«Salvação do Latim tardia e in extremis» [Editorial do “Público” de 02.04.15]

publicoSalvação do Latim tardia e in extremis

A intenção agora expressa pelo ministério de “preparar o reforço” do ensino do Latim peca por tardia.

 

Há um ano, nas páginas de opinião do PÚBLICO, uma professora deixava no ar esta pergunta: “Será possível que ninguém queira aprender Latim em Portugal? Que nenhum aluno se interesse pelo mundo antigo e pelas histórias que percorrem a arqueologia da humanidade? Que os jovens portugueses sejam tão diferentes dos seus congéneres europeus? Há verdadeiramente interesse, por parte de quem decide, que a situação mude?” Da parte dos alunos, a resposta estava dada: contra os 13 mil que em 1996 fizeram o exame de Latim do 12.º ano, os números de 2014 eram verdadeiramente catastróficos, mostrando que apenas 114 se apresentaram a exame nesta disciplina (exame que agora se realiza no final do 11.º ano). Culpa dos alunos? Também, mas não principalmente. A verdade é que o ensino do Latim foi sendo visto ao longo dos anos como coisa menor, com os resultados que estão à vista. Culpa, em primeiro lugar, de quem decide. Ora quem decide, ou seja, o Ministério da Educação, vem agora admitir (como se registou no artigo “Latim a remar contra a maré”, publicado na edição de 1 de Abril) que “está a preparar o reforço do ensino de Latim e Cultura Clássica no ensino secundário”, admitindo, quanto ao ensino básico, estar “a estudar a possibilidade de a oferta curricular ser definida em algumas escolas”. Isto, para recorrer ao próprio Latim, é uma “salvação” ‘in extremis’. Ou seja: no limite, nos últimos momentos vitais. É como se à cabeceira de um moribundo se sentassem especialistas a discutir um plano a médio prazo que viesse a devolver-lhe a vida. Mesmo que se salve a intenção (para já é apenas isso que temos pela frente, uma intenção), tudo o resto caminha a desfavor. A começar por um “acordo ortográfico” que menospreza e renega a raiz latina e grega da língua portuguesa, agora reduzida na fala e na grafia a ferramenta utilitária e esvaziada de bases científicas. E a esta miséria chegámos, num insano elogio à incultura.

[Transcrição integral do editorial do jornal “Público” de 02.04.15. Os “links” e destaques foram adicionados.]

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O AO90 nos exames nacionais; perguntas de deputados ao Governo

requerimentoPSD0315

Assunto: Aplicação do Acordo Ortográfico nos exames nacionais
Destinatário: Min. da Educação e Ciência

 

Ex. ma Sr.ª Presidente da Assembleia da República

Excelência:

Correm notícias alarmantes sobre a imposição de fortes penalizações aos alunos em cujas provas de exames nacionais não seja rigorosamente aplicada a grafia imposta pelo sinistro Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90).

Entre professores, alunos e famílias vai uma grande indignação pois muitos jovens a examinar começaram a sua aprendizagem com a língua materna sujeita a umas certas regras de grafia e depois foram perturbados com alterações aberrantes, impostas à força por um grupo fundamentalista, que instrumentalizou o poder do Estado não se sabe como…

Certo é que entre os escritores e largas franjas do professorado, para não falar já da população em geral, continua a verificar-se forte rejeição daquilo que é visto como destruição da língua portuguesa, sem qualquer razão nem benefício prático, como já comprovámos nas respostas obtidas — ou negadas… — às nossas insistentes perguntas parlamentares sobre tão candente matéria.

Na Região Autónoma dos Açores mais se justifica a indignação, porque o repúdio do AO é muito intenso.

Nestes termos, os Deputados do PSD eleitos pela Região Autónoma dos Açores, ao abrigo das disposições aplicáveis da Constituição e do Regimento formulam ao Governo, através do Ministro da Educação e Ciência, as seguintes perguntas:
a) Confirma o Governo que na correcção das provas de exames nacionais do secundário vão ser marcados erros de ortografia e aplicadas penalizações a grafias diferentes daquela que impõe o AO 90?
b) Tal medida vai ser aplicada também nos outros graus de ensino, incluindo o universitário?
c) Como vai recrutar o Governo os docentes encarregados de corrigir as provas, sendo certo que muitos são verdadeiros objectores de consciência contra o AO 90?
d) Como pode o Governo garantir uniformidade de critérios face às delirantes “facultividades” incluídas no dito AO 90?
e) Vai o Governo impor, centralística e autoritariamente, a aplicação do dito AO 90 nos exames a realizar na Região Autónoma dos Açores, sendo certo que o respectivo sistema de ensino está há décadas regionalizado?

Palácio de São Bento, sexta-feira, 13 de Março de 2015

Deputado(a)s
MOTA AMARAL(PSD)
JOAQUIM PONTE(PSD)
LÍDIA BULCÃO(PSD

[Transcrição de documento publicado no “site” da Assembleia da República em 18.03.15. Os “links” e destaques são nossos.]

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Já é oficial: entra em vigor o ‘acordo ortográfico do português brasileiro’

CICC_BR032015

«NOVA ORTOGRAFIA: O novo acordo ortográfico do português brasileiro, que entrará em vigor no Brasil a partir de 2016, trouxe consigo mudanças na forma de se escrever algumas palavras. Saiba quais são as novas regras ortográficas.»

:: Centro Integrado de Ciência e Cultura ::.

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Tal&qual: “concetual, aspetual, fatual”

concetual«Modelo Concetual»
Parque Escolar (Ministério da Educação)


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«O totalitarismo ortográfico» [Luís Menezes Leitão, “iOnline”, 31.03.15]

logotipojornaliO totalitarismo ortográfico

Por Luís Menezes Leitão
publicado em 31 Mar 2015 – 08:00

O maior crime contra o nosso património foi o pseudo-acordo ortográfico que afinal nada unifica e só serve para tornar o português de Portugal uma espécie de escrita de laboratório, com grafias absurdas, e que o distanciam completamente das outras línguas europeias, e até da escrita dos outros países lusófonos. Felizmente a sociedade civil tem dado a adequada resposta a este disparate, já que grande parte dos livros que se publicam e os jornais de referência continuam a usar a ortografia tradicional. Infelizmente isso já não sucede com o Estado, que a todo o custo quer impor uma ortografia que a sociedade claramente rejeita. É assim que o Diário da República se tornou um jornal de leitura cada vez mais penosa, tantos são os disparates ortográficos que linha sim linha não aparecem nos diplomas legais.

O governo, no entanto, não desiste de impor este absurdo contra tudo e contra todos e, depois de querer penalizar os professores que escrevem com a ortografia tradicional, agora quer obrigar os alunos a escrever com a nova ortografia, sem o que os seus exames serão avaliados negativamente. O procedimento é típico de um Estado totalitário. Efectivamente, neste tipo de estados as lavagens ao cérebro começam sempre pelas crianças, as mais incapazes de se defender. Mas assim como os povos souberam libertar-se dos totalitarismos, estamos seguros que também o povo português dará a adequada resposta a esta imposição totalitária de uma ortografia absurda.

Luís Menezes Leitão
Professor da Faculdade de Direito de Lisboa

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Luís Menezes Leitão, publicado no jornal “i” (‘online’) em 31.03.15. “Links” e destaques adicionado por nós.]

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