▶ Adriano Moreira: «eu próprio fui vítima disso, tinha que obedecer»

adriano_moreira_SNPC«A Língua transita. Sem precisar dessas ajudas. E é portanto isso que me leva a ter esta atitude em relação à Língua. Eu acho que ela muda, absolutamente, de acordo com a cultura local, em qualquer país onde ela se venha a implantar, recebe valores que os outros recebem, é inevitável isso, e portanto é melhor não pensar que há a capacidade de impor à Língua a evolução. E por isso é que eu achei que foi inoportuna a intervenção; simplesmente, eu próprio fui vítima disso. Porque eu era nessa altura Presidente da Academia das Ciências, que é responsável pela língua, tive um trabalho enorme para recolher o dinheiro necessário para fazer o novo dicionário etc., e afinal o Brasil adiou a entrada em vigor. Mas eu, como era Presidente da Academia, achei que tinha que obedecer à lei.»

Adriano Moreira

 
 

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“Páginas de Português” de 03 Maio 2015

RDP: Afirmação do Presidente da Academia de Ciências de Lisboa: «a Língua Portuguesa não é nossa; também é nossa.»

Adriano Moreira:  Bom, isso foi a propósito do acordo ortográfico. Para começar, é preciso lembrar que foi o Governo português, ainda na [1.ª] República, que fez a primeira intervenção legal para alterar a ortografia. E quando eu digo “a Língua não é nossa, também é nossa” é porque a Língua Portuguesa foi utilizada como instrumento de expansão, assimilação, educação, pregação etc., em todas as latitudes. Mas acontece que, em cada lugar, a Língua, em primeiro lugar, adquire valores que são diferentes; por exemplo, mesmo a Língua Portuguesa que se fala no Brasil tem valores ameríndios, tem valores africanos, italianos, japoneses, alemães; nós não temos. E portanto passa a ser diferente. Isso acontece também em África e isso acontece também no Oriente; Timor até tem valores do invasor, porque gerações ficaram submetidas a isso, a esse poder. E também há outras regras, que essas são para  especialistas, não são para mim, mas, em todo o caso, posso dar exemplos dos que eu percebi e que é o seguinte: quando há um fenómeno de colonização, o colonizador abre as vogais – para ser melhor entendido; e se o destinatário, que é o nativo ou é o escravo, deturpa a palavra, ele acaba por adoptar a deturpação porque com isso é entendido. Depois, quando as sociedades se tornam industrializadas, deixam cair as vogais – falam mais depressa, as ordens são mais rápidas. Num país ocupado, sussurra, não fala; e também altera a Língua. E portanto,  como cada uma das comunidades passa por circunstâncias diferentes, contactos diferentes, assimilação de valores diferentes, eu, para exprimir essa circunstância, ocorreu-me essa expressão: a Língua não é nossa, também é nossa. Porque ela muda depois nos vários lugares. E, designadamente, é muito interessante ver isso sobretudo nas comunidades portuguesas no estrangeiro, que têm que assimilar valores do país onde se instalam, mesmo quando adquirem a Língua do país mantêm a lembrança e as palavras e dão-lhes sentidos diferentes e entoações diferentes etc., é mais uma circunstância que leva a que nós possamos dizer que são comunidades portuguesas, têm um “papiar” [“patoá“?] cristão, mas é diferente daquele que nós falamos aqui. É isto que eu quero dizer, simplesmente, com essa expressão “a Língua não é nossa, também é nossa” e por isso mesmo acho que é preciso ter muita cautela com intervenções legislativas.

RDP: Como por exemplo?

AM: Como se fez agora. Porque a iniciativa foi do Brasil, desta vez. O Brasil já adiou a entrada em vigor, Angola recusou-se a assinar, outras antigas colónias também se recusaram a assinar. Primeiro, porque a nossa Língua é ali um enxerto na cultura local, implantação, e portanto eles são muito conscientes da maneira como a Língua foi assimilada e é oficialmente a Língua do país. Isso é a primeira coisa. A segunda coisa é que, do ponto de vista financeiro, essas mudanças, sobretudo para economias fracas, têm consequências muito sérias.  Suponha… os livros escolares, em que os editores, como sabe, guardam os instrumentos de impressão que depois reutilizam; se mudar a grafia, eles têm de fazer a revisão completa.

RDP: Mas hoje há ferramentas que ajudam nisso…

AM: Pois ajudam. Mas a palavra “ajuda” não é gratuita. Suponha uma enciclopédia, livros científicos: tudo isso tem encargos, sobretudo em momentos de crise, que os editores têm motivos para ter cautela porque a relação com a clientela provavelmente diminui e os encargos com a impressão aumentaram.  Há várias razões, portanto, para isso.

RDP: Mas também tiveram um período de transição, para se prepararem…

AM: Sim, mas ela transita. A Língua transita. Sem precisar dessas ajudas. E é portanto isso que me leva a ter esta atitude em relação à Língua. Eu acho que ela muda, absolutamente, de acordo com a cultura local, em qualquer país onde ela se venha a implantar, recebe valores que os outros recebem, é inevitável isso, e portanto é melhor não pensar que há a capacidade de impor à Língua a evolução. E por isso é que eu achei que foi inoportuna a intervenção; simplesmente, eu próprio fui vítima disso.  Porque eu era nessa altura Presidente da Academia das Ciências, que é responsável pela língua, tive um trabalho enorme para recolher o dinheiro necessário para fazer o novo dicionário etc.,  e afinal o Brasil adiou a entrada em vigor. Mas eu, como era Presidente da Academia, achei que tinha que obedecer à lei.  É claro que não me acontecia nada de mal se não obedecesse. Mas não se trata disso. Trata-se de, se se está à frente da instituição responsável, é melhor salvaguardar a intervenção da instituição. E é isto. Com simplicidade, é  só isto.

RDP: Em Portugal, o acordo entra em vigor já no próximo mês…

AM: Pois entra. Porque é o que está em vigor, é a lei portuguesa e temos que a cumprir(nota). É claro que não foi tão trágico, parece, quando suprimimos o “PH”, o “S” antes do “C” etc., a mudança da… como é que se escreve… “Sintra” [de “Cintra”] e assim por diante, isso tudo não foi alterado e nós hoje não sofremos nada por causa disso. Mas foi com naturalidade, apesar de tudo. Também foi intervenção legal. Mas foi com naturalidade. Agora eu já nem penso nisso. Foi natural. Não sei. Acho que é um instrumento, a Língua, que é tão fundamental que tem para Portugal esta exigência. Tudo isto que nós podemos dizer e creio devemos dizer a respeito da Língua e, no fundo, parece que o que eu disse (a frase é mais importante do que os acontecimentos), a língua não é nossa, também é nossa, é apenas para dizer estas coisas que já tentei explicar mas há uma coisa importante: é que o eixo fundamental não muda e isso para Portugal é fundamental porque o Instituto Internacional da Língua Portuguesa baseia-se em que há um eixo da roda, que é a essência da Língua, que nunca muda, e que é a trave-mestra ou o eixo, se quiser, da roda desta união que é o Instituto Internacional da Língua Portuguesa.

RDP: Professor Adriano Moreira, participante na “Conferência Português Língua Global, organizada pela Comissão Temática de Promoção e Difusão da Língua Portuguesa, dos observadores consultivos da CPLP. Língua também nossa, Língua de todos. O Português enfrenta o desafio de se afirmar como Língua global. Professor Adriano Moreira.

AM: O Instituto Internacional da Língua Portuguesa nasceu num debate (a ideia) no Recife, num artigo do Instituto Gilberto Freire, com este fundamento: as entidades  responsáveis pela Língua são a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia de Letras do Rio de Janeiro.  E foi explicado que os países que se tinham tornado independentes ainda não estavam em condições de ter academias.

RDP: Como ainda hoje não estão…

AM: Exactamente. Talvez já tenham. Mas era necessário haver um organismo onde se sentissem em pé de igualdade, porque as academias têm uma definição aristocrática. Isso foi aceite mas quem fez foi o Brasil. Foi o Presidente da República do Brasil que efectivou isso. De maneira que pode ser que isto sejam problemas importantes, por isso se calhar é que me está a fazer perguntas, mas há uma coisa que nós devemos não omitir: é que há uma falta de atenção a esses interesses que são fundamentais, em Portugal, que é preocupante. Porque não é sem esforço, presença, imaginação, intervenção… que se consegue ter uma função liderante em instituições desta natureza.

RDP: Como é que justifica isso?

AM: Não se justifica porque não tem justificação nenhuma. Pura e simplesmente, falta de atenção em relação à definição do conceito estratégico que não temos. Nacional. O que… pode ter um exemplo que também não é animador, é que a União Europeia também não tem… conceito estratégico; mas às vezes dá a impressão de que estes descuidos, esta falta de atenção,  que depois tem, por exemplo, expressão na debilitação dos meios ao dispor do Instituto Luís de Camões, dos adidos culturais de Portugal no estrangeiro, tudo corresponde à fraqueza financeira do Estado, é evidente; mas também tem muito descuido misturado nisto. E isso é mau para a projecção de Portugal no mundo, na manutenção de igual dignidade na comunidade das nações, tudo isso exige muita atenção. O esforço das universidades tem sido muito grande, é verdade, mas a verdade também é que os recursos são cada vez mais débeis. E portanto isto exige compensações da debilidade; e a compensação da debilidade está no reforço da atenção que se devia fazer. É isto que eu lhe posso dizer. Não é muito animador, não é muito enriquecedor mas é o que eu posso dizer sobre isso, pronto.

RDP: Mas também não há só uma falta de atenção por parte de Portugal. Também dos outros países, por exemplo, do Brasil, também tem havido uma falta de atenção. Principalmente nos últimos anos.

AM: Não tem. O Brasil, em primeiro lugar, embora a ideia seja de origem portuguesa, foi ele que fez a CPLP, foi ele que fez o Instituto Internacional da Língua Portuguesa. Aquilo que está a acontecer com o Brasil, mas isso é para outra conversa que não para esta, é que eu suponho que é necessário não deixar enfraquecer as relações com o Brasil. Isso é absolutamente fundamental. O Brasil é um grande país; há uma carta do abade Correia da Serra dirigida ao seu amigo Jefferson, na independência dos Estados Unidos, eles eram muito amigos (ainda hoje, na casa que era do Jefferson, há uma placa num quarto que diz que é o “quarto do abade Correia da Serra”), foi o fundador, um dos fundadores da Academia das Ciências de Lisboa, e nessa carta ele já dizia o seguinte: “vocês vão ser os líderes da América do Norte; o Brasil vai ser do Sul”. Ainda era o tempo do Reino Unido. Tem levado tempo, mas não há dúvida de que o Brasil tem um projecto nacional, estratégico, teve uma escola de ensino militar cujo tema era “Brasil”, de que foi director um grande general, que era o Castelo Branco, que foi depois presidente da ditadura, tem uma instituição que se ocupa do conceito estratégico do Brasil, com sede em Brasília. O Brasil tem um desígnio nacional. Assumido. Como nós também já tivemos, mas neste momento suponho que não temos. Temos o Conceito Estratégico de Defesa e Segurança, esquecendo que, para ter Conceito Estratégico de Segurança e Defesa, é preciso definir o que é  o objecto da segurança e da defesa; isso é que é o conceito estratégico e isso não tem sido enunciado. A situação neste momento, do país, é muito débil, é muito subordinada à orientação europeia e portanto a exigência, que é permanente, neste momento tem uma maior dificuldade mas não há razão nenhuma para não estar presente no espírito dos responsáveis.

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Gravação extraída de: Páginas de Português de 03 Mai 2015 – RTP Play – RTP
Fotografia de SNPC



Nota (pessoal):  com o devido respeito, devo dizer que o Sr. Prof. Doutor Adriano Moreira manifesta apenas a sua opinião quando diz, sobre o “acordo ortográfico”, que «é o que está em vigor, é a lei portuguesa e temos que a cumprir».  Não é essa, de todo, a minha opinião. E estou convicto de que são também desta opinião, contrária à do Sr. Professor, muitos – se não mesmo a esmagadora maioria – dos nossos compatriotas: não apenas é altamente discutível que o “acordo ortográfico” esteja legalmente em vigor como, ainda por cima e ainda que assim seja, não é por uma lei iníqua, injusta, nefasta e inútil estar em vigor que deixa de ser iníqua e injusta, não é por isso que passa a ser menos nefasta ou inútil. Não temos, por conseguinte, que a cumprir; o único dever que devemos observar em relação a esta “lei” injusta é combatê-la, lutar pela sua revogação. Além, é claro, de não a cumprir. De todo.
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1 comentário

    • Maria José Abranches on 12 Maio, 2015 at 0:15
    • Responder

    Faço minhas as palavras de JPG na “Nota (pessoal)” aqui publicada.
    Seria bom que as figuras que se exprimem na praça pública se informassem cabalmente antes de o fazer. De que ‘lei’ andam todos a falar? Só conheço a RAR n.º 35/2008, que não é ‘lei’ nenhuma. E porque insistem alguns em referir a data do depósito do instrumento de ratificação do Segundo Protocolo Modificativo, 13 de Maio de 2009, quando essa data só foi tornada pública em 17 de Setembro de 2010, no ‘Diário da República’, num processo de transparência altamente duvidosa, como aliás toda a ‘negociata’ em torno deste vergonhoso e estúpido AO90?
    E acrescento que nunca entendi este tipo de obediência, que no fundo é muito confortável, para quem obedece e para quem manda! A única coisa a fazer, perante uma ‘lei’ injusta é contestá-la, denunciá-la e … desobedecer-lhe! Desculpem o exemplo que me ocorre: em Junho de 1940, enquanto Pétain pedia e assinava o armistício com a Alemanha, De Gaulle, de Londres, apelava insistente e convictamente à resistência! E não foi assim há tanto tempo que muitos portugueses optaram, com os graves riscos inerentes, pela resistência à ditadura e à guerra colonial! Mas parece que já se esqueceram desse passado afinal tão recente!

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