“A língua posta a salvo”, por João Santos

JL_logoA língua posta a salvo* ou, meus amigos, «É assim:…»

Para Maria José Abranches, professora

Aquele antigo dirigente de uma formação política toda banhada em tradição e portugalidade contribuiu decisivamente, em meados dos anos 90, para banalizar o repelente «muitas das vezes». Julga que está a dizer «frequentemente», mas não está. Um outro, antigo ministro da Educação, embrulha-se invariavelmente num «ou seja» conclusivo ou clarificador, quando ainda não encetou o argumento e mesmo quando não há argumento. E um conhecido antecessor de Mário Nogueira na FENPROF é o estimável inventor do subtilíssimo «dizer que» no início da frase. Conquistou, conquistaram, milhões de adeptos.

Mas também há o jornalista que acha que uma intoxicação com monóxido de carbono pode causar ferimentos graves num adolescente em Montalegre ou a ‘pivot’ da estação por cabo que nos conta uma história em que entra a ‘price waterhouse có-óper’. Corrigirá no noticiário seguinte, mas, canta Godinho, «a marca ficou lá».

Na mesma semana de início de Agosto em que relembrei e recolhi estes escassos exemplos, entre tantos, o governador do Banco de Portugal dizia, entre ‘bail out’ para a esquerda e (antónimo ou complemento?) ‘bail in’ para a direita, que o Banco é o ‘owner’ da operação que culminou, no dia 3 do mesmo mês, com a criação do Novo Banco (uma homenagem sentida a Orwell e ao Ministério da Verdade). No extremo oposto, reler romances traduzidos do francês e do inglês, nos anos 50 e 60, traz-nos a surpresa de tentativas completamente frustradas de devolver, em português, aquilo que nunca viria a ter tradução: como o «jogo com esferas metálicas» pelos famigerados ‘flippers’ ou ‘pinball’ (lembram-se dos ‘The Who’? Do ‘Pinball Wizard’?), que encontro no ‘Pierrot meu amigo’, de Raymond Queneau. Mas esta era ainda uma tentativa de tradução, ditada pela muito razoável noção de que devemos, sempre, precisamente, tentar.

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«Por uma língua brasileira» [“São Paulo Review”, 28.10.14]

bresilienV«Então é preciso refletir se o “purismo sintático e lexical embute discriminação” ou se perpetua subserviência. Lê-se a propósito em um post intitulado “Liberdade para a língua brasileira”, de “outros lusófonos”: “Defendemos a ideia que no Brasil já se fala outra língua [acrescentaria: e já se escreve outra língua também].

Defendemos que seja preciso dar aos brasileiros a liberdade de falarem na sua própria língua: o brasileiro [e de escreverem na língua brasileira]. A editora francesa Assimil, que vende cursos para aprender línguas estrangeiras, vende um curso com livro e 4 CDs para aprender a falar Português, e outro curso, sempre com livro mais 4 CDs, diferente para aprender a falar brasileiro.

E essa editora tem razão, pois já são duas línguas diferentes. É altura de aceitarmos isso, como já aceitamos que na África do Sul se fala Afrikaans, que já não é holandês, e em Barcelona se fala catalão, que não é castelhano. É altura de deixarmos aos brasileiros a liberdade e o orgulho de terem a sua própria língua. Chega de acordos! O casamento acabou, é altura de divorciarmos e muito boa sorte para todos.”»

Excerto de Por uma língua brasileira: acordo ortográfico pode abolir ‘Ç’, ‘CH’, ‘H’ e ‘SS’ | São Paulo Review.

Por uma língua brasileira: acordo ortográfico pode abolir ‘Ç’, ‘CH’, ‘H’ e ‘SS’

| São Paulo Review

A obrigatoriedade da nova ortografia, que resulta do acordo entre os países de Língua Portuguesa, mas vigorando em caráter facultativo desde 2009, foi adiada até 31 de janeiro de 2015. Isso porque, agora, senadores como Cyro Miranda (PSDB,GO), Cristovam Buarque (PDT,DF), Ana Amélia Lemos (PP,RS) e Lídice da Mata (PSB,BA), entre outros, entendem a necessidade de extinguir do vocabulário linguístico as letras “ç”, “ch”, “h” e construções com dois “s”, com o objetivo de substituir a “memorização, vulgarmente conhecida como decoreba, pelo raciocínio e entendimento”, a “eliminação de contradições e duplas grafias e a redução máxima do uso de hífen ou também a sua eliminação.”

Segundo o professor Ernani Pimentel, da equipe de debate do projeto “Simplificando o Português”, “quase ninguém sabe a ortografia em nosso País e encontrar alguém que saiba usar hífen, j, g, x, ch, s, z é algo raro. Até professores precisam recorrer a dicionários para confirmar como se escreve uma palavra, de tão complexo que é o nosso sistema.”

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O AO90 (de novo) no Senado brasileiro (1)

Diz Bechara: “Medeiros Albuquerque não teve a coragem[???] de pegar uma palavra como ‘exame’, onde temos o mesmo fonema [Z, de “Brazil”] escrito agora com X, por exigência etimológica, Medeiros Albuquerque deixou[???] que a palavra ‘exame‘ continuasse com X”.

Diz Bechara: “em Portugal eles dizem ‘corruto’, enquanto que em português do Brasil nós dizemos ‘corruPto‘. Então, acontece que aí são duas palavras que divirgem [???] na língua. Agora, quando em Portugal escrevem ‘director’ com C e nós escrevemos ‘diretor‘ sem C, aí apenas há uma duplicidade somente de grafia.”

[Excertos vídeo da 1.ª sessão de audiência sobre o AO90 realizada no Senado Federal do Brasil em 21.10.14.]

Apresentamos uma citação por cada vídeo apenas a título de ilustração; qualquer dos excertos está recheado de igualmente verdadeiras “pérolas”, proferidas não apenas pelo Professor Doutor Evanildo Bechara como por outros que deste não desmerecem.

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«O acordo foi feito a toque de caixa» [Cyro Miranda, jornal “Opção” (Brasil), 23.10.14]

CongressoBrasilpinterest«Outros debates serão feitos, principalmente com os professores que, de acordo com o senador, estariam “chiando”. Isso porque os profissionais não foram chamados para a discussão. “Na verdade, ninguém foi ouvido. Esse acordo foi feito pela ABL, somente. Essa que é a grande revolta. Por isso, a comissão tem por obrigação trazer o problema e, democraticamente, discutir a questão. Não temos e nem é competência nossa dizer se haverá reforma”, avaliou. Segundo o senador, a instituição foi convidada diferentes vezes para o debate, mas nunca mandou representante.»

«Para Cyro Miranda, houve um despreparo no passado e o acordo foi feito a toque de caixa, sem o envolvimento da sociedade. Questionado sobre como promover o diálogo em um Brasil tão extenso, o tucano adiantou que pretende fazer comissões permanentes com coordenação para que as discussões abranjam todo o território nacional.»

Via www.jornalopcao.com.br

Língua Portuguesa

Senador Cyro Miranda avalia que acordo ortográfico não terá sucesso internacionalmente

23/10/2014 13h12 Por Marcello Dantas Edição 2050

Presidente de comissão do Senado responsável por analisar alterações, o goiano relata dificuldade do Brasil em compactuar mudanças com países lusófonos

O presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado, o senador goiano Cyro Miranda (PSDB), defendeu que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa seja aprovado como está. Em entrevista ao Jornal Opção Online nesta quinta-feira (23/10), o tucano disse que a questão foi mal discutida, e que, inclusive, alguns países lusófonos que assinaram o acordo não se incorporaram às mudanças.

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Venham ver a “maravilhosa língua unificada” (VII)

ESO1

Sobre as Traduções

O mini-site do ESO em língua portuguesa é comum para Portugal e para o Brasil. Foram levadas em conta as regras do novo acordo ortográfico celebrado entre todos os países de língua oficial portuguesa. No entanto, o referido acordo contempla diferenças ortográficas na linguagem escrita nos vários países, de modo a aproximar mais a escrita à pronúncia de cada país. No caso de Portugal e do Brasil, este efeito é particularmente notório em algumas consoantes mudas e acentos gráficos. Quanto às consoantes mudas omitimo-las sempre que cairam nos dois países, mas quando caem apenas num dos países damos as duas ortografias, por exemplo se(c)ção, fa(c)to. Quanto aos acentos gráficos, as diferenças são notórias no uso do acento agudo em Portugal e do acento circunflexo no Brasil. Também aqui apresentamos as duas grafias, por exemplo astró(ô)nomos, interferó(ô)metro.
Existem ainda palavras diferentes nos dois países e que ficariam incorretas se aplicássemos apenas uma ou outra ortografia. Nestes casos apresentamos as duas, por exemplo multimédia/multimídia, planeando/planejando.
Finalmente e relativamente a números é importante salientar que o bilião em Portugal tem o valor de 1 000 000 000 000 enquanto que no Brasil o bilhão vale 1 000 000 000 (o que corresponde ao milhar de milhão em Portugal). Nestes casos optámos por utilizar as duas notações marcando explicitamente a que país se refere o quê, por exemplo:
dez mil milhões (Portugal)/dez bilhões (Brasil) de anos.

Daqui: www.eso.org/public/brazil/

Ver mais coisas da “maravilhosa língua unificada“.

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