«Contra o corte cego da consoante muda» [R.A.P., Visão]

Estou a ficar velho, mas a culpa não é minha. O corpo cria poucos cabelos brancos, ainda menos rugas e quase nenhuma pança, e a mente consegue manter-se imatura sem esforço nenhum. Estou a ficar velho por causa do acordo ortográfico. Aos 37 anos, sou um daqueles velhinhos que teimam em escrever “pharmácia” porque no tempo deles era assim. Bem sei que é cedo demais para estas teimosias, mas resisti até onde pude. Eu tentei não ser reaccionário. Não tentei com muita força, mas tentei. Continuei a escrever como sempre, mas os revisores da Visão tinham depois o trabalho de corrigir o texto de acordo com a nova ortografia. Vou pedir-lhes que deixem de o fazer. Eu sou do tempo em que se escrevia “recepção”. Não adianta fingir que sou do tempo em que se escreve “receção” para nos aproximarmos dos brasileiros – que, curiosamente, vão continuar a escrever “recepção”.

O leitor quer saber porque é que este acordo ortográfico é absurdo, do ponto de vista linguístico? Então leia um linguista, que já vários se pronunciaram sobre isso. Comigo não conta para erudição, como sabe. Eu li os linguistas, mas quem me convenceu a ser contra o acordo foi a minha avó – que só tinha a terceira classe. “Ui, vem aí digressão biográfica”, pensa o leitor. “E mete avós pouco instruídas, que acabam sempre por ser as mais sábias”, continua, já um tanto impertinentemente. Tenha calma, não é uma enfadonha história de sabedoria anciã. É uma enfadonha história de amor ancião. Nos anos decisivos da minha vida, passei muito tempo em casa da minha avó, que não era, digamos, uma pessoa exuberantemente afectuosa. Não era dada a beijos e abraços. Sucede que, talvez por isso, eu também não sou uma pessoa exuberantemente afectuosa. Também não sou dado a beijos e abraços. Quando quero explicar a uma pessoa que gosto dela, tenho de recorrer a outros estratagemas. A minha avó cozinhava. Ou esperava por mim à janela. Eu digo coisas. Deu-me para isto. Faço tudo o que é importante com palavras, porque não sei fazer doutra maneira. Acho que foi isso que me atraiu na actividade de fazer rir as pessoas: trata-se de provocar uma convulsão física nos outros – mas sem lhes tocar. O Marquês de Sade gabava-se de produzir este e aquele efeito nas senhoras. Sim, mas a tocar também eu. Gostava de ver o sr. Sade fazer com que alguém se contorcesse sem contacto físico.

Dito isto, eu estou preparado para que as palavras se alterem, para que a língua mude. Em português, temos a palavra “feitiço”. Os franceses, que não podem ver nada, levaram-na e transformaram-na na palavra “fetiche” (quem mo disse foi o professor Rodrigues Lapa). Nós voltámos a ir buscá-la, e agora usamos feitiço para umas coisas e fetiche para outras. Portanto, a língua mudou e mudou-nos. Ter fetiches é diferente (e mais compensador) do que ter feitiços. Mas a ordem certa é esta: a língua muda, e depois muda-nos. Não somos nós que mudamos a língua na esperança de que ela nos mude da maneira que queremos. Se o objectivo é aproximarmo-nos dos brasileiros, aproximemo-nos dos brasileiros. Logo se verá se a língua resolve aproximar-se também.

Claro que isto são rabugices de leigo. As rabugices de linguista têm mais valor, evidentemente. Mas o leitor também rabujaria se um acordo internacional o obrigasse a abraçar de outra forma, ou a beijar de modo diferente. “Recepção” escreve-se com “p” atrás do “ç”. É assim porque o “p” provoca uma convulsão no “e” – sem lhe tocar. E eu tenho alguma afeição por quem consegue fazer isso.
Ricardo Araújo Pereira

[Transcrição integral de artigo da autoria de Ricardo Araújo Pereira (“RAP”) na revista Visão de 05.10.11. Foto de Teatro Municipal São Luiz.]

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"Guia de Pais" (distribuição FNAC)

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“Guia de Pais – o que muda neste ano escolar” é uma publicação distribuída pela FNAC, da responsabilidade das editoras ASA, GaiLivro, Nova Gaia, Texto e Sebenta (distribuição gratuita na compra de um manual, oferta limitada ao stock existente).

Segundo o próprio “acordo ortográfico” de 1990, não existem em Português de Portugal (e PALOP), das mencionadas neste “guia”, as seguintes palavras:

Notas
1. Estas digitalizações foram originalmente publicadas na rede social Facebook e estão neste momento reproduzidas em diversos sítios virtuais.
2. A exactidão das reproduções agora aqui publicadas foi confirmada por duas fontes independentes.
3. Esta publicação é feita ao abrigo de direitos constitucionais básicos (informação, opinião, expressão) e justifica-se pelo seu evidente interesse público.

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www.portuguespt.com

O site www.portuguespt.com foi criado em Março de 2011 por um subscritor da ILC que é também um militante activo e corajoso da Causa anti-AO90 em geral. Dirigido em especial às camadas jovens, o Português PT utiliza uma linguagem incisiva, objectiva e directa, divulgando a iniciativa com extrema eficácia em especial na “blogosfera”, em “fóruns” de discussão e nas “redes sociais”.

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A Língua NÃO deve ser unificada, diz Evanildo Bechara

«Muita gente acha que a língua deve ser unificada. Não! A língua deve ser DIVERSIFICADA. Porque a língua está a serviço da sociedade. A língua acompanha a História dos povos e das pessoas que as falam. Por isso é que a língua é um património que deve ser burilado, um património que deve ser respeitado porque é um dos símbolos da nacionalidade.»
EVANILDO BECHARA
Vídeo de Fantástico/CanalF/Globo.com
(ouvir no vídeo, cerca dos 04:40 m)

[“click” em baixo para ouvir a gravação]

Evanildo Cavalcante Bechara (Recife, 26 de fevereiro de 1928) é um professor, gramático e filólogo brasileiro.
É membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra. Professor Titular e Emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF), além de titular da cadeira nº 16 da Academia Brasileira de Filologia e da cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras.[Transcrição de entrada WikiPedia.]

«Evanildo Bechara, académico da Academia Brasileira de Letras e promotor do Acordo Ortográfico no Brasil.» (Wiki)

«O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 é um tratado internacional que tem por objectivo criar uma ortografia unificada para o português, a ser usada por todos os países de língua oficial portuguesa.» (wiki)

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Onde assinar a ILC: loja «Assistimo», Almada

Assistimo – Loja de Informática
Almada

A “Assistimo – Loja de Informática”, em Almada, já consta do mapa dos locais de recolha de assinaturas. A partir de agora também neste estabelecimento poderá subscrever a ILC pela revogação da entrada em vigor do “acordo ortográfico”.

À gerência desta loja, que por sua própria iniciativa se voluntariou para a recolha de assinaturas, os nossos mais sinceros agradecimentos pelo serviço prestado à causa de Língua portuguesa.

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