«(Des)entendimento ortográfico» [Rita Pimenta, “Público”]

Acordo:

(Des)entendimento ortográfico

 

Explica o dicionário que “acordo” significa “entendimento recíproco” e também “parecer favorável”. O mesmo é dizer “aprovação”, “consentimento”. No dia 13 de Maio, impôs-se oficialmente a adopção do Acordo Ortográfico de 1990. Em teoria, estamos a falar (e sobretudo a escrever) de “concordância”, “assentimento”, “convenção”, “pacto”. Na prática, nem tanto. E não é teimosia, é apreço pela legibilidade e compreensão. “O comboio para o Porto para em Coimbra.” Percebeu o que se queria dizer? O segundo “para” significa “pára”. Agora imagine o que fazer a este slogan de um clube desportivo que até aqui gritava: “Ninguém pára o Vitória!” A versão oficial será: “Ninguém para o Vitória!” Se o desempenho atlético não os salvar, o contexto linguístico ainda menos. Outro exemplo: “Passar a mão pelo pelo.” Esta é mais óbvia, mas ainda assim… que mal fazia deixar o acento circunflexo no “pêlo”? O “acordo” de que aqui se fala valoriza a fonética e subestima a etimologia. É um critério discutível, mas que já de pouco adianta discutir. Os organismos oficiais vão continuar a redigir de acordo com o acordo (e tantas vezes tão mal que nem se percebe de acordo com quê), as editoras prosseguirão na produção de dicionários (facturando de acordo) e os alunos serão avaliados segundo as novas regras ortográficas (mesmo com professores em desacordo). “Tino”, “juízo”, “reflexão” também são traduções de “acordo”. Mas o sentido que mais nos agrada nada tem que ver com isto: “Instrumento italiano, espécie de rabecão, de doze a quinze cordas, que tangidas simultaneamente produziam sons acordes.” Outra música, portanto. “Alto e para… o baile.”

[Transcrição integral de artigo da autoria de Rita Pimenta. Jornal “Público” de 17.05.15. “Links” nossos.]

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2015/05/26/desentendimento-ortografico-rita-pimenta-publico/

A “minissaia” “retratou-se” na “autoestrada”

minissaia«Minissaia com lavagem»
ZARA (.pt)


Continue reading

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2015/05/26/a-minissaia-retratou-se-na-autoestrada/

«Língua estufada» [Alberto Gonçalves, revista “Sábado”, 26.05.15]

Alberto Gonçalves

Língua estufada

O AO permitiu que o idioma que já se praticava maravilhosa mas obscuramente nos romances, na academia, no jornalismo, na retórica política, nos programas televisivos e nas “redes sociais” indígenas alcançasse projecção, desculpem, projeção internacional

————–

Quase nem valeria a pena lembrar o que aconteceu à língua inglesa. Durante séculos, foi falada e escrita de maneiras diferentes na Inglaterra e na Irlanda, na América e na Austrália, na Libéria e no Gana. Não era uma simples questão de cor local, mas uma tragédia que levava um sujeito de Norwich, em Norfolk, a rabiscar ‘colour’ e um sujeito de Norwich, Connecticut, a preferir ‘color’. E nunca os governos dos referidos países, inspirados por académicos e cidadãos responsáveis, impuseram um padrão comum, que unisse a grafia de Monróvia, Uganda, à de Monrovia, Califórnia. Se houve gente sensata a propor a união, ninguém a ouviu. O resultado é o que se sabe: o inglês definhou e hoje apenas subsiste, para consolo de nostálgicos e excêntricos, no cinema, na televisão, na música popular, na Internet, nos jogos de vídeo, na diplomacia, em muita literatura contemporânea, em boa parte dos ensaios científicos e no jargão das ruas do Ocidente. O desleixo paga-se caro.

Felizmente que em Portugal não se brinca com coisas solenes. Por cá, a prevenção manda e mandou consagrar aquilo que, na alma navegante de cada lusófono, constituía uma necessidade gritante: um acordo ortográfico (AO) para o português. A ideia, inicialmente mastigada por duas dúzias de génios nos seus imensos tempos livres, tornou-se oficiosa em 1991, mereceu a aprovação do prof. Cavaco em 2008, subiu a regra nos documentos do Estado em 2012 e fez-se obrigatória há dias.

Continue reading

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2015/05/26/lingua-estufada-alberto-goncalves-revista-sabado-26-05-15/

“Ninguém para o acordo” [de Antero]

10430893_654314631368494_4084249028473375145_n
Publicado em 25.05.15 por “Antero” no Facebook.
Ver “Desenhos”.

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2015/05/25/ninguem-para-o-acordo-de-antero/

«Sampaio da Nóvoa quer reavaliar AO90» [notícia “JN”, 25.05.15]

À semelhança daquilo que fez há dias Henrique Neto, também António Sampaio da Nóvoa, igualmente candidato às próximas eleições presidenciais, vem a público manifestar a sua posição em relação ao “acordo ortográfico” de 1990.

JN_SNovoa_2015-05-25, às 16.59.17Admitindo que se trata de “um problema complicado”, por causa dos acordos internacionais, mas defende que o AO deve ser reavaliado com muita determinação. “Na qualidade de candidato presidencial digo que esta questão tem de ser recolocada em cima da mesa dos debates com enorme cuidado, esperando que se consiga fazer uma avaliação do que aconteceu até agora e consigamos repor em novos moldes algumas orientações sobre esta matéria. É um problema que, na minha condição de Presidente da República, espero ajudar a resolver. O que está a acontecer não é bom para nada, inclusive para o fortalecimento dos laços entre os povos”, justificou, Nóvoa, já depois de lembrar que na qualidade de reitor e de professor é contra o AO.

(…)

[Transcrição parcial de notícia publicada no “Jornal de Notícias” online de 25.05.15. Texto corrigido automaticamente para Português Europeu.]

Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2015/05/25/sampaio-da-novoa-quer-reavaliar-ao90-noticia-jn-25-05-15/