«Otimizar a recessão» [por Jorge Pacheco de Oliveira, comentário]

Espessorecessao[cópia de comentário neste “site” em 17.11.14 às 00:36.]

«#2 | Escrito por Jorge Pacheco de Oliveira

Como se sabe, o semanário Expresso, que a si próprio se classifica como jornal de referência, foi um dos primeiros, senão o primeiro, a adoptar o AO90. Na edição digital de hoje, numa notícia sobre a sonda Philae que pousou no cometa 67P, pode ler-se o seguinte naco de prosa, atribuído a um dos cientistas da missão :
“Tivemos até de fazer uma rotação para otimizar a recessão de luz sobre os painéis solares”.
Ora aí está. Com o AO90, não é só o PIB que pode sofrer uma “recessão”. Obrigado Expresso, por nos dares essa “percessão”…
»

Confere. Imagem de ecrã (“printscreen”) da página da notícia no semanário “Expresso” em 17.11.14, cerca das 18 horas.

expresso.sapo.pt/philae-conseguiu-enviar-dados-do-cometa-antes-de-ficar-sem-bateria=f898392

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«Trata-se apenas de bom-senso» [Alexandra Azambuja, Facebook]

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Contrariando um dos mitos sobre o AO – que é um assunto arrumado, que as pessoas não se importam com isso, que só meia dúzia de velhos do Restelo são contra – 144 comentários bateram todos os recordes na minha página…

Apesar de saber que em estatística isto não tem valor, acredito no contágio positivo e fiquei feliz de saber que tantas pessoas que nunca comentaram nada na minha página se deram ao trabalho de responder.

Importarmo-nos com um assunto diz alguma coisa de nós, diz do que é importante, diz que o AO não é um tema fechado e diz que decisões só porque foram tomadas, não significa que tenham sido boas ou correctas.

Estamos sempre a tempo de pedir a suspensão do AO e mostrar que afinal um tema que eram favas contadas pode voltar atrás, se isso for melhor para todos nós enquanto povo, enquanto utilizadores da Língua.

Não há nada de Velho do Restelo em ser contra o AO.

Trata-se apenas de bom-senso.

Nada mais.

Se isto vos deixou a pensar que o vosso vizinho, colega de trabalho, amigo, ou simples conhecido do FB afinal se calhar também não concorda com o AO, que tal replicar o post da pergunta na vossa página?

Muita gente a importar-se publicamente com um assunto dá força a quem tenta travar o disparate. Vamos lá?

[Transcrição de comentário (público), em 16.11.14, de Alexandra Azambuja a um seu próprio “post” (público) na “rede social” Facebook.]

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«Delírio reformista» [por José Augusto Carvalho (Brasil), 16.11.14]

000-a-coluna-do-Joauca-500No dia 18-04-95, o Senado aprovou a reforma ortográfica proposta por Antônio Houaiss, que entrou em vigor recentemente. Foram ao todo sete reformas: 1911, 1931, 1934, 1943, 1945, 1971 e 1995. Não seria hora de dar um basta?

Não seria hora de parar de encarar o português como língua de subdesenvolvido em que qualquer um se acha no direito de mexer nela?

DELÍRIO REFORMISTA, por José Augusto Carvalho (*) .

Mal  começou a adaptação às novas regras ortográficas e surge um movimento para outra reforma mais radical, semelhante à que propôs José Joaquim de Campos Leão, nome verdadeiro do dramaturgo gaúcho Qorpo Santo em 1868: supressão do u dos dígrafos; do  h inicial; do x dífono , que seria substituído por qs, como em seqso (para “sexo”); utilização do grafema g sempre com o valor de guê (gera para “guerra”), etc.  As propostas de Qorpo Santo se encontram no livro As relações naturais e outras comédias, organizado por Guilhermino César e editado em Porto Alegre pela Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1969. Acrescente-se à falta de originalidade dos que defendem essas ideias o desprezo por questões essenciais que uma reforma gráfica enseja.

O italiano fez uma reforma mais radical que o alemão, o espanhol e, recentemente, o romeno, ao suprimir o h inicial e ao substituir o x por s (com o som de  alveolar sonora). Mas não existe correspondência biunívoca entre letra e som:  a letra c em italiano se lê como k (velar) antes de vogal central ou posterior (casa, cosa), e lê-se  como africada (tch) antes de vogal anterior (cibo, Césare); o h permanece em ho (“tenho”); o s soa como  alveolar surda (como o c de cebola)  ou como alveolar sonora (como o z de zebra), como em  stesso e cosa, respectivamente.

Dizer que a grafia é posterior à fala para justificar a adequação da grafia à pronúncia não é um argumento válido, porque é exatamente por ser posterior à fala que a ortografia deve ser lógica e racional e não intuitiva (como a fala) e deve merecer cuidados especiais para garantir a inteligibilidade de um texto escrito a falantes de dialetos diferentes da mesma língua. Quando os cronistas esportivos adaptaram a palavra inglesa “scratch” para o português escrevendo “escrete”, garantiram a pronúncia original apenas na área dialetal carioca,  em que a dental t soa como africada antes de vogal alta anterior ou de iode. No Sul, a pronúncia não seria “iscrétchi”, porque lá o t soa dental, como na palavra “ter”.

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«Na Faculdade de Letras de Lisboa ninguém aplica o AO90» [Helena Buescu, FFMS, 22.10.14]

logo_FFMSExcertos gravados de conversa em forma de tertúlia, conduzida por Carlos Fiolhais, em 22 de Outubro p.p. Gravação integral publicada pela FFMS a 29 de Outubro de 2014. Uma iniciativa da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Intervenções de Maria do Carmo Vieira, Helena Buescu e Carlos Fiolhais.

 

Citações

Helena Buescu: “Há certas coisas que não podem deixar de ser ditas, não é? Quando nós, relativamente ao acordo ortográfico, temos dezasseis pareceres de instituições que, supostamente, estavam habilitadas para fazer um parecer, desses dezasseis pareceres todos são negativos com a excepção de um, e esse um é assinado pelo autor do próprio acordo ortográfico, eu acho que… I rest my case! ”

Helena Buescu: “Na Faculdade de Letras de Lisboa ninguém aplica o acordo [ortográfico]. Ora, nós, apesar de tudo, temos alguma capacidade de reflexão sobre a língua. Creio eu. Mas, justamente, na Faculdade de Letras muita gente sabe. Portanto, não é por pura… por tradicionalismo… ou passadismo… ou seja o que for… que nós não aplicamos o acordo. E, de facto, não há ninguém que aplique o acordo.”

Maria do Carmo Vieira: “Assim como isto acontece nos programas, eu também acho obsceno, e aqui posso muito ir contra a Helena Buescu, mas eu, se estivesse no Ministério [da Educação] e tivesse de fazer um programa, eu recusar-me-ia a fazer um programa que eu escrevesse com este acordo ortográfico, que é uma aleivosia e que não é feita por cientistas, é feita por broncos, por pessoas que dizem que se tiram as consoantes mudas porque «os lusitanos são teimosos»; e isto está escrito e o mal das pessoas é não conhecerem a Nota Explicativa do acordo ortográfico, onde isto está, porque os próprios deputados da Assembleia [da República], quando votaram, não tinham lido isto, não tinham lido isto! Eu vi! E ouvi, porque estive com eles e perguntei-lhes, eu disse «então os senhores foram votar uma coisa destas mas conheceram-na, leram o texto? «Ah, tu leste? Tu leste?» Ninguém tinha conhecido isto.”

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«Despachar o português: o dever de recusa» [José Manuel Martins, “Público”, 15.11.14]

Publico-20141115Anda por aí à solta uma epidemia da obediência antecipada, um zelo narcísico em obedecer e uma pressa institucional em se fazer obedecer, a bem dos brandos costumes. Por toda a parte onde se escreva e não se questione: nas editoras, nas universidades, na escola, nos serviços públicos, nas entidades privadas “esclarecidas”. No gesto tão modernaço quanto burocraticamente hirto com que abusivamente se procura dar por “oficializado” esse disparate técnico e essa inépcia política designados “Acordo Ortográfico de 1990”, uns, mais papistas que o Papa, emitem despachos: e os subpapistas despacham-se a cumpri-los, pelo facto de serem despachos. Nessa concha fechada do institucionalismo, emitiriam e cumpririam também os despachos opostos, uns com a alegria maldosa do álibi hierárquico, os outros com o prazer perverso ligado ao acto simbólico do puro exercício formalista do poder. Ainda outros, entregues à tara provinciana de serem os primeiros; quando não é o caso de terem na mira uma oportunidade de negócio em letra impressa: “já” estarem do lado bom das vendas.

Essa admirável cultura da legalidade ignora viciosamente o vasto historial argumentativo da resistência científica e, por isso, cívica que desde 1986 torna tudo menos “evidente” (e “de vosselências mui atento e obrigado”) o cumprimento de despachados despachos.

Ah, admirável superstição de amanuenses dóceis, que nos vêm recordar, caso estivéssemos esquecidos, que a Lei é a Lei, e que a tal ponto esta tautologia é majestosa e em si mesma, que, dizem, submete por igual soberanos e súbditos, enchendo-nos a todos de candura e paz! Talvez seja vício filosófico perguntá-lo, mas, na fórmula mágica “igualdade perante a Lei”, perante que instância é que essa famosa “Lei” por sua vez responde?

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