«O futuro faz-se hoje» [Gabriela Canavilhas, 31.01.13]

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Declaração de Princípios

1. A Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008, de 29 de Julho de 2008, tem por objectivo, como a própria designação indica, revogar o instrumento jurídico que, aprovando o II Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico de 1990, forçou – de facto mas não de Direito – a entrada em vigor desse “acordo ortográfico” (entre aspas) nos organismos, entidades e estruturas do Estado português.

2. Tendo sido constituído, no âmbito da Comissão parlamentar de Educação, Ciência e Cultura, um Grupo de Trabalho cuja temática incide sobre o “acordo ortográfico” (de novo, entre aspas), não poderia evidentemente a Comissão Representativa desta ILC deixar de apresentar-se perante o dito grupo, a fim de prestar os esclarecimentos e fornecer a documentação que os senhores deputados entendam por conveniente.

3. Vimos, por conseguinte, de boa-fé e com o máximo respeito pela instituição que nos recebe, ou seja, em plena sede da democracia e na casa que acolhe os representantes do sentir e da vontade dos cidadãos, para não apenas darmos conta das finalidades e do andamento da nossa iniciativa como também para reiterarmos o que já anteriormente aqui viemos dizer, em audiência concedida pela mesma Comissão de Educação, Ciência e Cultura no passado dia 12 de Julho de 2012, e que, em suma, se consubstancia no seguinte: a entrada em vigor do AO90 não é de todo um facto consumado. A nossa presença aqui, aliás, é uma prova evidente de que essa entrada em vigor não se consumou efectivamente, e portanto não é um facto, porque se o fosse nem nós estaríamos aqui nem o Parlamento teria tido necessidade de formar um Grupo de Trabalho para acompanhar o que afinal não acontece.

4. O que vimos agora aqui dizer, por conseguinte, é que se a votação da RAR 35/2008 pelos senhores deputados tivesse sido realmente representativa do sentir e da vontade dos cidadãos em geral, então neste momento não estariam, aqui e agora, perante os senhores deputados, alguns representantes dos cidadãos cuja vontade e cujo sentir não foram respeitados naquela votação de 2008. A entrada em vigor do AO90 não é um facto porque o facto é que existe uma oposição generalizada, tenaz, consequente e consciente a essa entrada em vigor do AO90 nos organismos e instituições do Estado.

5. O que vimos agora aqui dizer é que o assunto deste Grupo de Trabalho parlamentar não é de facto a “aplicação do acordo ortográfico”, pela simples razão de que se o AO90 fosse um verdadeiro acordo então a generalidade dos cidadãos teria nele participado, o que não foi de todo o caso, ou ao menos aplicá-lo-ia pacífica e obedientemente, o que é ainda menos o caso.

6. O que vimos agora aqui dizer é que observações de uma arrogância e ignorância intoleráveis como, por exemplo, a que consta na inacreditável “nota explicativa” do dito AO90, e citemos «a norma lusitana, que teimosamente conserva consoantes que não se articulam», não são aceitáveis; enfim, o que vimos aqui dizer quanto a isto é que coisas destas não merecem sequer considerações.

7. O que vimos agora aqui dizer, por fim, é que existem ferramentas e mecanismos para anular o erro colossal que foi a aprovação pelo Parlamento português da RAR 35/2008. Estamos no exacto local onde esse erro foi cometido, logo, é também este o único lugar para voltar atrás: basta para isso, simplesmente, que seja respeitada a vontade dos cidadãos de seguir em frente.

Porque é neste aparente paradoxo, voltar atrás num erro para seguir em frente com o que é correcto, que reside em essência tudo aquilo que pretendemos. É esta, estamos certos, a vontade da maioria dos portugueses.

A ILC foi recebida em audiência pelo Grupo de Trabalho sobre o AO90 (Comissão de Educação, Ciência e Cultura) em 31 de Janeiro de 2013.

Daqui endereçamos às senhoras deputadas e aos senhores deputados que nos receberam as nossas mais calorosas saudações de reconhecimento pela simpatia e cordialidade.

[A frase que serve de título a este “post” foi proferida, já depois da audiência, pela Sr.ª Deputada Gabriela Canavilhas, que nos autorizou a citação.]

[Aguardamos publicação da acta e da gravação desta sessão, no “site” da Assembleia da República, para que aqui as possamos reproduzir.]

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24 comentários

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  1. O futuro faz-se hoje? Esta frase perigosamente ambígua proferida por uma deputada do PS que com o governo de José Sócrates nos obrigou a engolir à força a RCM n.º 8/2011, receio bem que signifique: o futuro da ortografia da língua portuguesa falada e escrita em Portugal faz-se hoje com o AO90.
    Oxalá me engane…

  2. «O futuro faz-se hoje» é o vazio a falar. É como falar do tempo. O povo que não é soberbo e sabe exprimir-se muito mais chãmente diz melhor: futuro a Deus pertence. O presente é que não passa deste vazio de asneiras pseudo-profundas.
    Cumpts.

  3. A ILC já entrou?

    1. Caro “Zé de Portugal”, isto foi “só” uma audiência em que a ILC foi recebida e ouvida pelo GT parlamentar sobre o AO90. Parte do trabalho de bastidores (mais de 3/4 do total, na verdade) que vamos fazendo, discreta mas perseverantemente, em prol da iniciativa e da Causa em geral.

  4. Aguardamos a acta, porque atas é certo e sabido que são coisas de metecaptos.
    Cumpts.

  5. Bic Laranja: muito bem!

  6. Não ignoro as posições que Gabriela Canavilhas tem assumido até aqui no âmbito do Acordo Ortográfico e compreendo perfeitamente as reservas expressas nos comentários anteriores. No entanto, devo dizer que me pareceu genuíno o clima receptivo do GT em geral e genuína a sua total abertura para estudar qualquer solução que resgate a língua portuguesa do labirinto em que se encontra. É neste contexto que surge a frase.

    Por este motivo, e precisamente por serem proferidas por uma deputada que até aqui defendeu o Acordo, parecem-me adequadas as palavras de Gabriela Canavilhas para título deste post.

  7. Mentecaptos, digo. Metecaptos é coisa de apressados.
    Cumpts.

  8. Oxalá depois da publicação da ‘ata’ não tenhamos de concluir que aquilo não ata nem desata.

  9. Finalmente. Agora falta uma manifestação nacional contra o AO.

  10. “Parte do trabalho de bastidores (mais de 3/4 do total, na verdade) que vamos fazendo, discreta mas perseverantemente, em prol da iniciativa e da Causa em geral.” Gosto, continuem!

    Muitas pessoas não sabem, mas até nos termos científicos este “ao” (com letra minúscula e aspas) é… sei lá, como estudante de saúde, nem palavras tenho. Com ele, temos o nervo ótico (de visão) e o gânglio ótico (que sempre assim o foi pois refere-se à audição). Ninguém sabe se sináptico fica com ou sem p, mas sinapse sim. O mesmo para o epilético que tem epilepsia. Para não falar na quantidade de receptores que em tudo o que é livro em Pt-Br sempre levou p, mas que parece que para Portugal querem criar uma palavra nova. O mesmo para percepção, propriocepção, exterocepção… e mais uma miríade delas. Enfim, a “uniformização”, que nem existe nem sequer é necessária. Aqui sempre continuarão a haver iões, catiões e cromossomas e não íons, cátions e cromossomos (realmente, cromo-somos até caracterizaria esses malacas). Nada contra o Brasil, até porque tanto quanto sei foram até mais uns palhacitos de cá com negócios debaixo da cartola que propuseram tal… coisa.

    Já assinei e enviei para aí há um ano ou mais. Não sou só de palavras.

    Cumprimentos

  11. « No entanto, devo dizer que me pareceu genuíno o clima receptivo do GT em geral e genuína a sua total abertura para estudar qualquer solução que resgate a língua portuguesa do labirinto em que se encontra. É neste contexto que surge a frase.»
    Fico suspenso nesta esperança, independentemente do vazio que acho às palavras do título.
    Cumpts.

    • Manuela on 3 Fevereiro, 2013 at 16:07
    • Responder

    Já não era sem tempo os deputados fazerem alguma coisa. Não foram eles que votaram nessa estupidez ?
    Espero que “O futuro faz-se hoje” não seja uma frase para ganhar simpatizantes e votos.

    • Hugo X. Paiva on 3 Fevereiro, 2013 at 20:57
    • Responder

    O regresso ao passado faz-se hoje. Não há futuro a fazer, há sim uma obra a preservar,e essa obra vem detrás.O futuro é manter o que está bem e eliminar o que está mal.
    A Senhora Canavilhas deve saber que apesar de em Portugal não haver milagre que dure três dias, existem pessoas que não têm memória curta, e se este “grupo de trabalho” está a ser constituido com o objectivo de empatar o caso até passarem as eleições que vão acontecer este ano, pode muito bem acontecer que as coisas não lhe saiam assim tão bem.

    Faço aqui um renovado apelo em prol da nossa ILC. Mais do que nunca é a hora de renovar esforços para levar por concluido o fim a que nos propomos. Isto que está a acontecer nete momento na AR, não muda em nada, o objectivo da nossa lucta. Antes pelo contrário torna-o ainda mais urgente.

  12. Só uma pergunta, para a ILC ser ILC, são necessárias as tais milhares de assinaturas. Tenho andado distraído: já foram recolhidas assinaturas q.b.? Se sim, parabéns a todos!

    1. @Luis Sequeira: Ainda não, mas continuamos a trabalhar para isso. Obrigada pela força!

    • Hugo X. Paiva on 8 Fevereiro, 2013 at 21:20
    • Responder

    Luís;35 000 é o minimo necessário. No entanto quanto maior for o numero maior será a força representativa.

    • Hugo X. Paiva on 8 Fevereiro, 2013 at 21:23
    • Responder

    número;mímimo

    • Carlos Do Amaral-Gourgel on 8 Fevereiro, 2013 at 22:21
    • Responder

    Lamento que quem defende (e eu apoio) a língua portuguesa utilize termos como “post” em lugar de comentário, publicação olu outro do vernáculo, sem necessidade de embarcar na usança promíscua de termos estrangeiros dispensáveis no contexto, e, especialmente, ingleses.

    1. Pois, mas – presumindo que se refere ao autor deste “post” em concreto – eu cá uso post, link, software, hardware, mousse, chicuelina, stop, plug, chip, reset, schnapps, cognac, champagne, watt, soufflé , etc. etc. etc., de preferência entre aspas ou em itálico. Nunca experimentei escrever, por exemplo, «et cœtera» (abreviando, “etc.”, como sabe) em Português. Nem o farei jamais, é claro. São idiossincrasias de cada qual.

    • Nuno Leonidas on 9 Fevereiro, 2013 at 15:14
    • Responder

    Já assinei. Precisam mais assinaturas?

    1. Claro que sim…

    • Nuno Leonidas on 9 Fevereiro, 2013 at 19:11
    • Responder

    Qual a data limite?

    1. Não há prazo.

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