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Ago 06 2017

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Procuram-se: profissões sem AO90

Costumava dizer que tinha a melhor profissão do mundo. Ser tradutora na área científica/médica/farmacêutica implicava lidar com assuntos que me interessam, escolher os projectos em que queria trabalhar, aprender constantemente e utilizar os meus dois idiomas preferidos: o inglês e o português. Do meu ponto de vista, não se podia pedir mais nada. A minha profissão era, portanto, ao mesmo tempo trabalho e entretenimento, os dias passavam fluidamente e eu não tinha preocupações de maior. Foi assim durante uns belos anos.

Depois veio a imposição do AO90. Algumas agências de tradução começaram a aplicá-lo de imediato em tudo, inclusivamente em todas as comunicações escritas. Outras não, mas começaram a ter exigências de clientes para o aplicar em alguns trabalhos, se não mesmo na maioria. Honra lhes seja feita, há bastantes clientes que nunca foram na onda da “maravilhosa nova ortografia”: aqui lhes deixo o meu forte aplauso e a minha profunda gratidão.

Ou seja, de repente e sem qualquer motivo válido, o meu idílio profissional desmoronou-se. Passei a ter de perder um tempo precioso, todos os dias, em “negociações” sobre algo que nunca me pareceu fazer qualquer sentido. Perdi horas (literalmente!) a explicar o meu ponto de vista, a explicar porque não aplico o AO90, porque acho que o AO90 não tem pés nem cabeça, porque acho que ninguém devia aplicá-lo, porque acho que os clientes só teriam vantagem em não o aplicar, porque acho que a qualidade da tradução é indissolúvel da qualidade da ortografia, etc. Explicar isto a gestores de projecto estrangeiros, muitas vezes perplexos até com a existência de uma “nova” ortografia, não é tarefa fácil, garanto-vos — sobretudo se eles até concordam inteiramente comigo, mas o cliente, dada a suposta “obrigatoriedade” da coisa e sem um conhecimento aprofundado da questão, continua a exigir que se aplique… Às vezes os meus argumentos chegavam a bom porto, outras vezes não.

Qualquer pessoa que trabalhe na tradução e lide com o inglês sabe que este é um idioma com duas variantes principais (Reino Unido / Estados Unidos) e uma catrefada de outras (o Word, por exemplo, apresenta 18 variantes à escolha!). Isso não constitui qualquer espécie de problema. Portanto imaginem o que é explicar que alguém acha que é um problema terrível que o português tenha duas variantes e que por causa disso supostamente tenhamos de aplicar uma pseudo-ortografia que nem é carne nem é peixe. Que, cereja em cima do bolo da inutilidade, nem sequer resolve o tal “terrível problema” de haver duas variantes principais…

Toda esta argumentação constante, que continuo a exercer com quaisquer agências ou clientes novos que surjam, acaba por ter o seu preço. Esse preço é, por um lado, a minha paciência, que não é inesgotável, a par de um cansaço e desilusão que se instalaram. Como é/foi possível que algo assim, sem um pingo de lógica ou racionalidade, tenha chegado onde chegou? Continuo sem resposta para esta pergunta. Por outro lado, há o preço da recusa da minha parte, ou da perda pura e simples, de projectos que de outra forma teria tido imenso gosto em fazer e que são atribuídos a quem quer que seja que os faça com o AO90. Hoje em dia recuso cerca de 1/3 — proporção curiosamente recorrente no que se refere ao AO… — dos trabalhos que me chegam.

Aproveito aqui para dizer que não censuro de forma alguma os meus colegas que aplicam o AO90 mesmo não concordando com a “nova” “ortografia” por aí além. É preciso pagar as contas ao fim do mês e, perante exigências (absurdas ou não) do cliente, o que fazer…? Qual é o profissional independente que não se deparou já com dilemas deste tipo? Eu não consigo, pura e simplesmente, escrever com o AO90 — o absurdo da coisa causa-me urticária. Mas isso sou eu e cada qual sabe de si. Não obstante, vale a pena registar que de todos os colegas com quem falei até hoje sobre isto, e foram muitos, só conheço um que concorda realmente com o AO. Os tradutores, regra geral, conhecem o seu idioma a fundo e identificam as fraudes rapidamente.

Voltando à minha narrativa, durante uma fase houve muitos dias em que, em vez de pensar no trabalho com gosto, como era habitual, quase receava os novos e-mails que inevitavelmente haveriam de chegar, suspirando antecipadamente de desânimo perante a perspectiva de perder mais umas horas a falar de um assunto que abomino mas que não tenho como evitar. Suspirando antecipadamente de desânimo perante a perspectiva de recusar trabalhos que, se esta malfadada questão não existisse, teria aceitado de imediato. Nos trabalhos que aceitava, dava por mim a escolher palavras que não pudessem vir a ser adulteradas caso alguém tivesse a infeliz ideia de “acordizar” o texto a jusante. Sentia-me prisioneira num labirinto vindo do nada.

Contudo, porque não tenho feitio para me deixar derrotar pelos acontecimentos, houve então um momento em que comecei a ponderar explorar novos caminhos profissionais, nos quais pudesse concentrar-me no trabalho e não constantemente em questões acessórias, podendo assim voltar a ter gosto no que faço, algo que considero fundamental. A solução mais evidente: procurar caminhos profissionais livres de AO90. Se, por puro cansaço da minha parte, o português poderia vir a deixar de ser uma opção, concentrei-me no inglês.

Aconteceu assim que agora, no tal 1/3 do tempo que tenho livre, dou aulas de inglês. A parte melhor: adoro! Mas, sobretudo, não há como explicar o imenso e extraordinário alívio que é durante essas horas não ter sequer de me lembrar que o AO90 existe. É profundamente libertador, se não mesmo terapêutico, e voltei a gostar imenso de trabalhar, agora nas minhas duas profissões. Já tinha saudades.

Qual o peso que esta minha segunda profissão virá a ter no futuro? Não sei. O que eu gostaria que acontecesse seria que o AO90 desaparecesse e eu pudesse voltar a traduzir descansada, admirando todos os dias a maravilha que é a minha língua materna. Mas creio que manteria também as aulas de inglês, pois foram uma descoberta inesperada e muitíssimo agradável. Vá lá, posso finalmente dizer que o AO90 me trouxe algo de bom 😉

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Esta história é-lhe familiar? É natural. Quase todos criámos mecanismos para melhor lidar com o AO ou minorar os seus efeitos. Enquanto durar o jugo do Acordo Ortográfico é até uma questão de sanidade mental procurarmos, por todos os meios, sofrer o menos possível com as suas regras absurdas, com a sua falta de lógica, com o seu desconchavo estético.

No entanto, esta forma de lidar com o AO não pode nunca ser confundida com habituação, entorpecimento ou aceitação resignada. Também este artigo, um simples relato na primeira pessoa, não pode ser confundido com uma receita para melhor tolerarmos o Acordo.

Desde logo, nem toda a gente pode mudar de profissão. Mas também isso não seria solução. Há profissões, como a minha, em que o Acordo Ortográfico é crucial mas, tratando-se da nossa Língua, o AO insinua-se em todo o lado. Procuram-se profissões sem o AO, sim — todas elas!

Se, como eu, está cansado de ter de lidar com o AO90 todos os dias, ajude a conseguir que todos nós possamos respirar novamente de alívio ao ler e escrever. Subscreva!

 

(imagem de fineartamerica)

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