«Manifesto contra o AO90» [Pedro Figueira, Brasil]

Desde quando os debates sobre o acordo ortográfico vieram a público no Brasil, senti-me constrangido com tal mudança. Durante todo o período escolar, esforcei-me para decorar todas as regras de nosso idioma, para agora, sem nenhum motivo, elas serem alteradas. Alterações cuja obrigatoriedade após 2012 deixa-me ainda mais constrangido. Vejo em Portugal, Angola, Moçambique e outras nações que compartilham esta loucura movimentos contrários ao Acordo Ortográfico. Mas tal movimento não existe no Brasil.

Última flor do Lácio, inculta e bela… Espere… Inculta? Camões, Machado de Assis, Eça de Queirós e tantos outros discordariam de Olavo Bilac… Que seja! Que seja inculta, criticada, menosprezada, mas não violada! Como pode um país que supostamente apóia a democracia querer impor sua vontade a outros tantos somente por ter maior número de habitantes? E impor tal vontade maculando o maior patrimônio cultural que eles têm?

Vejo meu idioma ser maculado por conta de meros interesses comerciais. Para que afinal serve essa suposta unificação que nada unifica? Não sou português. Nasci no Brasil e falo o idioma brasileiro. Meu idioma é tão diferente do português quanto do romeno. Não é apenas um sotaque ou um dialeto. Falo outro idioma, com outra estrutura e outras palavras, ainda que tenha nascido diretamente do português. Não falo como um angolano, não moro em Moçambique, não conheço ninguém em Goa tampouco visitei o Timor Leste. Entretanto sei que em cada um desses lugares outras línguas surgiram a partir do português, tanto como este surgiu do latim.

Não creiam, caros amigos de Portugal, que o povo de meu país se importará com o que acontece a um de nossos maiores valores, que é nosso idioma. E há motivos para tanto. Sabiam que 14 milhões dos que aqui vivem são analfabetos? Sim, temos mais analfabetos do que vocês têm habitantes. E três milhões de crianças fora da escola. A elite tratou de emburrecer a população, de privá-la de cultura e de acesso à informação, de controlar as massas através de políticas públicas cujo único objetivo fora criar o que por aqui chamados de currais eleitorais. Por total desconhecimento do valor de sua língua, a população daqui não se manifestará contrária a violentá-la.

Como filósofo, tenho ciência de que o maior instrumento que possuo é este idioma. E tenho ciência também de que ele é o mais perfeito para se fazer Filosofia. Sua estrutura gramatical singular permite transpor os obstáculos encontrados entre a mente e o papel, dando ao escritor a habilidade única de com as mesmas palavras expressar de forma direta e precisa seus conceitos, mantendo ainda a obscuridade da ambigüidade poética que somente é desvelada pela perspicácia de cada leitor.

Por aqui, sigo com minha postura em recusar usar a nova ortografia e por isso, as pessoas me vêem sem circunflexos em seus hiatos, zombando de minha ingenuidade. Ninguém pára para refletir sobre meu lado, pois não têm agudos em suas homógrafas. E se a língua pôde perder esses acentos, por que não pode perder os demais? Não! Minhas idéias continuam com acento e estou disposto a pagar cada trema das conseqüências de minha escolha.

Companheiros de Portugal, rogo-lhes que não ajam como os deste lado do Atlântico. Dêem valor ao idioma português. Lutem por sua preservação. Abracem a língua portuguesa, a mãe de meu idioma, que é o brasileiro. Não deixem que a maltratem tal como feriram a minha. Não permitam que as insanas mudanças que forçaram a população daqui a seguir sejam impostas a vocês também.

Pedro Figueira, (Brasil)

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9 comentários

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  1. Eu até concordaria consigo, mas temos um grave problema de comunicação. Eu não consigo entender “Brasileiro” tal como não entendo Latim. Sendo assim, como poderia eu concordar com o que “li”, mas que não posso de modo algum interpretar?

    Cumprimentos, se é que entende o que escrevo…

  2. Peço que o meu comentário anterior seja eliminado porque contém um erro de construção frásica. O comentário a ser sujeito a aprovação será enviado já de seguida.

  3. Sou completamente contra o acordo ortográfico, mas ainda mais e também completamente contra sectarismos bacocos dentro da língua portuguesa. Sou antes a favor de uma aproximação entre as duas variantes através de meios planeados, estudados, como a formação de uma Academia Geral da Língua Portuguesa, por exemplo. A língua “brasileira” não existe. É mais um termo forçado de deturpação patriótica. Existe sim o Português (Brasil) com os seus encantos e conteúdos dignos de orgulho. O sectarismo deste texto faz com que eu não apoie de todo o seu conteúdo.

  4. Alguém com bom senso…
    não há razão nenhuma para complicar o que já não era facil, mudar só para melhor e quando esse melhor consiga abranger todos.

    • João Alfredo on 19 Fevereiro, 2012 at 12:08
    • Responder

    Pedro Figueira e Bessa são dois exemplos clássicos de lusófonos. Ambos fingem que não se entendem. É totalmente compreensível que não concordem com a nova ortografia, pois, eu não concordo também. Afinal se o Sr. Pedro não entende Português como conseguiu entender este sítio e sua proposta? Alguém poderia apresentar uma “tradução’ para Português daquilo que ele escreveu”?
    Há analfabetos no Brasil? Portugal é o país europeu com o maior número de analfabetos, quase 1 milhão. Mas o que isso tem a ver com o assunto que aqui se trata?
    Penso que a causa ILC é algo muito sério e não merece ser tratada assim.
    Cumprimentos aos seus idealizadores bem como a seus apoiadores.
    SUCESSO A VOSSA ILC!
    http://www.tsf.pt/paginainicial/interior.aspx?content_id=873224

  5. @Bessa: Só não entende este texto quem não quer…

  6. Caro, João Alfredo, não se trata de não compreender o outro idioma. Essa é apenas uma manifestação irônica de que as diferenças culturais também se estendem ao uso gramatical das palavras.

    Ao diferenciar “idioma brasileiro” de “idioma português” não me referi a duas línguas diferentes de forma literal, mas conotativa. Ainda que tentem unificar a forma de grafia, as culturas são diferentes não só entre nossos países, mas também entre os países africanos e asiáticos. Em cada lugar o português sofreu variações na forma falada e escrita, adaptando-se à cultura local.

    O fato de não ter entendido imediatamente a ironia do texto já demonstra que a forma como o lê é diferente da brasileira. Se não lê da mesma forma, por que deve ser obrigado a escrever de maneira idêntica?

    Abraços.

    • Bessa on 19 Fevereiro, 2012 at 16:00
    • Responder

    “A ironia é um instrumento de literatura ou de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa…”

    Espanta-me o facto de ainda haver muita gente analfabeta. Não porque não saibam escrever ou ler, mas porque não sabem interpretar. São analfabetos funcionais, e esse é o problema de Portugal, bem como o verdadeiro motivo pelo qual ainda não se acabou com o AO.

    Senhores HC e João Alfredo, o meu primeiro comentário é uma irónica visão que visava mostrar que fazer uma comparação entre a diferença Português/Latim e Português/Português do Brasil é impossivel. Latim e Português não são mutuamente inteligíveis, mas os últimos dois são.

    • carine on 19 Fevereiro, 2012 at 20:25
    • Responder

    Também penso ser uma burrice dos dois governos…
    A ioronia do destino…o Brasil é colonizado pelos portugueses e actualmente sao os Brasileiros que “colonizam” Portugal 😀

    Por mim faz mais sentido os brasileiros falarem como nós em portugal pois tudo começou assim…do que o inverso
    Mas o importante é…já que os dois povos estao contra porque não combinar manifestações entre os dois países?

    Talvez tenhamos sorte e façamos o Governo ouvir, já que este só faz o que bem entende…

    Obrigada pela atençao

    carine (portugal)

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