«Enquanto há língua há esperança» [Ana Cristina Leonardo, “Expresso”, 21.03.15]

exeto2.

Enquanto há língua há esperança

Há coisas que de tão simples nos passam ao lado. Qual a forma mais eficaz de um Estado impor um disparate ou uma arbitrariedade? Não tem nada que saber. Anuncia que o disparate e/ou a arbitrariedade são obrigatórios. Claro como água. Transparente como papel celofane.

Evidentemente, decretá-los é sempre mais fácil em Estados totalitários. É assim que na China os monges budistas estão proibidos de reencarnar sem autorização do governo. Por cá, o emprego da ortografia pré-AO nem com o consentimento das autoridades. O MEC decidiu proibi-la.

Os alunos do 9º e do 12º anos, em breve sujeitos a exames nacionais, ver-se-ão penalizados (até 25%) se usarem a ortografia anterior ao Acordo (aquela que lhes ensinaram).

“Recepção” em vez de “receção”? Pim! Distinguir “pára” de “para”? Pim! Dois cês em “acção”? Pim-Pam-Pum! E assim sucessivamente…

Perante a decisão, contestada por muitos professores, alunos e encarregados de educação, a presidente da Associação de Professores de Português, Edviges Ferreira, não se pronunciou sobre a bondade do Acordo, mas foi firme ao sublinhar a bondade do exercício do poder: “Se [os professores] são funcionários do MEC e o MEC determina que o AO é para cumprir só têm de obedecer”. E se Edviges Ferreira fosse chinesa não seria mais diáfana.

Continue reading

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2015/03/23/enquanto-ha-lingua-ha-esperanca-ana-cristina-leonardo-expresso-21-03-15/

“Projeto” cultural português em “cerimônia” com “prêmio”

cerimonia_premio

«O prêmio é dividido em quatro categorias: conservação, pesquisa , serviço dedicado e de educação, formação e sensibilização.
A cerimônia de premiação será realizada no dia 5 de maio, em Burgtheater de Viena, sob o patrocínio de Heinz Fischer, presidente da Áustria.
»

Embaixada da Noruega em Portugal
Notícia: EEA Grants: Projeto cultural Português ganhou prestígio prémio europeu

Ver índice cAOs

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2015/03/23/projeto-cultural-portugues-em-cerimonia-com-premio/

RTP infringe direitos de autor

Na sua sanha acordista, a RTP (“serviço público de televisão”) vai ao ponto de alterar títulos de obras literárias publicadas, registadas e indexadas. “Direitos de autor“? Ora, ora, o que é isso para o “serviço público” de caça à consoante “muda”?

notívago
RTP_Ensina_logo«Seguem-se os livros ‘Ensaios de Meditação Genérica’, em 1988, ‘Apologia de Kalitangi: Ensaio e Crítica’ de 97, ‘Estrada da Secura’, de 98, ‘O Notívago e Outras Estórias de um Benguelense’, ‘De Vagares a Vestígios’, e ‘Ideogramas de Nganji’, de 2003. Entre 2001 e 2002, realizou e apresentou o programa literário da TPA – ‘Leituras’.»

RTP (“Ensina”)

onoctivago_livro1

[Imagem obtida a partir da publicada no “blog” Sheika Valer.]

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2015/03/23/rtp-infringe-direitos-de-autor/

«Lusodisfonia» [Luiz Fagundes Duarte, Facebook, 22.03.15]

LFG_FB

‘Encontrei agora, entre muitos papéis velhos, esta pequena nota que escrevi há muitos anos em resposta a um pedido de depoimento sobre a “Lusofonia”, feito não sei por quem e publicada não sei onde. No fundo, e embora polémica, esta nota representa ainda o que eu penso sobre o conceito, para mim errado, de Lusofonia:’

cplppuzzleLusodisfonia

As frequentes situações de dificuldade de comunicação ou de estranheza entre falantes de Portugal e do Brasil (e a esse respeito eu teria muitas histórias para contar) fazem-me concluir que o termo ‘lusofonia’ não é adequado: atendo-nos à etimologia da palavra e ao processo histórico em geral, ela deveria referir-se a uma ‘forma de ordem’ comum a vários países, definida de um modo inquestionável pelos ‘parâmetros fónicos’ de um deles, Portugal.

Continue reading

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2015/03/22/lusodisfonia-luiz-fagundes-duarte-facebook-22-03-15/

«Cerimônias e Exames» [Nuno Pacheco, “Público”, 22.03.15]

NP Revista2 2015-03-22

Há dias convidaram-me para uma “cerimônia”. Não fui. Não pelo convite, ou por inconveniências temporais, mas pela incongruência da expressão. A dita “cerimônia” não se realizava no Rio, São Paulo ou qualquer outra cidade brasileira, mas em Lisboa e o convite partiu de um português. Que se passará para termos agora “cerimônias” em vez de cerimónias? Ignorância? Dicionário errado?

Seja o que for, o mesmo problema pode também afectar Nelson. Nelson é, suponhamos, um aluno instruído no Rio de Janeiro que, por migração dos pais, se mudou para Lisboa e ali prosseguiu os estudos. Num teste escolar, teve pela frente um texto livre dedicado aos transportes. Nelson não teria problemas, escrevia bem, pelo menos era o que lhe diziam no Rio, e atirou-se à escrita. Mas o professor veio depois admoestá-lo, baixando-lhe a nota, por “vários” erros ortográficos. Escreveu Nelson, seguro de si, as palavras “trem”, “cotidiano”, “recepção”, “excepcional”, “concepção”, “aspecto” e “quatorze”. O professor emendou “trem” para “comboio” (“essa palavra não se usa por cá com esse sentido, só no Brasil”), “cotidiano” (palavra que é admitida pelo Dicionário Houaiss) para “quotidiano”, “recepção” para “receção”, “excepcional” para “excecional”, “concepção” para “conceção”, “aspecto” para “aspeto” e “quatorze” (como no Brasil se escreve, regularmente, há décadas) para “catorze”. Nelson estava estupefacto (ou estaria “estupefato”?): então não havia, agora, uma ortografia comum, em que 99% das palavras eram grafadas da mesma maneira em todas as pátrias de língua portuguesa?

Continue reading

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2015/03/22/cerimonias-e-exames-nuno-pacheco-publico-22-03-15/