A ILC-AO no “Governo Sombra” (TVI e TSF)

CVM –Já sabemos porque é que o João Miguel Tavares se diz inquirido, agora vamos tentar perceber porque é que o Pedro Mexia diz sentir-se com Iniciativa. Isso não é contra os seus princípios?
PM– Sim, mas sem Iniciativa não se faz nada. As coisas não nos caem em cima.
CVM –Mas é assim um pouco mais dado à reflexão…
PM –Sou um pouco mais dado à reflexão mas…
RAP –Ultimamente andas com muita acção.
PM –Ando com muita acção.
CVM –Sente-se…
RAP –Não, mas o pessoal anda a trabalhar muito, aqui.
RAP –Tirando o Carlos Marques, que não faz nada.
PM –Não, isto é muito rápido. Só para assinalar que…
CVM –Sente-se em sintonia com a chamada Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o acordo ortográfico.
PM –Exactamente, que conseguiu o número de assinaturas suficiente para obrigar a discutir este assunto…
CVM –20 mil assinaturas…
PM –… que estão no parlamento…
CVM –Foi um dos signatários?
PM –Eu assinei tudo o que me puseram à frente sobre o acordo ortográfico. Tirando uma coisa sobre um referendo que, como ia ter 5% de participação, achei que era má ideia. Portanto, só para dizer, as pessoas estão muito fartas de discutir as consoantes mudas e essas coisas todas, que é o argumento jurídico, que é um argumento importante, acho eu, para se discutir no parlamento que é: “ah, vamos lá fazer uma coisa para estes países que falam a mesma língua mudarem a ortografia; então vamos lá ratificar: um, dois, três”… e não há mais! E portanto há vários países…
CVM –Quatro
PM — Há vários países…
CVM –Quatro que ratificaram e quatro não ratificaram.
PM –… quatro, um dos quais, Angola, que tem uma posição firmemente contra, noutros a questão não é tão…
CVM –Não ratificaram até agora Angola, Moçambique, Guiné Bissau e Timor-Leste.
PM –Pois, quer dizer, o que é que isso interessa, esses países? É um bocado a lógica acordista: “não assinaram, paciência!”
CVM –Pois, o problema aqui é que havia uma primeira ideia de consenso para que o acordo entrasse em vigor
e depois houve uma alteração dizendo que bastava que três ratificassem para o acordo estar em vigor.
PM –Mas não é uma matéria suficientemente significativa para haver consenso, é isso? Será que é essa a ideia? Ou é a ideia de que realmente não havia uma motivação suficientemente grande, que há demasiadas dúvidas de aplicação, que há demasiadas embrulhadas e que portanto se calhar mais vale avançar com os poucos que (neste caso, metade) que assinaram? Acho bom que se discuta e que os partidos… porque eu tenho muita pena… há muitos… não são partidos mas deputados na Assembleia da República que eram contra o acordo ortográfico e nunca se manifestaram por causa de regras partidárias, nomeadamente no CDS e no PSD. Muitos que seguiram a linha partidária, absolutamente acéfala nessa matéria, e na verdade o único partido, já disse isso aqui uma vez, até me manifestei de punho cerrado, o partido comunista tem sido o único partido com…
CVM –Logo no princípio disto, nos anos 90, ainda acho que é nos anos 80 houve uns deputados do PCP que
rasgaram…
PM –O PCP… há algumas coisas em que vale a pena ser conservador, por exemplo, se calhar é melhor conservar a ortografia, não vale a pena estar agora aqui…
CVM –O Ricardo Araújo Pereira também assinou esta…
RAP –Exacto.
CVM –Acredita que isto pode ter alguma consequência prática?
JMT –Discutida no Parlamento… às 11 da manhã…
PM –Trinta pessoas no plenário…
JMT –Quarta-feira…
RAP –Não. Lá está. Acreditar, não acredito. Mas ainda bem que a Iniciativa existe. Porque, de facto, nós já falámos disto aqui várias vezes. E temos andado a insistir com isso. Não é só porque aquilo que o acordo se propõe fazer, que é unificar a ortografia entre os países de língua portuguesa às vezes conseguiu. Não só não cumpriu esse objectivo como às vezes até frustrou o objectivo ao contrário, ou seja, por exemplo, a palavra recepção (não é preciso estar a dar exemplos que a gente já os sabe), mas a palavra recepção no Brasil continua a ser escrita com P, porque eles aliás articulam o P e em Portugal deixou de ter o P, e às vezes também conseguiu cometer a proeza de que dentro dos próprios países a ortografia estivesse desunificada, no sentido em que, por exemplo, a palavra “espectador”, aparentemente, de acordo com as novas regras, eu, que articulo o C, posso escrever com C mas as pessoas que dizem “espétador” podem escrever sem C. Em Portugal reina a balbúrdia da qual a gente tem falado, que é…
CVM –Mas esta Iniciativa não… não vai por aí. Tem a ver com a questão jurídica.
RAP –Exacto. Eu sei que não vai por aí. Mas de facto, parece que é óbvio, e acho que temos que reconhecer, que há um problema qualquer com o acordo ortográfico. Neste momento em Portugal reina uma balbúrdia, em que há jornais a favor, que seguem o acordo, como o Diário de Notícias, jornais que não seguem acordo, como o Público, e jornais como o Correio da Manhã, que seguem o acordo excepto quando é estúpido. Eles têm essa regra: excepto quando é estúpido. Por exemplo, “pára”. A palavra “pára”, no Correio da Manhã continua a ter acento embora, de acordo com o acordo, não tenha.
CVM –Em que medida, e agora vendo a coisa de outra perspectiva, uma vez que o corpo está em vigor nas escolas, por exemplo, as crianças são ensinadas de acordo com as regras do acordo, em que medida é que reverter o acordo ortográfico, João Miguel Tavares, poderia criar uma confusão ainda maior do que aquela que já está instalada?
JMT –Não é iria, provavelmente irá de facto. A minha filha…
CVM –Imagino que seja sensível a esta questão…
JMT –… miúdos que já aprenderam a escrever e a ler… E não é só isso. E é preciso ter noção… A minha filha Carolina tem 14 anos e é bom um exemplo disso; ela está no 9.º Ano e já foi acordo desde o início. Já estamos a falar de alunos que não são propriamente criancinhas. Ela não sabe o que é que é o pré-acordo. Sempre escreveu assim, sempre foi assim que lhe ensinaram na escola.
CVM –Estava à espera de que o Pedro ou o Ricardo dissessem que tiveram mais anos na vigência do não-acordo, para combater essa ideia da confusão que se iria criar.
JMT –Mas estes miúdos não sabem como é escrever de outra maneira. Portanto eles precisariam também de reaprender aquilo. Acho que a melhor solução seria de facto haver não talvez a eliminação total, eu digo a solução mais prática, mas pelo menos corrigir as coisas que são manifestamente absurdas.
PM –Isso propôs a Academia das Ciências e foi recusado.
RAP –Exacto.
JMT –Mas mal.
PM –Claro. Mas isso mostra o espírito que anima os acordistas.
JMT –Exacto. Porque de facto há coisas muito estúpidas naquele acordo.

CVM: Carlos Vaz Marques (apresentador)
PM: Pedro Mexia
RAP: Ricardo Araújo Pereira
JMT: João Miguel Tavares

Programa “Governo Sombra” emitido pelo canal TVI em 1 de Fevereiro de 2019:

E na estação de rádio TSF em 3 de Fevereiro de 2019

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1 comentário

    • Maria José Abranches on 6 Fevereiro, 2019 at 22:47
    • Responder

    Saúdo, com alegria e reconhecimento, o “Governo Sombra”, por ter trazido à ribalta a postura cidadã que representa a Iniciativa legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)!
    E por ter quebrado o tabu que, desde o início – já lá vão quase 29 anos – tem impedido a discussão aberta e democrática desta questão vital para a nossa identidade, enquanto povo soberano, com uma cultura secular suportada e estruturada por uma língua materna e oficial, que aqui surgiu e se consolidou e é falada por todos, em todo o país. O facto de a nossa História ter levado a nossa língua a outros povos e nações, que com ela farão o que entenderem, não nos retira nem o direito nem o dever de defender a sua integridade.
    Quantas eleições já houve, desde 1990, sem que o AO90 fosse discutido? Como tem sido possível este silêncio, amplamente reforçado pela conivência dos ‘media’? Há qualquer coisa de podre na nossa democracia… Como dizia Maquiavel, “povo corrompido que atinge a liberdade tem a maior dificuldade em mantê-la”…
    Queria ainda comentar o último argumento atirado pelos ‘acordistas’ para a praça pública: então e as criancinhas que já aprenderam a escrever com o AO90? Também sou mãe, embora mais velha, e sempre me preocupei com a importância decisiva do conhecimento e do domínio da língua materna para qualquer cidadão. Por isso, não entendo:
    1.º – que os pais e encarregados de educação tenham aceitado a imposição do AO90 aos seus filhos, em 2011, sem exigirem a discussão que se impunha, sobretudo tendo em conta os pareceres altamente críticos e negativos de conceituadas personalidades da área linguística, literária e cultural: António Emiliano, Víctor Aguiar e Silva, Vasco Graça Moura (que nos faz tanta falta!) e tantos outros;
    2.º- que não tenham ainda tomado consciência de que se trata de um roubo que fere o nosso património fundamental, o que privará os mais jovens do pleno usufruto de tudo o que se relaciona com a língua, a cultura mas também oportunidades de trabalho, como o ensino, no país e no estrangeiro, a tradução, a expansão da língua de Portugal no âmbito das novas tecnologias, etc…;
    3.º- que não exijam a suspensão imediata da aplicação do AO90 no ensino, uma vez que é cada vez mais visível que é linguisticamente e politicamente indefensável, e que foi um erro submeter as crianças e os jovens a esta nefasta experiência;
    4.º- que não se tenham preocupado com todos os jovens e com toda a população nacional, escolarizada com o Acordo de 1945, aquando da imposição do AO90 – e isto num país secularmente analfabeto…;
    5.º- que ainda não se tenham apercebido da impossibilidade em que muitos jovens se encontram, quando navegam na ‘net’, de distinguirem o nosso português do brasileiro, agora agravada com o desaparecimento dessa barreira visual constituída pela ortografia, designadamente no que toca às consoantes etimológicas, ditas ‘mudas’;
    6.º – que não se tenham interrogado sobre os custos inevitavelmente acarretados pela reedição e consequente reequipamento das nossas bibliotecas, públicas e privadas, com grandes vantagens para as editoras que aderiram entusiasticamente a esta vandalização da nossa língua, de que deveriam ser intransigentes defensoras.
    A terminar, mais uma vez o meu sincero agradecimento ao “Governo Sombra”!

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