que pretende aprofundar a sua reflexão sobre o Acordo Ortográfico para salvaguardar aspectos de interesse do país, ligados à sua identidade cultural, nomeadamente a diversidade de línguas nacionais, bem como as implicações financeiras.

“Nos últimos quatro anos têm sido produzidos um conjunto de manuais escolares que representam mais de 50 milhões de exemplares, que em princípio são utilizados nas escolas primárias e secundárias do primeiro ciclo, e isso seria uma implicação financeira importante”, disse em Julho passado o ministro da Educação angolano, Pinda Simão.

Apesar da relutância na ratificação, Angola vai financiar os trabalhos do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa com 35 mil euros, segundo disse à Lusa, em Julho, Gilvan Müller de Oliveira, presidente do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, responsável pelos trabalhos.

Já em Moçambique, o Acordo Ortográfico foi ratificado pelo Governo em Junho de 2012, um mês antes de o país assumir a presidência rotativa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), mas falta ainda a ratificação pelo parlamento.

Portugal definiu como data para a aplicação global do acordo Maio de 2015 e o Brasil Dezembro do mesmo ano, tendo adiado a data anteriormente estabelecida, que era Janeiro de 2013.

Quanto aos restantes países lusófonos que já ratificaram o acordo, apenas São Tomé e Príncipe avança uma data provável para a sua aplicação.

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«Ursamentu du Istadu» [Nuno Pacheco, “Revista 2”, 27.10.13]

NP_27Out2013O Orçamento que por aí se discute tem, logo nas primeiras páginas, a indicação de que seguiu as normas do acordo ortográfico de 1990. Compreende-se. De outro modo, como é que a troika o leria? Corre-se então o documento de uma ponta à outra e lá estão os exemplos da “novidade”: a palavra “setor” aparece escrita 5 vezes, “setoriais” 4, “subsetor” 1 e “subsetores” 20. Mas, relendo outra vez do princípio, eis que lemos também “sector” (114 vezes), “sectores” (27), “sectorial” (10), “sectoriais” (110), “subsector” (50) e “subsectores” (25). Isto nos textos e até nos quadros, que usam, indiscriminadamente, as diferentes variantes. A que se deverá tal miscelânea, querem explicar? Deve-se, muito simplesmente, ao seguinte: o acordo recente, chamemos-lhe AO90, tem a particularidade de consagrar as duas ortografias para “sector”, de tal modo que até o Ciberdúvidas, quando se refere à palavra, escreve amiúde “sector/setor”. Um livreco que anda por aí diz até, de forma clara, “que cada escrevente deverá, pois, optar pela grafia que lhe parecer mais correta” (sic). Que lhe parecer, vejam bem! Como no Orçamento terá havido vários “escreventes”, vê-se que as suas opções penderam mais para a grafia do português europeu ainda em vigor. Significativo.

stock-illustration-12074155-music-writing-conceptJá cansa falar disto, francamente, mas para lá do simples problema ortográfico (e a admissão de duplas grafias é contrária à própria noção de ortografia) existe um óbvio problema fonético. A pseudo-reforma “unificadora” que nos vendem finge ignorar que a escrita não é apenas uma convenção mas, também, seguindo os códigos da fala (neste caso, da portuguesa), um guia para a leitura. Se a uma pauta de música para, por exemplo, uma sinfonia, tirarmos alguns dos sinais gráficos usados para guiar os músicos na sua execução, a pretexto de “simplificar” nas pautas a escrita musical, teremos sérios problemas no dia do concerto. A escrita musical também teve reformas ao longo da história, mas mexer num padrão estabilizado sem cuidar do resto era e é um sarilho.

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F.C. Barcelona inaugura (em 21.10.13) “site” em Português… do Brasil

Barcelona inaugura site em português

É o nono idioma oficial da página do clube
A nova versão da página oficial do Barcelona na Internet

O Barcelona inaugurou nesta segunda-feira uma versão em português (do Brasil) do seu site na Internet, justificando a decisão com o facto de este ser o quinto idioma mais falado pelos adeptos do clube catalão.

“Normalmente, os sites brasileiros acabam em ‘.com.br’, mas o Barcelona escolhe os seus endereços pelos idiomas e não pelo país em questão. Por isso, apesar de o site ser totalmente voltado ao Brasil, o endereço será o seguinte: www.fcbarcelona.pt. Com o tempo o clube catalão procurará adaptar essa questão técnica ao mercado brasileiro e fará que o endereço tenha o final que normalmente é utilizado pela Internet local”, explica o clube catalão no site.

[Transcrição parcial do texto e imagem da notícia do Público, de 21.10.2013. Links e destaques adicionados por nós.]

Nota: os domínios “.pt” são (ou deveriam ser) exclusivamente portugueses: http://www.europeregistry.com/domains/domains_pt.htm?gclid=CNOIhMu1q7oCFQXHtAodnzwALA

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