«O acordo foi feito a toque de caixa» [Cyro Miranda, jornal “Opção” (Brasil), 23.10.14]

CongressoBrasilpinterest«Outros debates serão feitos, principalmente com os professores que, de acordo com o senador, estariam “chiando”. Isso porque os profissionais não foram chamados para a discussão. “Na verdade, ninguém foi ouvido. Esse acordo foi feito pela ABL, somente. Essa que é a grande revolta. Por isso, a comissão tem por obrigação trazer o problema e, democraticamente, discutir a questão. Não temos e nem é competência nossa dizer se haverá reforma”, avaliou. Segundo o senador, a instituição foi convidada diferentes vezes para o debate, mas nunca mandou representante.»

«Para Cyro Miranda, houve um despreparo no passado e o acordo foi feito a toque de caixa, sem o envolvimento da sociedade. Questionado sobre como promover o diálogo em um Brasil tão extenso, o tucano adiantou que pretende fazer comissões permanentes com coordenação para que as discussões abranjam todo o território nacional.»

Via www.jornalopcao.com.br

Língua Portuguesa

Senador Cyro Miranda avalia que acordo ortográfico não terá sucesso internacionalmente

23/10/2014 13h12 Por Marcello Dantas Edição 2050

Presidente de comissão do Senado responsável por analisar alterações, o goiano relata dificuldade do Brasil em compactuar mudanças com países lusófonos

O presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado, o senador goiano Cyro Miranda (PSDB), defendeu que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa seja aprovado como está. Em entrevista ao Jornal Opção Online nesta quinta-feira (23/10), o tucano disse que a questão foi mal discutida, e que, inclusive, alguns países lusófonos que assinaram o acordo não se incorporaram às mudanças.

“Nós não podemos fazer uma alteração ortográfica ultramais, ou voltar atrás, o que é muito perigoso”, disse. Cyro Miranda alertou que os alunos das escolas irão começar os estudos aprendendo uma regra e, após um ano, o ensino será alterado.

Isso porque o acordo era para entrar em vigor em 31 de dezembro de 2012 no Brasil. Porém, os integrantes da comissão solicitaram o adiamento na época. O pedido foi acatado em decreto pela presidente Dilma Rousseff (PT). A nova data para a aplicação é de 1º de janeiro de 2016.

Segundo o senador, a realidade do atual acordo reflete a “incapacidade” do governo federal de estar presente nas negociações tanto internas quantos externas para aprimorar as medidas. “Se foi mal feito ou não, estamos praticando ele aqui.” Na opinião dele, o acordo não terá sucesso internacionalmente — esta é a segunda tentativa de unir a Língua Portuguesa. “O importante é não mexermos na nossa ortografia. Nesse momento, podemos sim fazer um estudo durante muitos anos para simplificar a nossa ortografia em consonância com a fonética, mas que não seria executada agora”, argumentou.

Conforme pontuou o político à reportagem, não se pode aceitar nenhuma mudança na ortografia, de modo que não se altere princípios básicos da cultura e história nacional. Caso os outros países não aceitem as alterações, será criada uma confusão. “Não é brincadeira. Há editoras [de livros] e toda uma base acadêmica de ensino de primeiro grau, fundamental e médio envolvida”, sustentou.

Além do Brasil, a articulação, assinada em decreto do dia 16 de dezembro de 1990 pela presidência da República, envolve Guiné-Bissau, Cabo Verde, a República Democrática de São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Portugal — junto ao Brasil, esses três últimos países pediram o adiamento da unificação da língua.

As regras do último acordo estão sendo adotadas no Brasil, por editoras, por exemplo, mas só serão obrigatórias a partir do ano que vem. No entanto, não se sabe se o País irá aderir às mudanças.

Debates

Nesta semana, a comissão presidida por Cyro Miranda realizou debates com especialistas da Língua Portuguesa. Na terça-feira (21), o gramático Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras (ABL), defendeu o acordo. Em contrapartida, Ernani Pimentel, presidente do Centro de Estudos Linguísticos da Língua Portuguesa(ver nota), cobrou maior simplificação gramatical, mas futuramente.

Evanildo Bechara considerou que a simplificação fonética, “aparentemente ideal”, resultaria em mais problemas que soluções, pois extinguiria as palavras homófonas (aquelas que têm o mesmo som, mas escrita e significados diferentes). Como é o caso de seção, sessão e cessão, que ficariam reduzidas a uma só grafia – sesão –, e prejudicaria a compreensão da mensagem.

O gramático disse que as dificuldades na alfabetização e no ensino da língua escrita não se resolvem com a simplificação ortográfica. A opinião é compartilhada por Cyro Miranda: “Sou apenas mediador, como presidente [da comissão] não posso me envolver em partido e linhas de defesa. Tem um pensamento muito avançado, e outro muito avançado. Se dependêssemos de alguns, estaríamos escrevendo farmácia com PH. O problema pode ser resolvido no início dos estudos”, argumentou.

Ernani Pimentel é contra as mudanças, citando que não houve diálogo com a sociedade e com quem atua na área. Ele lidera o movimento para adoção de critério fonético na ortografia, ou seja, a escrita das palavras orientada pela forma como se fala. A partir desse critério, a palavra “chave”, por exemplo, seria escrita com x — chave –, sem preocupação em considerar a etimologia.

O político goiano concorda que a nova reforma é muito confusa, pois há situações de confusão entre a escrita e a fala. “Coisas que usualmente se faz de uma maneira, mas a lógica é outra, e vice-versa. Ela é necessária, mas não agora”, falou Cyro Miranda.

Outros debates serão feitos, principalmente com os professores que, de acordo com o senador, estariam “chiando”. Isso porque os profissionais não foram chamados para a discussão. “Na verdade, ninguém foi ouvido. Esse acordo foi feito pela ABL, somente. Essa que é a grande revolta. Por isso, a comissão tem por obrigação trazer o problema e, democraticamente, discutir a questão. Não temos e nem é competência nossa dizer se haverá reforma”, avaliou. Segundo o senador, a instituição foi convidada diferentes vezes para o debate, mas nunca mandou representante.

Para Cyro Miranda, houve um despreparo no passado e o acordo foi feito a toque de caixa, sem o envolvimento da sociedade. Questionado sobre como promover o diálogo em um Brasil tão extenso, o tucano adiantou que pretende fazer comissões permanentes com coordenação para que as discussões abranjam todo o território nacional.

[Transcrição integral de  notícia publicada pelo jornal brasileiro  “Opção” em 23.10.14. Mantivemos nesta transcrição a ortografia brasileira do original. Os destaques e “links” foram inseridos por nós.]

[Imagem Pinterest]

Nota: não conseguimos encontrar qualquer “site”, página electrónica ou “blog” desse tal “CELLP” que refere e do qual se diz presidente Pimentel.

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4 comentários

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    • Luís Ferreira on 26 Outubro, 2014 at 17:11
    • Responder

    Com a mixórdia que se vive por cá, isto ainda vai ficar assim:

    – o Braziu, retira-se e dá o dito, por não dito;
    – Angola e Moçambique ficam com a ortografia impoluta;
    – Portugal fica com a ortografia feita num oito e a ver horas;
    – os editores oportunistas ficam agarrados por terem apostado no cavalo errado (mas foram avisados – BEM FEITO!!!): não conseguem exportar livros. Pimba!
    – os nossos políticos de meia tigela levam outra banhada dos brasileiros e não têm coragem de voltar a palavra atrás, como covardes que demonstram ser!

    Fica tudo a dever-se à miséria de políticos que nós temos!!!
    Um dos quais parece mais uma natureza morta, do que um político.

    • Fernando Félix on 26 Outubro, 2014 at 18:04
    • Responder

    O acordo foi acordado entre meia dúzia de sabichões e contra a maioria da população. Deviam ter vergonha na cara e demitirem-se dos altos cargos que representam. O povo, principalmente o português não quer tal aberração com o acordo de 90. É completamente um desastre para a língua portuguesa, incongruente, ilógica, dupla escrita de diversos vocábulos, fonética alterada, enfim uma língua nova feita à pressa. Tinha que dar merda.

    • Maria José Abranches on 30 Outubro, 2014 at 0:15
    • Responder

    Este miserável AO90, feito para agradar ao Brasil, cuja ortografia sofre muito menos do que a nossa, pelo menos lá suscita discussões e debates… Por cá, os sôfregos de ‘mudança’, ‘modernidade’ e ‘evolução’ aplicam embevecidos… E os que ainda têm um mínimo de consciência, conhecimento e responsabilidade… calam-se!

  1. É positivo o debate quando os especialistas são chamados para fazer as suas colocação. Mas isso deveria ter acontecido em 1990. Depois de 2004, outra oportunidade de avaliação foi deixada de lado. Exatamente quando a Associação Portuguesa de Linguística avaliou o texto do Acordo Ortográfico e deu seu parecer. Por que só agora Evanildo Bechara comparece na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal? Será porque o Prof. Ernani Pimentel e o Prof. Pasquale Cipro Neto estiveram em Portugal? Ou ainda, por causa do Simpósio Ortográfico-Linguístico da Língua Portuguesa?

    Que resolvam isso de uma vez!

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