«SE VIRA!» [Fernando Venâncio, “Facebook”, 15.09.14]

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Os brasileiros falam Português? Falam, claro. Mas nem sempre. Às vezes falam também… Brasileiro.

Repare-se numa frase como «Se vira!» Jamais um português a diria. Ela, simplesmente, não pertence à gramática do Português europeu. Primeiro porque, nele, nenhuma frase pode iniciar-se pelo pronome «se» (ou «me» ou «lhe»). Segundo porque ele não permite combinar uma 3a pessoa, «se», com um imperativo da 2a pessoa, «vira».

Mas não é tudo ainda. «Virar» significa, no Brasil, também «arranjar-se», «safar-se» em situação melindrosa. E, assim, «Se vira!» apela a uma sintaxe, a uma morfologia e a uma semântica desconhecidas, todas três, no Português europeu. Em contrapartida, todo e qualquer brasileiro, mesmo que não se exprimisse assim, reconhece, sem hesitação, a gramaticalidade dessa frase.

Do mesmo modo, são gramaticais no Brasil frases do tipo de «Fala não» ( = Não digas) ou «Onde ele mora?» ( = Onde mora ele?). No primeiro caso, a morfologia e a semântica não são nossas. Num caso e no outro, a sintaxe é-nos profundamente alheia.

São três exemplos muito simples. E, porque compactos, são tremendamente eloquentes.

Porque falo eu nisto? Porque estou farto, estou fartinho, estou até aqui, com os portugueses que bradam aos céus pelo ‘descalabro’ que o nosso ínclito idioma leva no Brasil. Acredite-se: o mundo estaria um bocadinho melhor sem tanta parvoíce. Parvoíce até é favor, pois o que aí fala é, muitas vezes, a sua (coitados!) superioridade rácica.

O Brasil encaminha-se, inexoravelmente, para uma língua própria. E os portugueses, se forem sensatos, e bonzinhos da cabeça, amocham e não piam.

Portugal não tem, em tudo isto, o mínimo dos direitos. Enquanto a Espanha, por 1600, tinha já fundado nas Américas várias e florescentes universidades, Portugal nunca criou uma, uma só, no Brasil. O próprio ensino secundário era contrariado. É verdade: o Marquês de Pombal impôs a língua portuguesa, proibindo a “língua geral” que os jesuítas estimulavam. Mas já era tarde. E, assim, sem a mais ténue política linguística, o idioma pôde crescer no Brasil entregue a si mesmo… o que, bem visto, não é, para uma língua, a pior das situações.

A nós cabem-nos, pois, a discrição, a distância, o respeito. E mainada.

Fernando Venâncio
15.09.2014

[Reprodução integral de “post” público, da autoria de Fernando Venâncio, publicado na “rede social” Facebook em 15.09.14.]
[Imagem original de “Larousse“.]
[Via Isabel Coutinho Monteiro.]

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3 comentários

    • Jorge Pacheco de Oliveira on 16 Setembro, 2014 at 11:17
    • Responder

    O argumento das universidades já foi utilizado pelo então presidente Lula da Silva, obviamente de forma crítica em relação a Portugal, por sinal pouco depois de ter chegado de uma estadia no nosso país, onde proferiu inflamados discursos de elogio ao país “irmão” e andou aos beijos e abraços com os camaradas do socialismo.

    Mas enfim, se em 1600 os espanhóis já tinham fundado várias universidades na América do Sul, os resultados práticos terão sido melhores do que no Brasil…?

    Dizer que Portugal não tem o mínimo dos direitos parece-me excessivo. Já aqui disse e repito, porque me parece relevante, que os portugueses deixaram aos brasileiros um país com 8,5 milhões de quilómetros quadrados, actualmente o 5º país mais extenso do planeta, pleno de recursos. Se os brasileiros não “se viraram” o problema é nosso ?

  1. Com que então “O Brasil encaminha-se, inexoravelmente, para uma língua própria. E os portugueses, se forem sensatos, e bonzinhos da cabeça, amocham e não piam.” Amocham e não piam? Pois devo dizer-lhe (= dizer a você) que em Portugal há muitos que nunca amochando perante o aborto do AO90, continuaram e continuam a piar… e cada vez mais alto! Em Português e não nessa língua que vocês, seus “virados”, utilizam.

    • Jorge Teixeira on 23 Setembro, 2014 at 15:26
    • Responder

    Julgo que o autor do texto com o “amocham e não piam” não quereria dizer que os portugueses têm de passar a falar “brasileiro”, apenas que não está ao seu alcance impedir a transformação do português do Brasil numa “língua brasileira”. Por mais infeliz que seja a formulação, não me parece que defenda o AO90, pelo contrário.

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