“- Ainda o apanhamos!”*

«Ega, em suma, concordava. Do que ele principalmente se convencera, nesses estreitos anos de vida, era da inutilidade do todo o esforço. Não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na terra – porque tudo se resolve, como já ensinara o sábio do Eclesiastes, em desilusão e poeira.

– Se me dissessem que ali em baixo estava uma fortuna (…) à minha espera, (..) se eu para lá corresse, eu não apressava o passo… Não! Não saía deste passinho lento, prudente, correcto, seguro, que é o único que se deve ter na vida.

– Nem eu! – acudiu Carlos com uma convicção decisiva

E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se aquele fosse em verdade o caminho da vida, onde eles, certos de só encontrar ao fim desilusão e poeira, não devessem jamais avançar senão com lentidão e desdém.

(…)

– Espera! – exclamou Ega – Lá vem um «americano», ainda o apanhamos.

– Ainda o apanhamos! Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:

– Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentamos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma…

Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:

– Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder…

A lanterna vermelha do «americano», ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:

– Ainda o apanhamos!

– Ainda o apanhamos!

De novo a lanterna deslizou, e fugiu. Então, para apanhar o «americano», os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.»

[in Os Maias, de Eça de Queirós]

” – Ainda o apanhamos!”*

Uma forma relativamente expedita para ainda podermos barrar o abominável disparate que é o Acordo Ortográfico seria a apresentação de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos junto da Assembleia da República.

Tratar-se-ia, por conseguinte, de submeter à aprovação do Parlamento um documento legal, subscrito por um mínimo de 35.000 cidadãos, com a finalidade de suspender a entrada em vigor do dito Acordo Ortográfico.

Existe um único precedente deste preceito constitucional (ILC), levado a cabo (e com sucesso, por sinal) pela Ordem dos Arquitectos, em 2007 (ver documento em formato Word e notícia OA”).

Para tal, “apenas” haverá que mobilizar vontades, estabelecer contactos, juntar esforços, programar acções e finalmente… agir. Porém, desta vez, não basta simplesmente assinar uma qualquer petição e muito menos de qualquer forma. Há requisitos legais e formais específicos e procedimentos que só gente habilitada para o efeito poderá executar, nomeadamente quanto à redacção da referida Iniciativa Legislativa.

Não adianta agora para nada estar a “deitar contas à vida” e ao tempo perdido em campanhas inconsequentes, em iniciativas inúteis e em discussões estéreis. O tempo urge. Com a entrada em vigor do AO, em Portugal, já no próximo dia 1 de Janeiro, bem poderemos ficar eternamente a carpir mágoas – linguísticas ou outras – a respeito do assunto, que isso já de pouco ou de nada irá servir.

Mas, se calhar, quem sabe, poderá isto ser um último recurso, uma última réstia de esperança. Já sabemos que resta pouco, muito pouco tempo, mas ainda é algum.

Cabe a nós outros, que somos muitos, decidir o que fazer com aquele muito pouco e com aquela última réstia.

[nota: este texto segue assim mesmo, sem pormenores, sem floreados, sem estilo e sem mais coisíssima nenhuma que não a MAIOR URGÊNCIA.]

* Citação de “Os Maias”, de Eça de Queirós.

Este apelo foi enviado por email aos 22.738 subscritores da causa Facebook “Não Queremos o Acordo Ortográfico”.

“Então e agora?”, perguntam-me. Bem, então e agora… é esperar.

Mas esperemos que esperar… não muito.

O assunto já aqui tinha sido aflorado há algum tempo, em Setembro de 2008 e Agosto de 2009, e a sugestão da ILC, em concreto, foi relançada há apenas alguns dias através do Twitter, tendo até colhido alguma e de certa forma surpreendente receptividade.

Porém, e apesar de alguns apoios recebidos – por regra, de carácter informal -, e mesmo sabendo que a recolha das 35.000 assinaturas seria a menor das dificuldades e a tarefa de mais rápida execução, existe um obstáculo gigantesco, pelo menos na aparência: as “figuras públicas”, os grandes “tubarões” desta causa desapareceram todos, ausentando-se para parte incerta. Numa palavra, e pelos vistos, fugiram. Não que fizessem agora grande falta, de tal forma “meteram o pé na argola” pela forma desastrosa como conduziram o processo, mas isto para demonstrar como se torna difícil – para simples cidadãos anónimos – fazer seja o que for em prol do bem comum sem estarem, à uma, escorados (e bem) por Partidos e/ou organizações e ainda, às duas, escoltados por um nada módico esquadrão de figurões mediáticos.

Acresce que uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos não é a mesma coisa que uma simples Petição. Não basta empilhar assinaturas à matroca e entregá-las num qualquer “guichet” do Parlamento, é necessário validá-las todas, uma a uma, com os documentos legais e os dados necessários; não basta um ilustre e virtuoso redactor, é necessário constituir um ou mais do que um verdadeiro jurista; não basta dar umas entrevistas e ir a uns quantos debates soltar umas opiniões, não, pelo contrário, a coisa é séria, carece até de Sede constituída, de Comissão autorizada com 5 a 10 responsáveis, enfim, um ror de “maçadas” e exigências várias que se não coadunam com incompetências, amadorismos, tibiezas ou vedetismos.

Enfim, isto poderá parecer difícil, poderá estar mesmo difícil, mas não desistiremos, não, de todo!

Ao contrário de muitos que por aí andam. Na dita parte incerta.

Nota de rodapé inserida a posteriori
«O Acordo Ortográfico é um acto colonial do Brasil sobre Portugal com regras que não são recíprocas, afirmou à Lusa o escritor e jornalista português Miguel Sousa Tavares, que se encontra no Brasil para lançar seu “quase-romance” “No Teu Deserto”.»
in jornal Público, 21.09.09

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Acordo Ortográfico e pequena política

Na presunção de que existe realmente uma alternativa à “pequena política”, e porque me parece ser esse o único motivo pelo qual a luta contra o AO está paralisada, repito aqui o enunciado daquela que deveria ser, na minha opinião, uma estratégia eficaz para a causa.

A abordagem do assunto que até agora foi prosseguida assenta basicamente em duas vertentes: a petição “Em Defesa da Língua Portuguesa” e o seu primeiro signatário, o historiador Vasco Graça Moura.

Esse documento, como se pode ler na página online respectiva, foi “entregue em mão a Sua Excelência o Presidente da República no dia 2 de Junho de 2008, em audiência concedida a um grupo de signatários. As primeiras 17.300 assinaturas foram entregues a Sua Excelência o Presidente da Assembleia da República no dia 8/5/2008 que também recebeu em 15/5/2008 as 33.053 assinaturas existentes nessa data.”

Quanto a Vasco Graça Moura, que assumiu desde o início a liderança da oposição à aprovação e à entrada em vigor do AO, continuamos a poder ler – mais ou menos regularmente – excelentes crónicas sobre o assunto, por regra publicadas no Diário de Notícias.

Claro que muitas outras pessoas, dos mais ilustres académicos aos mais perfeitos desconhecidos, vão contribuindo como podem para que não vá avante o atentado contra a Língua Portuguesa que o Acordo Ortográfico de 1990 corporiza.

Pois bem, isto não chega.

O historiador e cronista não pode fazer tudo sozinho, por um lado, e, por outro, o facto de personificar uma causa pública acaba por ser mais prejudicial do que benéfico, já que se passa na prática para a opinião pública a ideia de que a luta contra o AO não é uma causa pública mas antes, pelo contrário, que se trata apenas de uma causa, de uma luta do próprio Vasco Graça Moura.

E, se um simples Manifesto é manifestamente pouco, já a petição tem muita gente a peticionar, muitos subscritores, vai “a caminho das 200.000 assinaturas” e tudo, mas isso é, igualmente na prática, puro desperdício: são demasiados nomes… porque totalmente inúteis, a partir de certo número.
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Avanços para trás

Ausência de listagem de palavras da Língua Portuguesa impede avanço do Acordo Ortográfico 16.03.2009 – 11h13 Lusa
Título do Público.

Seguem-se transcrições de alguns comentários dos leitores do jornal, na página online do artigo:

16.03.2009 – 16h28 – Pedro Pais, Porto
Sem o VOLP teremos o Caos Ortográfico em Portugal. Basta ver o exemplo peregrino de o Jornal Record que debita pérolas como esta: “O FATO de o clube poder conquistar a Taça da Liga no próximo sábado, na final diante do Sporting…”. Que tristeza. [ver nota]

16.03.2009 – 15h20 – Pedro Pais, Porto
Já toda a gente sabia que isto iria acontecer. Para o MC (Ministério da Cultura) basta “financiar” a actualização de um corrector ortográfico (FliP7) para proceder ao chamado “lavar de mãos”. Aliás, esse corrector ortográfico já foi enviado para a Casa da Moeda de modo a todos os documentos oficiais serem elaborados conforme as normas, não do VOLP Comum, mas segundo a interpretação que a Priberam fez do AO. Preparem-se para termos do lado brasileiro termos como “reentrar” “coerdeiro” e do lado português “re-entrar” e “co-herdeiro”.

16.03.2009 – 15h16 – Dr. Moita Carrasco, Portugal
Miguel, 14:28 – Ui, que medo que daqui a 100 anos só dez milhões de pessoas falem português! Eu até digo que isso já acontece agora. Olha como os dinamarqueses, eslovenos, letões, estonianos, finlandeses, gregos, malteses, lituanos, islandeses, noruegueses, tudo malta que fala línguas com menos de 10 milhões de falantes, estão preocupados! Ou os bascos e catalães, já agora. Esses nem dormem só de pensarem que estão numa região da Europa “dominada” pelo castelhano! Cresce e aparece, puto!

Nota: confirmei pessoalmente que o jornal desportivo Record já “adotou” o Acordo Ortográfico. Inclusivamente, além de outras peças talqualmente repugnantes, a versão online daquele – a partir de agora – pasquim abjecto ostenta “seções” como “Linha direta” ou “Seleções“.

Portanto: Record, risca.

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Não queremos o Acordo Ortográfico!

Não queremos e podemos!

A página da causa, aqui no FB, já conta com mais de 1.200 apoiantes e continua a crescer, a cada hora que passa.

Entretanto a petição online (link) já ultrapassou os 100.000 subscritores, facto para o qual chamou Vasco Graça Moura mais uma vez a atenção, em crónica publicada no Diário de Notícias (link).

Apesar de ainda numa fase embrionária, pelo menos em termos de difusão a nível nacional, já todos nos apercebemos de que o Facebook é uma poderosa ferramenta de mobilização, como se confere e vê pela vertiginosa adesão à nossa causa – que é bem real, ainda que expressa por meios virtuais.

Além de servir para dar conta aos subscritores da causa do seu andamento e actualizações, esta mensagem serve também como apelo para que não parem de angariar novas adesões; mais uns quantos convites directos deverão bastar para manter, se não mesmo aumentar, esta corrente que se pretende imparável.

Para todos vós, aqueles que não desistem de lutar por uma causa que muitos davam por perdida, vai uma saudação especial, reconhecida, emocionada até.

O Português correcto agradece.

(JPG)

Esta foi a mensagem que acabei de enviar a todos os subscritores da causa FB “Não queremos o Acordo Ortográfico!”.

A causa fundamenta-se numa frase simples:

“O Português levou 8 séculos a construir, não será por decreto que o irão destruir.”

A causa apoia-se em três posições ainda mais simples:

1. Contra a entrada em vigor do AO, nem em 2010 nem em 2100.
2. Contra a traição à Pátria (a Língua Portuguesa) que o AO representa.
3. Contra a colonização cultural (e económica) brasileira.

Não há nada que hesitar quando se trata de defender as nossas convicções mais profundas. Não há nada a temer quando aquilo que está em causa é o que de mais fundamental nos define, enquanto povo e enquanto nação. Não há nada que recuar perante coisa alguma, por mais solidamente inexpugnável que essa coisa pareça, porque a vontade é sempre mais forte, mais espessa e mais alta do que a mais gigantesca das paredes.

E ainda não está tudo irremediavelmente perdido. E ainda é possível remediar a monumental asneira que uma irrisória minoria pretende impor à maioria dos portugueses, aqueles que pensam pela própria cabeça.

Ainda é tempo, porque o tempo ainda não acabou.

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Certidão de óbito em vivo

Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009
Lusofonia: Acordo Ortográfico entrará em vigor a 1 de Janeiro de 2010 em Portugal

O ministro da Cultura, quer que o Acordo Ortográfico, “o mais tardar em 1 de Janeiro de 2010”, seja aplicado “a nível oficial e em todos os meios de comunicação social”. Em entrevista à Lusa, Pinto Ribeiro reafirmou a importância do Acordo Ortográfico para a estratégia que o seu ministério pretende implementar. Reconhecendo a importância da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o ministro quer “assegurar que, concertadamente com os outros países, se avance no processo de ratificação do último adicional do Acordo Ortográfico, para conseguirmos ter uma escrita unitária do português”. Ainda segundo o ministro, “há muitos sítios onde as autoridades se recusam a ensinar português porque não sabem se o hão-de fazer na versão escrita brasileira ou europeia. Ora, “tudo isso fica resolvido através do acordo ortográfico”, acredita. Assim, uma arma fundamental é a produção de um corrector de texto, aplicável a várias plataformas informáticas, que integra as novas regras da escrita em Português e que, segundo Pinto Ribeiro, deverá estar disponível até ao final deste mês. O ministro pretende ver o português como “língua de trabalho em todas as organizações internacionais”. Neste sentido, “estamos, com o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), a reformular o Instituto Camões para que seja desenvolvido este trabalho de expansão da língua” e que passará pela digitalização de conteúdos. “Com o apoio da Comissão Europeia, estamos a trabalhar nesse sentido, como também estamos a traduzir autores portugueses para outras línguas”, refere. Quanto aos críticos do Acordo Ortográfico, o ministro entende que “todas as pessoas são livres de escrever como quiserem”. Mas pretende que “integrem a nova forma” e, por ele, “quanto mais cedo melhor”. Não deixa, no entanto, de deixar uma palavra aos que “trabalham com a língua quotidianamente – os grandes escritores, os poetas”.
Estes poderão escrever português como entenderem. Apesar do acordo ortográfico ter criado divisões entre artistas e escritores Portugueses, o Movimento Pensar Real ~ Pensar Portugal, congratula-se que o Ministério da Cultura, se empenhe na urgente reunião de esforços com a Comissão Europeia: na tradução de Obras de autores Portugueses em outras línguas.

http://ww1.rtp.pt/noticias/?article=385225&visual=26&tema=5
Publicada por Ricardo D’Abranches em 7:36

http://real-abranches.blogspot.com/2009/01/lusofonia-acordo-ortografico-entrara-em.html

Recebido por e-mail.

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