«Por uma língua brasileira» [“São Paulo Review”, 28.10.14]

bresilienV«Então é preciso refletir se o “purismo sintático e lexical embute discriminação” ou se perpetua subserviência. Lê-se a propósito em um post intitulado “Liberdade para a língua brasileira”, de “outros lusófonos”: “Defendemos a ideia que no Brasil já se fala outra língua [acrescentaria: e já se escreve outra língua também].

Defendemos que seja preciso dar aos brasileiros a liberdade de falarem na sua própria língua: o brasileiro [e de escreverem na língua brasileira]. A editora francesa Assimil, que vende cursos para aprender línguas estrangeiras, vende um curso com livro e 4 CDs para aprender a falar Português, e outro curso, sempre com livro mais 4 CDs, diferente para aprender a falar brasileiro.

E essa editora tem razão, pois já são duas línguas diferentes. É altura de aceitarmos isso, como já aceitamos que na África do Sul se fala Afrikaans, que já não é holandês, e em Barcelona se fala catalão, que não é castelhano. É altura de deixarmos aos brasileiros a liberdade e o orgulho de terem a sua própria língua. Chega de acordos! O casamento acabou, é altura de divorciarmos e muito boa sorte para todos.”»

Excerto de Por uma língua brasileira: acordo ortográfico pode abolir ‘Ç’, ‘CH’, ‘H’ e ‘SS’ | São Paulo Review.

Por uma língua brasileira: acordo ortográfico pode abolir ‘Ç’, ‘CH’, ‘H’ e ‘SS’

| São Paulo Review

A obrigatoriedade da nova ortografia, que resulta do acordo entre os países de Língua Portuguesa, mas vigorando em caráter facultativo desde 2009, foi adiada até 31 de janeiro de 2015. Isso porque, agora, senadores como Cyro Miranda (PSDB,GO), Cristovam Buarque (PDT,DF), Ana Amélia Lemos (PP,RS) e Lídice da Mata (PSB,BA), entre outros, entendem a necessidade de extinguir do vocabulário linguístico as letras “ç”, “ch”, “h” e construções com dois “s”, com o objetivo de substituir a “memorização, vulgarmente conhecida como decoreba, pelo raciocínio e entendimento”, a “eliminação de contradições e duplas grafias e a redução máxima do uso de hífen ou também a sua eliminação.”

Segundo o professor Ernani Pimentel, da equipe de debate do projeto “Simplificando o Português”, “quase ninguém sabe a ortografia em nosso País e encontrar alguém que saiba usar hífen, j, g, x, ch, s, z é algo raro. Até professores precisam recorrer a dicionários para confirmar como se escreve uma palavra, de tão complexo que é o nosso sistema.”

Língua difícil, o Português, falado e escrito por 230 milhões de pessoas no mundo, confunde, exaspera, dificulta a alfabetização, desanima o hábito de leitura, mantém um rigoroso quadro de “errata”, não é incluída facilmente no processo de comunicação estrangeiro, reprova em profusão em concursos e leva o povão a criar alternativas linguísticas que incluem gírias, formas apocopadas, reducionismo, pobreza de expressões, ambiguidades, entre mais deméritos.

No ensino/aprendizado da Educação, mantém-se a dificuldade de explicar – e convencer o alunado – por que “estender” se escreve com “s” e “extensão” é com “x”; porque “pé de sapato”, “pé de chinelo”, “água de colônia”, “manda chuva” são escritas sem hífen, mas “pé-de-meia”, “guarda-chuva” e “água-de-cheiro” têm hífen?

Como justificar, na lógica da significação, a supressão da letra “c”, por exemplo, na palavra “pacto”, se sem essa letra o sentido conduz ao discernimento de “pato”?

Seria possível um “pato social” ?, questionam com bom humor portugueses do mercado editorial de Lisboa. Não há consenso ortográfico entre os oito países componentes da comunidade lusófona.

Para o eurodeputado Paulo Rangel, o acordo ortográfico é merecedor de “boicote cívico a uma mudança arrogante e inútil.” O Jornal de Angola, que não ratificou o acordo, assim como Moçambique, publicou que “se queremos que o Português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio de palavras; há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios.”

Mesmo reconhecendo ser o Português o 5º idioma mais falado do mundo e o 6º mais falado/escrito na internet, o lusitano Pedro Miguel do Amaral, declarando-se não ser um “purista da língua portuguesa” e sob o título “Democracia das falácias”, reconheceu também que “muita da pobreza que ficou em países como São Tomé, Guiné ou Timor é fruto da nossa descolonização, e agora que temos os meios para agir [em função do acordo ortográfico] não vamos perder esta oportunidade”. E deu uma alfinetada no Brasil: “Se a origem no Português está na Velha Europa, por que temos que imitar os do outro lado do Atlântico?

O imenso Mário de Andrade, já em 1943, quando se propôs uma reforma ortográfica, escreveu: “Não me interessa discutir se esta ou aquela é a ortografia que presta ou não. Precisamos é de acabar com a bagunça. Aqui, todo mundo escreve como bem entende. O Estado da Bahia tem h. A baía de Guanabara não tem. Acredito que a questão ortográfica tem contribuído muitíssimo para a desordem mental no Brasil.”

A bronca procede: segundo os professores Marcelo Módolo e Henrique Braga, da USP, “os alunos erram problemas de outras matérias porque não entendem a língua portuguesa.” Por isso para a escritora portuguesa Inês Pedrosa a questão da reforma ortográfica é “um acordo em desacordo.”

Contudo, o Nobel José Saramago asseverou que “se o Português quer ganhar influência no mundo, tem de apresentar-se com uma grafia única.” Com o título “Reforma estúpida”, o filósofo e escritor Hélio Schwartsman publicou na Folha de S. Paulo que “nunca foi meia dúzia de consoantes mudas, como nas formas lusitanas ´adopção´ e ´óptimo´, que constituíram barreira à intercomunicabilidade entre leitores e escritores dos dois lados do Atlântico.”

Helena Topa, defensora crítica do acordo ortográfico, levantou várias questões alusivas: “como avaliar a escrita em função da articulação de cada aluno? Como ensinar a noção de norma se ela admite exceções e regras facultativas? O que mais me preocupa não é haver pessoas radicalmente contra ou a favor, é haver muita ignorância e uma multiplicação de artigos de opinião que pouco fazem para esclarecer.”

Língua brasileira para brasileiros e o mundo

Minha opinião: Nelson Mandela disse que “os tempos mudam e nós temos de ser suficientemente inteligentes para mudar com eles.”

O Brasil precisa ter independência linguística e idiomática. É imperativo oficializar para o país uma língua brasileira, enriquecida que foi e é pela miscigenação cultural, que se amplia com a globalização, além do substrato linguístico oriundo da etnia indígena, nativa no país, do estrato linguístico advindo por empréstimo ou via estrangeirismos, sobretudo das línguas paleo-hispânicas, da forte incidência do africanismo e de línguas como o italiano, o inglês, o japonês, o alemão, entre outras. Nesse sentido, nós somos uma Babel feliz.

O Português, desde a colonização, permaneceu como uma língua de dominação, em detrimento, por exemplo, do legado in natura do tupi-guarani. Colonizadores, religiosos e autoridades régias lusitanas, além do vezo componente da corte, muito pouco fizeram – se é que realmente tiveram essa intenção, – para aprender uma língua indígena e torná-la fluente e oficial na então colônia.

Talvez os bandeirantes tenham feito mais nesse sentido também. O Português, por isso (também) nunca foi a “língua materna” como quer fazer crer o deputado e ministro Aldo Rebelo, senão que o idioma imposto no Brasil com as regras rígidas praticadas no “Português castiço” de Portugal.

A suposta submissão intransigente de lusófonos e mesmo de brasileiros de índole submissa, preservadores da castidade linguística lusitana, talvez não viesse a supor que o Brasil é antes de tudo uma nação pautada pela flexibilidade oriunda de uma miscigenação de etnias, costumes, tradições, adaptados ao inconformismo das mudanças, sob bem menos preconceitos, sobretudo em face aos modus faciendi e modus operandi do povo.

Por isso, entende-se que preservar o Português praticado em Portugal seja subserviente ao país colonizador. Sírio Possenti vai dizer em “Efeito pela causa” que a língua é um meio de dominação de um povo sobre o outro, mas é ainda mais verdadeiro que as línguas apenas acompanham a invasão dos homens (exércitos), negócios, produtos e costumes.”

Então é preciso refletir se o “purismo sintático e lexical embute discriminação” ou se perpetua subserviência. Lê-se a propósito em um post intitulado “Liberdade para a língua brasileira”, de “outros lusófonos”: “Defendemos a ideia que no Brasil já se fala outra língua [acrescentaria: e já se escreve outra língua também].

Defendemos que seja preciso dar aos brasileiros a liberdade de falarem na sua própria língua: o brasileiro [e de escreverem na língua brasileira]. A editora francesa Assimil, que vende cursos para aprender línguas estrangeiras, vende um curso com livro e 4 CDs para aprender a falar Português, e outro curso, sempre com livro mais 4 CDs, diferente para aprender a falar brasileiro.

E essa editora tem razão, pois já são duas línguas diferentes. É altura de aceitarmos isso, como já aceitamos que na África do Sul se fala Afrikaans, que já não é holandês, e em Barcelona se fala catalão, que não é castelhano. É altura de deixarmos aos brasileiros a liberdade e o orgulho de terem a sua própria língua. Chega de acordos! O casamento acabou, é altura de divorciarmos e muito boa sorte para todos.”

É preciso ter sempre em consideração temática que em “Norma oculta – língua e poder na sociedade brasileira”, o professor da UnB, pesquisador da Universidade de Santiago de Compostela, poeta e tradutor Marcos Bagno sai convicto em defesa do Português brasileiro, assim como de uma gramática pedagógica do Português brasileiro, opondo-se com sólidos argumentos à casta letrada incumbida de defender a pureza estática da língua.

Lembra Fábio Della Paschoa Rodrigues que em carta datada de 1/10/1999, Marcos Bagno, sempre guerreiro na questão, esclareceu ao deputado Aldo Rebelo que tanto a Academia Brasileira de Letras quanto o gramático Napoleão Mendes de Almeida propagam o mito da unidade linguística do Brasil, bem como o preconceito linguístico. Paulo Vítor Mattos Silva, da UERJ, recorda, por sua vez, que Bagno argumenta que ensinar o Português em detrimento do Brasileiro “é querer provar que a língua boa, certa e bonita vive do outro lado do Atlântico, falada por habitantes de um paraíso linguístico chamado Portugal.”

Ou seja, na leitura agora do professor da UERJ, “é se esquecer de que somos um povo de tradições difusas, mas hegemônico no que concerne à identidade nacional e que a riqueza que nos excede culturalmente reflete-se na língua, singularizando-a, tornando-a particular de um povo que historicamente a lapidou.”

Há ainda o contingente demérito de que, por não sabermos falar Português corretamente, escrever então nem se fala!, – prevalece “um conjunto de mitos infundados inerentes a uma língua emprestada a qual não respeitamos e abastardamos o tempo todo.”

Outra que também defende a autonomia da língua brasileira é Rosa Virgínia Mattos e Silva, autora de “O Português são dois”. Por seu turno, o citado Paulo Vítor Mattos Silva pontua no paper “Português Brasileiro: pluralidade singular”, que três fatores são essenciais para justificar a evolução do processo de maturidade de uma língua brasileira: “o indígena, o negro e os falares americanos.”

Segundo este autor, o elemento indígena foi definitivo para a história da língua atualmente falada em nosso país, e, se não fosse pela migração da corte lusitana e a intervenção pombalina, poderíamos ter sido o maior país a desenvolver, de forma homogênea, uma língua indígena.”

Em relação ao elemento negro, este professor destaca dois grupos: o ioruba, sobretudo na Bahia, e o banto, com maior relevância em influência na língua, em razão do maior número de falantes; mas reconhece, no entanto, que o elemento negro não se fez presente, no período colonial, em todas as regiões.

O fato de se reivindicar, hoje, uma língua brasileira para brasileiros, calcada no pensar, sentir e agir do povo nascido e vivendo no Brasil, não significa, todavia, em revanche linguística ou de qualquer outra natureza contra Portugal.

Um comentário virtual de Ebrael Shaddai, publicado em 29 de outubro de 2013 na internet, dá a entender, no entanto, que com o acordo ortográfico “o Brasil está a encurralar Portugal”, que a pretensão do país é a “humilhação de um império sem que tenha as condições para o ser”, em busca “de uma liberdade de indiferença”, cuja língua portuguesa “transformou-se em uma arma de arremesso político que, de uma forma totalmente irracional, serve de instrumento para se ajustarem contas com a História.”

Ora, o Brasil foi espoliado demais em suas riquezas naturais, cuja exportação “na marra” pagou absurdas contas lusitanas a credores estrangeiros, para ter essa pretensa atitude mesquinha, quase infantil, de vingar-se idiomaticamente do seu tutor colonizador. Um outro comentário, de Orlando Braga, sentencia: “Que me desculpem os portugueses, de quem eu gosto muito e com quem eu me identifico. Mas a Língua Portuguesa não tem dono. Se o Brasil quiser escrever com números, hieróglifos ou alfabeto cirílico, que assim seja.

São entre 80% e 90% dos falantes da língua portuguesa. Quem não concordar com a língua que se fala e escreve no Brasil, é muito simples: não compre livros brasileiros, não assista à televisão brasileira, não veja filmes brasileiros, não ouça a música brasileira. Quem sabe isso não ajudará aos outros a valorizar a sua própria cultura?”

A luta por uma língua brasileira vem desde sempre e José de Alencar foi um dos pioneiros na defesa da nacionalidade linguístico-idiomática. Um dos remanescentes da reflexão sobre o literário e a natureza da Língua, afastando a linguagem dos padrões portugueses, José de Alencar escreveria: “Nós, os escritores nacionais, se quisermos ser entendidos de nosso povo, havemos de falar-lhe em sua língua, com os termos ou locuções que ele entende, e que lhes traduz os usos e sentimentos.”

Em 1855, Joaquim Norberto de Sousa Silva, em texto intitulado “A Língua Brasileira”, escreveria: “Já alguém nos lançou no rosto, que não temos literatura nacional, porque não temos língua; ficou porém provado a toda luz que a literatura de povo [sic] é a voz de sua inteligência, e da influência do nosso clima, da configuração do nosso terreno, da fisionomia de nossos vegetais, do aspecto da natureza do nosso país, ou risonha ou selvagem, e de nossos usos e costumes, tudo tão dessemelhante de Portugal, devia resultar uma tal ou qual modificação nessa literatura, embora portuguesa mas produzida pelos brasileiros: e consentisse então que a essa modificação se chamasse sem impropriedade alguma literatura brasileira.”

Este autor coteja que à época colonial “só no Amazonas encontravam-se até 1639 umas 150 línguas, afora as que depois se descobriram” (quantas sobreviveram em razão da prevalência do português enquanto língua imposta?). E lembrou Varnhagen, por dizer que “o estudo da língua guarani é digno, à par da grega, de ser cultivada como língua sábia e necessária, não só por dar esclarecimentos na etnografia e na botânica, como nos diferentes ramos da zoologia”; e Santa Rita Durão, cujo “belo poema [Caramuru] foi friamente recebido pelos portugueses”, porque nele os nomes brasileiros Paraguaçu, Caeté, Imboaba, Jacarandá, entre outros, “abundavam de vogais” e, por isso “ridículos.”

Com razões patrióticas, mas não de viés ufanista, Afrânio Coutinho, da ABL, também pôs-se a defender a língua brasileira, lembrando ele que, em 1935, pelo Decreto nº 25, de 16 de setembro, a Câmara Municipal do antigo Distrito Federal baixou determinação no sentido de que “os livros didáticos, relativos ao ensino da língua serão adotados nas escolas primárias e secundárias do DF quando denominarem de Brasileira a língua falada e escrita no Brasil.” Argumentou: “A filologia brasileira e os professores de vernáculo teimam em não enxergar a evidência da transformação radical que está sendo operada na fala e na escrita da língua usada em nosso país.

Os professores continuam a ensinar uma língua totalmente defasada em relação ao uso. Quem faz uma língua é o povo, todos sabemos disso. Desde o século XVI que a nossa está sofrendo um impacto violento das novas condições geográficas, políticas, sociais, literárias, interpretados pela população local. Exemplo gritante é o de Gregório de Matos, criador de uma tradição nova que a linguagem adotaria e desenvolveria através dos séculos. O padre Antonio Vieira escandalizou os ouvintes em Lisboa, ao pregar com o sotaque brasileiro (já no século XVII). Ele mesmo recomendava aos noviços na Bahia que seguissem a língua “brasílica” ao pregar aos silvícolas. (…) O que temos de fazer é adotar logo a denominação “língua brasileira” como título da nossa língua.” Et caterva.

Ortografia é, antes de tudo, motivo de polêmica

Gente séria não esquece o livro didático adotado pelo Ministério da Educação, “Por uma Vida Melhor”, que despertou reações exacerbadas, porque baseado no senso comum e no temor não de todo infundado de que as escolas brasileiras passariam a ensinar e escrever errado, cuja discussão, inclusive na mídia, levou sentinelas de plantão da língua a uma autocrítica.

Com ou sem acordo ortográfico, não é nada recomendável, como de resto burrice, aceitar construções como “nóis vai”, “menas”, “seje”, “estou meia triste”, “pobrema”, “de menor”, “de a pé”, entre dezenas de outras, ou as famigeradas detectadas em redações de vestibulandos e de concorrentes em concursos públicos, a exemplo de “melhor organizado”, “haviam poucas pessoas no evento”, “vai ter que ter ações para a Copa”, “eles pegaram o lixo e jogaram no rio” (pegos do exemplário citado por Claudia Perrotta e Lúcia Masini, na internet).

Pode até ser que a “galera” do “hello crazy people” e dos “irados” hodiernos não conheça, além dos livros citados neste artigo, a “Gramática Histórica” de Ismael L. Coutinho, as Histórias da Língua Portuguesa respectivamente de Homini Boainain Hauy e de Dulce de Faria Paiva, o “Língua portuguesa no mundo”, de Sílvio Elia, o “Dicionário construtivo luso-brasileiro”, de Mauro Villar, “A formação histórica da Língua Portuguesa”, de Francisco Silveira Bueno, ou a “Revista Littera”, que trata da unificação racional do Sistema Ortográfico comum ao Brasil e Portugal, e tutti quanti, mesmo porque não tem ela a obrigação de ser “erudita” ou portadora de um conhecimento específico alusivo ao tema.

Contudo, não precisa também exagerar na ignorância. “Não se tratava mais de apenas ensinar a ler, escrever e contar, como acontecera nas escolas da colônia”, analisa Ilmar Rohloff, ao tratar da formação do Estado nacional no Brasil. “Tratava-se [como ainda é pertinente e muito] de difundir o mais amplamente possível a ´língua nacional´, sua gramática incluída, de modo a superar as limitações de toda natureza impostas pelas falas regionais, e assim reproduzindo em escala mínima e individual o esforço gigantesco que, em escala ampliada, era [como ainda deve ser] desenvolvido pelos escritores românticos, Alencar à frente.”

O assunto é, por todos os motivos, divisor de opiniões e, portanto, polêmico. Vejamos algumas. A opinião experiente do professor e poeta Paschoal Motta, ex-editor do Suplemento Literário de Minas Gerais:

“Essas colocações e outras sobre grafias, através da história da Língua Portuguesa (com iniciais maiúsculas) já derrubaram muitas árvores. A mais recente Ortografia, um desastre cacográfico. Complicou-se o complicado.

Todos os acentos, de início, deveriam ser abolidos, como todos os hífens e outras pedras no caminho da escrita da Última Flor do Lácio. José Simão, o da Folha, vive repetindo que no Brasil todos escrevem e falam errado, e todos se entendem. Não é bem assim. Cada falante ao se expressar com outro, tem intenção de ser entendido, de comunicar uma ideia, e isso é que segura a peteca da balbúrdia babélica.

Vale mais é ficar atento quanto às várias linguagens, saber entender elas e conhecer o padrão, a formal. Não existe, em tese, “erro de Português”, mas diferentes modos e meios de comunicar mensagens. Entre as neolatinas, o Francês, graficamente, bate firme ao lado do Português. Felizmente jogamos no lixo as letras dobradas.

E nem eram etimológicas quase todas as palavras com as ditas. O Latim tinha acentos gráficos: o Inglês tem? O Volapuque tem? Esperanto? Inventaram Y para o Tupy, que nem grafia tinha…Ao que parece, o Espanhol caminha a passos rápidos para acabar com isso de acentuação gráfica. É a mais limpa entre as irmãs e a mais preferida.

A acentuação gráfica portuguesa tem uma longa história e todas apenas preocupadas com os utentes do idioma, como se fosse a Língua Portuguesa a única da Terra. Fico imaginando a “jirisa” que estrangeiros sentem quando se aventuram no aprendizado da Língua de Lima Barreto escrita.

O Acordo de 1943 é protótipo em firulas diacríticas. Guimarães Rosa acentuava a seu bel prazer… O mesmo fazia um falecido amigo maranhense-mineiro, de belíssima expressão escrita, tendo tão somente o primário. Deixou um livro, Cometimentos, que poucos conhecem, com crônicas deliciosas, pelos assuntos e expressão literária. Salatiel Queiroz abominava nossas normas de grafias.

A crase, outra pedreira, era, no Renascimento, grafada com 1 A. Depois, soldaram a preposição com o artigo e virou um inferno, como o abominável hífen. Pior, como brinca Ferreira Gullar (não sei se ele foi o primeiro), dizendo que a crase não foi feita para humilhar ninguém. Mas eu corrijo: foi e é humilhante.

O último (des)acordo foi inventado por quem? Quem é o pai? A mãe? Filho feio já teve pai e mãe alguma vez? Dou um quindim para as autoridades que aprovaram a última reforma ortográfica, se souberem acentuar os ditongos orais em E e O, no meio e no final de palavras; os hiatos e que tais…

E nós cá, pobres mortais, que nem macaqueamos mais a sintaxe lusíada, ficamos à deriva nesse vale de lágrimas, chorando e rangendo dentes… Meu abraço e admiração pela abordagem inteligente dessa balbúrdia babélica a que chamamos Orto/grafia.”

Professor doutor Eloésio Paulo: “Li com atenção o artigo e considero bons seus argumentos, mas não concordo com a proposta. Tenho uma noção civilizatória da língua e minha experiência como professor me diz que só os preguiçosos ou burros (eles existem, ao contrário do que afirmam os pedagogos) não conseguem, e porque não leem nem bula de remédio, escrever sem cometer erros elementares de ortografia, regência e concordância. Em algumas coisas, a tradição funciona mesmo que não faça muito sentido, e acho que o idioma é uma delas.”

Escritor Pedro Maciel: “Acho que poderia incluir no artigo o fragmento que cita escritores, filólogos etc e tal, que deveriam pensar na reforma e não os políticos que não sabem nem mesmo escrever, com raras exceções.”

Comentário: pode-se dizer, na esteira de Vanise Medeiros em seu ensaio “A língua em solo brasileiro na Revista Brasileira no período de JK”, pinçável na internet, que os filólogos são aqueles que mais do que saber a língua tem um reconhecimento por um saber sobre a língua; é aquele a quem se confere o papel de “legislador” da língua.

À Academia Brasileira de Letras coube a gramatização do brasileiro. Mas o filólogo não pertencia à ABL – ele é chamado quando seus trabalhos se fazem necessários.” Oswald de Andrade anotou no Manifesto do Pau Brasil: “pela contribuição milionária de todos os erros”. Risos.”

A escritora Adriana Versiani pontuou: “O assunto Acordo Ortográfico é bom demais. Eu sempre sofri muito com a imposição de regras sem sentido e ainda sofro. Mas é exatamente a falta de sentido que me permite transgredir, falar a minha própria língua. Convivo com muita gente, ouço diariamente o barulho das ruas e sempre estou atenta aos novos dialetos urbanos. O brasileiro tem ouvido musical. A língua continua evoluindo e as regras carecem sempre revisão.”

Para a poeta Bianka Andrade, “o que se busca com essa celeuma é inalcançável: tornar ipsis literis a relação grafo-fonética do português brasileiro. Isso não existe em nenhuma língua. Língua falada é uma coisa e língua escrita é outra. O francês é muito pior que o português nesse sentido e a alfabetização na França tem resultados muito melhores que a brasileira, isso porque o problema é a formação oferecida e não a suposta dificuldade da língua.”

Professor-mestre Vitor Dorneli Rodrigues: “Essa discussão é oportuna e necessária, o nosso português é brasileiro.” Enfim: quem está “com a mão na massa”, pelejando com a língua na Literatura e na docência, tem a nítida convicção de que já se impõe a necessidade de distinção de uma língua brasileira da língua portuguesa como remanescente do país colonizador.

O que se quer ver na prática é político com poder de linguagem em função da língua brasileira. O que se quer é uma Academia Brasileira de Letras transformada em “um verdadeiro parlamento cultural nacional”, a começar pela instituição oficial da língua brasileira. Firulas, caprichos, idiossincrasias acadêmicas e luxúrias eruditas para justificar o imobilismo da irrefreável evolução linguístico-idiomática da língua brasileira – já são coisas de um passado tão remoto como a colonização, escrever pharmácia ou telephone, dar nós nas tripas da filologia ou fazer média política com uns poderes que, em relação a decisões definitivas quanto a acordo ortográfico, estão mudos como a letra h. Que escreve homem, humanismo e haja saco!

*

Márcio Almeida é mestre em Literatura, escritor/poeta e crítico. Autor, entre outras publicações, da História contemporânea de Oliveira; Estranhos muito íntimos e Têxtase (minicontos); Minha escola é sopa, O céu é um zoológico, Hoje é dia de rock (infanto-juvenil), entre outros. Suas ficções e ensaios já foram traduzidos em diversos países, como Argentina, México, Estados Unidos, Espanha, Alemanha e Itália.

[Transcrição integral de artigo publicado no “site” de “São Paulo Review” em 28.10.14. Obviamente, mantivemos nesta transcrição a ortografia brasileira do original. Os destaques e “links” foram inseridos por nós.]

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11 comentários

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    • Maria José Abranches on 31 Outubro, 2014 at 20:01
    • Responder

    Pois, vai sendo tempo de vermos, lermos e ouvirmos a ‘diferença’ incontornável entre a língua de Portugal e a língua do Brasil! E de desistirmos de vez das inconfessáveis ânsias imperialistas e neoliberais que, por cá, alguns transpuseram para o domínio da língua. E de pormos rapidamente um ponto final nesta aventura, que seria apenas ridícula, se não tivesse as consequências desastrosas que já estão à vista. E de pararmos de ‘brincar’ levianamente com a educação das crianças e dos jovens portugueses, o que é crime!

    • Elmiro Ferreira on 31 Outubro, 2014 at 21:56
    • Responder

    Estou inteiramente de acordo, os brasileiros devem largar da mão, proclamar a sua própria língua, aliás, como os nossos maiores fizeram há uns séculos, criando a bela língua portuguesa que desde então tem corrido mundo e colhido respeito. Sejamos também respeitadores dessa herança e deitemos as ficções e aventuras ortográficas para o lixo que é onde elas devem estar.

    • María Oliveira on 1 Novembro, 2014 at 1:12
    • Responder

    Nem a Inquisição ou Torquemada devem ser tão abominados como o Brasil abomina a “colonização”. Mas o que quer aquela gente? Não lhes chega o facto de terem anedotas sobre os portugueses (nós não as temos sobre eles), o facto de demonstrarem um cinismo encapotado (que é pior do que o descarado), um rancor que ressumam sempre que aos “lusos” se referem? Muito mau trabalho devem ter feito os professores do lado de lá do Atlântico, para que os veracrucianos não se tenham alfabetizado em consonância com o “progresso” que apregoam, mas sejam muito rápidos a odiar o “colonizador”. Querem o quê? Pedidos de desculpas? Se fôssemos por aí, todos os alemães (que têm, todos, em casa, uma geração inteira de ex-Gestapo, entre outros torcionários) se rebolariam aos pés dos países “vitimizados”. Querem os tupis pedido de desculpas formal, como um Papa fez em relação aos inquisidores? Durante quantas gerações vão os guaranis acenar a bandeira de vítimas? Nestes anos que decorreram desde D. Pedro, dezenas e dezenas deles, não conseguiram remendar “todo o mal” que lhes fizeram os portugueses de antanho? É culpa de outros a desorganização de Vera Cruz? A sua violência endémica? A preguiça e os esquemas de milhões de “malandros”? A má consciência daquela gente já nem enjoa, mas antes enoja! É um nojo tanto ressaibo, tanto rancor, tanta falta de gratidão. Não lhes foi dado, por acaso, um país gigantesco? Vão falar do ouro que trouxemos até irmos todos viver para Marte? Ó pá, cresçam, trabalhem, aprendam, venha de lá a já caduca “língua Brasileira”, esse aleijão apodrecido e vulgar que dizem ter açúcar mas soa a melaço, a cola, a escárnio e cinismo. Que má consciência, aqueles “falinhas mansas”. Não basta levarmos com a sua tradição sambiesca, a sua incapacidade de evolução e de uma análise madura da História? Mas que infantilidade, tanta gente, tanta terra, tantas “riquezas” e uma cultura tão soez, baixa e despeitada!… E que tal ler, trabalhar, ter regras? O auto-denominado povão só vê do olho esquerdo? Tanta vaidade e tanto vazio. Mete dó, toda a choraminguice desta gente. Que falta de dois dedos de testa, que tédio, que náusea! Tão “perfeitos” e tão imaturos! Nem na Argentina há tanta vaidade balofa! Parafraseando-os, “que gentinha”…

    • Jorge Pacheco de Oliveira on 1 Novembro, 2014 at 4:46
    • Responder

    Gostei de ler este texto longo, mas divertido. Só mesmo os brasileiros têm a capacidade de escrever coisas como “convencer o alunado”. Se não fosse o contexto não tinha percebido que se tratava do conjunto de alunos e não de um astronauta acabado de descer na Lua.

    Mas ainda mais divertida é aquela afirmação de que “Felizmente jogamos no lixo as letras dobradas”. Então não jogam ! Só no presente texto encontrei fora do lixo : Mattos, Perrotta, Littera, Motta, Della, Villar, Gullar, Rohloff e Shaddai.
    Para já não falar na “presidenta” Dilma Rousseff.

    Mas enfim… acho que têm razão. Querem dizer que falam e escrevem brasileiro e não português ? Por mim estejam à vontade. Sou daqueles que não precisa do conselho que alguém aqui deixou : não compro livros brasileiros, não vejo telenovelas brasileiras (portuguesas também não) não vejo filmes brasileiros (só se tiverem legendas em português) não ouço música brasileira porque nunca gostei…

    • Luís Ferreira on 1 Novembro, 2014 at 14:01
    • Responder

    Ao comentário #3, de María Oliveira.

    Sinto tudo o que escreveu. Só há uma diferença, quando o digo, nunca o consigo dizer de forma tão educada. 🙂

  1. O típico chauvinismo brasileiro; o mesmo chauvinismo que correu com Jorge de Sena do Brasil através de tricas académicas; o mesmo chauvinismo que levou os seus críticos literários, nos anos 60, a declarar que a literatura portuguesa tinha chegado ao fim, deixando-os como os seus triunfantes herdeiros, mandatados para continuarem o trabalho, erguido sobre Camões e Pessoa, o que lhes valeu uma excelente achega de Adolfo Casais Monteiro; o mesmo chauvinismo que deixou esse país ressabiado por a I República, isto é, o governo dum estado soberano, não o ter consultado sobre assuntos de política interna, no ido ano de 1911.

    O ódio do Brasil a Portugal é proporcional à paciência que o dito tem para aturar as caturrices do outro. Por mais ternurentos, nostálgicos, acomodatícios, subservientes que sejamos, nunca faremos o suficiente para agradar a esta gente que não quer ter nada que ver connosco. Nós é que insistimos em criar pontes e laços com gente que tem martelos e tesouras nas maos.

    Uma língua brasileira? Acho isso uma óptima ideia! Talvez se a distinção existir, eu possa procurar algo no Google e receber respostas que por acaso estejam em português reconhecível. Farto de ver brasileiro escrito em todo o lado ando eu. Google.br e Google.pt? Sim, por favor!

    • João Santos on 2 Novembro, 2014 at 13:19
    • Responder

    Concordo com a separação das duas Línguas; não por uma questão de necessidade mas para acabar de vez com a agonia de um povo que sofre de complexos de inferioridade perante o ex-colonizador. O Brasil nunca aceitará um acordo ortográfico, lexicográfico ou qualquer outro “-gráfico”, que Portugal aceite também. A aceitação de Portugal do actual acordo de 1990 foi a certidão de óbito do dito. Se Portugal não o tivesse ratificado, já o Brasil o estaria a apregoar e a ensinar activamente em todo o território, tendo-o já tornado obrigatório. Acabe-se de vez com os cuidados paliativos de um doente terminal para o qual não existe cura nem tratamento e já só quer que o deixem morrer em paz. Crie-se a Língua Brasileira e espere-se depois pelo caos linguístico que se seguirá quando se lhe retirar a matriz portuguesa que lhe serve de norma. Não lhe dou 10 anos para, no território brasileiro, passarem a existir uma dúzia de línguas diferentes e a precisarem de “dublagens” e legendas para se perceberem uns aos outros. Claro que nessa altura, e felizmente, o problema já não vai ser nosso!

    • Teresa Tavares on 3 Novembro, 2014 at 0:50
    • Responder

    Exaspera qualquer leitor o grau de desconhecimento que subjaz a este artigo.

  2. “Por uma língua brasileira”? Estou cem por cento de acordo. Força caras! Quanto mais cedo melhor, pois se isso não acontecer agora irá seguramente acontecer daqui a 50 anos. Mais vale um bom divórcio que um mau casamento… não é?

    • Luís Alcobia on 16 Novembro, 2014 at 9:14
    • Responder

    Agradeço-lhe, Sra. María Oliveira, por este texto tão preciso, claro, perfeito e inteligente.

    • Jordana on 28 Novembro, 2014 at 19:43
    • Responder

    Sou brasileira e estudo Letras Língua PORTUGUESA! Detesto esse Marcos Bagno e essa militância politicamente correta dele com todas minhas forças. Não são todos os brasileiros que concordam com o foi mostrado na entrevista. Pelo menos, os inteligentes não fazem.

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