“Omnes discrepantes”… [Vasco Graça Moura, “DN”, 05.03.14]

Vasco Graça MouraEsta semana, no meio de uma embrulhada confusão de razões, contra-razões e subtilezas pouco subtis, saltitando de argumentos e de posições que não lembrariam ao Diabo, pior, que não lembrariam aos engendradores do Acordo Ortográfico, ficou-se a perceber uma coisa que digo já qual é. Mas antes, seja-me permitida uma sugestão: a de que futuros negociadores do mesmo instrumento, deputados ou não, académicos ou professores, editores, tradutores ou revisores de provas, sejam reciclados através de um curso intensivo de gramática da língua portuguesa, como condição essencial para integrarem esse grupo.

DNlogoAgora, aí vai a conclusão que tirei e que tem o seu quê de melancolicamente lesivo da língua que falamos: nenhum ou quase nenhum dos deputados está de acordo com o acordo! Houve quem se pusesse de acordo para salvar internacionalmente a face, quem se pusesse de acordo para proteger o negócio da edição escolar, quem o fizesse em nome dos ritmos de adopção do dito nos outros países, quem o fizesse em nome dos mais variados interesses. Mas não houve ninguém com peso significativo no Parlamento que fizesse oscilar a balança a seu favor pondo-se de acordo contra o acordo através do seu voto. Omnes discrepantes, como se diria adaptando ao caso uma velha fórmula latina e recordando neste ensejo a corajosa declaração do deputado Mendes Bota.

Sendo assim, funcionando o pensar dos deputados como um feixe de premissas e o resultado a que chegaram como conclusão, o silogismo é de solução impossível e contraditória. É assim que se manifesta na Assembleia da República a vontade do povo português? Ora vindo-se, desde há anos demonstrando, em números não superados por qualquer outra documentação aberta à subscrição pública, que todos os sectores sociais são contra o Acordo Ortográfico, menos possivelmente os seus autores se é que estes ainda estão todos de acordo, não se percebe esta situação a que se chegou de criação e aplicação de três grafias diferentes, agora com uma posição edulcorada do nosso Parlamento que também não vai levar longe e que não cria condições para uma revisão multilateral das regras-quadro que permitiriam a sua aplicação, nem do autêntico chorrilho de asneiras que viola mesmo o preceituado nesse instrumento internacional.

Continue reading

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2014/03/05/omnes-discrepantes-vasco-graca-moura-dn-05-03-14/

«O (des)acordo ortográfico?» [Feliciano Barreiras Duarte, jornal “i”, 05.03.14]

Nota prévia de ILC AO
Feliciano Barreiras Duarte foi o deputado que produziu o relatório final sobre a Petição/Manifesto de Vasco Graça Moura e outros, há quase 5 anos.
Neste texto vem expor mais uma vez a já velha e gasta rapsódia da “revisão” do AO90, essa “curiosa” mania de alguns, mas mesmo assim lá vai dizendo algumas coisas de interesse.

logotipojornali

O (des)acordo ortográfico?

Por Feliciano Barreiras Duarte
publicado em 5 Mar 2014 – 05:00

“É longo o caminho do projecto à coisa” – Molière

Ao debater-se e fazer-se a avaliação da aplicação do Acordo Ortográfico em Portugal e nos demais estados do espaço lusófono, devemos fazê-lo sem abusar do generalismo e da ironia. Independentemente de sermos a favor ou contra, não só da sua aprovação, mas acima de tudo da sua suspensão e ou alteração e melhoria. Porquanto se trata de uma matéria respeitante apenas ao Estado e à soberania. E nessa discussão não nos devemos deixar (salvo melhor opinião) iludir com a “doutrina da inevitabilidade” a que alguns, por desconhecimento, nos querem fazer resignar. Sabendo-se, infelizmente, que nos tempos em que vivemos, para muitos, esta é matéria é aborrecida, densa e que dá trabalho perceber, estudar, compreender. Aliás, muitos dos que emitem opinião sobre matérias desta natureza acham mais normal colocar um post num blogue ou fazer comentários no facebook, em brevíssimos minutos, que pegar de caras uma matéria que mexe com a reserva não escrita não só da nossa soberania, mas sobretudo no baú único e imaterial da nossa genética e evolução linguística, dentro e fora de portas. Não é por acaso que mesmo depois da aprovação formal do Acordo Ortográfico em Portugal e fora de Portugal passamos a vida a falar do Acordo Ortográfico. Entre as múltiplas razões para essa discussão permanente, sobressai, quanto a mim, uma que é lapidar. Na forma e no conteúdo, o Acordo foi aprovado à pressa, não fazendo parte do seu conteúdo vários aspectos “técnicos” que o tempo veio a provar que eram (são) pontos fracos graves. Mesmo para alguns dos seus principais defensores, como o professor Carlos Reis (que realizou um excelente estudo sobre a importância económica da língua portuguesa), que já fez saber da necessidade de se proceder a várias alterações. Por forma a que a língua portuguesa tenha condições, por via do Acordo Ortográfico, para se assumir como um dos instrumentos mais estruturantes e integradores de todo o espaço lusófono. Por isso devem-se aproveitar todos os contributos para que assim seja. Em particular os contributos de quem discorda do mesmo, e que tantas sugestões têm feito para que se transforme num instrumento positivo do reforço da lusofonia, a vários níveis. Só critérios político-diplomáticos, fundamentados na observância estrita de compromissos de Estado ao mais alto nível e critérios jurídico linguísticos nos devem fazer não aceitar a suspensão, por si só, deste acordo interno e internacional no âmbito da CPLP. Não fora isso, a conversa seria outra. Sobretudo para alguns membros de órgãos de soberania, que persistem em não dedicar mais do que o tempo de um post, de um clique, a matérias desta natureza. É por isso que nas coisas sérias e importantes é longo o  caminho de se teorizar sobre um projecto, estruturá-lo bem, estabilizar a metodologia correcta para a sua aplicação e obter resultados positivos. Mas isso é só para alguns. Que vão estando em minoria. Mas que não se importam.

[Transcrição parcial de crónica, da autoria de Feliciano Barreiras Duarte, publicada no jornal “i” de 05.03.14.

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2014/03/05/o-desacordo-ortografico-feliciano-barreiras-duarte-jornal-i-05-03-14/

«Geopolítica ortográfica» [Luciano Amaral, “CM”, 03.02.14]

logo_cmNa sexta-feira, o Acordo Ortográfico foi discutido no parlamento. Infelizmente, daí não resultou a possibilidade de suspender a sua aplicação. O Acordo não é uma questão ortográfica. É uma questão política. Não é ortográfica porque não cumpre o seu próprio propósito de unificar a ortografia. Sem o Acordo, a semelhança ortográfica entre Portugal e Brasil era de 96% das palavras; com o Acordo, passa a 98%. Ou seja, quase nada. Sendo que as confusões se multiplicaram. E já muita gente as enumerou.

O Acordo nasce de duas coisas: do delírio português de que existe uma entidade chamada ‘Lusofonia’ que pode ter um grande peso geopolítico mundial, e da ambição do Brasil em ser uma potência.

As duas casam bem, porque desde há muito que os portugueses só entendem a sua imaginada grandeza como algo para além de Portugal: antes era o império, agora é a Lusofonia (noutras versões, a Europa). A coisa vai tão longe que chega muitas vezes ao ponto da anulação do país. O padre António Vieira, perante a ameaça espanhola de 1663, aconselhava D. Luísa de Gusmão a esquecer Portugal e mudar-se para o Brasil para fundar o V Império; D. Rodrigo de Sousa Coutinho, no fim do século XVIII, dizia que a parte europeia de Portugal não era a “mais importante”, pelo que a rainha Maria devia ir para o Brasil; D. João VI fugiu mesmo para o Brasil quando Napoleão cá entrou em 1807, e não queria voltar. Hoje, também a Lusofonia só pode sonhar em ser um actor geopolítico graças ao Brasil.

É típico da elite portuguesa. Como o campónio que esquece as origens, sonha com os grandes espaços, a Europa, a América. Tudo menos o Portugalzinho triste e acanhado.

Diz que o Acordo é preciso para o português passar a língua oficial da ONU. Pois há um acordo muito mais simples: cada país escreve como quer.

O inglês, cuja ortografia varia de país para país e é das mais contra-intuitivas, não precisou de nada disto para ser a mais importante língua do mundo.

O preâmbulo do Acordo diz que ele é essencial para o “prestígio” da Lusofonia. Prestígio era recusar a adesão da Guiné Equatorial à dita Lusofonia.

Mais uns litros de petróleo e uns quantos bancos salvos da falência não justificam tal coisa.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Luciano Amaral, publicado no jornal “Correio da Manhã” em 01.03.14. “Links” e destaques adicionados por nós.]

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2014/03/03/geopolitica-ortografica-luciano-amaral-cm-03-02-14/

“Devia ter vergonha”…

HMexpresso
«A cedência ao Brasil é uma necessidade de quem tem 10 milhões de falantes contra 200 milhões. Se queremos manter o português como uma língua importante no panorama internacional com variantes que são próprias deste retângulo (e não apenas com as variantes brasileiras) temos de chegar a acordo com eles. Ficar orgulhosamente sós a escrever consoantes que ninguém lê, é o mesmo que dizer que o “verdadeiro português” era aquele usado do D. Diniz e que hoje, 99% das pessoas letradas não o consegue, pura e simplesmente, compreender.»
Henrique Monteiro, crónica do semanário “Expresso”, 03.02.14

«Ó Enrique, falta de sentido é a sua falta de dignidade, de orgulho. É a sua submissão a um acordo que não respeita a sua língua. É um acordo que nos humilha como povo e como pátria. É um acordo feito por vendilhões como você. Você, que tem a palavra como ferramenta de trabalho, devia ter vergonha de escrever com erros os textos que escreve.»
Joaquim Gonçalves de Oliveira (de S. Paulo, Brasil), em comentário ao artigo na página do “Expresso” no “Facebook”, 03.02.14

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2014/03/03/devia-ter-vergonha/

«Então a mudança não tem fundamento nenhum» [“O Estado do Maranhão”, 02.03.14]

MAPA BRASIL-PORTUGALOrtografia é um conjunto de regras de uma língua sobre a maneira correta de escrever as palavras e de usar os sinais de acentuação e pontuação.

Desde criança sempre respeitei as regras válidas, corretas, no falar e escrever em língua portuguesa. Se cometi e ainda cometo algum erro é porque errar às vezes foge da vontade humana.

Li, recentemente, no jornal da Associação Brasileira de Imprensa, da qual sou colaborador, há muitos anos, a magnífica notícia de que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em 2008, teve o seu prazo inicial adiado para o dia 31 de dezembro de 2015.

Sinceramente, fiquei muito feliz após ler a referida notícia e espero que o mencionado Acordo nunca seja cumprido pelo povo brasileiro. Eu, particularmente, não o cumprirei, pois não irei colocar no lixo o que já aprendi desde criança sobre a Língua Portuguesa e, em especial, as suas regras gramaticais. Nesse particular, prefiro ser chamado de desobediente, de incompetente, do que subordinado aos novos e poucos comandantes das regras gramaticais da Língua Portuguesa.

Aprendi as regras gramaticais da Língua Portuguesa lendo a Gramática da autoria de Napoleão Mendes de Almeida e em especial na década de 1960. E o que aprendi através de suas sábias lições não vale mais nada? Fico com ele e por ele sigo até morrer. A sua história revela a sua inteligência e a sua sabedoria. Não vou nunca abandonar o que aprendi lendo sempre, até hoje, as suas aulas.

Não somente no Brasil e em Portugal, fala-se também a Língua Portuguesa em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Tímor-Leste. Dentre estes qual o de maior população? O Brasil. Só por isso já merece atenção especial o seu povo, que não deve ser castigado e assim começar de novo a prender as novas regras gramaticais em atendimento ao imposto pela minoria.

O povo brasileiro, nesse particular, não deve mudar diante do que aprendeu sobre a Língua Portuguesa. Tem o direito de continuar falando e escrevendo o que aprendeu durante séculos. Assim, fez o seu passado, está fazendo o seu presente e poderá também fazer o seu futuro.

Continue reading

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2014/03/03/entao-a-mudanca-nao-tem-fundamento-nenhum-o-estado-do-maranhao-02-03-14/