«Língua rica, língua pobre e uma linha a menos» [Nuno Pacheco, revista “2”, 06.07.14]

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Língua rica, língua pobre e uma linha a menos

Por mais estéril que seja a discussão em torno da real idade da Língua Portuguesa (os 800 anos invocados por aí correspondem a um documento oficial de D. Afonso II, sendo meramente simbólicos), as comemorações lá se fizeram no Padrão dos Descobrimentos, com poesia e alguns discursos, crianças e balõezinhos, música e danças a condizer. A língua multifalou-se nos seus diversos tons e a coisa seguiu adiante, como sempre segue mesmo quando nada acontece. Ora aderindo aos redondos 800, a Academia Portuguesa de Cinema, com apoio da Assembleia Municipal de Lisboa, da Costa do Castelo Filmes e da Cinemate, exibiu na passada quarta-feira no Fórum Lisboa (antigo Cinema Roma, que em boa hora reanimou a sua programação, agora com filmes relacionados com os 40 anos do 25 de Abril) o documentário Língua, Vidas em Português.

Realizado por Victor Lopes, cineasta moçambicano radicado no Brasil há um quarto de século, o documentário (filmado em 2001) é uma curiosíssima viagem pelas voltas que o Português vem dando consoante as geografias, mas é também uma viagem por várias vidas, na maioria pobres ou muito pobres, que usam cada qual o Português a seu modo. Uma língua rica num mundo pobre, falada por pobres, mas também uma língua tão rica (por acção das culturas que dela se foram apropriando) que até se dá ao luxo de empobrecer.

“Cada vez temos menos palavras, cada vez usamos menos palavras”, diz a dada altura José Saramago, para lembrar que a riqueza conquistada pelo tempo nas expressões da fala ou literárias tem vindo a fazer um caminho inverso, empobrecendo. Como se nos esperasse um futuro onde um grunhir primitivo, monossilábico, viesse substituir a comunicação oral humana — a conclusão é do próprio Saramago, com uma irónica tristeza. Já João Ubaldo Ribeiro, escritor brasileiro que se apresenta como “usuário da língua”, dá outro exemplo. “Estamos [no Brasil] importando não só vocabulário mas também a sintaxe americana, a maneira de pensar americana, a maneira de colocar o raciocínio. Isso é que é gravíssimo. (…) Você ouve ‘porque nós vamos ir na festa depois, primeiro nós vamos ir no cinema’. ‘We will go’. Até isso tá indo embora, tá virando tempo composto em Português brasileiro.”

De um lado, Saramago diz: “Quase me apetece dizer que não há uma Língua Portuguesa. Há línguas em Português. (…) Mas não tira nada à evidência de que se trata do corpo da Língua Portuguesa, é um corpo espalhado pelo mundo.” Do outro lado, Ubaldo observa que “a que, futuramente, tenderá a ser a língua brasileira, ‘tá evoluindo muito”. Percebe-se, por esta declaração desassombrada de 2002, os medos que levaram ao estapafúrdio fingimento da ortografia unificada. Porque se o Brasil decretar uma “Língua Brasileira” (como ousaram os chilenos em relação ao espanhol) lá se vai o sonho dos 200 milhões. O filme, no entanto, não destrói a esperança, porque sublinha que, apesar da distância, da ausência, do desinteresse, a Língua Portuguesa povoa ainda, nas suas variantes, milhões de almas. “Toda noite”, anuncia o filme logo de início, “200 milhões de pessoas sonham em português. Estas são algumas delas”. Vale a pena vê-lo para nos revermos, nas nossas utopias e fragilidades. No Youtube há um excerto com boa resolução (http://goo.gl/kaF2G) e uma versão integral de má qualidade.

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«Palavras feridas» [por “Antaco”]

Palavras feridas (acordo ortográfico)

Palavra ferida
Pedra cortada
Sangue na estrada

A ambulância das letras
Correu ligeira

Estacionou o dicionário
Abriu-o na página precisa
Fez respiração letra a letra
Mediu as pulsações com a métrica
E constatou que o coração batia…
Ao ritmo de cada sílaba.

Nada de grave com a palavra!
Uma simples queda
Uma distração na dicção
Uma incorreção no andamento.

SOS,
Palavras feridas,
Palavras que morrem
A hora é de tristeza!

Escrevam manifestos,
Engrossem os protestos,
Que para vós é simples,
Não fossem vós letras
E de mãos dadas palavra

Não cedam acentuação,
Nem hifenização,
Tão-pouco grafia

Combatam a desdita
Que o melhor do mundo
Porque o espírito alumia,
É a palavra escrita.

Antaco

[Transcrição de poema, da autoria de “Antaco“, publicado no “blog” Recanto das letras (Brasil) em 03.07.14.]

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«Nenhum acordo nunca unificará» [Daniel Deusdado, “JN”, 03.07.14]

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1. Talvez interesse ao meu amigo leitor do nosso JN saber que me deu, Deus, a maravilhosa oportunidade de visitar muitas cidades do Mundo e em todas elas procurar os seus museus e assim descobrir a alma das pessoas e dos espaços. Nenhum me marcou tanto como o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. E lá encontrei um sonho. Porque vi as Palavras nas paredes, grandes, gigantescas, belas, artísticas, ou pequenas e coloridas, em formato de poemas, em formato de quebra-luz, em todas as formas e feitios. Quadros para ler com as melhores palavras do meu português querido, do nosso português brasileiro, africano de qualquer outra derivação.

Numa das instalações artísticas do Museu, um maravilhoso céu de palavras e vozes, as melhores vozes, liam, em quase escuridão, poemas e frases-monumentos. Algumas estão dentro de nós, na memória, e já nem sabemos que estão lá. De Camões a Vinicius ou Mia Couto, Pessoa e seus heterónimos e outros tantos, é absolutamente extraordinário esse momento em que sentimos as palavras a correrem-nos pelas veias, não porque entram pelos olhos e nos provocam um arrebatamento do coração, mas sim porque entram pelos ouvidos e vão direitas ao sangue – e ele ferve de emoção.

No Museu da Língua, as Palavras são música porque as vozes que as interpretam nos esmagam de beleza. E de todas as vozes da língua portuguesa, nenhuma voz me arrebata mais do que ouvir Gal Costa com aquele tom de Primavera com que sempre canta ou diz – Gal lendo português seja-ele-qual-for. Não me lembro já se foi ela quem leu este poema de Sophia Mello Breyner Andresen que me pôs em paz com este dilema: como gostar mais de ouvi-los a eles, adoptivos, que a nós, originais portugueses da língua de Portugal?

“Gosto de ouvir o português do Brasil / Onde as palavras recuperam a sua substância total / Concretas como frutos nítidas como pássaros / Gosto de ouvir a palavra com as suas sílabas todas / Sem perder sequer um quinto de vogal / – Quando Helena Lanari dizia “o coqueiro” / O coqueiro ficava muito mais vegetal”.

É esta maravilhosa diferença entre nós e eles que nenhum acordo nunca unificará.

[Transcrição parcial de crónica, da autoria de Daniel Deusdado, publicada no “Jornal de Notícias” de 03.07.14. “Links” inseridos por nós. Este texto foi transcrito com a ajuda da extensão Chrome “Desacordo ortográfico”. Agradecimentos a Hélder Magueta pelo apontador que nos enviou via Facebook.]

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«Silent Letters Speak Out» [por Gina Cooke, “blog” LEX]

O que se segue é a transcrição integral (incluindo as imagens) de um “post” publicado por Gina Cooke no seu “blog” LEX – Linguist-Educator Exchange em 30.06.14. Para ler em Português, coloque o seu “pointer” em cima de cada parágrafo e imagem.

Trata-se, em suma, do relato de um pequeno mas muito significativo episódio: a legendagem em Português europeu de um vídeo americano sobre as consoantes “mudas”. Uma excelente lição, afinal, muito bem resumida no título com que a autora baptizou o seu texto: “as letras mudas fazem-se ouvir”.

I’ve been known to say that silent letters are stories waiting to be told, but this is a story about silent letters. This past March, I received a message in my personal Facebook inbox asking me this:

GinaCooke_rui-1

I am, and I was, so I read on.

GinaCooke_rui-2

Needless to say, I was interested. Not only did I respond to my inquirer, Rui; I responded in rusty Portuguese:

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Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) no Panteão Nacional

PERFEITO

Perfeito é não quebrar
A imaginária linha

Exacta é a recusa
E puro é o nojo.

Sophia


«Miguel Sousa Tavares, que fazia anos nesse dia – circunstância a que aludiu lembrando os “demasiados anos” que se cumpriam desde a primeira vez que a mãe lhe dissera “Miguel, olha o mundo!” –, foi responsável pela mais prolongada ovação da noite quando garantiu que Sophia, se fosse viva, se oporia ao novo acordo ortográfico.»
Notícia do “Público” de 02.07.14 sobre a trasladação

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