Out 28 2017

O Futuro da Língua Portuguesa

M., camarada de armas na luta contra o Acordo Ortográfico, disse-nos há dias que está grávida. Fantástico! Se alguma coisa de bom devemos ao AO90 será certamente esta ponte entre um grupo alargado de pessoas maravilhosas, que não teríamos conhecido de outro modo. A notícia desta gravidez foi uma alegria enorme, como não podia deixar de ser. E, se tudo correr bem, M. e o Pedro irão ter uma menina lá para o final de Janeiro.

Além da grande satisfação pelo acontecimento, a notícia tem ainda um sabor especial: sendo filha de M., o simples nascimento desta bebé é desde logo a garantia de que, por muitas e boas décadas, o AO45 continuará a ser usado.

Falamos, obviamente, do nosso país. No resto do mundo o AO45 parece ter assegurado um futuro risonho, com Angola e Moçambique no pelotão da frente dos países que o utilizam. Já que falamos de nascimentos, prevê-se que, em 2050, estes dois países tenham, no seu conjunto, mais de 120 milhões de habitantes. Nesse ano, o Brasil terá 223 milhões. Mas há um pormenor interessante. Dizem os analistas que estes três países alcançarão essa data com dinâmicas diferentes. Prevê-se que o Brasil, em queda, chegue ao ano 2100 com 178 milhões de habitantes, sendo ultrapassado por Angola e Moçambique algures na segunda metade deste século.

Estes números são apenas uma curiosidade estatística. Mas não posso deixar de sorrir quando penso no argumento acordista para nos impingirem o Português do Brasil — que é, no fundo, o que significa “adotar” o AO90. “Temos de juntar-nos à maioria”, diziam eles, “sob pena de passarmos a ser uma variante irrelevante”. Que maioria?

Claro que todo o argumento é uma falácia. Adoptar a ortografia de um país estrangeiro — sendo que, por arrasto, já se insinua também o vocabulário — é um absurdo enorme. Já agora, porque haveremos de ficar-nos pelo Português do Brasil, que é só a sexta Língua mais falada do mundo? O ideal seria mesmo um Acordo Ortográfico com a China. Passaríamos a escrever em mandarim, no primeiro lugar do podium linguístico mundial. É verdade que o mandarim não é a nossa “ortografia materna”. Mas o AO90 também não. O AO90 não é nada.

Não é nada… em Portugal, pois claro. No Brasil o AO90 é tudo porque é exactamente a ortografia que já existia, com ligeiríssimas modificações que já tinham aceitado anteriormente. Em Angola e Moçambique — que, ainda assim, não adoptaram o AO90 — teríamos de considerar que o Português é Língua Oficial mas não é a Língua Materna da maior parte da população. Portugal é, de facto, o único país afectado por um Acordo Ortográfico onde todos ficam com a ortografia que já tinham — excepto nós, portugueses, que ficamos com esta coisa artificial, execrável, fruto da loucura incurável que assola linguistas nacionais há mais de cem anos.

Perdoar-me-ão, portanto, os meus amigos brasileiros e demais falantes de Português espalhados pelo mundo. Como se imagina, preocupa-me mais o futuro do Português Europeu em Portugal do que os sobressaltos introduzidos pelo AO nesses países.

Valha-nos M., com a sua gravidez e boa disposição. Quando lhe disse que a filha dela estará ainda a escrever em Português Europeu daqui por muitos anos não a imaginei, obviamente, a escrever sozinha em Português correcto, cercada de acordistas por todos os lados. A luta contra o AO90 — a caminho das três décadas! — está viva, recomenda-se, e continuará até que se faça luz na mente dos nossos governantes.

Mas foi a resposta da futura mãe que melhor evidenciou o espírito e a atitude que devemos ter perante o “coiso”: “vamos torcer para que daqui a 6 anos (quando a miúda entrar na escola) esse problema já não exista…!”

Oh, sim! Vamos! :^)

(imagem: De Rerum Natura)

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