Mil Novecentos e Noventa

“It’s a beautiful thing, the Destruction of words. Of course the great wastage is in the verbs and adjectives, but there are hundreds of nouns that can be got rid of as well.“

Telescreen

 

— E de que é que te serviu isso?
— Não serviu de nada, porque o deitei fora ao fim de uns minutos. Mas se hoje acontecesse a mesma coisa, guardava o papel.
— Olha, eu não! — disse Júlia. — Estou disposta a correr riscos, mas só se for por alguma coisa que valha a pena, não é cá por recortes de jornais velhos. Se tivesses guardado o papel, que é que podias ter feito com ele?
— Talvez não pudesse ter feito grande coisa. Mas tratava-se de uma prova. Podia ter semeado a dúvida aqui e ali, partindo do princípio de que teria coragem para mostrá-lo a alguém. Não acredito que haja hipótese de alterar o que quer que seja durante o nosso tempo de vida. Mas podemos imaginar pequenos focos de resistência a nascer aqui e ali… pequenos grupos de pessoas que se organizam, que vão crescendo a pouco e pouco, deixando talvez até um testemunho, de forma a que a próxima geração possa partir do ponto em que nós ficámos.
— Quero lá saber da próxima geração, querido. O que me interessa somos nós.
— Só és rebelde da cintura para baixo — disse ele.

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«A Lusofonia» [Miguel Tamen, “Observador”, 17.04.15]

observador_logo

A Lusofonia

Miguel Tamen
17/4/2015, 1:16

Existe mesmo uma relação especial entre as pessoas que falam português, só porque falam português?

——-

A palavra ‘lusofonia’ é um substantivo abstracto que pretende designar a qualidade de falar português. É possível que haja uma qualidade de falar português, no sentido trivial do termo; mas é tão trivial como a qualidade de falar finlandês ou swahili. Ora a palavra ‘lusofonia’ é usada na acepção de que falar português não é trivial; está ligada à ideia de que as pessoas que falam português são especiais.

Em que sentido e em relação a quem serão os falantes de português especiais? A maioria das pessoas que usa o termo ‘lusofonia’ possivelmente não achará que os falantes do português pertençam a uma espécie biológica diferente da dos falantes de swahili ou finlandês; e têm razão. Mas acham que são especiais, e sobretudo que entre todos os falantes do português existe uma relação especial, que se deve ao facto de todos falarem português.

Esta teoria não se percebe bem. É parecida com a teoria de que todos os ruivos ou todos os coxos estão unidos por uma relação especial; e que os ruivos devem lealdade aos ruivos, e os coxos aos coxos. A analogia não é injustificada: tal como ser-se ruivo, ou ser-se coxo, falar português é uma condição infrequente que não tem a ver com os méritos de quem a satisfaz. Fala-se português por casualidade. Ora o que pode ser uma relação especial entre pessoas que devem ao acaso estar nessa relação?

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A “seção” tem “subseção”? Alguém é “proativo”?

secao_subsecao«Seção, Subseção»
Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto


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Terramoto ou “terremoto”? Objecto ou “objeto”?

terremoto«Simulação dos efeitos do terremoto e do tsunami, Lisboa 1755.»
IPMA- Instituto Português do Mar e da Atmosfera

Nota (18.04.15, 16:30): esta situação já foi corrigida pelo IPMA.


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«Sob o signo da idiotice» [por Maria do Carmo Vieira]

FORUM EM LETRAS – 14 de Abril de 2015

Maria do Carmo VieiraVivemos sob o signo da idiotice, etimologicamente da «ignorância». Uma ignorância cultivada sobremaneira entre pessoas adeptas do imediato, ocupando visíveis cargos de poder, e que orgulhosamente se extasiam perante o seu vazio cultural e a sua insensibilidade face à justiça social, considerando seus inimigos todos os que ousam pensar por si próprios porque põem em causa, quantas vezes, os seus interesses. Nós, os professores, somos testemunhas dessa gritante falta de sensibilidade e de cultura, porque é disso que se trata, ostensivamente hasteadas com a reforma de 2003 no ensino, nomeadamente no ensino da Língua Portuguesa. Com efeito, em nome da facilidade, de uma apregoada alegria na sala de aula, do funcional e do utilitário, estes últimos com forte apego às exigências de mercado, a Literatura foi menosprezada, com destaque substancial para a poesia; também em nome da uniformização da nomenclatura gramatical, que havia sido posta em causa pelo Generativismo, impôs-se, em 2004, a massacrante TLEBS que, estéril, aspirou, no entanto a substituir a Gramática, mantendo-se do 1º ciclo ao secundário, com o disparate das suas designações e a confusão das suas descrições; no mesmo esquema de arrogância e de ouvidos surdos ao coro de críticas e à forte polémica suscitada, decretou-se em 2008 o dito Acordo Ortográfico de 90, paciente e hipocritamente engendrado nos bastidores, cuja barbaridade de argumentos veio sublinhar, de novo, a ignorância e a falta de cultura reinantes, o que é inegável pela leitura da Nota Explicativa do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990).

Porque somos professores e não perdemos ainda, apesar de tantas imposições, de tantas ameaças e de tanta estupidez, o sentido de ensinar, o que significa que não abdicamos da responsabilidade de responder criticamente a tudo o que ponha em causa a qualidade do ensino da língua portuguesa aos nossos alunos, apenas nos resta desobedecer colectivamente. Sabemos, com efeito, que só dominando bem a língua materna, os nossos alunos poderão pensar e exercer o seu espírito crítico; não o permitindo, somos responsáveis pelas nefastas consequências daí advenientes. Em suma, dizemos aos mentores deste Absurdo Acordo Ortográfico e aos políticos que na sua ignorância o implementaram, contrariando a vontade da esmagadora maioria dos portugueses, que, em nome da dignidade que nos assiste e que por isso mesmo não tem preço, não queremos «que nos libertem do pesado encargo de pensar».

Maria do Carmo Vieira

[Texto recebido da autora, por email, em 15.04.15. “Links” adicionados.]

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