«O capitão Windows e o general Klinger» [Nuno Pacheco, “Público”, 17.05.15]

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Anacleto estava radiante. Já lhe tinham dito lá na repartição mas ele não acreditava. No dia 13, o das aparições lá de Fátima, já podia escrever com menos letras, que alívio. Agora era lei, já não podiam gozar com ele quando escrevia “coação” e lhe perguntavam onde é que tinha comprado o coador. Só podia ser mesmo bênção dos pastorinhos. Ele tinha-se informado, sabia tudo. Até ao dia 13, havia na escrita portuguesa duas ortografias. Uma para Portugal e outra para o Brasil. Um excesso! Agora, a partir de dia 13, passa haver só duas ortografias. Reparem bem na subtileza: duas e “só duas”. Completamente diferente. As duas antigas tinham muitas palavras diferentes, e além disso eram duas. As novas também têm palavras diferentes (não exactamente as mesmas, porque é preciso variar, a escrita tem de vencer o tédio) e são “só duas”. Ora é com este “só duas” que o português vai finalmente ser aceite lá na ONU, na UE, na CEDEAO e nessas coisas todas importantes. Mesmo na colectividade lá do bairro, onde os comunicados já estavam a ser escritos em mandarim, ia passar a imperar o “só duas”. Que é uma escrita comum, como está bom de ver.

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«O império ortográfico» [Rui Ramos, “Observador”, 16.05.15]

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O império ortográfico

O Acordo Ortográfico é, entre nós, a última manifestação de um paroquialismo colonial que se voltou contra si próprio: não podendo aportuguesar o Brasil, vamos abrasileirar Portugal.

O chamado “Acordo Ortográfico” tornou-se obrigatório esta semana – ou talvez não, pois que tudo nesta matéria é confuso. O Brasil ou Angola são, geralmente, as razões dadas para passarmos do acto ao ato. Mas o Brasil nunca mostrou demasiado entusiasmo ou pressa em partilhar uma mesma ortografia com Portugal – a nova grafia ainda nem sequer é obrigatória por lá. Quanto a Angola, continua a pensar. A parte portuguesa andou aqui à frente. Porquê?

Para perceber o Acordo Ortográfico, não basta recuar a 1990. É preciso, pelo menos, voltar a 1961. Nesse ano, o ditador Salazar, sem consultar o país, decidiu que Portugal desenvolvera com os povos extra-europeus sujeitos à administração portuguesa uma relação tão especial, que se justificava defender essa administração contra tudo e contra todos. Em 1974, a direcção revolucionária das forças armadas, também sem consultar o país, decidiu abdicar dessa administração e abandonar territórios e populações à ditadura e à guerra civil dos chamados “movimentos de libertação”. Não renunciou, porém, ao mito da relação especial. Essa relação teve uma novo avatar enquanto “solidariedade anti-imperialista”, quando uma parte do MFA também quis ser “movimento de libertação”, para depois, em democracia, se redefinir como “comunidade de língua”.

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«Palavras Plenas» [por María Oliveira]

Palavras Plenas


O “acordo” acordou morto!
É um boto, torto e tosco.
Coitado, caiu de borco,
mal disposto e mal composto.
Tal um rei-morto-rei-posto,
Aleijão, porco, terçolho,
Malcheiroso peixe de molho
Aguarda, com um só olho
Em terra de cegos, restolho,
Sanguinolento, jack-estripadolho,
Que a turba o aceite,
Ao pimpolho!
Espera sentado, “acordo”
Ó badalhoco, misturado, parolo,
Impúdico lixo, moçoilo,
Estouvado, torpe, bandoleiro.
Escabroso insulto, tachista
acabado em “-eiro”,
Contigo não acordo eu,
Trauliteiro, estouvado,
Inerte fantoche, dom-roberto,
Marioneta, travesteiro,
Malcheiroso e carniceiro,
Tudesco, toscaio, cabaneiro!
Que um Diabo te carregue,
taberneiro, imundo
Sancho Panseiro, fruta podre,
Mornaceiro, entulho e candombleiro!
Que te enterrem e esqueçam, mentideiro,
Filho-duma-Grande-Mãe, abortadeiro.
Tu, “acordo” mil-novecentos-noventeiro,
Mentira, escumalha, tremoceiro,
Vai p’ró Inferno, mau dinheiro!
A tratos de polé nos puseste, gajeiro,
Bode, Bafomé, Carniceiro!
Esgrouviado, crackeiro,
Cadavérico merceeiro, de contas rascunhadeiro,
Vendido, comprado, prostiteiro,
Putrefacto, Babilónia, escroque, cretineiro!

Má’fim tenhas, tortulho,
Babugem, estultícia, entulho!
“Va de retro”, rebotalho,
Meretriz, hálito de alho.
P’rás Profundas da Geena gires.
“Acordo”-aborto, mal parido,
Maldito, antraz, escolho,
Refocilante, mácula, chifrudo.

Odeio-te, abomino-te, nego-te,
Escrita da Besta, quisto da Política,
Filho da Grande Porca, sale con,
venereal peast, gusano, maledetto,
Pestilento, má peça, decadente.

Que os teus ISBN’s se apaguem,
As meninges de quem te pariu chaguem,
E ardas, em mil Fahrenheits
Pelos ares te evoles em cinzas,
Para que nós, se em Mil Vontades te execramos
Livres, enfim, do tumor, em coro feliz digamos:
Ecce, não passa de má memória,
Esmagada, a vil escória,
Em estertores de peçonha
Rabeia, espojando-se, contorcendo-se,
já não campeia.
Apeada da cadeira, manquejante de borotoeja,
Morreu de morte-macaca, esquecida,
Reduzida à estrumeira…

Possa a madre-língua vicejar,
E, morta que foi a peste, engrandecer-se
De novo, camonejar, sem vilipêndios ou tontices,
Consoantes mudas re-debutar
Em baile de roupas brancas, pura, ágil, neo-limpa,
Contar, narrar, poetar, hífens livres de grilhões,
Vogais enchapeladas, seus acentos, pena-fina,
Consoantes presentes, sem mofina,
Repovoar palavras, repor verdades,
revoadas de sons remoçados, reconhecidos termos,
Cês, pês, ressuscitados, rebuçadais sons
Relembrados, caramelos de infância, amendoados,
Algodão-doce, regresso a casa, pipocas plenas,
Palavras queridas, recordação, língua com penas,
Esvoaçantes, reconhecidas, Palavras Plenas!

María Oliveira

daqui

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“As passadas dele ainda estão quentes”

Todos nós sabemos que o novo director do CCB, António Lamas, se apressou a repor o AO90 nos seus serviços, sem a mínima consideração pela corajosa atitude de Vasco Graça Moura. Também sabemos que o director do CNC, Guilherme de Oliveira Martins, é um entusiasta do AO90, por incrível que possa parecer. Sei que há textos de VGM que estão a ser publicados em ‘acordês’… Enfim, tudo isto reflecte o grau de abjecção a que este desgraçado país desceu: para usar uma deliciosa expressão que ouvi em tempos a um emigrante, em Paris, “as passadas de VGM ainda estão quentes” e já se procura varrer de vez a poderosa marca da sua intervenção constante, perseverante e lúcida em defesa do Português e contra o famigerado AO90!

Mas ‘é a hora’, não podemos deixá-los manipular a opinião pública de acordo com os seus camuflados interesses…

Maria José Abranches

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Não estão à altura

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Lemos e ouvimos que hoje, 17 de Maio de 2015, numa iniciativa conjunta, o Centro Nacional de Cultura (CNC) e o Centro Cultural de Belém (CCB) pretendem homenagear Vasco Graça Moura, que ocupou o cargo de director do CCB até ao dia 27 de Abril de 2014, data da sua morte, tendo tomado em Fevereiro de 2012 a corajosa decisão de não cumprir o acordo ortográfico de 90 na instituição que dirigia, argumentando que o mesmo, pelo facto de Angola e Moçambique não terem ratificado o acordo, não «estava nem podia estar em vigor».

Sabemos que homenagear Vasco Graça Moura implica lembrar forçosamente a obra que nos legou enquanto poeta e tradutor, numa sincera afeição e contínua homenagem à Língua Portuguesa que não pode dissociar-se da luta veemente que desencadeou contra a barbaridade do acordo ortográfico de 90 e que desenvolveu até aos seus últimos dias. Esse seu gesto de aturada resistência e de convicta desobediência marcou-nos e influenciou-nos profunda e beneficamente e será uma uma forma de o homenagear não esquecê-lo.

Numa mensagem que me dirigiu, a 13 de Janeiro de 2013, e que ouso tornar pública, porque o momento o exige, desabafava a propósito do AO: «Eu já estou exausto de tanto tratar do assunto…»

Porque sabemos que nem CNC nem CCB estarão à altura do gesto e do sacrifício de Vasco Graça Moura e do trabalho intenso por ele desenvolvido em prol da Língua Portuguesa, caber-nos-á continuar a sua luta, que é também a nossa, e sobre a qual tantas vezes nos fez reflectir, com a mesma resistência e desobediência que lhe conhecemos. Será uma verdadeira forma de o homenagearmos.

Com sinceridade e afeição!

Maria do Carmo Vieira

 

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