«Cultura de repúdio» [por Luís Ferreira]

MLPSPauloinv#9 (Oliveira Simões),

Passando por cima da matéria de opinião e focando-me apenas na matéria de facto, a afirmação “Os acordo intergovernamentais estão acima de qualquer associação” é enganadora.

Ponto 1. – Este acordo é ilegal (veja nos vários pareceres jurídicos produzidos, que o demonstram). Ninguém é obrigado a respeitar ilegalidades. Mas…
Ponto 2. – Mesmo que cumprisse as normas legais, não podem os representantes do povo, que se sentam nos órgãos políticos, trair o “contrato social” com os eleitores. Nesse sentido, a uma das partes cabe o direito de veto, que é exactamente o que nós, os que rejeitamos o Acordo, pretendemos.

Escreve Roger Scruton: “o estado fundado num contrato social deve respeitar integralmente a autonomia, liberdade, e dignidade do indivíduo”. Como eu entendo que o estado não defendeu, nem respeitou, a minha autonomia, a minha liberdade e a minha dignidade, devo considerar o contrato nulo e rejeitar tudo o que se pretendeu (falsamente) acordar em matéria de Língua.

Entre muitas outras evidências, o tratamento dado à minha Língua, pelos políticos que temos, inscreve-se no que se chama “cultura de repúdio” e que pode ser entendido como a destruição das culturas dos povos, ou substituição por outras, que lhes são estranhas, mas que lhes são impostas de acordo com uma matriz ideológica, a que eu não preciso de me referir, porque, seja ela a que for, trai descaradamente o que devia defender.

Parece-me a mim que esta forma de actuar dos nossos políticos é de grande violência e tem uma natureza que eu classifico de anti-democrática e totalitária, que eu, pela forma como defende o Direito Internacional, penso que o O. Simões não é partidário.

Se a opinião do O. Simões é diferente, porque acha o AO “porreiro” e que consegue uniformizar a Língua, temos pena, porque também nos sentimos do direito de achar, à vez, que nunca a uniformizará, antes de mais porque o brasileiro está em constante deriva de si próprio. No futuro falarão, provavelmente, um dialecto a que será muito difícil chamar português, tal como o reconhecemos hoje.

O argumento da força de uma língua se mede pelo número de falantes e escreventes é uma falácia. O que dá força a uma língua é o trabalho intelectual que se faz com ela, a erudição que ela atinge e a sua estabilidade. Se por causa de uma salada linguística for mais difícil filosofar em português, porque a língua perdeu exactidão (e perde quando se recorre ao contexto para saber o significado de uma palavra), então esta língua está condenada, porque passa a ser uma língua do dia-a-dia, que servirá apenas para ir à mercearia. É isto que os acordistas querem. Eu acho que sim.

[Transcrição de comentário de Luís Ferreira AQUI em resposta a ISTO.]

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3 comentários

  1. Porque é que o brasileiro está em constante deriva de si próprio e o português europeu não?
    Se é dialeto tem de se chamar português. No futuro poderá evoluir para uma língua diferente e então deixará de ser um dialeto do português.
    Quantos trabalhos intelectuais vão dar força ao português? 10 milhões de intelectuais?
    O inglês foi reduzido a uma língua do dia-a-dia com invasão dos normandos no século XI e o inglês desapareceu? O que é o inglês agora?

    • Jorge Pacheco de Oliveira on 18 Setembro, 2014 at 3:06
    • Responder

    O que está em causa não tem nada a ver com trabalhos intelectuais. O que está em causa é precisamente o português do dia-a-dia, cuja ortografia não tem que ser alterada a bel-prazer de uma colecção de idiotas cobardolas que servilmente baixaram a cerviz aos brasileiros.

    • Jorge Pacheco de Oliveira on 18 Setembro, 2014 at 14:01
    • Responder

    Já agora, só mais duas observações ao comentário do leitor Dinis.

    1 ) Não me parece que o “brasileiro” esteja em constante deriva de si próprio. O que tiveram a estragar na língua portuguesa já estragaram. E, imagine-se, não querem adoptar o AO90 porque os obriga a umas pequenas alterações.

    2) O que se passou com o inglês após a invasão da Inglaterra pelos Normandos, em 1066, por sinal uma campanha bastante violenta e predatória, foi um processo completamente diferente. Não tem absolutamente nada a ver com o legado de uma língua estruturada deixada pelo reino de Portugal que pacificamente ofereceu a independência (e um território de enormes dimensões, já o disse aqui e repito porque há quem se esqueça) ao povo do Brasil.

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