Carta aberta ao jornal Público

Texto para o Provedor do Leitor do PÚBLICO enviado através do formulário de contacto no site do jornal.

Caro amigo,
todos os dias agradeço ao PÚBLICO a sua não adesão ao Acordo Ortográfico de 1990. Faço-o mentalmente, sempre, e comprando a edição impressa sempre que posso. E agradeço a sorte de ter sido o PÚBLICO a tomar essa decisão, uma vez que este já era o meu jornal de referência.

Não vou repetir a argumentação contra o Acordo, que já todos sabemos poder ser rebatido praticamente ponto por ponto, e coleccionou pareceres negativos de tudo quanto é entidade interessada na Língua Portuguesa.

Mas gostaria de expressar aqui a minha preocupação quanto ao futuro. De facto, com a adesão da RTP à televisão em “dirêto”, estamos cada vez mais cercados por este disparate nacional que dá pelo nome de AO90.

Sendo que a política do PÚBLICO face ao Acordo, expressa em editorial, é a de que este não será aplicado enquanto tal for possível, receio que também o PÚBLICO possa, um dia, entender que “já não é possível” continuar a escrever como escreve.

Imagine-se um cenário (longínquo, esperamos) em que já toda a comunicação social aderiu ao Acordo, a nova norma é ensinada nas escolas, toda a comunicação oficial é feita pelas novas regras e as agências publicitárias (e respectivos outdoors nas ruas) cumprem também o AO90.

Não seria de estranhar que, num cenário assim, o PÚBLICO, para evitar o arrastar da coexistência entre duas grafias, reconsiderasse a sua posição — é bem verdade que, num diferendo, o ónus da cedência é geralmente pedido à parte inteligente.

(mas será a coexistência continuada de duas grafias pior do que a redução/rendição ao Acordo? Tenho sérias dúvidas)

Portanto, antes de chegarmos a esse cenário, há outra questão que gostaria de levantar já hoje: enquanto mantiver a sua posição actual deve o PÚBLICO fazê-lo de forma passiva? Ou pode (deve?) assumir uma posição combativa, como porta-voz de milhares e milhares de portugueses que dizem que continuarão a escrever como sempre escreveram? Pode um jornal, em Portugal, assumir uma causa?

Por exemplo: corre na internet um movimento para lançar uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) na Assembleia da República, com vista à revogação do actual Acordo. Segundo as normas da AR são necessárias 35.000 assinaturas em papel — para uma ILC não servem as adesões online. Se servissem, estaríamos a caminho da terceira ILC, com as 100.000 adesões que há dias se ultrapassaram. Infelizmente, nos tempos que correm, as pessoas têm preocupações maiores do que um “simples” acordo ortográfico, perderam a capacidade de se indignar ou são simplesmente preguiçosas: neste contexto, reunir 35.000 assinaturas em papel é uma tarefa ciclópica. Mas é a única saída possível para, legalmente, se reverter esta situação.

Será possível pedir ao PÚBLICO, senão a assunção desta causa, pelo menos a sua divulgação? Será talvez pedir demais a quem já faz muito mas este é, realmente, (mais um) assunto de interesse nacional — e jornalístico, por maioria de razão.

Atenciosamente,

Rui Valente

[Esta é uma transcrição integral autorizada pelo autor. Inserimos links no texto.]

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10 comentários

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    • Glória Saraiva on 18 Março, 2011 at 2:37
    • Responder

    Bem Haja o jornal Público!
    Ao invés, a RTP foi mui célere e LEVIANA, a aceitar o Acordo, pois que para além de nos colocar em “direto” ainda nos tenta “contatar”, ops, “contatar”??? Que verbo é este? Em NENHUM país Lusófano se pronuncia esta palavra, logo segundo o Acordo, a grafia da mesma mantém-se inalterada!
    É caso para afirmar, que hoje ninguém me”contatou”, mas contaCtaram-me e pediram-me para me manter contaCtável 😉

    • Glória Saraiva on 18 Março, 2011 at 2:48
    • Responder

    Bem Haja o jornal Público!
    Ao invés, a RTP foi mui célere e LEVIANA, a aceitar o Acordo, pois que, para além de nos colocar em “direto”, ainda nos tenta “contatar”, ops, “contatar”??? Que verbo é este? Em NENHUM país Lusófano se pronuncia e ou escreve esta palavra, logo, até segundo o Acordo, a grafia da mesma mantém-se inalterada!
    É caso para afirmar, que hoje ninguém me”contatou”, mas contaCtaram-me e pediram-me para me manter contaCtável 😉
    Por favor impeçam esta aberração que consiste o novo Acordo, que consegue criar duplas grafias, onde estas não existiam antes, exº: “recepção, o Brasil continuará a escreveê-la e nós JÁ NÃO…Patético e dramático, não???
    Peço que À SEMELHANÇA DO “SOBRESSALTO” da Manifestação de dia 12 de Março, possa o Público “sobressaltar” e fazer desta causa uma causa sua e de toda a Sociedade Portuguesa!
    Obrigada!

  1. Oxalá o “Público” se mantenha firme. Eu pela minha parte manter-me-ei, tanto nesta cruzada, como na assinatura do jornal.

  2. Recebi convite para aderir a esta causa. Por isso procurei saber melhor do que se tratava.
    Vi um grande rol de comentários, genericamente exacerbados até, em defesa de nossa língua. Alega-se maioritariamente que se está a ser colonizado pelo avanço do Português do Brasil. É verdade, pois eu próprio já utilizo muitos vocábulos que ainda que façam parte de nossa língua mais genuína, mas o seu uso não era corrente e nem deles tinha conhecimento até. Espanta-me porém esta exacerbação, pois que, e como é referido e por todos nós mais que conhecido, foram os portugueses os principais colonizadores do Brasil. Então, mesmo não querendo ser paternalista, tenho dificuldade em aceitar não nos sentirmos bem com esta saudável convivência e porque não aceitar a evolução de nossa língua no sentido de se tornar mais homogénea com aquela que nossos descendentes brasileiros foram construindo também? Mas me espanta muito mais, pois que não vejo que exista uma reacção idêntica quanto à assimilação de uma enormidade de anglicismos, bem como à monumental utilização de um sem número de palavras e expressões inglesas com que nos confrontamos diariamente tanto no uso de relações comerciais ou em eventos, e ainda mais grave, que nos próprios meios de comunicação social nomeadamente, sejam emitidos programas (caso de concursos televisivos) onde a tónica dominante é o inglês. Senhores puritanistas da língua, convido-os a que ao visitarem por exemplo um centro comercial verifiquem os próprios nomes das lojas ali existentes. Não se sentem chocados? Pois eu sinto, porque penso se lá no país de reis lordes e barões se vêem também estas realidades. Não vêem. Pois eles apesar de não terem sido os precursores da abertura de novos mundos ao mundo, implantaram-se a tal ponto, que se assenhoraram de meio mundo, inclusive de Portugal. Vejam a história: Mapa Cor-de-Rosa, a quem pertenciam as companhias de vinhos do Porto, os caminhos de ferro, a carris, os telefones e para não falar inclusivamente a nível político do que por eles nos era imposto. E quando em algumas vezes Portugal solicitou de sua ajuda, levou com os pés. Mas tudo isto não é razão para que se não nutra mais que simpatia até, subserviência bajulação por tudo que de lá é oriundo. Pois, mas aí caros defensores de nossa língua, parece que não dão mostras de defesa desta nossa língua, nem do quanto estamos a ser assaltados pelas influências e absorções dos termos com que a cada dia nos deparamos….
    Não vou assinar, mas não tenho nada contra que assine. Estamos num País que se diz livre, e como tal á que respeitar as posturas de cada um… Mas fico pesaroso, por ver o quanto se olha para o presente sem antes consultar o passado….

  3. Os comentários são as opiniões das pessoas, tal como esta que o sr. José Costa nos deixa. Não sendo os comentários caluniosos ou ofensivos ou doutra forma passsíveis de não publicação, não são removidos.
    Os propósitos da iniciativa pode lê-los nestas páginas. É sobre eles que deve ajuizar se assina ou não a Iniciativa.
    A invasão de barbarismos que o nosso idioma sofre é uma verdadeira desgraça, tem razão. Pena os mentores do Acordo não terem trabalhado por resolver essa afronta nem sequer proposto um plano para isso.
    Cumpts.

    • Carlos Domingos on 23 Março, 2011 at 13:21
    • Responder

    Penso que o Publico talvez pudesse tornar-se activo nesta luta. Penso que não terá nada a perder. Mas se tal não lhe for conveniente, por razões de imparcialidade ou da defesa da sua segurança, pelo menos que publicasse com frequência artigos sobre este assunto, especialmente para que mais portugueses pudessem ter aceso ao conhecimento desta ILC, e apelar aos portugueses que se mexam em vez de se resignarem somente a discutir este (e outros) assunto(s) na esplanada do café. Talvez isso pudesse ajudar a alcançar uma enchente de assinaturas. Só há uma forma de saber o resultado que teria. Se dependesse de mim, então o Publico seria um dos principais porta-vozes deste movimento contra o AO.

    Por mim, continuarei teimosamente a escrever como fui ensinado na escola há longos anos atrás – em Português correcto. Escrevo prosas por prazer e com esperança de algum dia vir a publicar alguma coisa, e se alguma vez isso acontecesse e me dissessem que teria de alterar a gramática para poder publicar o meu texto, então publicaria por meios próprios, ou simplesmente não publicaria.

    1. Já várias pessoas escreveram ao Público, por diversas formas e insistentemente.

      Chegámos a propor à Direcção daquele jornal (e de outros, aliás) que publicasse um “encarte” com o texto da ILC e o respectivo impresso de subscrição. Até hoje, não houve sequer uma resposta simplesmente a acusar a recepção (e nem mesmo automática).

      Será talvez uma questão de ainda mais pessoas irem insistindo…

  4. Senhor José Costa,
    o problema que aborda é relevante mas nada tem a ver com aquele de que aqui se trata. Digamos, passe a impropriedade da comparação, que seria como censurar os detractores do TGV com o argumento de que deveriam preocupar-se com as listas de espera nos hospitais. Obviamente, reconhecer-se-ia a grande premência desse outro problema, mas isso em nada alteraria o que se dissesse a propósito do TGV.
    Ou seja, tentar ignorar um erro apenas porque existe outro erro é uma interessante forma de manter… dois erros!
    O Senhor José Costa afirma (e eu concordo) que a invasão de vocábulos ingleses (muitas vezes incorrectamente usados, diga-se) é perniciosa. Claro que é! Mas, imagine que o Governo, a Assembleia da República e o Presidente da República, no uso das respectivas competências, produzissem as regras que, imperativamente, obrigassem, doravante, a escrever “e-mail” em vez de “correio electrónico”. Certo, eu sei que toda a gente diz e escreve “e-mail”. Eu também o faço! Mas não sou obrigado a fazê-lo, nem a expressão portuguesa foi extinta.
    A língua não é propriedade de meia-dúzia de políticos de instrução duvidosa, nem de meia-dúzia de intelectuais de moral incerta.
    Os autores deste acordo, trocando a Pátria por lentilha estrangeira, são os corretores da língua. O que até é apropriado, pois o corretor ortográfico, essa degeneração, vem substituir o corrector ortográfico, instrumento útil mas obsoleto.
    Vivemos um tempo de licenciaturas fáceis e currículos difíceis. De escolaridade longa mas acéfala. De gente palavrosa e sem ideias.
    Por mim, poucas dúvidas me restam de que não passo de um caso perdido. Romanticamente, continuarei a empreender sem esperança e a perseverar sem êxito. Definitivamente, estes novos tempos não são o meu tempo.
    Talvez o Senhor José Costa esteja certo. Há que aderir, não por ser correcto, mas, porque “eles” mandam.
    E pode ficar tranquilo. Os brasileiros também usam vocábulos ingleses.
    Um abraço.
    Paulo Jorge Assunção

    • joel lira on 29 Março, 2011 at 16:44
    • Responder

    Eu aprendi a registar todos os meus registos enquanto aluno. Hoje, enquanto pessoa com escola feita, dizem-me que devo registrar os meus registros corretamente…
    Uma total aberração e desconexão às palavras aprendidas enquanto aluno.
    Não aquero saber dos erros que me irão apontar!
    Estou-me nas tintas!

    joellira / poeta

  5. Senhor José faça favor de acordar para o século XXI, onde o inglês é a língua internacional e deve ser a segunda língua de cada cidadão europeu. O senhor faz ideia da quantidade de vocábulos franceses que assimilámos à nossa língua? Só isto torna o seu argumento irrelevante. Esta ILC pretende defender a Língua Portuguesa de Portugal contra reformas desnecessárias.

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