«Estamos à espera de quê?» [F. M. Valada, “Público”, 14.07.13]

publico(…)

Em 1999, Ernesto d’Andrade e Maria do Céu Viana escreviam: “É hábito estabelecer-se uma diferença entre a forma comum em português ‘rotura’ e a forma erudita ‘ruptura’ (…) Note-se que se entrasse em vigor o “Acordo Ortográfico” de 1990 (…) teríamos mais uma variante (‘rutura’) que nos parece injustificada”. É verdade, ei-la, a rutura (sic), exclusivamente em Portugal.

Antes que alguém enverede pela lengalenga da “dupla grafia” anterior ao AO90, “ruptura” e “rotura” não são “grafias duplas”: são palavras homófonas (em português europeu), com a nominalização de um mesmo verbo (‘romper’) a ser feita através de vocábulos diferentes, havendo aparente consenso quanto às respectivas acepções – “rotura” incide sobre um objecto físico (“rotura de ligamentos ou “carga de rotura”), enquanto “ruptura” diz respeito à interrupção da continuidade de uma situação (como na citação de Frei Bento Domingues, em epígrafe).

Quanto a grafias múltiplas, considere-se a “electroóptica”. Segundo o VdM, antes do AO90, havia duas grafias: “electroóptica” (comum a Portugal e Brasil) e “eletroóptica” (apenas no Brasil). Com o AO90, além de Portugal e Brasil deixarem de ter grafia comum, passa a haver três grafias: em Portugal, “eletro-tica”; no Brasil, “eletroóptica” e “electro-óptica”. É evidente que acentos agudos e circunflexos complicariam tudo. Se quiserem um espectáculo digno de registo, consultem o VdM e dêem uma espreitadela a espectrofotómetro” e “espectrómetro”.

No passado dia 31 de Janeiro, na AR, durante audiência concedida à Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, o deputado Luís Fazenda garantiu que “ficarmos com três grafias (…) é absolutamente insustentável, não faz sentido nenhum, é de uma ilogicidade total”. Pergunto ao senhor deputado Luís Fazenda e a todos os responsáveis políticos portugueses: estamos todos exactamente à espera de quê, para se acabar, duma vez por todas, com esta coisa insustentável?

Francisco Miguel Valada

[Transcrição parcial de texto, da autoria de Francisco Miguel Valada. “PÚBLICO” de 14.07.13. Destaques e “links” adicionados por nós.]

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1 comentário

    • Maria José Abranches on 17 Julho, 2013 at 15:56
    • Responder

    Estamos à espera de políticos autênticos, que nos respeitem e entendam que ninguém os elegeu para “venderem” ou simplesmente “entregarem” a nossa língua a interesses políticos, económicos e financeiros que repudiamos. Haverá? Ou teremos de boicotar todas e quaisquer eleições, a começar pelas próximas autárquicas?!

    Ou será que, mais uma vez, esperamos o regresso de D. Sebastião, dessa “gloriosa” e desastrada aventura que nos conduziu a 60 anos de domínio espanhol? Só que a língua, uma vez perdida, não se recupera!

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